16/04/2019

SÓ A BAILARINA QUE NÃO TEM


– Mainha, cadê minha sapatilha?

– Tá aqui em algum lugar, filha...
– Anda, já vai começar!
– Não tô achando...
– Olha pra mim, mãe...
– O quê?
– Eu tô sacaneando a senhora, eu não uso sapatilha.
– Como assim, filha?
– Sempre dancei descalça, nunca reparou?

Veio de algum lugar do Rio Grande do Norte até Santa Catarina para participar da mostra competitiva de um festival internacional de dança. Mochila nas costas, mãe a tiracolo. O resto do grupo chegara antes, mas ela só pode viajar na véspera, depois que o médico assinou a autorização. A última crise de ansiedade tivera influência nos ensaios e no seu condicionamento físico. Além disso, Débora Colker e Ana Botafogo compunham o júri especializado, o que já seria mais do que suficiente para fazer tremer uma menina tão franzina e delicada, ainda que talentosa e confiante.

Aos primeiros acordes da música clássica, posicionou-se na coxia e repassou mentalmente sua coreografia. Havia outras doze bailarinas no palco e algumas centenas de pessoas na plateia, mas isso pouco importava a ela, que agora estava segura e concentrada. Fim do allegro, início do primeiro adágio: era a sua deixa. Deu apenas dois passos na direção das luzes, quando ouviu-se o grito. Pisou na ponta de um prego no chão de tábuas. O teatro fora reformado às pressas para o evento e não houve tempo para ajustes na obra, tão pouco supervisão. A apresentação teve de ser interrompida para que uma equipe de socorro seguisse a trilha de gotas de sangue até chegar à primeira bailarina da companhia. Com dificuldades para respirar, entre o desespero e a vergonha, decidiu que nunca mais voltaria a dançar.

Mentira.

Assim que ouviu a introdução da música clássica, posicionou-se na coxia e repassou mentalmente sua coreografia. Entraria primeiro para um solo, antes das outras doze bailarinas. Não estava segura nem totalmente concentrada, pensava muito no ex-namorado, com quem tivera um relacionamento de seis anos e que implicava com a sua paixão pela dança. Apesar das últimas palavras dele ainda ecoarem em sua cabeça – "Você é meu sol, um metro e cinquenta e cinco de sol..." –, não considerava deixar que homem nenhum interferisse em seu futuro, seja em que atividade fosse. O fato é que ficou paralisada. Perdeu a deixa em um intervalo da trilha sonora, sob o olhar de reprovação de todo o corpo de baile. Rapidamente, a segunda bailarina entrou em seu lugar, mas a apresentação não agradou aos jurados.

Mentira.

Aos primeiros acordes de Here I Go Again, do Whitesnake, convocou as outras doze integrantes do elenco para um abraço coletivo. Era a primeira bailarina, a mais experiente aos 26 anos, sentia-se na obrigação de incentivar todas as colegas, sobretudo com a mudança de planos em relação à coreografia. Cansadas do balé clássico, elegeram a dança contemporânea para renovar a companhia. Subiram ao palco juntas, mesmo intimidadas pelas centenas de pessoas na plateia e pela câmera da tevê local, que cobria o evento para os três estados do sul do país. Ficaram em terceiro lugar na mostra competitiva, o que rendeu quinze minutos de fama ao grupo. Bem, não exatamente ao grupo. As outras meninas, que calçavam sapatilhas, não foram capa do jornal do dia seguinte, ao lado da mãe, de pés descalços.
  

09/04/2019

VIAGEM


Laura se aproxima de casa, tira da bolsa a chave da portaria, olha com alguma displicência para o rapaz que vem atravessando a rua e vai entrando no edifício.

– Esqueci a minha chave, posso entrar com você?
– Não sabia que você morava aqui.
– Mundo pequeno, né?

Ela abre a porta e deixa que ele entre.

– De onde eu te conheço?
– Daqui mesmo.
– Não, de outro lugar.
– Da saída da escola, eu acho...
– É isso aí.
– Você não foi à aula hoje?
– Fui ao dentista.

Interrompem a conversa com a chegada do elevador. Laura aperta o sexto e ele apressa-se em apertar o oitavo antes que ela pergunte para qual andar gostaria de ir.

– Arranquei um dente.
– É verdade, o seu lado esquerdo tá meio inchado.
– E dói.
– Imagino... qual é o seu apartamento?
– Por quê?
– Curiosidade.
The curiosity killed the cat...
– O quê?
– É um ditado inglês.
– Você mora com quem?
– Papai e mamãe.
– Tem namorado?
– A esperança é a última que morre.
– É um ditado inglês também?
– Chegou.
– O quê?
– O meu andar.
– Ah, é...

Laura sai, acena e sorri. Ele acompanha hipnotizado o rastro de seu perfume e o movimento daquele belo par de substanciosas coxas pelo corredor afora.

– Eu te amo! – cochicha para si.

Depois viaja pacientemente até o oitavo andar e aperta o "térreo" para voltar à portaria. Sai do elevador e do prédio, ganhando a rua, olhando de um lado para outro, à procura de um ponto de ônibus.
  

02/04/2019

JURADO DE MORTE


Apesar de não parecer, eu já fui um cara popular e fiz coisas muito legais na vida. No final dos anos 1980, por exemplo, quando ainda tocava em duas bandas de rock, fui convidado para ser jurado do "Garota Bumbum", um concurso que, obviamente, daria um prêmio à menina que tivesse a bunda mais bonita na opinião de especialistas como eu, um ás no nadegário feminino desde a tenra pré-adolescência.

O evento aconteceu num lugar que, naquela época, chamávamos de danceteria (na década anterior seria numa boate e, modernamente, num local indefinido denominado balada). As concorrentes, primeiro em grupo, em seguida uma a uma, atravessavam a passarela usando maiô e máscara 
 sim, máscara, pois o rosto não estava em questão , davam uma paradinha, de costas para os avaliadores, e voltavam ao camarim.

Havia dez candidatas inscritas. Logo no desfile geral, ficou relativamente claro que uma moreninha, baixinha, quase maior de idade, tinha uma daquelas bundas perfeitinhas, irretocáveis, tanto no desenho quanto na textura. Era de fato um bumbum que uma rapariga só consegue ostentar entre os dezesseis e os dezenove anos (depois, nunca mais). Ganhou nota máxima de todos os membros eretos do júri, lógico.


A segunda colocada, sob vaias do mulherio presente, foi uma bunda no melhor estilo tanajura: protuberante, hipnotizante, mas absolutamente firme e bronzeada. Levou nota nove e meio, também por unanimidade. Já o terceiro lugar, um traseiro apenas aceitável, pouco tonificado, passaria batido em qualquer praia do país, não fosse por um aspecto intrigante: aquelas nádegas estavam me parecendo familiares.

Ao cair das máscaras, na entrega dos prêmios, minhas suspeitas se confirmaram. A terceira classificada era uma guria que estudava comigo, cujo bumbum eu costumava apreciar na Educação Física. De quebra, fora o orgulho pela memória fotográfica, um garçom veio me entregar um bilhete com o telefone da vencedora. De próprio punho, ela escreveu que, dentre todos os jurados, eu tinha a bundinha mais gostosa.
    

26/03/2019

O CRIME DO FLUSS AZUL ATIVO


Lá na empresa têm acontecido umas coisas estranhas. Estranhamente, eu tenho recebido menos do que gostaria e trabalhado além do recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Mas não é disso que quero falar. O caso mais recente envolveu o bastão sanitário (aquele que fica numa cestinha e deixa a água azulada) do banheiro masculino. Um grande mistério, solucionado por mim na última semana.

Algum marmanjo do nosso setor, aparentemente por medo, nojo, convicção religiosa ou trauma de infância, quando ia fazer xixi, retirava a cestinha com o refil e a colocava no chão, ao lado da privada. A nossa dedicada faxineira, dona Gertrudes, na maior boa vontade, ao reparar, limpava o piso manchado e punha de volta o "cheirinho" na borda do bacio. Às vezes, no mesmo expediente ou, no máximo, no dia seguinte, estava o troço no chão de novo, sempre na mesma posição.

Cogitou-se, em reunião com a diretoria, instalar uma câmera oculta no toalete, só que o pessoal da empresa de vigilância já foi avisando que cobraria 50% a mais para fazer esse tipo de monitoramento. Então, a solução imediata foi redobrar a atenção no entra e sai de frequentadores com excesso de água no joelho, se é que o leitor me entende.

Histórias acerca do desodorizador higiênico eu conhecia muitas, como a de uma amiga de Porto Alegre, cujo vaso cheirava a urina diuturnamente, sem que ela conseguisse imaginar o motivo, pois vivia colocando pedras e bastões sanitários no entorno da cerâmica. Até o instante em que entrou de supetão no banheiro e flagrou o namorado mijando, mirando na cestinha e comemorando, entusiasmado e sacolejante, a cada acerto no fragrante alvo.

Mas igual ao caso da empresa eu nunca ouvira falar. Entretanto, o tal segredo (que se estendia por quase três meses) foi desvendado meio sem querer, no dia em que fui à cozinha buscar um copo d'água. Dona Gertrudes, uma senhora alemã, que havia sido governanta de Salvador Allende antes de vir para o Brasil, esquecera sua garrafa térmica particular aberta sobre a pia. O aroma era inconfundível, não deixava dúvidas: tratava-se do famoso "café dos Andes", preparado com 50ml de leite condensado, 100ml de creme de leite, 200ml de café espresso, 50ml de vinho do porto e 20ml de conhaque, no qual os ingredientes devem ser batidos no liquidificador, menos o conhaque, que vai por último, por cima, flambado diretamente na taça ou caneca. Anotaram?

Eis o que eu queria revelar: a velha faxineira, após o desjejum reforçado, retirava o acessório com o refil todas as manhãs para limpar a privada e esquecia de recolocá-lo no lugar. Mais tarde, novamente sóbria, parava na porta do setor, botava as duas mãos na cintura e esbravejava com seu carregado sotaque germânico:

– Eu quererrr saberrr quem foi o desgraçada que tirou o porra do cestinha da badezimmer outrrra vez!
  

19/03/2019

FOME DE QUÊ?


Em priscas eras, namorei uma menina, glutona incorrigível, da alta sociedade. Isso faz um tempinho, claro. Algumas coisas só me aconteciam quando eu ainda não havia crescido e amadurecido. Era uma dessas patricinhas que se vestem de cor-de-rosa, do celular aos sapatos, e que já tem carro, guarda-costas e cartão de crédito antes mesmo de completar dezoito anos. Foi graças a ela 
– e à sua insaciável obsessão gastronômica  que aprendi as diferenças entre tainha e salmão, sidra e champanhe, berbigão e ostra, bolacha recheada e alfajor, lámen e rigatone, prato feito e à francesa. Frequentei restaurantes caríssimos, bistrôs chiquérrimos e outras tantas biroscas de gente rica, mesmo não tendo dinheiro nem para a gorjeta e nem para o sal de fruta.

Até hoje não sei o que aquela rapariga viu em mim. Não tínhamos assuntos em comum, não gostávamos dos mesmos filmes nem das mesmas músicas, seus pais não aprovavam o meu cabelo comprido e, a bem da verdade, ela era meio mal diagramada pela natureza e não sabia beijar direito. Seus lábios eram finos, secos, rígidos demais. Era como tentar abrir a concha de um mexilhão com a língua, dá para imaginar?


Mas nada disso agora tem grande importância. Foram diversos almoços e jantares na cobertura em que a família morava. Experimentei desde caviar e lagosta até tâmaras e nêsperas (que nada mais são do que as nossas ameixas amarelas), de molho béarnaise a crème brûlée, além de croque-monsieurcroque-madame, profiteroles e outros milhares de acepipes – preparados pela cozinheira particular  a fim de preencher os curtos intervalos entre as nababescas refeições.

Um ano e meio depois, com o fim do namoro, ainda custei um pouco a perder parte dos quinze quilos que ganhei durante o empanzinante romance. Mais ou menos na mesma época, os meus amigos, finalmente, deixaram de me chamar de Fat Ken. Então a vida continuou, porém, com o perdão do trocadilho, não voltou a ter o mesmo sabor. Às vezes lembro daqueles momentos culinários com alguma nostalgia, geralmente quando meu estômago começa a roncar. E sempre que penso na dondoquinha, com suas roupas cafonas, bolsas peludas, joias caríssimas, sobrancelhas tatuadas, gordurinhas localizadas e seu apetite descomunal, sinto uma vontade incontrolável de comer, sem nenhuma frescura, um pratarrão de macarrão com salsicha.

  

    

12/03/2019

A CONSULTA


Passava das nove da noite quando a senhora Crabtree bateu à porta da casa de veraneio da família Arnold. A temporada já estava no fim, porém, ela ouvira falar que um dos irmãos, o doutor Alexander, ainda permanecia na cidade para tratar da organização de um congresso de ginecologia e obstetrícia. Antes que acionasse novamente a aldrava, uma luz da varanda se acendeu e, em seguida, ouviu-se o giro da maçaneta. Atendeu um homem relativamente jovem, de porte atlético, vestido com um robe de chambre aveludado, calçando chinelos, um pouco mais bronzeado do que se poderia esperar de um médico. Afastando a franja de cima dos olhos com um leve movimento de cabeça, dirigiu a palavra àquela visitante inesperada.

– Boa noite, madame... em que posso ajudá-la?

– Queira me desculpar pelo adiantado da hora, mas é importante... e confidencial também. Sou a esposa do banqueiro Archibald Crabtree, vim por recomendação de uma vizinha que conhece bem o seu trabalho... estou um pouco nervosa, pois o que está me acontecendo não é comum a uma dama da minha estirpe... será que posso contar-lhe o meu caso? Creio que só o senhor... o senhor você, não o Senhor Deus, que fique claro, será capaz de compreender o motivo de tal aflição.

– Farei o que estiver ao meu alcance, senhora... senhora...

– Crabtree!

– Sim, Crabtree. Entre, por favor... sente-se. Gostaria de um chá?

– Não é necessário, pois não pretendo me demorar... ninguém sabe que vim vê-lo, por isso devo voltar antes que algum fuxiqueiro note a minha ausência. Archibald está viajando, deve retornar amanhã à tarde, acredito que sairei daqui com a solução e o tempo necessários para resolver o meu problema.

– Bem, pelo que percebo da sua conversa...

– Por gentileza, não me julgue antecipadamente, vou abrir meu coração e expor todos os detalhes, para que o seu diagnóstico seja preciso... tudo começou há uma semana, meu marido fez amor comigo, muito rapidamente como sempre, sem que minha vagina estivesse totalmente lubrificada... apesar de ser um homenzinho baixo, ele tem o pênis em formato de cogumelo, com uma glande desproporcional, que custa a entrar e, quando entra, vai arranhando e esgarçando tudo que encontra pelo caminho.

– Madame Crabtree...

– Não me interrompa, eu lhe peço... já é muito humilhante para uma dama do meu gabarito estar aqui a essa hora, então deixe-me continuar... ele estava com saudades, aparentemente, acabara de chegar de uma de suas viagens, não me deu tempo para nada, em menos de dois minutos ejaculou abundantemente e se retirou-se para o banheiro com seu falo murcho, ainda mais cabeçudo naquele estado... de minha parte, limpei o sêmen que ameaçava me escorrer pelas coxas e fui preparar o jantar.

– Não quero ser indelicado, é que...

– Não se preocupe, a história não é longa. O problema é que, a partir desse episódio, diferentemente das outras vezes, tive uma cistite... há quem chame de infecção urinária. Não consigo dar dois passos sem ter vontade de ir ao banheiro... no caminho para cá, precisei entrar na mata para me aliviar, acredita? Além disso, minha vulva está cheia de brotoejas, sinto uma coceira infernal... agora mesmo, só não me coço na sua frente em respeito ao decoro que a minha posição social exige.

– Não sei o que dizer, mademoiselle...

– Não diga nada, apenas ouça... sou uma mulher forte, meu sistema imunológico é invejável, estou com quase quarenta e anos e nunca tive esse tipo de desconforto... está certo que casei-me virgem e Archibald foi meu único homem, a não ser por uma vez em que um jardineiro, que já não é mais nosso funcionário, me exibiu seu membro e eu fraquejei... ainda assim, foi somente uma felação sem maiores consequências, não deixei que ele ousasse chegar perto das portas do paraíso.

– Deus do céu, eu...

– Portanto! Portanto... a cistite que contraí pela primeira vez na vida não tem nada a ver com o clima frio das noites nem com alguma deficiência do meu organismo, é praticamente certo que o meu esposo tem uma amante... e cada vez que ele volta de uma reunião de negócios, além de flores e uma caixa de chocolates, também me traz candidíase, herpes, fungos, bactérias e sabe-se lá o que mais... fui clara, doutor Arnold? Restou alguma dúvida?

– Bem, senhora Crabtree... não digo que não tenha ficado impressionado com o seu depoimento, mas creio que é minha consciência que me obriga a dizer o que vou dizer: realmente eu gostaria muitíssimo de ajudá-la, contudo, talvez eu não seja a pessoa certa para isso, pois sou contador, não médico... queira aguardar aqui apenas um minuto enquanto eu vou chamar o meu irmão gêmeo, Alexander, que está repousando no cômodo ao lado... fique à vontade, por favor.
  

05/03/2019

TRÊSCRÔNICASCOLADAS (2)


Sabe esses dias em que você já acorda cantarolando, abre as cortinas e dá bom-dia ao sol e aos pássaros, veste a camisa mais colorida que encontra no armário, toma seu café da manhã demoradamente, sai de casa com um sorriso nos lábios, dança com a faxineira e abraça o porteiro, assovia, pensa no seu primeiro amor, pensa no seu mais recente amor, cumprimenta o jornaleiro, caminha pisando em ovos, repara no céu e nas árvores, se encanta com construções antigas, cheira uma rosa, se equilibra no meio-fio, chega ao trabalho como se fosse a primeira vez, usa a escada em vez do elevador, respira fundo (com os olhos fechados), sorri ao ler seu próprio nome na porta do escritório e se pergunta o porquê de tanta felicidade? Definitivamente, não é como estou me sentindo hoje.


Eu devia ter uns seis ou sete anos de idade, e isso já faz algum tempo, obviamente. A tevê estava sintonizada numa luta de boxe. Logo ao lado, minha mãe passava roupa e cantarolava uma canção de Sérgio Bittencourt (Olho a rosa na janela, sonho um sonho pequenino...). Eu brincava com os meus carrinhos Matchbox e, de vez em quando, dava uma espiadinha no combate, no qual um branquelo de calção preto permanecia fixo no meio do ringue, enquanto o outro, um mulato de calção vermelho, girava em torno dele (Se eu pudesse ser menino, eu roubava essa rosa...). O locutor, esgoelando-se, avisava que o juiz acabara de descontar mais um ponto do pugilista do corner rubro. Minha mãe, sem levantar os olhos da tábua de passar, me perguntou fingindo interesse: "Ele disse pugilista ou fugilista, meu filho?" (E ofertava, todo prosa, à primeira namorada...). Com propriedade, eu que já era um ás no boxe, apesar da pouca idade, impostei minha voz aguda para respondê-la: "Acho que ele disse fugilista, mamãe, porque esse negão fica fugindo o tempo todo". Ela assentiu e continuou cantarolando a melodia, agora sem a letra.

Tanta coisa mereceria ser dita numa crônica. Pena que eu não seja um iluminado com o poder de controlar as palavras a qualquer momento, que nem o Rubem Braga ou o Zuenir Ventura, por exemplo. Aliás, dou graças ao Senhor por conseguir controlar pelo menos o meu esfíncter e, de vez em quando, ainda cometer um texto engraçadinho. Pensando bem, é melhor não escrever nada do que escrever bobagem. Meu avô sempre alertava: em boca fechada não entra mosquito. Amanhã converso com a minha consciência, não há de me faltar inspiração para mais uma desculpa literariamente esfarrapada.
  

26/02/2019

PRECIPITAÇÕES PLUVIOMÉTRICAS


Acordo com os pingos na vidraça. Chego perto da janela e levo ainda alguns minutos para decifrar a paisagem por detrás da tarde gris. Abro e fecho os olhos um par de vezes até despertar do cochilo fora de hora e lembrar exatamente onde estou e o que pretendo fazer da minha vida: em Joinville – a maior cidade de Santa Catarina, colonizada por alemães, suíços e noruegueses em 9 de março de 1851 –, num quarto de hotel, à procura de paz ou de um apartamento virado para o sol nascente, o que me surgir primeiro.

Já devia ter visitado alguns imóveis e desbravado alguns bairros, assim como planejava (e não me mexi) conhecer o parque zoobotânico, a rua com palmeiras dos dois lados, o museu dos imigrantes, a escola de dança, a estação ferroviária, o campo de futebol, um ou outro museu, uma ou outra feira e o portal de exposições. A chuva, entretanto, não tem permitido. Às vezes desço para o café, motivado por uma nesga de céu azul, que logo se fecha e dá lugar ao aguaceiro e ao vento, antes mesmo do fim da primeira xícara.

No mapa do município, desdobrado em cima do criado-mudo faz dias, permanecem assinaladas as recomendações de parentes e amigos: duas pastelarias, shoppings, empadinhas de massa folhada, um mirante, uma baía com nome indígena, passeio de barco, uma fábrica de cerveja desativada, uma trilha ecológica, casas em estilo enxaimel e o Instituto Internacional Juarez Machado. Tempestades inoportunas e de humor variável, porém, fizeram com que eu não me aproximasse de nenhum desses pontos até agora.


A filha da chuva por incompetência do sol
(Juarez Machado, 2015)

Do pintor e escultor Juarez Machado, aliás, conheci por fotografia, antes de vir, uma obra batizada de Joinville, a "filha da chuva" por incompetência do sol, sobre a qual o próprio artista pondera que esta não é uma cidade de flores nem de bicicletas: é uma cidade de chuvas. Tendo a concordar com ele. Mar já não digo, mas quede sol? Como podem 600 mil pessoas, espargidas em mil e poucos quilômetros quadrados, conviver diuturnamente com borrascas de toda sorte, feito filme de suspense? Não uso guarda-chuva – apesar de apreciar mulheres de sombrinha armada –, não gosto de me molhar nem de saltar poças d'água, então, consideraria viver onde o céu se abre apenas durante quinze dias a cada mês?

Pois quase encosto o rosto na vidraça, a fim de incorporar a paisagem úmida e cinzenta. Meu quarto de hotel tem a fragrância da última xícara de café que pedi antes de cochilar e que acabei não tomando. Calço o 
All Star, pego um casaco e desço para a rua, pouco me importando com o estado do tempo e das coisas. Não existe dilúvio que não se possa atravessar nem gota de orvalho que nunca se evapore. Vou ficando. Vou ficar. Encharcar meus pés na água da chuva com tudo, como quem não quer nada, está decidido.
  

19/02/2019

CARTA DE AMOR E PRIMAVERAS


Minha amada aniversariante...


Não és capaz de imaginar a enormidade do paradoxo que invadiu o meu coração nesta data: uma tamanha alegria, por completares mais um ano de vida (transformando-te, assim, na mais apaixonante das balzaquianas de que tenho notícia), acompanhada da profunda tristeza de não poder cobrir-te de ósculos e amplexos, de não estar contigo do primeiro ao último minuto deste dia, apesar de, em pensamento, invariavelmente, adormecer e despertar ao teu lado.

Sei que, por inúmeras circunstâncias, algumas pelas quais sou o único responsável, incluída aí a falta de bom senso, não estamos juntos fisicamente. No entanto, embora sejas cética, mergulhada no estoicismo comum aos aquarianos, posso garantir que o nosso destino está traçado, pois o universo premia aqueles que se mantêm leais ao "gostar" verdadeiro – altruísta, paciente, humilde – ainda que não tenham plena consciência dessa condição. O teu caminho e o meu não são paralelos, como poderias acreditar, são absolutamente concorrentes. Perpendiculares, provavelmente.

Dentro de mim, há mais de meia década, venho guardado (acumulando, na verdade) um sentimento que não tinha aparência nem denominação, mas que sempre me foi muito claro em todos os instantes. Eu sempre soube que o meu rio corria na direção do teu mar; que sempre foste, simultaneamente, a minha regra e a minha exceção, um outono e uma primavera, o meu tormento e a minha paz. Hoje, posso afirmar que essa disposição emocional, essa coisa maior do que a realidade, que se moldou na área mais nobre do meu hipotálamo, atende pelo nome de "amor" e tem os teus olhos.

Pouco me importa não estar à tua altura sob quase todos os aspectos, és uma pessoa melhor do que eu desde o dia em que vieste ao mundo, graciosamente num fevereiro de quarenta e poucos anos atrás. Importa-me é ser merecedor do teu afeto e da tua infinita bondade. Importa-me um único chamado teu, cujas palavras tenho aguardado como quem aguarda pacientemente o desabrochar anual da flor-de-seda.

Em havendo alguma justiça nesta vida, minha doce e encantadora musa, não tornarás a passar mais um único aniversário sem a minha presença, ainda que, mesmo que não percebas, nunca tenhas ficado sem o meu carinho e a minha admiração. Por enquanto, desejo apenas que a felicidade tome conta de ti neste momento, que um sorriso tímido brote do teu rosto angelical e que guardes um lugar em teu coração para todas as alegrias que o futuro nos reserva.

Finalmente, em meio ao turbilhão no qual me encontro, sinto, em meu íntimo, a iminente necessidade de resguardar-me, de afastar-me das consequências que este amor cego e insano poderá me impor. Deixo o vosso aconchegante lar abastecido, para quando retornares dessa interminável viagem. Atendendo aos teus desejos, a carne congelada no freezer são partes do teu ex-namorado Luciano. Não penses que nunca reparei nas ocasiões em que sussurraste durante o sono: "Oh, Senhor! Traz o Lulu de volta para junto de mim". Pois até eu, minha amada imortal, que nunca fui afeito aos prazeres da glutonaria, tenho gostado mais dele agora, em bifes. Alvíssaras!

Para sempre teu.
  

12/02/2019

SAPIÊNCIA


O seu Dadá é o faxineiro da agência de propaganda. Um velhinho bastante folclórico e divertido, sempre com uma boa história para contar ou um sábio conselho para ofertar aos mais jovens. Quando desanda a falar, declamando causos em carregado sotaque interiorano, incrementado por gestos e caretas, o avoengo serviçal interrompe a limpeza e ninguém sabe em que momento ele irá retomá-la. No último bate-papo com o pessoal do setor de criação, não houve quem não marcasse no relógio: entre um caso e outro, foram 45 minutos só para espanar a poeira de uma persiana horizontal.

Hoje o seu Dadá contou de quando pediu a mão da esposa em casamento. Disse que não foi difícil, pois antigamente as coisas eram bem mais simples, numa época em que a palavra de um homem tinha realmente valor. Ele prometeu a ela apenas duas coisas: que não deixaria faltar nada em casa e que jamais olharia para outra mulher. Orgulhoso, confirmou diante de meia empresa atenta que, de sua parte, o combinado se cumprira.

Enquanto o seu Dadá falava, não pude deixar de imaginar a vida daqui a vinte ou trinta anos, mas passei longe de conseguir me ver assim tão animado e cheio de sabedoria. O que eu poderia ensinar de útil à próxima geração de funcionários do meu setor? No máximo, daria uns conselhos sem importância, como: "lembrem-se que bebida láctea não é iogurte" ou "pratiquem sodomia, preferencialmente, com as vegetarianas", e mais nada. 
Quanto aos compromissos assumidos às vésperas de um matrimônio, em meio às desilusões e aos descaminhos dos tempos modernos, talvez eu prometesse não deixar a tampa da privada levantada ou olhar para outras mulheres apenas de canto de olho, com muita discrição.

Em comum com o ancião da limpeza, no futuro, provavelmente, terei somente o fato de precisar fazer um bico de faxineiro para complementar a renda da aposentadoria.

Com a cabeça já não tão longe, aterrissei dos meus devaneios quando me cutucaram para cobrar um anúncio 
atrasado. Antes de seguir (a passos lentos) para varrer a sala da diretoria, empunhando sua inseparável piaçava, o seu Dadá ainda anotou caprichadamente num pedaço de papel, para quem quisesse copiar, a sua receita caseira de desinfetante para banheiros.