19/03/2019

FOME DE QUÊ?


Em priscas eras, namorei uma menina, glutona incorrigível, da alta sociedade. Isso faz um tempinho, claro. Algumas coisas só me aconteciam quando eu ainda não havia crescido e amadurecido. Era uma dessas patricinhas que se vestem de cor-de-rosa, do celular aos sapatos, e que já tem carro, guarda-costas e cartão de crédito antes mesmo de completar dezoito anos. Foi graças a ela 
– e à sua insaciável obsessão gastronômica  que aprendi as diferenças entre tainha e salmão, sidra e champanhe, berbigão e ostra, bolacha recheada e alfajor, lámen e rigatone, prato feito e à francesa. Frequentei restaurantes caríssimos, bistrôs chiquérrimos e outras tantas biroscas de gente rica, mesmo não tendo dinheiro nem para a gorjeta e nem para o sal de fruta.

Até hoje não sei o que aquela rapariga viu em mim. Não tínhamos assuntos em comum, não gostávamos dos mesmos filmes nem das mesmas músicas, seus pais não aprovavam o meu cabelo comprido e, a bem da verdade, ela era meio mal diagramada pela natureza e não sabia beijar direito. Seus lábios eram finos, secos, rígidos demais. Era como tentar abrir a concha de um mexilhão com a língua, dá para imaginar?


Mas nada disso agora tem grande importância. Foram diversos almoços e jantares na cobertura em que a família morava. Experimentei desde caviar e lagosta até tâmaras e nêsperas (que nada mais são do que as nossas ameixas amarelas), de molho béarnaise a crème brûlée, além de croque-monsieurcroque-madame, profiteroles e outros milhares de acepipes – preparados pela cozinheira particular  a fim de preencher os curtos intervalos entre as nababescas refeições.

Um ano e meio depois, com o fim do namoro, ainda custei um pouco a perder parte dos quinze quilos que ganhei durante o empanzinante romance. Mais ou menos na mesma época, os meus amigos, finalmente, deixaram de me chamar de Fat Ken. Então a vida continuou, porém, com o perdão do trocadilho, não voltou a ter o mesmo sabor. Às vezes lembro daqueles momentos culinários com alguma nostalgia, geralmente quando meu estômago começa a roncar. E sempre que penso na dondoquinha, com suas roupas cafonas, bolsas peludas, joias caríssimas, sobrancelhas tatuadas, gordurinhas localizadas e seu apetite descomunal, sinto uma vontade incontrolável de comer, sem nenhuma frescura, um pratarrão de macarrão com salsicha.

  

    

12/03/2019

A CONSULTA


Passava das nove da noite quando a senhora Crabtree bateu à porta da casa de veraneio da família Arnold. A temporada já estava no fim, porém, ela ouvira falar que um dos irmãos, o doutor Alexander, ainda permanecia na cidade para tratar da organização de um congresso de ginecologia e obstetrícia. Antes que acionasse novamente a aldrava, uma luz da varanda se acendeu e, em seguida, ouviu-se o giro da maçaneta. Atendeu um homem relativamente jovem, de porte atlético, vestido com um robe de chambre aveludado, calçando chinelos, um pouco mais bronzeado do que se poderia esperar de um médico. Afastando a franja de cima dos olhos com um leve movimento de cabeça, dirigiu a palavra àquela visitante inesperada.

– Boa noite, madame... em que posso ajudá-la?

– Queira me desculpar pelo adiantado da hora, mas é importante... e confidencial também. Sou a esposa do banqueiro Archibald Crabtree, vim por recomendação de uma vizinha que conhece bem o seu trabalho... estou um pouco nervosa, pois o que está me acontecendo não é comum a uma dama da minha estirpe... será que posso contar-lhe o meu caso? Creio que só o senhor... o senhor você, não o Senhor Deus, que fique claro, será capaz de compreender o motivo de tal aflição.

– Farei o que estiver ao meu alcance, senhora... senhora...

– Crabtree!

– Sim, Crabtree. Entre, por favor... sente-se. Gostaria de um chá?

– Não é necessário, pois não pretendo me demorar... ninguém sabe que vim vê-lo, por isso devo voltar antes que algum fuxiqueiro note a minha ausência. Archibald está viajando, deve retornar amanhã à tarde, acredito que sairei daqui com a solução e o tempo necessários para resolver o meu problema.

– Bem, pelo que percebo da sua conversa...

– Por gentileza, não me julgue antecipadamente, vou abrir meu coração e expor todos os detalhes, para que o seu diagnóstico seja preciso... tudo começou há uma semana, meu marido fez amor comigo, muito rapidamente como sempre, sem que minha vagina estivesse totalmente lubrificada... apesar de ser um homenzinho baixo, ele tem o pênis em formato de cogumelo, com uma glande desproporcional, que custa a entrar e, quando entra, vai arranhando e esgarçando tudo que encontra pelo caminho.

– Madame Crabtree...

– Não me interrompa, eu lhe peço... já é muito humilhante para uma dama do meu gabarito estar aqui a essa hora, então deixe-me continuar... ele estava com saudades, aparentemente, acabara de chegar de uma de suas viagens, não me deu tempo para nada, em menos de dois minutos ejaculou abundantemente e se retirou-se para o banheiro com seu falo murcho, ainda mais cabeçudo naquele estado... de minha parte, limpei o sêmen que ameaçava me escorrer pelas coxas e fui preparar o jantar.

– Não quero ser indelicado, é que...

– Não se preocupe, a história não é longa. O problema é que, a partir desse episódio, diferentemente das outras vezes, tive uma cistite... há quem chame de infecção urinária. Não consigo dar dois passos sem ter vontade de ir ao banheiro... no caminho para cá, precisei entrar na mata para me aliviar, acredita? Além disso, minha vulva está cheia de brotoejas, sinto uma coceira infernal... agora mesmo, só não me coço na sua frente em respeito ao decoro que a minha posição social exige.

– Não sei o que dizer, mademoiselle...

– Não diga nada, apenas ouça... sou uma mulher forte, meu sistema imunológico é invejável, estou com quase quarenta e anos e nunca tive esse tipo de desconforto... está certo que casei-me virgem e Archibald foi meu único homem, a não ser por uma vez em que um jardineiro, que já não é mais nosso funcionário, me exibiu seu membro e eu fraquejei... ainda assim, foi somente uma felação sem maiores consequências, não deixei que ele ousasse chegar perto das portas do paraíso.

– Deus do céu, eu...

– Portanto! Portanto... a cistite que contraí pela primeira vez na vida não tem nada a ver com o clima frio das noites nem com alguma deficiência do meu organismo, é praticamente certo que o meu esposo tem uma amante... e cada vez que ele volta de uma reunião de negócios, além de flores e uma caixa de chocolates, também me traz candidíase, herpes, fungos, bactérias e sabe-se lá o que mais... fui clara, doutor Arnold? Restou alguma dúvida?

– Bem, senhora Crabtree... não digo que não tenha ficado impressionado com o seu depoimento, mas creio que é minha consciência que me obriga a dizer o que vou dizer: realmente eu gostaria muitíssimo de ajudá-la, contudo, talvez eu não seja a pessoa certa para isso, pois sou contador, não médico... queira aguardar aqui apenas um minuto enquanto eu vou chamar o meu irmão gêmeo, Alexander, que está repousando no cômodo ao lado... fique à vontade, por favor.
  

05/03/2019

TRÊSCRÔNICASCOLADAS (2)


Sabe esses dias em que você já acorda cantarolando, abre as cortinas e dá bom-dia ao sol e aos pássaros, veste a camisa mais colorida que encontra no armário, toma seu café da manhã demoradamente, sai de casa com um sorriso nos lábios, dança com a faxineira e abraça o porteiro, assovia, pensa no seu primeiro amor, pensa no seu mais recente amor, cumprimenta o jornaleiro, caminha pisando em ovos, repara no céu e nas árvores, se encanta com construções antigas, cheira uma rosa, se equilibra no meio-fio, chega ao trabalho como se fosse a primeira vez, usa a escada em vez do elevador, respira fundo (com os olhos fechados), sorri ao ler seu próprio nome na porta do escritório e se pergunta o porquê de tanta felicidade? Definitivamente, não é como estou me sentindo hoje.


Eu devia ter uns seis ou sete anos de idade, e isso já faz algum tempo, obviamente. A tevê estava sintonizada numa luta de boxe. Logo ao lado, minha mãe passava roupa e cantarolava uma canção de Sérgio Bittencourt (Olho a rosa na janela, sonho um sonho pequenino...). Eu brincava com os meus carrinhos Matchbox e, de vez em quando, dava uma espiadinha no combate, no qual um branquelo de calção preto permanecia fixo no meio do ringue, enquanto o outro, um mulato de calção vermelho, girava em torno dele (Se eu pudesse ser menino, eu roubava essa rosa...). O locutor, esgoelando-se, avisava que o juiz acabara de descontar mais um ponto do pugilista do corner rubro. Minha mãe, sem levantar os olhos da tábua de passar, me perguntou fingindo interesse: "Ele disse pugilista ou fugilista, meu filho?" (E ofertava, todo prosa, à primeira namorada...). Com propriedade, eu que já era um ás no boxe, apesar da pouca idade, impostei minha voz aguda para respondê-la: "Acho que ele disse fugilista, mamãe, porque esse negão fica fugindo o tempo todo". Ela assentiu e continuou cantarolando a melodia, agora sem a letra.

Tanta coisa mereceria ser dita numa crônica. Pena que eu não seja um iluminado com o poder de controlar as palavras a qualquer momento, que nem o Rubem Braga ou o Zuenir Ventura, por exemplo. Aliás, dou graças ao Senhor por conseguir controlar pelo menos o meu esfíncter e, de vez em quando, ainda cometer um texto engraçadinho. Pensando bem, é melhor não escrever nada do que escrever bobagem. Meu avô sempre alertava: em boca fechada não entra mosquito. Amanhã converso com a minha consciência, não há de me faltar inspiração para mais uma desculpa literariamente esfarrapada.
  

26/02/2019

PRECIPITAÇÕES PLUVIOMÉTRICAS


Acordo com os pingos na vidraça. Chego perto da janela e levo ainda alguns minutos para decifrar a paisagem por detrás da tarde gris. Abro e fecho os olhos um par de vezes até despertar do cochilo fora de hora e lembrar exatamente onde estou e o que pretendo fazer da minha vida: em Joinville – a maior cidade de Santa Catarina, colonizada por alemães, suíços e noruegueses em 9 de março de 1851 –, num quarto de hotel, à procura de paz ou de um apartamento virado para o sol nascente, o que me surgir primeiro.

Já devia ter visitado alguns imóveis e desbravado alguns bairros, assim como planejava (e não me mexi) conhecer o parque zoobotânico, a rua com palmeiras dos dois lados, o museu dos imigrantes, a escola de dança, a estação ferroviária, o campo de futebol, um ou outro museu, uma ou outra feira e o portal de exposições. A chuva, entretanto, não tem permitido. Às vezes desço para o café, motivado por uma nesga de céu azul, que logo se fecha e dá lugar ao aguaceiro e ao vento, antes mesmo do fim da primeira xícara.

No mapa do município, desdobrado em cima do criado-mudo faz dias, permanecem assinaladas as recomendações de parentes e amigos: duas pastelarias, shoppings, empadinhas de massa folhada, um mirante, uma baía com nome indígena, passeio de barco, uma fábrica de cerveja desativada, uma trilha ecológica, casas em estilo enxaimel e o Instituto Internacional Juarez Machado. Tempestades inoportunas e de humor variável, porém, fizeram com que eu não me aproximasse de nenhum desses pontos até agora.


A filha da chuva por incompetência do sol
(Juarez Machado, 2015)

Do pintor e escultor Juarez Machado, aliás, conheci por fotografia, antes de vir, uma obra batizada de Joinville, a "filha da chuva" por incompetência do sol, sobre a qual o próprio artista pondera que esta não é uma cidade de flores nem de bicicletas: é uma cidade de chuvas. Tendo a concordar com ele. Mar já não digo, mas quede sol? Como podem 600 mil pessoas, espargidas em mil e poucos quilômetros quadrados, conviver diuturnamente com borrascas de toda sorte, feito filme de suspense? Não uso guarda-chuva – apesar de apreciar mulheres de sombrinha armada –, não gosto de me molhar nem de saltar poças d'água, então, consideraria viver onde o céu se abre apenas durante quinze dias a cada mês?

Pois quase encosto o rosto na vidraça, a fim de incorporar a paisagem úmida e cinzenta. Meu quarto de hotel tem a fragrância da última xícara de café que pedi antes de cochilar e que acabei não tomando. Calço o 
All Star, pego um casaco e desço para a rua, pouco me importando com o estado do tempo e das coisas. Não existe dilúvio que não se possa atravessar nem gota de orvalho que nunca se evapore. Vou ficando. Vou ficar. Encharcar meus pés na água da chuva com tudo, como quem não quer nada, está decidido.
  

19/02/2019

CARTA DE AMOR E PRIMAVERAS


Minha amada aniversariante...


Não és capaz de imaginar a enormidade do paradoxo que invadiu o meu coração nesta data: uma tamanha alegria, por completares mais um ano de vida (transformando-te, assim, na mais apaixonante das balzaquianas de que tenho notícia), acompanhada da profunda tristeza de não poder cobrir-te de ósculos e amplexos, de não estar contigo do primeiro ao último minuto deste dia, apesar de, em pensamento, invariavelmente, adormecer e despertar ao teu lado.

Sei que, por inúmeras circunstâncias, algumas pelas quais sou o único responsável, incluída aí a falta de bom senso, não estamos juntos fisicamente. No entanto, embora sejas cética, mergulhada no estoicismo comum aos aquarianos, posso garantir que o nosso destino está traçado, pois o universo premia aqueles que se mantêm leais ao "gostar" verdadeiro – altruísta, paciente, humilde – ainda que não tenham plena consciência dessa condição. O teu caminho e o meu não são paralelos, como poderias acreditar, são absolutamente concorrentes. Perpendiculares, provavelmente.

Dentro de mim, há mais de meia década, venho guardado (acumulando, na verdade) um sentimento que não tinha aparência nem denominação, mas que sempre me foi muito claro em todos os instantes. Eu sempre soube que o meu rio corria na direção do teu mar; que sempre foste, simultaneamente, a minha regra e a minha exceção, um outono e uma primavera, o meu tormento e a minha paz. Hoje, posso afirmar que essa disposição emocional, essa coisa maior do que a realidade, que se moldou na área mais nobre do meu hipotálamo, atende pelo nome de "amor" e tem os teus olhos.

Pouco me importa não estar à tua altura sob quase todos os aspectos, és uma pessoa melhor do que eu desde o dia em que vieste ao mundo, graciosamente num fevereiro de quarenta e poucos anos atrás. Importa-me é ser merecedor do teu afeto e da tua infinita bondade. Importa-me um único chamado teu, cujas palavras tenho aguardado como quem aguarda pacientemente o desabrochar anual da flor-de-seda.

Em havendo alguma justiça nesta vida, minha doce e encantadora musa, não tornarás a passar mais um único aniversário sem a minha presença, ainda que, mesmo que não percebas, nunca tenhas ficado sem o meu carinho e a minha admiração. Por enquanto, desejo apenas que a felicidade tome conta de ti neste momento, que um sorriso tímido brote do teu rosto angelical e que guardes um lugar em teu coração para todas as alegrias que o futuro nos reserva.

Finalmente, em meio ao turbilhão no qual me encontro, sinto, em meu íntimo, a iminente necessidade de resguardar-me, de afastar-me das consequências que este amor cego e insano poderá me impor. Deixo o vosso aconchegante lar abastecido, para quando retornares dessa interminável viagem. Atendendo aos teus desejos, a carne congelada no freezer são partes do teu ex-namorado Luciano. Não penses que nunca reparei nas ocasiões em que sussurraste durante o sono: "Oh, Senhor! Traz o Lulu de volta para junto de mim". Pois até eu, minha amada imortal, que nunca fui afeito aos prazeres da glutonaria, tenho gostado mais dele agora, em bifes. Alvíssaras!

Para sempre teu.
  

12/02/2019

SAPIÊNCIA


O seu Dadá é o faxineiro da agência de propaganda. Um velhinho bastante folclórico e divertido, sempre com uma boa história para contar ou um sábio conselho para ofertar aos mais jovens. Quando desanda a falar, declamando causos em carregado sotaque interiorano, incrementado por gestos e caretas, o avoengo serviçal interrompe a limpeza e ninguém sabe em que momento ele irá retomá-la. No último bate-papo com o pessoal do setor de criação, não houve quem não marcasse no relógio: entre um caso e outro, foram 45 minutos só para espanar a poeira de uma persiana horizontal.

Hoje o seu Dadá contou de quando pediu a mão da esposa em casamento. Disse que não foi difícil, pois antigamente as coisas eram bem mais simples, numa época em que a palavra de um homem tinha realmente valor. Ele prometeu a ela apenas duas coisas: que não deixaria faltar nada em casa e que jamais olharia para outra mulher. Orgulhoso, confirmou diante de meia empresa atenta que, de sua parte, o combinado se cumprira.

Enquanto o seu Dadá falava, não pude deixar de imaginar a vida daqui a vinte ou trinta anos, mas passei longe de conseguir me ver assim tão animado e cheio de sabedoria. O que eu poderia ensinar de útil à próxima geração de funcionários do meu setor? No máximo, daria uns conselhos sem importância, como: "lembrem-se que bebida láctea não é iogurte" ou "pratiquem sodomia, preferencialmente, com as vegetarianas", e mais nada. 
Quanto aos compromissos assumidos às vésperas de um matrimônio, em meio às desilusões e aos descaminhos dos tempos modernos, talvez eu prometesse não deixar a tampa da privada levantada ou olhar para outras mulheres apenas de canto de olho, com muita discrição.

Em comum com o ancião da limpeza, no futuro, provavelmente, terei somente o fato de precisar fazer um bico de faxineiro para complementar a renda da aposentadoria.

Com a cabeça já não tão longe, aterrissei dos meus devaneios quando me cutucaram para cobrar um anúncio 
atrasado. Antes de seguir (a passos lentos) para varrer a sala da diretoria, empunhando sua inseparável piaçava, o seu Dadá ainda anotou caprichadamente num pedaço de papel, para quem quisesse copiar, a sua receita caseira de desinfetante para banheiros.
  

05/02/2019

DO ABASTECIMENTO DE GÁS NOS CONDOMÍNIOS


O Oscarzinho não saía lá de casa. Como o nosso apartamento ficava no caminho para a escola 
 e ele não tinha irmãos para brincar , dava sempre um jeito de chegar mais cedo, só para matar um tempinho antes de o primeiro sinal bater. E mesmo depois das aulas, nos dias em que havia Educação Física ou reunião do grêmio estudantil, aproveitava para filar um almoço e esticar a diversão até o fim da tarde. Bons tempos aqueles da oitava série, último ano do ensino fundamental, ainda na primeira metade da década de 1980.

Mamãe vivia de cabelos em pé quando o Oscarzinho estava por perto. Sem nenhuma habilidade para o futebol, por exemplo, toda vez que chutava uma bola nas nossas disputas de "gol a gol" no corredor, era batata que acertaria uma estatueta, um quadro, um porta-retratos ou um abajur. Por isso, tínhamos sempre Superbonder à mão, para socorrê-lo nos momentos de tragédia anunciada.

Na cozinha, também era um desastre. Até para preparar um simples lanche, antes de estudar para alguma prova, ele arranjava confusão. Nós nunca fomos capazes de explicar à minha mãe – a quem ele chamava carinhosamente de "tia" – como o Oscarzinho foi capaz de derrubar uma lata de Nescau dentro de uma jarra de suco de laranja. A cor ficou bisonha, mas o gosto acabou agradando aos mais exigentes paladares da nossa turma.

Daquela época de inocência, dentre todas as histórias que envolviam o Oscarzinho, a melhor continua sendo a do fornecedor de gás. É que não havia gás central no condomínio, então, uma vez por mês, o caminhão da companhia distribuidora estacionava na calçada e oferecia o produto recarregado aos moradores interessados.

Certa vez, a encomenda estava demorando a chegar, já fazia quinze minutos que o zelador avisara pelo interfone que o entregador estava subindo. Mamãe pediu ao Oscarzinho para abrir a porta e verificar o porquê do atraso. A poucos metros do nosso apartamento, perto do elevador em manutenção, o moço uniformizado, suado e ofegante, largara o botijão e sentara-se sobre ele para descansar um pouco, após avançar cinco andares pelas escadas. O meu amigo não teve dúvidas, depois de olhar lá fora, botou de novo a cabeça para dentro e gritou na direção da cozinha:

– Peraí, tia... o homem ainda tá enchendo o bujão!
  

29/01/2019

HOTEL HANNOVER


Dispensou o 
bellhop, não havia bagagem. Menos mal, ela pensou, pois o elevador estava desativado e teria de subir ao terceiro andar pelas escadas. Tudo o que precisava cabia na bolsa, como em todas as outras vezes. Admirava-se apenas do fato de haver um carregador de malas à disposição, uniformizado, ainda que ninguém passasse mais do que alguns momentos naquele lugar; uma noite, no máximo, para os que eram de fato viajantes.


Devia ser o quinto ou sexto encontro, sempre no mesmo quarto, no mesmo horário e, provavelmente, com a mesma duração. Ela chegava antes, preenchia uma ficha com nome falso e o aguardava. Não era ninguém, podia expor-se à vontade, ao contrário dele, porta-voz do governo, casado com uma apresentadora de telejornal. O hotel inteiro cheirava a mofo, dificultava-lhe manter a concentração e a excitação. Acabava mais preocupada com a poeira dos móveis ou com a pressão da água do chuveiro do que com a qualidade da própria lingerie. Naquele fim de tarde, aliás, um conjunto de renda um tanto puído e esgarçado.

Não tinha pressa, chegara realmente cedo. Por isso, subia lentamente as escadarias, revestidas de um carpete verde muito escuro, sem estampa. Apoiava-se nos corrimãos somente na passagem entre um piso e outro, quando contornava o vão central – de onde avistava não o térreo, mas uma parte do mezanino onde ofereciam o café da manhã – e continuava no sentido contrário. Em cada corredor, iluminado por uma minguada luz natural, logo abaixo de um grande espelho sem moldura, havia um aparador e, sobre ele, um filtro transparente com água, gelo e fatias de limão e abacaxi. Serviu-se de um gole antes de meter a chave na fechadura do quarto 302.



Sua primeira providência foi abrir uma fresta da janela. A paisagem não tinha nada de especial, dava para o pátio de um convento de freiras muito idosas, que quase nunca eram vistas ao ar livre. Em seguida, largou a bolsa, tirou o casaco de lãzinha e descalçou as sandálias. Conferiu se havia toalhas limpas perto da pia. Passou os olhos por todo o banheiro e mais uma vez por todo o cômodo, até retirar o matelassê e recostar-se na cama. Resolveu que permaneceria de vestido. O lusco-fusco que se encarregasse de disfarçar a falta de cor de sua calcinha e de seu sutiã quando ele quisesse desnudá-la. Fechou os olhos para imaginar a cena; a contragosto, acabou adormecendo.


Sonhou um sonho estranho. Depois de preencher o registro na recepção, deixava as roupas no balcão e subia despida as escadarias rumo ao terceiro andar, a fim de encontrar-se com um professor de matemática – que cheirava a Très Marchand – da época do ensino médio. Despertou assustada, tanto pela posição dos ponteiros do relógio na parede quanto pelo sonho sem sentido, a não ser por uma sua secreta atração por homens de guarda-pó.

Sem sentido agora também lhe parecia aquele encontro. Meia hora havia se passado além do horário combinado, e transcorreria ainda mais rapidamente a meia hora seguinte. Escurecia. Apesar da angústia, não cogitava ligar para o número dele. Nenhuma promessa fora feita, não teria o que cobrar daquele seu amante de ocasião, de quem, após poucos encontros, já preferia a conversa ao desempenho. Levantou-se. Fez o processo inverso dessa vez: estendeu a colcha, lavou e enxugou o rosto numa toalha limpa, enfiou todas as roupas na bolsa e fechou a janela. Desceu as escadas tão lentamente quanto subira noventa minutos atrás. Nua.
  

22/01/2019

TECNOLOGIA


Eu estava de saída para ir ao shopping, mas antes resolvi tentar (mais uma vez) ligar para a operadora de tevê a cabo. O novo plano do condomínio custava metade do preço, portanto, não havia motivo para eu continuar pagando individualmente pelo mesmo pacote de canais.


Nas últimas duas semanas foram dez ligações e nada: ou o sistema estava fora do ar ou os atendentes eram meio retardados ou, simplesmente, desligavam na minha cara quando ouviam a palavra "desconexão". Não que agora eu tivesse alguma esperança de alcançar o objetivo, só queria aproveitar o meu primeiro dia de férias, que é quando a minha inesgotável paciência ainda não se esgotou totalmente.

– Bom dia, senhor! Em que posso estar lhe ajudando?
– Quero cancelar a minha tevê a cabo, será que é pedir demais?
– Ah, mas eu estou vendo aqui que o senhor é um cliente muito antigo...
– E daí, qual é a vantagem?
– Nenhuma, senhor, apenas verifiquei que sua assinatura é antiga.
– E eu por acaso te pedi pra verificar alguma coisa? Fica na tua, pô!


Respirei, contei até dez e saí de casa para um passeio ao shopping, como havia planejado. Precisava urgentemente trocar o meu celular, que já andava meio acabado, praticamente morto (ao contrário do que sugeria o nome da operadora, se é que me entendem), todo arranhado, com a tela sem sensibilidade e a qualidade de ligação cada vez pior.

Olhei a vitrine com toda a calma do mundo. Certifiquei-me de que a maioria daquelas geringonças modernas fazia também chamadas de um telefone para outro, além de enviar mensagens, tirar fotos, tocar músicas, conectar-se à internet e até, dependendo do preço, beijar na boca. Decidido, chamei o vendedor e apontei para um smartphone que me sairia de graça.

– É esse que eu quero.
– O senhor já conhece o modelo?
– Já conheço, sim... não tem custo, né?
– Sem nenhum custo, senhor.
– Tá bom, vou levar.
– Ivete Sangalo, Jota Quest ou Anitta?
– Acho que o Kiko Zambianchi faz mais o meu estilo.
– Não, não... é que o senhor tem de optar por um dos três modelos, pois os aparelhos já vêm com músicas, fotos e vídeos do seu artista favorito.
– Cruzes! Então não quero nem de graça... me vê aquele outro ali.
  

15/01/2019

COISAS DE CASAL


Sexta-feira abafada de fim de primavera, depois de uma semana daquelas, mais ou menos nove da noite, eu já de pijama, ar-condicionado ligado no modo glacial, apenas esperando o entregador da pizzaria. Ela chega da rua, elétrica, ofegante, e, antes mesmo de fechar a porta, faz a proposta indecente:

– Amorzinho, mais tarde vai ter churrasco do pessoal do meu trabalho, lá na casa da Dandara e do Koothrappali, vamos?
– Hummm... o casal de maconheiros?
– Ah, eles só fumam no fim da festa, aí a gente vem embora.
– Sei...
– Só temos que levar cerveja.
– Mas eu nem bebo, pô! Quem mais vai?
– Ah, vão os meus amigos do Face...
– Hummm... aqueles que você nem conhece pessoalmente?
– Pois é, vou conhecer hoje! Os meus primos, o Cecê e o Beto Caroteno, também vão... e a Maria do Socorro, aquela da Igreja do Evangelho Disforme, também disse que vai.
– Hummm... não foi essa que deu pro seu ex-namorado?
– Ah, são águas passadas, amorzinho, agora eu tô com você... vamos?
– Faz assim, benzinho: você pega o nosso carro, vai lá, faz um social, come, bebe e volta na hora que você quiser, enquanto eu fico aqui vendo Mirassol e Catanduvense pela Rede Vida, que tal?
– Ah, se você não for eu não vou.
– Vai, sim... você se diverte lá com as filhas da Baby Consuelo e o Exército de Brancaleone que eu me divirto aqui tomando Nescauzinho com pizza.
– Mas, amorzinho...

Por ventura, toca a campainha. Levanto do sofá em busca das minhas Havaianas e do dinheiro para a encomenda. Pego a caixa sextavada gigante e, antes mesmo de eu abri-la, ela faz cara de choro. Agora bem menos entusiasmada, resmunga baixinho:

– Quais são os sabores?
– Meia atum acebolado, meia coração de frango.
– Você não pediu de rúcula com tomate seco?
– Hummm... não.
– Ah, eu sabia que isso ia acontecer um dia...
– Isso o quê?
– Você não me ama mais.
  

08/01/2019

CALLING DR. LOVE


Apesar de tudo, creio que não sei muito sobre amor. Mesmo tendo vivido mais casos e romances, passado por mais experiências, atravessado mais décadas do que a maioria das pessoas; mesmo que eu conheça mais palavras para expressar sentimentos – e saiba expressá-los de fato – além da média vocabular dos habitantes dos países de Língua Portuguesa; ainda assim, mesmo que vários me considerem um ás no amor e na arte da conquista, só sei que nada sei.

Digo isso porque, dias atrás, recebi um e-mail de uma leitora que me pedia conselhos sobre os relacionamentos e suas várias variáveis. Ela começou a missiva digital com uma pergunta bem simples, bem direta: "O amor existe?" E eu, obviamente, entrei em pânico. Achei melhor não mentir, apenas florear, aumentar, disfarçar e, em último caso, inventar.

O que dizer quando sempre se gostou mais do que se foi gostado? A única certeza, tanto na visão de quem entra quanto na visão de quem sai, é que o amor existe, sim. E se manifesta das formas mais inusitadas: como em um posto de pedágio, quando você pede moedas à moça ao seu lado, no banco do carona; como em um passeio público, ao avistar uma conhecida – por quem você nutria uma discretíssima simpatia – vindo no sentido contrário; ou como na festa junina da escola do bairro, na qual a professora (que também é sua vizinha) aparece vestida de prenda e coordena com pulso firme a barraca do beijo.

Desconsiderando a parte da fantasia, o normal, na minha modesta opinião, é a gente amar solitariamente, às vezes platonicamente, e sofrer e se frustrar um monte. Vá lá, cedo ou tarde as coisas se encaixam e alguém nos corresponderá quase na mesma medida. Entretanto, como isso pode ocorrer uma única vez na vida, é preciso estar atento e forte. Eu chutaria que o amor verdadeiro surge entre os 25 e os 40 anos de idade, mais ou menos. Antes disso é entusiasmo, e depois, quando passamos a nos contentar com pouco, é carência. Em resumo: o amor é unilateral. Reciprocidade ajuda, mas a regra é não existir "toma lá, dá cá", lamento.

E atração, paixão, química? Química já é outra coisa, não tem nada a ver com amor. Química é um encaixe de pele, totalmente físico. Amor é um sentimento cerebral. Daí as meninas acharem que ainda amam os primeiros namorados ou os homens fugirem com suas amantes. Após uns meses, quando o sexo fica monótono, não sobra nadica de nada.

Importante mesmo é juntar subsídios para comparação. Só dá para saber se amávamos para valer se, depois do terceiro ou quarto romance, continuamos com a impressão de que o primeiro era disparado o melhor de todos. Claro, sempre levando em conta que amamos sozinhos, por nossa conta e risco. Aquele nosso caso antigo 
– ficante, noivo(a), amante – também pode considerar, depois de três ou quatro amores, que fomos uma grandíssima perda de tempo. Cruel, não?
  

01/01/2019

MICO MEU


Alguns episódios da minha infância eu não consigo esquecer. Nada grave, são aquelas pequenas histórias que, no fim das contas, não me provocaram maiores danos materiais ou psicológicos. O problema é que, q
uando eu acho que já recordei todos os casos infelizes da minha época de criança, sempre acabo lembrando de mais algum. Não foram melhores nem piores do que as tolices que eu cometo hoje em dia, apenas estavam muito bem guardados nos anais empoeirados da minha memória e acabam voltando à tona sempre que me acontece uma situação semelhante ou quando não tenho coisa melhor para resgatar daquele passado de outrora.

Cronologicamente, a primeira que aprontei foi ainda na pré-escola. No colégio de freiras em que eu estudava, os banheiros ficavam dentro das salas de aula, como se fossem suítes. Faltando dois minutos para o recreio, precisei fazer xixi. Quando voltei, com mais vontade de brincar no parquinho do que de comer o meu lanche, não encontrei ninguém. A turma toda havia saído para o intervalo e a professora, que em nenhum momento sentira a minha falta, tinha chaveado a porta.


No mesmo colégio, houve uma fase em que os banheiros não eram totalmente separados para meninos e meninas. A pia era comum a ambos, mas havia duas portas, uma azul e uma cor-de-rosa, cada uma com uma privada. No dia em que fui acometido de uma baita dor de barriga, desafortunadamente, o compartimento masculino estava ocupado. Foi de dentro da "casinha" rosada, entre uma aula e outra, que ouvi o banheiro se encher de meninas, todas fazendo fila para usar o vaso sanitário a elas destinado.

Ano seguinte, já no primário, o uniforme mudara. Em vez de camiseta vermelha e jardineira, passamos a usar camisa branca e calça azul-marinho. Era desconfortável, só que não o suficiente para me impedir de subir na amoreira que ficava nos fundos do quintal da escola, antes que meus pais viessem me buscar. A noviça que cuidava do portão sempre perguntava se eu andava roubando amoras, mas eu sempre negava, apesar da camisa manchada de roxo e das folhas nos cabelos.

Na terceira série, aconteceram duas tragédias, praticamente na mesma época. Para impressionar uma menina que estudava na minha turma, ingressei na banda marcial. Estava tudo acertado para eu tocar bumbo nos desfiles do dia 7 de setembro. Logo no primeiro ensaio, quando agachei para pegar meu instrumento, a calça de tergal descosturou bem na bunda, do cós ao gavião. Tive de ensaiar uma tarde inteira com o casaco do uniforme enrolado na cintura.

Ainda apaixonado pela rapariga que me fizera entrar para a fanfarra, resolvi demonstrar mais claramente todo o amor 
 
de uma década de vida  que eu sentia por ela. Arranquei um pedacinho de uma das folhas do caderno, escrevi em garranchos um "gosto muito de você", dobrei bem e estendi o papelzinho à minha musa. Ela abriu, leu, releu, suspirou e não teve dúvidas: levantou de sua carteira e correu para entregar o bilhete à professora.

Na quarta série, em determinado momento do final da década de 1970, era moda os meninos colecionarem figurinhas. Tendo preenchido os álbuns do Super-Homem e do King-Kong, chegara a vez dos Futebol Cards, uns cromos com fotos de jogadores do Campeonato Brasileiro que vinham dentro da embalagem do chiclete Ping-Pong. Eu jamais largava as minhas figurinhas, ao ponto de, com medo de ser roubado, guardá-las dentro da cueca durante a aula de Educação Física. Numa tarde de vento forte, logo no aquecimento, no primeiro polichinelo, voaram todas pelo pátio. Não sobrou uma para contar a história.


Das últimas que me lembro, quando eu já não me sentia mais tão criança, aconteceu nas férias de verão. Minha mãe pegou a calça do meu agasalho de praticar esportes e transformou numa bermuda. Cortou as duas pernas na altura do joelho e refez a bainha. Orgulhoso, vesti a nova peça e saí para uma volta pelo bairro, onde absolutamente todos que cruzaram o meu caminho olharam para o extravagante calção. Devem ter reparado, antes de mim, que uma perna era bem mais curta do que a outra.

Depois da escola, no playground do meu prédio, a pirralhada recém-apresentada à pré-adolescência costumava brincar de "casamento atrás da porta", um antigo jogo no qual um dos participantes, com os olhos vendados, escolhia, entre os restantes, alguém para dar um aperto de mão, um abraço, um beijo no rosto ou um beijo na boca. A menina mais velha era sempre a mais cobiçada por todos. Na minha vez, quando tive a sorte de ser escolhido, ela foi taxativa: "Vai ser no rosto, porque eu não beijo menino de aparelho".

Antes de entrar em definitivo na vida adulta, ainda teve uma boa, dessa vez no colégio de padres em que concluí meus estudos. Um professor faltou e não havia ninguém para substituí-lo, então fomos dispensados até a aula seguinte, incluindo o recreio. As meninas foram jogar vôlei; os meninos, futebol. Como eu usava um Rainha Yatch, extinto modelo de tênis sem cadarço que voava longe cada vez que eu dava um chute na bola, troquei o pé direito pelo All Star de um amigo canhoto. Mais tarde, após quarenta minutos de pelada, soou o sinal, anunciando a hora do intervalo. A turma toda debandou, cada um para um lado. Eu também, usando um pé de cada tênis.


Hoje eu já não pago mais micos. A inocência se foi. Tenho evoluído bastante desde que saí da escola. De lá para cá, não apronto quase nada que mereça ser contado numa crônica, muito pelo contrário. As bobagens que eu cometo sem parar, mesmo as mais engraçadinhas, são incomensuráveis. Normalmente, geram algum tipo de ônus para o meu ânus. Além disso, não fazem rir como as estripulias daquela época. Essas de agora eu nem conto, pois são de chorar.