05/06/2020

UMA CRÔNICA DE SONHO


Garanto a vocês: bom mesmo é sonhar com a mulher amada. A certa altura da noite, no quinto estágio do sono, nenhum especialista seria capaz de explicar como, de súbito, surge o sorriso maroto no rosto do paciente que estava dormindo seriamente até poucos minutos atrás, abarrotado de eletrodos pelo corpo. É por que o pobre especialista, obviamente, nunca sonhou com a mulher da sua vida.

Fascinante é visualizar nossa musa em imagens desconexas ou lógicas, em tecnicolor ou em preto e branco, tanto faz. Além de carregá-la na memória durante todo o dia, sonhar com seu sorriso, com seu olhar, com suas curvas, é como se fosse um complemento à falta que ela nos faz. Até num cochilo rápido após as refeições ela pode surgir, inesperadamente, doce como uma sobremesa.

Gostoso é sonhar que se está dirigindo sem destino com o nosso amor ao lado, no banco do carona, e que, em sonho, ela não liga para as nossas barbeiragens; é ouvir a campainha fora de hora, abrir uma porta imaginária e dar de cara com a sua pequena trazendo um pedaço de bolo de cenoura com cobertura de chocolate que ela fez especialmente para o seu café da manhã hipercalórico.

Sensacional é sentir, no meio da noite, o próprio metabolismo corporal voltar a acelerar quando a mulher amada aparece trajando aquela blusinha justa, de um ombro só (que você considera vulgar e excitante ao mesmo tempo), já que na vida real ela não tem coragem de usar; é ter consciência de se estar inconsciente e tentar manter a concentração para que o sonho jamais chegue ao fim.

Femme Nue Couchée (Pablo Picasso, 1936)

Maravilhoso é realizar, ao menos dormindo, todos os desejos econômicos, emocionais, sexuais e gastronômicos de sua grande paixão; é sonhar que se está passeando de mãos dadas pela Champs Élysées num minuto e comendo um sanduíche de carne de segunda no sofá de casa no minuto seguinte, embora você mal conheça os países do Mercosul e ela seja vegetariana.

Supimpa é sonhar com um beijo roubado, ainda que, na realidade, o primeiro beijo em sua adorável parceira tenha sido cuidadosamente planejado (e executado com sucesso, ao que tudo indica); é continuar apaixonado, apesar de, em seus devaneios noturnos, ela às vezes ter apenas um olho, seis braços ou três peitos, sem que isso caracterize um pesadelo, muito pelo contrário.

Delicioso é rolar na cama, virtualmente abraçado em nossa musa inspiradora, num campo de girassóis pintado por Van Gogh; é vislumbrar o futuro com clareza e esquecer o passado nebuloso; é marcar um gol de bicicleta em final de campeonato ou subir ao palco e cantar Under My Skin com a voz do Frank Sinatra, tendo a certeza de que ela está na plateia prestigiando a sua falta de talento.

Pois reitero, então, caros amigos: bom mesmo é sonhar com a mulher amada. E de nada adianta o especialista em distúrbios do sono tentar justificar qualquer anormalidade, pois bem sei que ele não sabe de nada, afinal, nunca sonhou com a mulher da sua vida. Melhor ainda é despertar de um sonho desses, ao amanhecer ou no meio da noite, tanto faz, cheio de cuidados para não acordá-la.

29/05/2020

MICÇÃO


Ela nunca tinha visto um homem mijando. Nem irmão nem pai nem primo nem ex-namorado; nem em revista nem no cinema nem na internet. Nunca, ele soube mais tarde. Então começou a entender por que, nas primeiras vezes em que saía da cama para ir ao banheiro após o sexo, ela ficava espionando pela fresta da porta, em silêncio, olhos brilhantes, fixos nos jatos amarelados que jorravam de seu pau lambuzado para a cerâmica branquinha.

No começo, ele achava estranho, ficava encabulado, às vezes nem conseguia mijar, mas fazia de conta que não percebia. Depois de um tempo, passou a deixar a porta escancarada. Ela ficava encostada no umbral, nua, descalça, observando todos os seus movimentos.

Aquela vigilância durante a madrugada, às vezes pela manhã, provocava nele um tesão improvável: partia mijando de pinto murcho e terminava em riste, respingando pelas paredes. Ela ria, e também se excitava com a comédia.

Quando ia para o banheiro, sabia que ela viria junto. Quando não vinha, ele esperava pacientemente, de pé, tampa do bacio levantada, bexiga cheia, aguardando seu tiro de largada com o olhar.

No segundo mês, ela passou a ficar mais perto, com a bunda apoiada no granito da pia, braços cruzados. Eventualmente se encaixava atrás dele, segurava seu pau e, na ponta dos pés, olhando por cima dos ombros, mirava com precisão até acertar na água da privada. Ele teve de ensiná-la que é melhor apontar para as laterais do vaso e deixar o líquido escorrer, senão, além do barulho e da espuma, acabam voando algumas gotas para o chão.

O ritual se repetia diariamente, quase sem palavras. Então voltavam para a cama ou iniciavam uma nova sessão ali mesmo, ela com as mãos espalmadas no azulejo, pernas afastadas, buceta encharcada como ele nunca vira igual. Nunca, ele soube mais tarde.

Até que se separaram, tão rápido quanto um jato de urina. Incompatibilidade fora da cama, divergências políticas ou religiosas, ninguém soube listar exatamente os motivos. Ela deixou de segui-lo ao banheiro, depois deixou de atender seus telefonemas, depois sumiu de sua vida. Não totalmente, na verdade. Ainda hoje, sempre que precisa mijar, ele sente seu olhar curioso por trás da porta entreaberta.

17/05/2020

MOÇA DE FAMÍLIA COM HAVAIANAS NOS PÉS (versão 2020)


Eu gosto mesmo é das moças de família que usam sandálias Havaianas. Ou melhor, gostava. Porque elas já não existem, não que eu saiba.

Das que caminhavam sozinhas na chuva, então, gostava mais ainda. Coisa minha, desde muito tempo. Tinha um fraco por aquelas meninas entre vinte e vinte e seis anos de idade, que moravam com os pais, que ajudavam a mãe e a avó com as sacolas do supermercado ou que eram escolhidas para comprar o pão ao entardecer. É que elas andavam sem bolsa, sem carteira, sem celular, sem companhia. Levavam só o dinheiro dobrado no bolso de trás.

Ninguém sabia dizer se estudavam ou trabalhavam, mas o certo é que no fim do dia tiravam os sapatos, faziam um rabo-de-cavalo, calçavam as sandálias e partiam a cumprir alguma tarefa nas redondezas. Eram quase todas iguais, como se combinassem um padrão: camiseta ou blusinha, calça jeans, Havaianas. E cabelo preso, sempre preso.

Não tinham espinhas no rosto, não sorriam à toa, não usavam maquiagem. Nunca mostravam do corpo mais do que devia ser mostrado, nunca falavam com estranhos mais do que o necessário, nunca enfrentavam um olhar mais do que o suficiente para nos deixar sem jeito. Misteriosas além da conta. Davam a impressão de que jamais namoravam, de que não saíam à noite, de que eram inalcançáveis. Pois acho que eram de fato, senão não seriam "de família". Aliás, nunca houve marmanjo que conseguisse fazer balançar o coração de uma rapariga dessas.

Em tardes de aguaceiro, as moças de família que usavam Havaianas não dividiam a sombrinha por nada. E molhavam os pés porque não abriam mão da sandália de dedo.

Só não se podia confundi-las com outras duas categorias de mulheres solitárias: as domésticas eram menos discretas, sem a mesma elegância nem a pele tão clara, característica de menina caseira; já as casadas e independentes, essas não exalavam o mesmo frescor, a mesma pureza. Todas atraentes ao seu modo, mas não para o meu gosto.

Assistiam à novela e também liam livros. Faziam questão de esconder a inteligência e a beleza. Não queriam papo com galãs de quaresma de oito braços, cheios de segundas intenções, nem com caras legais e sensíveis como eu. Elas não tinham e-mail, não faziam amigos virtuais e não apreciavam os meus textos. As moças de família com Havaianas nos pés, na verdade, não estavam nem aí.

Teriam habitado este mundo? Eu juro que sim.

10/05/2020

ESPIRAL DO SILÊNCIO


Somos cinco na mesa de sempre, perto da janela, à esquerda da porta de entrada. As outras mesas da cantina também estão ocupadas. Os músicos deram uma pausa, as pessoas agora falam e riem um pouco mais baixo. Estamos na quinta rodada de vinho e polenta.

Meu amigo Júlio me aponta um homem no balcão do bar. Ana, Lúcio e Lígia viram-se para olhar.

– É aquele nojento do Gustavo! – diz Ana, franzindo as sobrancelhas.
– Eu até que gosto dele, sujeito bacana – pondera Lúcio.

Guga Menezes é artista plástico. Estudamos juntos, os seis, nos últimos anos do colegial. Ele foi muito famoso e ganhou algum dinheiro, hoje está pobre e é soropositivo. Aceno para que venha beber conosco.

Ana pede licença, levanta-se e vai ao banheiro. Lúcio e Lígia enchem suas bocas de polenta.

– Ora, ora... como vão os inseparáveis?
– Vi você no jornal um dia desses – eu digo.
– Ah, é... foi no sábado, me entrevistaram para saber de um argentino que pagou dez mil por uma escultura minha, nem acreditei.
– Caralhos me mordam! – exclama Júlio, sem se conter.

Guga nos conta que já não tem ânimo para o trabalho, mas que fará uma última exposição, de quadros e esculturas, no fim do próximo mês, no Museu de Arte. Convida a todos para o evento e se despede:

– Pois bem... não vou mais constranger os amigos com a minha presença, espero revê-los em breve.

O artista toma outro gole de vinho e volta ao bar, enquanto Ana retoma seu lugar à mesa.

– Onde é que você se meteu? – pergunto.
– Tava no banheiro.
– E mijou durante quinze minutos?
– Vai te foder, Júlio! – Ana se exaspera, aos prantos.

Entreolhamo-nos. Lígia incentiva:

– O que foi, querida? Fala pra gente...
– A culpa é minha! Podem me denunciar!
– Culpa de que, querida? Não estamos entendendo.
– Eu infectei ele... trepei com ele de propósito.

Os músicos voltam a tocar, ninguém ouve a voz de ninguém.

Meia hora depois, pagamos nossa conta e vestimos nossos casacos. Todos os lugares ainda estão ocupados, há uma fila de espera do lado de fora da cantina. Na calçada, nada de abraços. Cada um, em seu íntimo, sabe que nunca mais seremos cinco na mesa de sempre.

28/04/2020

AO MOÇO


Cozinhava nua por causa do calor. Os cabelos soltos, apesar da bandana, batiam na altura do cóccix, quase cobrindo a bunda. O monte de vênus roçando a porta do forno, os mamilos intumescidos diante das quatro bocas acesas do fogão a gás. Algo entre tímida e inocente, falava relativamente pouco. Com o pano de louça, enxugava o suor do rosto antes de me perguntar qualquer coisa.

– Tem alguma comida que o senhor não come?
– Tudo! Comeria tudo... como de tudo, foi o que eu quis dizer.
– Supimpa! Fiquei com receio de preparar o quiabo.

Que raio de gosto teria um quiabo? Eu ouvira falar de quiabos lendo Fernando Sabino. Sabia que pertenciam à família das malváceas, e que os pré-adolescentes de O Encontro Marcado apelidavam seus birros de quiabinhos, pois eram finos e estavam sempre "babando". Não que não fosse o caso agora, mas eu certamente provaria. Bom ou ruim, devoraria meia caçarola de quiabada.

– Não se preocupe, eu adoro.
– O senhor é um docinho! Vou caprichar.

E virava-se novamente para a pia, para o fogão, para a janela que dava para o quintal, concentrada em sua tarefa. Eu permanecia sentado num canto, diante da mesa para dois, observando e aguardando.

Ter uma cozinheira foi recomendação da senhoria que me alugara o sobrado, logo que revelei que sofria de gastrite atrófica. Na empresa que me contratara para três meses de consultoria no parque eólico não havia refeitório, tampouco existiam restaurantes na pequena cidade de dois mil habitantes. Assim, contar com alguém para preparar o almoço – que fatalmente sobraria para o jantar – pareceu a melhor solução.

Chegava no fim da manhã e ia embora perto das duas da tarde, de segunda a sábado. Depois de tudo pronto, preparava um prato generoso e me servia. Ela mesma jamais saboreava a própria refeição. Enquanto eu comia, tampava as panelas, lavava a louça, vestia-se com as roupas que deixava penduradas no mancebo da entrada e, antes de sair, articulava uma despedida imperativa:

– Quando terminar, o senhor guarda as sobras na geladeira.

Até o momento de voltar ao trabalho, sozinho em casa, porcelana limpa sobre a mesa, eu continuava divagando a respeito daquela mulher. Aparentava uns sessenta e poucos anos de idade, era viúva, diziam que tinha sido professora da escola municipal. Apesar do calor, usava sempre um vestido preto, de tecido muito pesado, e lenço na cabeça, bem diferente de uma bandana descolada.

Preparava almoços divinos, era indiscutível, mas certamente nunca cozinhou nua em toda a sua vida, nem mesmo na flor da juventude. Fazia isso exclusivamente na minha cozinha.

20/04/2020

O PASSAGEIRO (2)


O vidro do ônibus é uma poeira só. Ele suja a manga da camisa de flanela tentando limpar. Fica agoniado se não consegue olhar para fora, ver as pessoas na calçada, as lojas se fechando. Prepara-se para dar um esporro no cobrador antes de descer, não admite que deixem um vidro sujar assim. Salta e continua a pé.

Passa por um cara que voa por dentro de uma argola em chamas, com um monte de desocupados espiando em volta. Uns aplaudem, outros riem, mas não pagam um centavo pelo espetáculo. Tem também uma indiazinha que vende bichos de madeira, sempre no mesmo lugar, com um bebê no colo. Aposta como ela nunca vendeu nenhum bicho daqueles. Quando tiver algum dinheiro sobrando, vai ajudar comprando uma capivara ou uma onça-pintada.

Para em frente à padaria. O cheiro de pão fresquinho invade meio quarteirão, e ele sem um puto no bolso. Nem lembra mais o que comeu no almoço. Arroz, ovo frito e salada de tomate, talvez tenha sido isso. Deve haver no armário umas bolachas para molhar no café.

Dona Cassiana vem passando e lhe cobra o aluguel atrasado. Ele pergunta se ela não quer trocar por uma trepada mais tarde no quartinho. A coroa ri, não diz nem que sim nem que não. Treparam apenas uma vez, logo que foi morar na casa dela, antes de o marido morrer. Mulher peituda sempre foi seu fraco. Dona Cassiana até que é boa de cama, deixa fazer de tudo, menos meter atrás, diz que é contra as leis na natureza. Tudo bem, já se satisfaz se ela o deixa pegar nos peitos. Só tem de ser em silêncio, para a vizinhança não ficar sabendo.

A criançada deixa de jogar bola e pede para ver o seu Fender. Abre o estojo e mostra o instrumento importado. Avisa para ninguém encostar, não quer marca de dedo. Alguns não chegam perto porque têm medo. Na verdade, as mães é que têm medo e dizem para os filhos não chegarem perto do "marginal que mora na pensão da cafetina". Coisa que odeia é mulher que se faz de santa, dessas que dizem para os filhos não chegarem perto desse ou daquele.

Pensando com seus botões, conclui que é melhor botar medo do que sentir medo. O medo faz doer o estômago. O sujeito perde a fome, fica brocha, tem dor de cabeça, úlcera, vomita sem motivo, não dorme direito nunca mais na vida.

Agora é o cheiro de mofo que aumenta, sabe que está perto de casa. Pega a chave debaixo do assoalho. Tropeça no tapete antes de entrar. Esbraveja em voz alta. Acende o interruptor, fecha a porta e larga o contrabaixo num canto. Liga o televisor no telejornal da noite. Abre o chuveiro frio. Daqui a pouco a dona Cassiana aparece e ele precisa estar limpinho para ela chupá-lo sem nojo.

10/03/2020

O PASSAGEIRO


Todos buzinam ao mesmo tempo, o trânsito não anda. Ele salta do táxi, batendo a porta com força. Sai caminhando por entre os carros. O motorista xinga sem convicção. Ele faz de conta que não ouve. Não paga a corrida e o chofer continua íntegro.

Ajuda uma idosa a atravessar a rua. Ela não enxerga muito longe, e isso o comove. Parece bastante com sua avó, apenas um pouquinho mais corcunda. Nenhuma senhora faz bolinhos de chuva melhor do que a sua avó. Saudade dela e dos bolinhos. Quando a velhota chega ao outro lado, agradece a ajuda, pede a Deus que o abençoe. Não foi nada! Ela mal sabe que ele já é abençoado.

Anda um pouco mais rápido. Queria parar para rezar, mas precisa chegar ao ensaio e está atrasado. Pensando bem, não precisa chegar em lugar nenhum. Os caras que esperem, pois se ele não chegar, ninguém toca. Não existe banda de rock sem baixista. Diminui o passo e vai arquitetando um nome para o grupo. Também não existe banda sem nome. O Rinaldo sugeriu chamar de Clitóris Intumescido. Ele não acha ruim, entretanto, prefere arranjar coisa pior.

Reza baixinho pelo caminho, inventando uma oração. Toda vez que passa sobre o viaduto da igreja sente uma vontade louca de se jogar.

A porta da garagem está aberta. Ouve o barulho dos instrumentos desafinados lá dentro. Rinaldo reclama do atraso e ele responde: Vai tomar no cu! Pega de volta o Fender e sai. Não quer tocar numa banda sem nome, tem mais o que fazer da vida. Ninguém contesta.


Agora chuta uma latinha de refrigerante pela rua. Faz um esporro danado, as pessoas ficam olhando para ele. O baixo parece de chumbo, faz doer seu braço. Sempre quis tocar numa banda de rock, mas com caras legais, tipo o Nasi e o Scandurra, não com umas bichonas feito o Rinaldo e os primos dele.

Planeja ir para casa pensar. Só consegue pensar em casa, de banho tomado e barriga cheia. Imagina que deve haver um monte de bandas de rock precisando de baixista, ainda mais um que tenha um Fender bonito e caro que nem o dele, modelo precision bass, pesado que nem chumbo, que faz doer o braço.

Senta num ponto de ônibus com o estojo no colo. Mora na casa do caralho, nem sabe se passa a sua linha por ali, está acostumado a voltar de carona com o Rinaldo. Ao lado, um casal se beija. Pode ouvir até o barulhinho da saliva passando de uma língua para a outra. Não consegue deixar de olhar. O rapaz é preto e a guria é branca. Dizem que preto é mais bem-dotado, vai ver por isso ela o escolheu. O pau entra pela buceta e vai até o estômago.

Ele escuta os dois falarem em casamento. Acabarão casando mesmo, vão se encher de filhos, acompanhar novela da Globo, cagar de porta aberta. E não há nada pior do que cagar de porta aberta! Só novela da Globo, filosofa silenciosamente.

Quando o ônibus chega, tem sono e fome. Daria qualquer coisa por um pão com mortadela. Escora-se na janela e põe o contrabaixo no banco que sobrou. Não quer ninguém sentando perto. A cidade vai ficando azulada, mas ele cochila antes de reparar nisso.

03/03/2020

BLIND DATE


O problema é que a moça tinha dois queixos. Depois da primeira impressão, todo o resto parecia perfeito: roupas discretas, bolsa de couro natural, cabeça proporcional ao corpo, pele bem tratada, olhos claros muito grandes, dentes no lugar, sorriso bonito, orelhas pequenas, voz suave, narizinho arrebitado, unhas bem-feitas. Mas havia esse detalhe, do qual ele não conseguia desviar a atenção.

Aprendera em aulas de etiqueta que, ao conversar com qualquer pessoa, deve-se sempre fixar o olhar na região nasal, mais ou menos na altura das maçãs do rosto. No entanto, no caso de sua interlocutora, a tarefa parecia impossível. Abaixo da boca vinha o queixo e, em seguida, uma enorme papada, que ocupava o espaço onde deveria estar o pescoço e se estendia até o Bósforo de Almasy.

A conversa seguia agradável. Tinham gostos parecidos para música, cinema e literatura, trabalhavam em áreas afins, moravam em bairros vizinhos e, em épocas diferentes, estudaram no mesmo colégio. Vasculhando as árvores genealógicas, descobriram inclusive um parente comum nas gerações passadas. Porém, apesar de tantas coincidências, ela possuía dois queixos e ele, por sorte, apenas um.

Quando ela pediu licença para ir ao banheiro, ele aproveitou para reparar nos outros atributos de sua acompanhante. Tentava encontrar uma explicação para o único defeito que percebera até o momento. Talvez fosse uma gordinha que emagreceu, daí a sobra de pele na região. Contudo, o que viu foi um andar gracioso, uma bundinha firme e empinada, numa silhueta absolutamente esbelta.

Tarde da noite, ele pagou a conta, ainda sem saber se gostaria de encontrá-la novamente. Caminharam lado a lado até o estacionamento. Assim, de perfil, sob a luz da Lua, os dois queixos pareciam muito mais assustadores do que de frente, iluminados artificialmente no interior do bar. Ela abriu a bolsa, puxou um cigarro e perguntou se ele tinha fogo. Aliviado, respondeu sorrindo:

– Desculpe, eu não me relaciono com fumantes em hipótese alguma.

25/02/2020

FOLIA & CINZAS


Eu não gosto nadinha de Carnaval. Que me desculpem aqueles que gostam, mas essas festas populares, com muita gente alegre reunida, onde ninguém é de ninguém e o aumento da taxa de natalidade no mês de novembro é recorde, na verdade, me deixam até um pouco deprimido. Pelo menos o feriadão é longo e, acabada a folia, da quarta-feira de cinzas em diante, surgem ótimas histórias para se contar ou para se esquecer, dependendo de qual lado da trama você faz parte. Eu não faço parte de trama nenhuma, obviamente, visto que o meu desfile no bloco Acadêmicos do Ortobom não foi dos mais emocionantes e ainda estourou o tempo.

Falando em histórias, lembrei de uma boa: um conhecido de infância (hoje dono de bistrô), grande, gordo, peludo, cismou de sair vestido de odalisca, com uma fantasia toda feita de papel crepom vermelho. No sábado à tarde, na Praça XV, caiu uma chuva torrencial e a roupa derreteu inteirinha, deixando o jovem culinarista apenas de sunga, todo escarlate do pescoço para baixo, que nem chiclete de criança com anilina quando mancha a língua.

Tem também a da mocinha que, mesmo não gostando de Carnaval, aceitou ir com as amigas ao baile do Clube 12. Dormiu das duas da madrugada às seis da manhã no confortável sofá do banheiro feminino. A mesma dublê de foliã, um pitéu aos dezoito anos de idade (hoje psicóloga de renome), desferiu um mae-geri no estômago de um Batman que lhe passou a mão nas nádegas. Ficou lá o "super-herói", estatelado no salão, sem nada poder fazer contra as aulas de caratê que ela vinha tomando há mais de seis meses.

Mas a melhor dessas passagens momescas é a da filha da dona Glorinha, a Maria de Lurdes, que juntou todas as economias e foi para o Rio de Janeiro fazer um curso de esteticista. Um dia, telefonou e avisou à mãe que ia ser destaque no abre-alas da Unidos da União do Império Imperial, uma escola de samba do segundo grupo.

Dona Glorinha, viúva há doze anos, religiosa, muito querida na vizinhança, espalhou a notícia por todo o bairro e, na noite de sexta-feira, reuniu mais de quarenta pessoas, entre amigos, parentes e curiosos, frente ao seu televisor para acompanhar o desfile. Em pleno sambódromo, no alto do primeiro carro, surgiu a Lurdinha, filmada de vários ângulos por oito câmeras diferentes, com nome e sobrenome na legenda, lidos em voz alta pelo locutor da emissora, totalmente nua, peladinha da silva, só com um montinho de purpurina pouco abaixo do umbigo. Na sala lotada, ninguém ousou abrir a boca, muito menos a dona Glorinha. O infarto foi fulminante.

30/01/2020

O DIA DA SAUDADE


Não é feriado, mas bem que podia ser. Dia 30 de janeiro é mesmo o dia da saudade e pouca gente sabe disso. Eu comemoro desde os dez anos de idade, quando ouvi pela primeira vez Raul Seixas a recitar: "Hoje é o feriado do dia da saudade, onde todo mundo chora, canta e conta coisas tristes".

Nunca encontrei quem quisesse celebrar a data comigo. Então, a minha nostalgia ficava incubada até o ano seguinte, e eu não desgostava. Ficava saudoso, mais pelos fatos do que pelas pessoas, como uma música em tom menor que não sai da cabeça.

Dizem que não há palavra equivalente em outra língua, mas creio que o sentimento é universal: te extraño, I miss you, dá no mesmo. A saudade, nos dicionários, é tratada como uma lembrança nostálgica e suave, mas não sei, não. Ela às vezes pesa, dói, angustia, faz cócegas, muda o rumo. Tudo bem, na maior parte do tempo é suave, sim.

Gilberto Freyre escreveu que a saudade do passado, aliada à fé no futuro, é o que faz o mundo andar para a frente. Como a falta que eu sinto das coisas e dos amigos de antigamente é maior do que a minha crença em dias melhores, não acharia má ideia que a Terra girasse ao contrário de vez em quando. Já pensou, chegar bem pertinho de reviver seus melhores momentos em vez de apenas guardá-los na memória?

Saudade existe para a gente não esquecer o primeiro beijo, os almoços de domingo, o pátio do colégio. O tombo, a professorinha, a comunhão. A última vez em que não faltou ninguém à mesa, o quarto azul, o quarto rosa, o momento exato em que a bicicleta não precisou mais das rodinhas de apoio.

Saudade diminui a distância entre quem fomos e no que nos transformamos; dá o empurrão nas costas e o passo atrás, simultaneamente; separa o porto seguro do momento seguinte, quando começa a agir sem piedade, sobretudo nos fins de caso. "Creio que será permitido guardar uma leve tristeza e também uma boa lembrança; que não será proibido confessar que, às vezes, se tem saudade", nas palavras de Rubem Braga. Portanto, é coisa muito gostosa e muito ruim de se sentir, que, só pelo paradoxo, já mereceria um feriado.

Ué, não inventaram justificativa até para Tiradentes e Corpus Christi?

Pois sempre que me sinto assim – agora você sabe como –, todo dia 30 de janeiro de cada ano, acredito que só os beija-flores e os caranguejos são verdadeiramente felizes. Mas como eu não voo nem ando para trás, vou morrendo, aos pouquinhos, de saudade.

17/12/2019

DA SUPERFICIALIDADE DAS RELAÇÕES


Fazia algum tempo que não se encontravam.

Ela tirou a blusa, ficou só de sutiã e saia. Depois descalçou os sapatos, tão lentamente que ele quase se ajoelhou para arrancá-los. Tinha um anel (de prata, com motivos tribais) no dedo médio do pé esquerdo.

– Que merda é essa?
– Um anel, nunca viu?
– Assim, no pé, só em papagaio.
– Eu não acredito que tu nunca viu, tá se usando direto.
– Põe uma meia minha... só o pé esquerdo, eu te empresto.

Ela o olhou fixamente, durante uns trinta segundos, talvez menos. Calçou de volta os sapatos, no mesmo ritmo com que os havia tirado. Vestiu a blusa, ajeitou o cabelo, puxou um cigarro da bolsa.

Ele abriu a porta, de súbito, apontando o corredor do prédio com um movimento de cabeça.

– Fuma lá fora, me faz o favor.



10/12/2019

DIÁRIO DA DESESPERANÇA


Quarto dia – Ninguém jamais aguentaria passar pelo que eu passei, ninguém. Coisas assim me fazem repensar a vida, perder o rumo, trocar o dia pela noite, atrasar as contas, esquecer a data do meu próprio aniversário. Acontecimentos desse tipo não desaparecem nunca da memória. Sei que vou ficar velhinho e me lembrar claramente, como se tudo estivesse se repetindo mais uma vez.

Quinto dia – A nova manhã se revela estranha. Continuo tentando imaginar se foi sonho ou verdade, pois custo a acreditar que o fato tenha realmente ocorrido. Não consigo me concentrar em nada nem sinto falta de uma companhia. Talvez seja preciso alguma forma de lavagem (cerebral, estomacal, espiritual) para os meus fantasmas sumirem sem deixar nenhum vestígio.

Sexto dia – Mais de setenta e duas horas de agonia. O telefone toca, toca, toca e nem me levanto para verificar o número no identificador de chamadas. Não quero comentar ou dividir o que aconteceu, nem hoje nem nunca, a não ser que incidentes piores me façam esquecer esse outro de uns dias atrás. Espero que o tempo me ajude a recuperar a rotina, mas não creio nisso agora.

Décimo primeiro dia – Está sendo mais penoso do que se desenhava. Olho para o nada, para o vazio do teto e das paredes, para o espelho sem nenhuma imagem refletida. Não tenho certeza se os sons da campainha e do interfone estão vindo de fora ou de dentro da minha cabeça. Prédios pegam fogo, aviões colidem, morros desabam. E eu nem aí para o futuro de humanidade.

Vigésimo quarto dia – Já se vão três semanas. No entanto, parece que foi ontem. Casos como esse tiram o sono, embrulham o estômago, dão dor de barriga, suor, calafrios, brotoejas. Pelo menos não houve testemunhas, foi um evento isolado. Perturbador, traumatizante, cruel. Ainda sonho com a cena, ainda acordo no meio da madrugada, sem me conformar com a realidade dos fatos.

Vigésimo nono dia – Não vejo qualquer utilidade em comer, tomar banho, fazer a barba, abrir as cortinas. Talvez se eu não tivesse feito o que fiz, não tivessem feito comigo o que fizeram. Preciso urgentemente aprender a ficar passivo, pois somente alguém como eu seria capaz de deixar as coisas chegarem a esse ponto. Ninguém, ninguém mesmo aguentaria passar pelo que eu passei.

PS: Numa rua próxima, comendo donuts na viatura, os agentes Carmichael e Inojoza nada notaram.

03/12/2019

VERBORRAGIA


Claridade. Despertador, música, sono, preguiça. Remela. Chuva, bocejo, chinelo, tropeção. Banheiro. Tampa, assovio, urina, chão. Espelho. Água, nariz, sabonete, toalha. Televisão. Café, leite, pão, manteiga. Bafo. Escova, pasta, gengiva, siso. Roupeiro. Terno, camisa, gravata, sapato. Estrada. Buzina, freio, estacionamento, calma. Pesadelo. Repartição, escada, sala, computador. Dinheiro. Futuro, sonho, sacrifício, destino. Tempo. Relatório, lentidão, prece, refeição.

Fome. Arroz, feijão, bife, ovo. Fila. Livraria, banco, banca, sorvete. Ponto. Trabalho, trabalho, trabalho, trabalho. Cafezinho. Secretária, saia, panturrilha, loa. Chefe. Bigode, piada, suor, risada. Recomeço. Cadeira, óculos, chiclete, cacoete. Déjà-vu. Trabalho, trabalho, trabalho, trabalho. Janela. Distração, passado, viagem, paixão. Fadiga. Drágea, pomada, massagem, emplastro. Desejo. Campo, árvore, fruta, sossego. Crepúsculo. Rebanho, porteira, alívio, rua.


Movimento. Povo, odor, fofoca, sombrinha. Carro. Rádio, atalho, multa, palavrão. Namorada. Confeitaria, beijo, morango, regime. Planejamento. Conversa, família, noivado, casamento. Carona. Banho, cama, língua, Tampax. Suspiro. Silêncio, vazio, cafuné, perspectiva. Novela. Abraço, sofá, relógio, noite. Olhar. Lágrima, remorso, reclame, porta. Ternura. Perfume, pele, toque, afinidade. Compensação. Dó, ré, mi, falo. Vento. Rosto, endereço, distância, paz.

Garagem. Correspondência, elevador, chave, luz. Blues. Cueca, cerveja, mensagem, amendoim. Telefone. Pai, mãe, irmão, prima-irmã. Luar. Sacada, rede, saudade, cochilo. Ablução. Barba, loção, reunião, prazo. Poltrona. Pé, pufe, arroto, controle. Futebol. Lateral, centroavante, cabeça, gol. Pizza. Borda, atum, calabresa, sobra. Caneta. Conta, lista, rabisco, passaralho. Modorra. Pepsamar, pijama, travesseiro, lençol. Madrugada. Refluxo, ronco, apneia, solidão.

26/11/2019

ROTINA


Há algumas semanas, meu vizinho do andar de cima tentou violentar minha vizinha do apartamento da frente, uma moça chamada Débora, no único elevador do prédio. Foi numa tarde de outubro, quando ela chegava mais cedo do trabalho.

Ninguém soube dizer o que o motivou. Talvez por ela ser tão sozinha, por não ter um homem em sua vida, por não contar com parentes na cidade, tampouco amigos íntimos. Talvez por ela ser tão misteriosa, usar óculos e até ostentar um certo charme.

Segundo o zelador, parece que o pulha passou os braços em volta de sua cintura e apalpou-lhe as nádegas, assim que a porta se fechou. Quis beijá-la à força, mas só conseguiu levar uma dentada na maçã do rosto, sobre a barba malfeita.

Débora era tão discreta, tão tímida, que sequer conseguiu gritar suficientemente alto para se fazer ouvir. Quando o elevador parou, ele a empurrou para fora, abriu a braguilha e mostrou-lhe o falo rígido e avermelhado. Depois seguiu viagem, rindo alto.

Hoje o edifício amanheceu cheio de policiais e médicos-legistas pelos corredores. Uma viatura e uma ambulância manobravam para bloquear a porta de entrada. Consta que um homem fora encontrado morto em seu apartamento, amarrado à cama. Teve o pênis decepado e introduzido no próprio ânus.

Débora e eu pegamos juntos o elevador e saímos do prédio por uma passagem alternativa, cada um para um lado, em sincronia. Ao longe, ainda pude ouvir o zelador reiterando em altos brados:

– Já disse que ninguém viu nada, caceta!

19/11/2019

DIAS DE CRIANÇA (2)


Eu devia ter uns seis ou sete anos de idade, e isso já faz algum tempo. A tevê estava sintonizada numa luta de boxe. Logo ao lado, minha mãe passava roupas e cantarolava uma canção de Sérgio Bittencourt.


🎶 Olho a rosa na janela, sonho um sonho pequenino 🎶


Eu brincava com os meus carrinhos Matchbox e, de vez em quando, dava uma espiadinha no combate, no qual um mulato de calção preto permanecia fixo no meio do ringue, enquanto o outro, um loiro de calção vermelho, girava em torno dele.


🎶 Se eu pudesse ser menino, eu roubava essa rosa 🎶


O locutor, esgoelando-se, avisava que o juiz acabara de descontar mais um ponto do pugilista do corner rubro. Minha mãe, sem levantar os olhos da tábua de passar, me perguntou, fingindo interesse: "Ele disse pugilista ou fugilista, meu filho?"


🎶 E ofertava, todo prosa, à primeira namorada 🎶


Com propriedade, eu que já era um ás no boxe, apesar da pouca idade, impostei minha voz aguda para respondê-la: "Acho que ele disse fugilista, mamãe, porque esse branquelo fica fugindo o tempo todo!"


Ela assentiu e continuou cantarolando a melodia, agora sem a letra.


12/11/2019

DA FALTA DE ATENÇÃO NOS CONDOMÍNIOS


Quase todos os dias, há mais de dois anos, pego o elevador com a vizinha do 801. Sempre na mesma hora, pouco antes das oito da manhã, eu seguro a porta e ela vem correndo, atrasada, lá do fim do corredor. Na primeira vez ela agradeceu, sorriu e disse um "Bom dia, vizinho!" encantador. Na segunda vez, quando eu me preparava para retribuir o cumprimento da manhã anterior, ela entrou direto, sem dizer palavra, e fez a viagem até a portaria ajeitando o penteado no espelho. Virou rotina: num dia, sorria e falava comigo; no outro, me ignorava e seguia muda. Durante esses dois anos e pouco me acostumei com seus altos e baixos, com sua dupla personalidade, com suas alterações de humor. Quando nossos horários não coincidiam, eu sentia falta de sua companhia no elevador, já não me importava se era dia de cordialidade ou de carranca. Mas hoje cedo, tal qual uma trama de Conan Doyle, o mistério da vizinha do 801 se esclareceu. Enquanto eu segurava a porta, ela veio correndo, atrasada. Logo atrás, gritando "Peraí que eu vou também!", uma outra, igualzinha, ainda mais atrasada do que a primeira. As gêmeas entraram no elevador, ofegantes. Uma falou comigo, a outra não.

05/11/2019

COMER, FALAR, AMAR


– O que houve, afinal? – Miguel me pergunta.

– Ela conheceu um cara mais velho, mais rico, mais pauzudo, sei lá.
– Mas assim, de uma hora pra outra?
– Claro que não, decerto já tinha um caso e o trouxa aqui nem reparou.

Tomo mais um gole de vinho. Miguel enche novamente as duas taças e não volta a me questionar. Eu é que sinto uma necessidade absurda de falar sobre ela, de trazê-la à tona, ainda que apenas em lembranças.


– Eu reparava em tudo, Miguelera... sabia quando tinha cortado a franja, quando comprava uma roupa nova, quando tava alegre, triste, menstruada, com fome, com tesão, com sono... ela enrolava os cabelos com os dedos quando queria dormir... não bocejava nem nada, só enrolava os cabelos nas pontas dos dedos.

– Mais vinho?
– Uma vez a gente fez uma borsch.
– O quê?
Borsch! Uma sopa russa de beterrabas e vinagre.
– Ui... até me deu azia.


Miguel é redator publicitário. Amigo e funcionário ao mesmo tempo. Atarracado, cheio de tatuagens, com uma cara engraçada de periquito-australiano. Já estava na agência quando entrei. E foi amor à primeira vista. Só perdia para ela, que se impregnara em mim bem antes dele.


– Passamos um dia inteiro procurando ingredientes, cozinhando juntos, esperando aquela porra ficar pronta... depois pusemos a mesa, escolhemos um disco, sentamos frente a frente e jantamos como se fosse data comemorativa... e nem era, era um domingo qualquer.

– Gostosa?
– Claro que era gostosa, Miguelera! Você não lembra dos coxões e dos peitões que ela tinha? Parecia até a...
– A sopa, animal! A sopa.
– Ah, sim... MA-RA-VI-LHO-SA!

29/10/2019

DA VIDA SEXUAL DOS IDOSOS


Os velhos se reuniam no boteco todas as quintas-feiras. Chegavam por volta das dezenove horas e sentavam-se sempre ao redor da mesma mesa. Bebiam cerveja sem álcool, beliscavam petiscos com pouca gordura e falavam sobre suas amantes. Um dizia que estava mais potente agora do que na juventude, graças à pouca idade da gatinha com quem andava saindo; o outro contava que sua atual concubina o proibira de manter relações com a própria esposa, quebrando-lhe o vidro do carro como alerta; um terceiro lamentava-se por gastar em caixas de Viagra o dobro das compras mensais de supermercado; e o último confidenciava que passara a pagar a faculdade da amásia em troca de alguns chamegos fora dos padrões. A conversa fiada se repetia a cada semana, encontro após encontro: um tentando se vangloriar mais do que os outros. Às vinte e três horas, pontualmente, rachavam a conta e partiam em desabalada carreira. Enquanto não ficassem viúvos, ai daquele que aparecesse em casa depois da meia-noite.

As velhas jogavam canastra todas as quintas-feiras. Começavam cedo, perto das cinco da tarde, após um chá ou café acompanhado de bolinhos de chuva. Às vezes tomavam um Kahlúa – mas só as que não fossem dirigir depois – e falavam mal de seus homens e suas respectivas amantes. Uma dizia que, por sorte, não precisava mais cumprir as obrigações do casamento, já que o esposo andava às voltas com uma adolescente de quarenta anos; a outra dava risadas sempre que lembrava das tentativas do marido de explicar o vidro do carro em pedaços; a terceira contava que todos os meses fazia compras de supermercado também para os filhos, para as irmãs e para a faxineira; e a última comemorava o fato de seu velho companheiro nunca mais ter sugerido nenhuma prática contrária às leis da natureza. Divertiam-se muito, disputavam ao menos seis partidas e, lá pelas vinte e duas horas, despediam-se calorosamente. Faziam questão de estar em casa antes dos parceiros, apenas para ter assunto na semana seguinte.

Era às quintas-feiras que ela mais faturava. Podia escolher entre sair com os homens que ligavam por causa do anúncio no jornal ou atender aos clientes da boate nos fundos do próprio estabelecimento. Enquanto retocava a maquiagem, esforçava-se para não pensar em seus outros "padrinhos". Um deixava duas notas de cem reais em seu criado-mudo, apesar de sofrer de ejaculação precoce e jamais tê-la penetrado; o outro era depressivo, cobrava-lhe demonstrações públicas de afeto, mesmo que beirassem a violência; um terceiro comprava dela, semanalmente, várias caixas de Viagra falsificado, o que lhe rendia trezentos por cento de lucro sobre cada lote; e o último oferecera-se para pagar a mensalidade de sua segunda faculdade, dessa vez de Secretariado Bilíngue, em troca de uma simples inversão de papéis. Desdobrava-se tentando encaixar todos os encontros na agenda atribulada, mas não perdia o sono por isso. Sempre soube que os homens são extremamente estúpidos. E que tornam-se ainda mais estúpidos quando envelhecem.

22/10/2019

DE CUJUS


Eu nunca tinha ido a um velório. Nem dos mortos da minha família nem da família de ninguém. Mas acabei indo a esse, só para fazer média com a menina com quem eu estava saindo. Ela choramingou um "fica do meu lado" tão fofinho que não pude recusar. Além do mais, o falecido em questão era seu avô materno, dono de um considerável patrimônio em terrenos e salas comerciais, prometido em vida à neta predileta no caso de óbito repentino e irreversível. Era o caso, aparentemente.

Na modesta capela da funerária, uma multidão de parentes se aglomerava. Fiquei do lado de fora enquanto pude, consolando a minha pequena, oferecendo o ombro para que ela derramasse suas lágrimas e contando a quantidade de arranjos e coroas de flores espalhadas por todos os lados, do pátio externo ao entorno do caixão. Uns choravam, outros sorriam. Sim, sorriam. Um sorriso de Monalisa, prontamente transformado em pesar quando da aproximação de algum descendente mais íntimo do defunto.

Os jovens, entre adolescentes e adultos imaturos, alguns vindos da cidade vizinha, reunidos num canto afastado, já combinavam programa para a noite. Os idosos, sentados nas poucas cadeiras disponíveis no local, tentavam adivinhar quem seria o próximo a dobrar o Cabo da Boa Esperança, pois regulavam em idade com o cadáver.

Em circunstâncias nada ideais, fui apresentado a vários primos, primas, tios, tias, amigos e amigas da família para a qual eu pretendia entrar. Educadamente, apesar da insistência da ala masculina, me recusei a contar piadas que alegrassem o ambiente e me dispus a confirmar os resultados dos jogos do Brasileirão depois do enterro.

Alheio ao movimento à sua volta, o avô da futura mãe dos meu filhos repousava lúgubre, decúbito dorsal, no caixão aberto.

Quando a neta foi entrando no salão, me puxando pela mão, tentei resistir delicadamente, mas não houve jeito. Eu ia chegar perto de um morto pela primeira vez na vida, e logo de um homem a quem nunca tinha visto mais gordo  nem mais branco nem mais gelado , parecido com uma vela de sete dias derretida, de terno e gravata, com algodõezinhos no nariz.

A fila para o último adeus diminuía. Atrás da namorada e imediatamente à frente da viúva, ambas aos prantos, procurei imaginar como se age ou o que se diz numa hora dessas. Não que eu tivesse qualquer obrigação, afinal, nem sabia o nome do patriarca, apenas queria evitar um fiasco em pleno funeral, antes de firmar compromisso.

Cara a cara com o de cujus, em pensamento, pedi uma bênção para o romance que se iniciava. O falecido pareceu entender o recado. Emitiu um som semelhante a um peido, só que com a boca. Em seguida, expirou o ar derradeiro dos pulmões, atirando longe a bolinha de algodão de uma das narinas. Definitivamente, aquilo era um "não" em forma de suspiro. Sem que ninguém notasse, cobri rapidamente o orifício nasal do velho, persignei-me e saí de fininho. Direto para o banheiro da capela mortuária.

15/10/2019

COMPOSTURA NA PUBLICIDADE


Sentei-me numa das pontas da grande mesa da sala de reuniões. A moça da cozinha já servira a água e o café, Miguel já estava ao meu lado. Ainda de pé, a assistente de atendimento conversava animadamente com o diretor de arte da campanha. Todos aguardávamos o cliente, um empresário, dono de uma gigantesca loja de calçados, e um de seus gerentes, aos quais apresentaríamos meia dúzia de anúncios para revistas e jornais, um folder com as promoções do mês e algumas sugestões de outdoors simples e duplos.

– Tá por dentro de tudo, né? – Miguel perguntou, preocupado.
– Relaxa, passei a noite estudando as peças.
– Ficaram legais, né?
– Pra quem são, ficaram ótimas.

A porta de vidro se abriu e a recepcionista fez entrar um senhor grisalho, de terno e gravata, que, não fosse a cara fechada, poderia ter sido apresentador de qualquer programa de auditório da década de 1960. Logo atrás, bem mais à vontade e rebolativo, o coordenador de marketing da rede calçadista.

– Boa tarde, senhores – disse o velho, sem entusiasmo.

Sentaram-se nas cadeiras à minha esquerda. Ambos esfregaram as mãos, mais para mímicos siameses do que para executivos. Cutuquei Miguel com o cotovelo para fazê-lo entender que poderia começar seu discurso e mostrar as pranchas com os layouts e o boneco do folheto.

Assim que o meu amigo redator começou a falar, flutuei por sobre a mesa, como se tivesse ingerido alguma droga lisérgica, observando tudo e todos de fora do meu corpo. Vi a mão do diretor de arte sobre a coxa da assistente de atendimento; vi a cara de nojo do velho e a cara de tédio de seu aspone gay; acompanhei o esforço da equipe para tentar aprovar um material sofrível, com fotos mal escolhidas e fontes inadequadas, que, na opinião dos criativos, poderia até ganhar prêmio em Cannes. E me vi na cabeceira da mesa, ainda com boa aparência, um ou outro fio de cabelo branco, mais para coroa do que para jovem, com ares de intruso, de bicão, de ator de pegadinhas.

– Onde estão as fotos da minha neta que eu pedi para colocar?
– Desculpe, senhor, as fotos não tinham qualidade – respondi.
– Mas vocês são pagos para fazer o que eu mando!
– Opa, peralá! Somos pagos para fazer a divulgação da sua loja...
– E fazem muito malfeita, por sinal.
– É que não dá pra fazer milagre com aquela espelunca – arrematei.

O velho pulou da cadeira. Também fiquei de pé e quase encostei meu nariz no dele. Pude sentir o fedor de pinho do seu Très Brut De Marchand na pele enrugada. Alterado e corado, ameaçou:

– Essa loja está na família há cem anos, seu moleque!
– Pois então o senhor enfie essa loja no seu cu centenário!

Houve princípio de quiproquó. A reunião seguinte, na tarde do mesmo dia, seria com os outros sócios da agência de propaganda. Na pauta, a minha exclusão do contrato social, em definitivo.

08/10/2019

SETE VIDAS


O velho caminha lentamente, apoiando-se no cabo da pá que carrega na mão esquerda. Na mão direita, um saco de lixo com o cadáver do gato de estimação. Toma mais um pouco de ar e continua rumo aos fundos do terreno. Sente os pulmões ressecados, a musculatura frouxa pela falta de exercícios, as articulações dormentes. Vai entrando pela sombra das árvores. Repara na abundância de verde, mas não se impressiona. Ignora a natureza e suas belezas, como fizera desde sempre. Estaciona-se. Inspira, expira. Escolhe um ponto de chão mais macio e marca um xis com o bico do sapato. Encosta a pá no muro, larga o embrulho com a criatura morta. Olha em volta, num gesto mecânico.


O velho, que nem é tão velho se comparado aos outros velhos, começa a cavar sem ânimo. Enfia a ferramenta no solo, usa um dos pés para empurrar mais fundo, faz a alavanca e arranca um naco de barro misturado com areia e capim. Tenta acelerar o processo, mas consegue apenas acelerar seus batimentos cardíacos. Vai amontoando a terra ao lado do buraco, que nem precisa ser tão largo nem tão profundo, pois o corpo na sacola não é de um felino adulto. Inspira, expira. A camiseta vai grudando em suas costas.

Apronta o funeral da melhor maneira que suas forças permitem. Gostaria de ter preparado enterros como aquele para muita gente: para quem gostava pouco, para quem não gostava, para quem odiava. No entanto, ele mesmo morrera antes, de certa forma. O velho goteja de suor em pleno inverno. Um suor que desce pela testa e vai se acumulando nas sobrancelhas.

Não imagina quanto tempo se passou desde que saiu do quarto. Meia hora, talvez. Mas é improvável que sintam sua falta. Então desenrola o saco plástico e deixa cair o bicho, já endurecido, a pelagem alaranjada sem nenhum brilho ou maciez. Chuta-o para dentro da cova, sem pompa nem cerimônia. Dedica alguns segundos a avaliar toda a cena antes de puxar o barro de volta, cobrindo-o rapidamente, como se tivesse receio de que o animal pudesse reviver e fugir. Aguentaria um fantasma ou dois ou três, qualquer um de seus fantasmas assombrando suas noites, mas não resistiria se voltasse a ter a companhia de um único ser vivo. Enterraria a si próprio antes que isso acontecesse.

O velho olha em volta novamente. Inspira, expira. Ajeita a areia que cobre a sepultura, encosta a pá outra vez no muro e procura por uma nesga de brisa. Não sabe se deve rezar, cantar uma canção em homenagem a todos os gatos do mundo ou só virar as costas e ir embora. Abaixa a parte da frente do moletom, segura o pênis flácido, puxa para trás toda a pele que recobre a glande e aponta-o para a terra recém-remexida. Concentra-se um pouco e mija com dificuldade. Depois se recompõe para fazer o trajeto de volta.

Sunrise Cat (Caroline Conkin, 2014)

Diante do retorno tormentoso, o enterro minimalista parece ter sido a parte fácil da tarefa. Não tormentoso de tristeza pelo gato, longe disso. É que já não pode percorrer nem mesmo pequenas distâncias. Ao menor sinal de palpitação, caga-se de medo de perder os sentidos sem ser notado, nos fundos do quintal da clínica, por exemplo, em meio à mata por onde somente ele costumava se embrenhar de vez em quando. Apoia-se na pá, faz dela uma muleta. Não fosse o desleixo da roupa, poderia se fazer passar por um profeta com o seu cajado. Bem, não por um profeta, na verdade, apenas por um maluco bisonho.

Na metade do caminho inverso, avista um dos enfermeiros. O velho para e observa, a fim de divertir-se com o andar desengonçado e a falta de habilidade do serviçal em mover-se pelo terreno irregular.

– Bom dia, seu Dávide!
– Não é Dávide, é Dêividi.
– Chegou uma encomenda pro senhor, coloquei no seu quarto.
– Que merda.
– Deixa que eu levo essa pá...
– Toma, vai na frente.

O velho ainda permanece parado por alguns instantes enquanto espera o rapaz sumir pela trilha. Em seu íntimo, gostaria de ser atingido por um raio em vez de precisar voltar ao asilo. Suspira. Retoma a passada lenta. Aproxima-se do casarão de paredes azuis, telhado azul, janelas e colunas azuis. Agora a passagem de pedregulhos transforma-se numa calçada lisa e bem cuidada. Inspira, expira. Sobe um par de degraus e dá apenas mais quatro passos sobre o piso estampado em direção ao hall de entrada, e dali ao corredor que leva aos dormitórios.

Tropeça na caixa de papelão logo que empurra a porta. O embrulho se mexe. E se mexe novamente. Um miado muito fraco vem de seu interior e o velho nem precisa abri-lo para entender o que está acontecendo.

– Esse gato não morre nunca... filho de uma puta!