16/04/2019

SÓ A BAILARINA QUE NÃO TEM


– Mainha, cadê minha sapatilha?

– Tá aqui em algum lugar, filha...
– Anda, já vai começar!
– Não tô achando...
– Olha pra mim, mãe...
– O quê?
– Eu tô sacaneando a senhora, eu não uso sapatilha.
– Como assim, filha?
– Sempre dancei descalça, nunca reparou?

Veio de algum lugar do Rio Grande do Norte até Santa Catarina para participar da mostra competitiva de um festival internacional de dança. Mochila nas costas, mãe a tiracolo. O resto do grupo chegara antes, mas ela só pode viajar na véspera, depois que o médico assinou a autorização. A última crise de ansiedade tivera influência nos ensaios e no seu condicionamento físico. Além disso, Débora Colker e Ana Botafogo compunham o júri especializado, o que já seria mais do que suficiente para fazer tremer uma menina tão franzina e delicada, ainda que talentosa e confiante.

Aos primeiros acordes da música clássica, posicionou-se na coxia e repassou mentalmente sua coreografia. Havia outras doze bailarinas no palco e algumas centenas de pessoas na plateia, mas isso pouco importava a ela, que agora estava segura e concentrada. Fim do allegro, início do primeiro adágio: era a sua deixa. Deu apenas dois passos na direção das luzes, quando ouviu-se o grito. Pisou na ponta de um prego no chão de tábuas. O teatro fora reformado às pressas para o evento e não houve tempo para ajustes na obra, tão pouco supervisão. A apresentação teve de ser interrompida para que uma equipe de socorro seguisse a trilha de gotas de sangue até chegar à primeira bailarina da companhia. Com dificuldades para respirar, entre o desespero e a vergonha, decidiu que nunca mais voltaria a dançar.

Mentira.

Assim que ouviu a introdução da música clássica, posicionou-se na coxia e repassou mentalmente sua coreografia. Entraria primeiro para um solo, antes das outras doze bailarinas. Não estava segura nem totalmente concentrada, pensava muito no ex-namorado, com quem tivera um relacionamento de seis anos e que implicava com a sua paixão pela dança. Apesar das últimas palavras dele ainda ecoarem em sua cabeça – "Você é meu sol, um metro e cinquenta e cinco de sol..." –, não considerava deixar que homem nenhum interferisse em seu futuro, seja em que atividade fosse. O fato é que ficou paralisada. Perdeu a deixa em um intervalo da trilha sonora, sob o olhar de reprovação de todo o corpo de baile. Rapidamente, a segunda bailarina entrou em seu lugar, mas a apresentação não agradou aos jurados.

Mentira.

Aos primeiros acordes de Here I Go Again, do Whitesnake, convocou as outras doze integrantes do elenco para um abraço coletivo. Era a primeira bailarina, a mais experiente aos 26 anos, sentia-se na obrigação de incentivar todas as colegas, sobretudo com a mudança de planos em relação à coreografia. Cansadas do balé clássico, elegeram a dança contemporânea para renovar a companhia. Subiram ao palco juntas, mesmo intimidadas pelas centenas de pessoas na plateia e pela câmera da tevê local, que cobria o evento para os três estados do sul do país. Ficaram em terceiro lugar na mostra competitiva, o que rendeu quinze minutos de fama ao grupo. Bem, não exatamente ao grupo. As outras meninas, que calçavam sapatilhas, não foram capa do jornal do dia seguinte, ao lado da mãe, de pés descalços.
  

09/04/2019

VIAGEM


Laura se aproxima de casa, tira da bolsa a chave da portaria, olha com alguma displicência para o rapaz que vem atravessando a rua e vai entrando no edifício.

– Esqueci a minha chave, posso entrar com você?
– Não sabia que você morava aqui.
– Mundo pequeno, né?

Ela abre a porta e deixa que ele entre.

– De onde eu te conheço?
– Daqui mesmo.
– Não, de outro lugar.
– Da saída da escola, eu acho...
– É isso aí.
– Você não foi à aula hoje?
– Fui ao dentista.

Interrompem a conversa com a chegada do elevador. Laura aperta o sexto e ele apressa-se em apertar o oitavo antes que ela pergunte para qual andar gostaria de ir.

– Arranquei um dente.
– É verdade, o seu lado esquerdo tá meio inchado.
– E dói.
– Imagino... qual é o seu apartamento?
– Por quê?
– Curiosidade.
The curiosity killed the cat...
– O quê?
– É um ditado inglês.
– Você mora com quem?
– Papai e mamãe.
– Tem namorado?
– A esperança é a última que morre.
– É um ditado inglês também?
– Chegou.
– O quê?
– O meu andar.
– Ah, é...

Laura sai, acena e sorri. Ele acompanha hipnotizado o rastro de seu perfume e o movimento daquele belo par de substanciosas coxas pelo corredor afora.

– Eu te amo! – cochicha para si.

Depois viaja pacientemente até o oitavo andar e aperta o "térreo" para voltar à portaria. Sai do elevador e do prédio, ganhando a rua, olhando de um lado para outro, à procura de um ponto de ônibus.
  

02/04/2019

JURADO DE MORTE


Apesar de não parecer, eu já fui um cara popular e fiz coisas muito legais na vida. No final dos anos 1980, por exemplo, quando ainda tocava em duas bandas de rock, fui convidado para ser jurado do "Garota Bumbum", um concurso que, obviamente, daria um prêmio à menina que tivesse a bunda mais bonita na opinião de especialistas como eu, um ás no nadegário feminino desde a tenra pré-adolescência.

O evento aconteceu num lugar que, naquela época, chamávamos de danceteria (na década anterior seria numa boate e, modernamente, num local indefinido denominado balada). As concorrentes, primeiro em grupo, em seguida uma a uma, atravessavam a passarela usando maiô e máscara 
 sim, máscara, pois o rosto não estava em questão , davam uma paradinha, de costas para os avaliadores, e voltavam ao camarim.

Havia dez candidatas inscritas. Logo no desfile geral, ficou relativamente claro que uma moreninha, baixinha, quase maior de idade, tinha uma daquelas bundas perfeitinhas, irretocáveis, tanto no desenho quanto na textura. Era de fato um bumbum que uma rapariga só consegue ostentar entre os dezesseis e os dezenove anos (depois, nunca mais). Ganhou nota máxima de todos os membros eretos do júri, lógico.


A segunda colocada, sob vaias do mulherio presente, foi uma bunda no melhor estilo tanajura: protuberante, hipnotizante, mas absolutamente firme e bronzeada. Levou nota nove e meio, também por unanimidade. Já o terceiro lugar, um traseiro apenas aceitável, pouco tonificado, passaria batido em qualquer praia do país, não fosse por um aspecto intrigante: aquelas nádegas estavam me parecendo familiares.

Ao cair das máscaras, na entrega dos prêmios, minhas suspeitas se confirmaram. A terceira classificada era uma guria que estudava comigo, cujo bumbum eu costumava apreciar na Educação Física. De quebra, fora o orgulho pela memória fotográfica, um garçom veio me entregar um bilhete com o telefone da vencedora. De próprio punho, ela escreveu que, dentre todos os jurados, eu tinha a bundinha mais gostosa.