15/01/2019

COISAS DE CASAL


Sexta-feira abafada de fim de primavera, depois de uma semana daquelas, mais ou menos nove da noite, eu já de pijama, ar-condicionado ligado no modo glacial, apenas esperando o entregador da pizzaria. Ela chega da rua, elétrica, ofegante, e, antes mesmo de fechar a porta, faz a proposta indecente:

– Amorzinho, mais tarde vai ter churrasco do pessoal do meu trabalho, lá na casa da Dandara e do Koothrappali, vamos?
– Hummm... o casal de maconheiros?
– Ah, eles só fumam no fim da festa, aí a gente vem embora.
– Sei...
– Só temos que levar cerveja.
– Mas eu nem bebo, pô! Quem mais vai?
– Ah, vão os meus amigos do Face...
– Hummm... aqueles que você nem conhece pessoalmente?
– Pois é, vou conhecer hoje! Os meus primos, o Cecê e o Beto Caroteno, também vão... e a Maria do Socorro, aquela da Igreja do Evangelho Disforme, também disse que vai.
– Hummm... não foi essa que deu pro seu ex-namorado?
– Ah, são águas passadas, amorzinho, agora eu tô com você... vamos?
– Faz assim, benzinho: você pega o nosso carro, vai lá, faz um social, come, bebe e volta na hora que você quiser, enquanto eu fico aqui vendo Mirassol e Catanduvense pela Rede Vida, que tal?
– Ah, se você não for eu não vou.
– Vai, sim... você se diverte lá com as filhas da Baby Consuelo e o Exército de Brancaleone que eu me divirto aqui tomando Nescauzinho com pizza.
– Mas, amorzinho...

Por ventura, toca a campainha. Levanto do sofá em busca das minhas Havaianas e do dinheiro para a encomenda. Pego a caixa sextavada gigante e, antes mesmo de eu abri-la, ela faz cara de choro. Agora bem menos entusiasmada, resmunga baixinho:

– Quais são os sabores?
– Meia atum acebolado, meia coração de frango.
– Você não pediu de rúcula com tomate seco?
– Hummm... não.
– Ah, eu sabia que isso ia acontecer um dia...
– Isso o quê?
– Você não me ama mais.
  

08/01/2019

CALLING DR. LOVE


Apesar de tudo, creio que não sei muito sobre amor. Mesmo tendo vivido mais casos e romances, passado por mais experiências, atravessado mais décadas do que a maioria das pessoas; mesmo que eu conheça mais palavras para expressar sentimentos – e saiba expressá-los de fato – além da média vocabular dos habitantes dos países de Língua Portuguesa; ainda assim, mesmo que vários me considerem um ás no amor e na arte da conquista, só sei que nada sei.

Digo isso porque, dias atrás, recebi um e-mail de uma leitora que me pedia conselhos sobre os relacionamentos e suas várias variáveis. Ela começou a missiva digital com uma pergunta bem simples, bem direta: "O amor existe?" E eu, obviamente, entrei em pânico. Achei melhor não mentir, apenas florear, aumentar, disfarçar e, em último caso, inventar.

O que dizer quando sempre se gostou mais do que se foi gostado? A única certeza, tanto na visão de quem entra quanto na visão de quem sai, é que o amor existe, sim. E se manifesta das formas mais inusitadas: como em um posto de pedágio, quando você pede moedas à moça ao seu lado, no banco do carona; como em um passeio público, ao avistar uma conhecida – por quem você nutria uma discretíssima simpatia – vindo no sentido contrário; ou como na festa junina da escola do bairro, na qual a professora (que também é sua vizinha) aparece vestida de prenda e coordena com pulso firme a barraca do beijo.

Desconsiderando a parte da fantasia, o normal, na minha modesta opinião, é a gente amar solitariamente, às vezes platonicamente, e sofrer e se frustrar um monte. Vá lá, cedo ou tarde as coisas se encaixam e alguém nos corresponderá quase na mesma medida. Entretanto, como isso pode ocorrer uma única vez na vida, é preciso estar atento e forte. Eu chutaria que o amor verdadeiro surge entre os 25 e os 40 anos de idade, mais ou menos. Antes disso é entusiasmo, e depois, quando passamos a nos contentar com pouco, é carência. Em resumo: o amor é unilateral. Reciprocidade ajuda, mas a regra é não existir "toma lá, dá cá", lamento.

E atração, paixão, química? Química já é outra coisa, não tem nada a ver com amor. Química é um encaixe de pele, totalmente físico. Amor é um sentimento cerebral. Daí as meninas acharem que ainda amam os primeiros namorados ou os homens fugirem com suas amantes. Após uns meses, quando o sexo fica monótono, não sobra nadica de nada.

Importante mesmo é juntar subsídios para comparação. Só dá para saber se amávamos para valer se, depois do terceiro ou quarto romance, continuamos com a impressão de que o primeiro era disparado o melhor de todos. Claro, sempre levando em conta que amamos sozinhos, por nossa conta e risco. Aquele nosso caso antigo 
– ficante, noivo(a), amante – também pode considerar, depois de três ou quatro amores, que fomos uma grandíssima perda de tempo. Cruel, não?
  

01/01/2019

MICO MEU


Alguns episódios da minha infância eu não consigo esquecer. Nada grave, são aquelas pequenas histórias que, no fim das contas, não me provocaram maiores danos materiais ou psicológicos. O problema é que, q
uando eu acho que já recordei todos os casos infelizes da minha época de criança, sempre acabo lembrando de mais algum. Não foram melhores nem piores do que as tolices que eu cometo hoje em dia, apenas estavam muito bem guardados nos anais empoeirados da minha memória e acabam voltando à tona sempre que me acontece uma situação semelhante ou quando não tenho coisa melhor para resgatar daquele passado de outrora.

Cronologicamente, a primeira que aprontei foi ainda na pré-escola. No colégio de freiras em que eu estudava, os banheiros ficavam dentro das salas de aula, como se fossem suítes. Faltando dois minutos para o recreio, precisei fazer xixi. Quando voltei, com mais vontade de brincar no parquinho do que de comer o meu lanche, não encontrei ninguém. A turma toda havia saído para o intervalo e a professora, que em nenhum momento sentira a minha falta, tinha chaveado a porta.


No mesmo colégio, houve uma fase em que os banheiros não eram totalmente separados para meninos e meninas. A pia era comum a ambos, mas havia duas portas, uma azul e uma cor-de-rosa, cada uma com uma privada. No dia em que fui acometido de uma baita dor de barriga, desafortunadamente, o compartimento masculino estava ocupado. Foi de dentro da "casinha" rosada, entre uma aula e outra, que ouvi o banheiro se encher de meninas, todas fazendo fila para usar o vaso sanitário a elas destinado.

Ano seguinte, já no primário, o uniforme mudara. Em vez de camiseta vermelha e jardineira, passamos a usar camisa branca e calça azul-marinho. Era desconfortável, só que não o suficiente para me impedir de subir na amoreira que ficava nos fundos do quintal da escola, antes que meus pais viessem me buscar. A noviça que cuidava do portão sempre perguntava se eu andava roubando amoras, mas eu sempre negava, apesar da camisa manchada de roxo e das folhas nos cabelos.

Na terceira série, aconteceram duas tragédias, praticamente na mesma época. Para impressionar uma menina que estudava na minha turma, ingressei na banda marcial. Estava tudo acertado para eu tocar bumbo nos desfiles do dia 7 de setembro. Logo no primeiro ensaio, quando agachei para pegar meu instrumento, a calça de tergal descosturou bem na bunda, do cós ao gavião. Tive de ensaiar uma tarde inteira com o casaco do uniforme enrolado na cintura.

Ainda apaixonado pela rapariga que me fizera entrar para a fanfarra, resolvi demonstrar mais claramente todo o amor 
 
de uma década de vida  que eu sentia por ela. Arranquei um pedacinho de uma das folhas do caderno, escrevi em garranchos um "gosto muito de você", dobrei bem e estendi o papelzinho à minha musa. Ela abriu, leu, releu, suspirou e não teve dúvidas: levantou de sua carteira e correu para entregar o bilhete à professora.

Na quarta série, em determinado momento do final da década de 1970, era moda os meninos colecionarem figurinhas. Tendo preenchido os álbuns do Super-Homem e do King-Kong, chegara a vez dos Futebol Cards, uns cromos com fotos de jogadores do Campeonato Brasileiro que vinham dentro da embalagem do chiclete Ping-Pong. Eu jamais largava as minhas figurinhas, ao ponto de, com medo de ser roubado, guardá-las dentro da cueca durante a aula de Educação Física. Numa tarde de vento forte, logo no aquecimento, no primeiro polichinelo, voaram todas pelo pátio. Não sobrou uma para contar a história.


Das últimas que me lembro, quando eu já não me sentia mais tão criança, aconteceu nas férias de verão. Minha mãe pegou a calça do meu agasalho de praticar esportes e transformou numa bermuda. Cortou as duas pernas na altura do joelho e refez a bainha. Orgulhoso, vesti a nova peça e saí para uma volta pelo bairro, onde absolutamente todos que cruzaram o meu caminho olharam para o extravagante calção. Devem ter reparado, antes de mim, que uma perna era bem mais curta do que a outra.

Depois da escola, no playground do meu prédio, a pirralhada recém-apresentada à pré-adolescência costumava brincar de "casamento atrás da porta", um antigo jogo no qual um dos participantes, com os olhos vendados, escolhia, entre os restantes, alguém para dar um aperto de mão, um abraço, um beijo no rosto ou um beijo na boca. A menina mais velha era sempre a mais cobiçada por todos. Na minha vez, quando tive a sorte de ser escolhido, ela foi taxativa: "Vai ser no rosto, porque eu não beijo menino de aparelho".

Antes de entrar em definitivo na vida adulta, ainda teve uma boa, dessa vez no colégio de padres em que concluí meus estudos. Um professor faltou e não havia ninguém para substituí-lo, então fomos dispensados até a aula seguinte, incluindo o recreio. As meninas foram jogar vôlei; os meninos, futebol. Como eu usava um Rainha Yatch, extinto modelo de tênis sem cadarço que voava longe cada vez que eu dava um chute na bola, troquei o pé direito pelo All Star de um amigo canhoto. Mais tarde, após quarenta minutos de pelada, soou o sinal, anunciando a hora do intervalo. A turma toda debandou, cada um para um lado. Eu também, usando um pé de cada tênis.


Hoje eu já não pago mais micos. A inocência se foi. Tenho evoluído bastante desde que saí da escola. De lá para cá, não apronto quase nada que mereça ser contado numa crônica, muito pelo contrário. As bobagens que eu cometo sem parar, mesmo as mais engraçadinhas, são incomensuráveis. Normalmente, geram algum tipo de ônus para o meu ânus. Além disso, não fazem rir como as estripulias daquela época. Essas de agora eu nem conto, pois são de chorar.
  

25/12/2018

CINQUENTA POR CENTO


Envelhecia só do lado esquerdo. Começara a notar no seu aniversário de trinta e três anos, há algumas semanas. Primeiro foram as rugas nas costas da mão, em seguida a artrite reumatoide, que passara a entortar as articulações de seus dedos. Avaliando-se em frente ao espelho, percebia claramente a flacidez da pele do braço sestro, que balançava por qualquer mínimo movimento, enquanto a do direito permanecia firme e tonificada. Com os dedos destros, lisos e macios, tocava o plano sagital oposto, e arrepiava-se ao sentir o contraste de texturas.


Os cabelos embranqueceram em um único hemisfério de sua cabeça. O olho esquerdo agora estava caído, emoldurado por pés de galinha, e a vista tornara-se turva. Abusou da visão do outro olho até onde pode, pouco antes de adquirir um monóculo. Uma orelha crescera mais do que a outra e tinha também mais pelos. O peitoral ficara mais baixo, a cintura apresentava mais dobras e a perna canhota afinara, quase como uma atrofia, apesar de ambas as coxas e panturrilhas receberem a mesma carga de exercícios na academia do condomínio.

Sentia que o ar penetrava com menos dificuldade pela narina direita. A chiadeira, no entanto, vinha do pulmão esquerdo. Já não mastigava daquele lado da boca, pois seus dentes amoleceram. E havia o desconforto na planta do pé, com a qual não podia pisar sem contorcer-se de dor. Somente o pau não envelhecera. Não é segredo que o órgão genital masculino não sofre com a idade, que permanece com a mesma aparência desde a juventude. Em contrapartida, suas ereções eram breves, porque apenas metade do sangue alcançava o corpo cavernoso.

Ambivalent Indignation (Rieko Fujinami, 2012)

Nas ocasiões em que era imprescindível sair, usava calça, manga comprida e boné. Valeu-se de uma licença-prêmio para não precisar voltar tão cedo à repartição pública onde trabalhava. Quando a situação lhe pareceu insustentável, consultou um geriatra, que confessou jamais ter visto caso semelhante. Nos exames de urgência: um coração fraco, um rim comprometido, parte do fígado deteriorada, o joelho esquerdo desgastado e a surdez em um dos ouvidos. Sinistro, usou a mão boa para cumprimentar o médico e nunca mais contestar seu destino.

Até que morreu. Metade dele morreu. Tinha um lado do corpo absolutamente inerte e outro cheio de viço. Acostumou-se a olhar no espelho e apegar-se somente ao brilho no olho direito, à boa audição, aos cabelos muito escuros, aos músculos do braço, do peito e da coxa que sobraram. Podia controlar a fala e o raciocínio lógico, o que lhe parecia suficiente, ainda que a memória falhasse com frequência. A cada espasmo de consciência, lamentava não ter vivido plenamente enquanto podia. Dali em diante, apesar de tudo, sabia que nada seria diferente.
  

18/12/2018

LÍNGUA NOS DENTES

 
O guri estava sempre na calçada em frente ao nosso prédio. Minha mãe entrava ou saía, sozinha ou com os filhos – eu e meu irmão –, e ele fazia plantão. Pela manhã, à tarde e até certa hora da noite, perambulava pela quadra, brincava solitário com algum carrinho de plástico esquecido ou simplesmente chutava pedregulhos de um lado a outro da rua.

Regulava em idade conosco, devia ter uns oito ou nove anos, mas era mais magro e franzino, queimado de sol, cabelos sem corte. Reparávamos no short desbotado e na camiseta listrada com alguns furos, usados diuturnamente. Muito simpático, sorria sempre, porém, nunca dizia nada. "Não tens mãe? Não tens família?", mamãe perguntava e ele não respondia.

Quando íamos à padaria, voltávamos com alguns pães a mais, às vezes com um sonho ou bolo. Nos revezávamos para estender o embrulho até que seus dedinhos de unhas sujas agarrassem o presente com firmeza. Mostrava os dentes e meneava a cabeça, sem dizer palavra. "Acho que ele é mudo", eu arriscava. E minha mãe me mandava calar a boca.

Na semana em que o general Figueiredo visitava a cidade, o guri sumiu por uns dias. Isso era novembro de 1979. Havia tropas e policiais à beça nas ruas, estudantes em marcha e um clima de iminente revolução. Achamos que poderia ter sido levado para algum abrigo ou que talvez tivesse um lar como o nosso, com mãe, irmãos, comida farta e boas roupas.

Depois reapareceu. Quando saí do prédio para comprar um cachorro-quente na praça, cruzei com ele. Comi o meu ao lado do carrinho, numa esquina próxima, e pedi outro para viagem. Também separamos as roupas que não usávamos mais e as repassamos ao moleque. Na manhã seguinte, já se apresentava com calção menos puído e camiseta sem rasgos.

Em conferência, no quarto do meu irmão menor, ficou decidido que convidaríamos o mascote para subir e tomar um café conosco, à mesa, como se fizesse parte da família. Minha mãe voltava do supermercado e fez o alerta: "Amanhã, às cinco da tarde, venho te buscar pra tomar um café lá em cima com a gente". Ele sorriu de orelha a orelha, mudo como sempre.

No fim do dia seguinte, o piá estava sentado nos degraus da portaria. Banho tomado, cabelos penteados, calça jeans e uma camisa quase nova. Ao lado dele, mais quatro crianças, de idades e cores variadas, todas igualmente arrumadinhas, prontas para fazer uma refeição em nossa casa. "Eu convidei só tu, seu linguarudo!", foi como mamãe o dispensou.

Tivemos de chamar a polícia a certa altura. Aquela pequena gangue de esfomeados passou a atirar pedras nas janelas do apartamento, que não ficava num andar alto. Ainda rondaram a vizinhança por um tempo, até sumirem de vez, o guri entre eles. Nós também acabamos mudando de bairro. E nunca mais oferecemos café a nenhum desconhecido.
  

11/12/2018

TRÊS CHEGADAS

 
Vinha no avião pensando sobre a chegada. Deixara Salvador sem remorso, disposta a mudar de vida, de bairro, de cidade, de estado. E contava apenas com o homem que a esperava em Curitiba. Estaria mesmo esperando? Duvidou por um instante, ainda que não pudesse fazer mais nada. Pedira demissão do emprego, doara algumas roupas, ofendera pela última vez cada um dos muitos parentes dos quais não gostava e despedira-se definitivamente de alguns poucos que não desgostava totalmente. Agora, passava ilesa por uma turbulência leve, enquanto catava os farelos no fundo do saco de batatinhas fritas oferecido pela companhia aérea.

Recolheu a bagagem na esteira e caminhou elegantemente pelo corredor de desembarque. Abriu a bolsa e ligou o celular. Distraiu-se verificando se havia algum recado na caixa de mensagens e tropeçou na barra da própria saia. Tombou de joelhos, chocando o rosto contra a catraca de controle de saída. Um baque agudo, dolorido. Não imaginava de onde vinha o sangue que lhe escorria pelo nariz e não tinha certeza se os dois dentes caídos no piso eram seus ou se já estavam ali antes. Perdeu a consciência. E quando voltou a si, viu-se amarrada a uma maca, que deslizava pelo saguão na direção da saída de emergência, guiada por quatro socorristas uniformizados. Continuava tonta, a ponto de esquecer onde estava e o que viera fazer naquele lugar. O homem permanecia na sala de espera, conforme combinado. Depois de meia hora, entretanto, concluiu que ela não embarcara na capital baiana, que desistira da aventura sem ao menos tê-lo conhecido. Partiu desolado.

Mentira.

Nem pensou na bagagem, uma mala média somente, que passeava solitária pela esteira. Esgueirou-se por uma saída lateral, a procura de uma passagem alternativa ao portão de desembarque. Queria ver com que expressão ele a esperava. Aliás, queria ver as feições do homem ao vivo, pois conheciam-se apenas por fotografias. Em meio às suas divagações, perdeu-se no labirinto de corredores. Não fazia ideia de como fora desembocar no estacionamento, pouco iluminado àquela hora da noite. Tentou voltar pelo mesmo caminho, mas foi abordada por dois estranhos. Um deles apontou-lhe uma arma, enquanto o outro já a asfixiava com um lenço embebido em clorofórmio. Inconsciente, foi arrastada e jogada no porta-malas de um carro. O homem com o qual pretendia se encontrar permanecia na sala de espera. Depois de trinta minutos, porém, desistiu de aguardar. Concluiu que ela optara por não embarcar. E nunca mais soube de seu paradeiro.

Mentira.

Recolheu sua bagagem na esteira e caminhou elegantemente pelo corredor de desembarque. Nem cogitou abrir a bolsa e tirar o celular do "modo avião". Queria apenas que ele a estivesse esperando, talvez com um buquê de flores-do-campo nas mãos, para marcar seu renascimento em terras paranaenses. Olhou de um lado e outro do saguão, até reconhecer seu homem, exatamente como aquele que aparecia nas fotos trocadas ao longo de meses. Não havia flores, mas havia um sorriso em seu rosto, e isso bastou para ela. Quando pararam frente a frente, foi ele que não se conteve:

– Caralhos me mordam! Você é muito mais bonita pessoalmente.
  

04/12/2018

A SECRETÁRIA DO DR. PACHECO


A secretária do doutor Pacheco pediu para sair mais cedo naquela tarde. Quarta-feira era sempre um dia de pouco movimento no consultório, por isso o doutor Pacheco não se opôs. Ela trabalhava há quase dez anos para ele, jamais faltara ou chegara atrasada ao trabalho, e apesar de ser também a primeira vez que pedia dispensa antes do fim do expediente, o afabilíssimo clínico geral não lhe exigiu nenhuma justificativa.

Depois que a sua fiel funcionária se foi, por volta das dezesseis horas, o doutor Pacheco encheu um copo plástico com o café que sobrara na garrafa térmica e folheou a agenda de consultas. Tinha um paciente em seguida – já na sala de espera, para o horário das dezesseis e trinta – e somente um outro, para as dezessete e quarenta e cinco. Sabia que o próximo atendimento seria rápido, pois se tratava de um caso clássico de "mijacão", uma espécie de abcesso na sola dos pés, causado pelo contato com a urina dos equinos, muito comum em cidades interioranas como aquela. Nada que uma pequena incisão, uma pomada cicatrizante e uma bandagem protetora não resolvessem. Então, como não pretendia passar mais uma hora e meia no consultório vazio, resolveu ligar para o último paciente e remarcar a consulta para o dia seguinte.
 


O doutor Pacheco era o único médico do pequeno município de trinta mil habitantes. Atendia pela manhã no posto de saúde da prefeitura e, à tarde, em seu estabelecimento particular. Era casado havia mais de vinte anos e tinha um casal de filhos, ambos estudantes de medicina em uma conceituada universidade da capital do estado. Morava apenas com a mulher em um bairro nobre, na casa que estampara a capa da edição de aniversário da revista 
Medicina & Decoração. Homem de hábitos simples, dormia cedo, acordava cedo, cultivava um bigode e alguns bonsais, frequentava o clube de bocha, bebia Campari e não abria mão de usar cuecas samba-canção, pois os modelos tradicionais, justos e com elásticos nas pernas, pressionavam seus testículos e lhe provocavam insuportáveis cefaleias.

Naquele fim de tarde, portanto, livre de qualquer compromisso profissional, o doutor Pacheco passou no maior supermercado da região e comprou ingredientes para preparar um jantar para a esposa. Depois de tanto tempo, estava certo de que ainda conseguiria impressioná-la com seus dotes culinários.

Abriu o portão automático da garagem, estacionou o carro, apertou a buzina – como fazia sempre ao chegar do trabalho – e esperou o portão fechar. Retirou as sacolas com as compras do porta-malas, acionou as travas e o alarme, constatou que os pneus dianteiros precisavam de calibragem, recolheu a correspondência e foi entrando pela porta da frente. Ao mesmo tempo, nos fundos do quintal, a secretária do doutor Pacheco pulava o muro que dava para um manguezal.
  

27/11/2018

TRÊSCRÔNICASCOLADAS


De manhã cedo, o beijo no rosto. "Tá na hora, meu nego... vai trabalhar, vai." Irene sai apressada e negro Inácio vira-se na cama, cheio de amor no coração. Ainda dá uma afofada no travesseiro antes de voltar a dormir. Lá fora, ela desliza suave morro abaixo. Cadeiras pra lá, cadeiras pra cá, sorrindo aos que só vão descer a ladeira mais tarde. "Bom dia, dona Carminha!" "Bom dia, Irene! Como é que vai o Inácio?" Logo adiante: "Sai pra lá, menino traquinas!" "Desculpa, dona Irene, foi sem querer..." E segue seu caminho de todos os dias. A primeira a sair, a última a chegar, com a disposição e a beleza que Deus lhe deu, os dentes abre-alas muito brancos. No pé do morro, a avenida. Irene toma o ônibus. Quarenta minutos de viagem até a casa do prefeito. Eita, mulata importante: dona da cozinha e a quem os dois filhos de madame Elvira, a primeira-dama, chamam de mãe. Estaciona o lotação. "Vai saltar, seu cobrador, vai saltar!" Desembarca Irene, meiga, distraída em manhã de sol. A cabeça no meio-fio.

Foi abordado por uma cigana na principal praça da cidade. Com carregado sotaque paraguaio, exalando discreto bafo de cachaça, a mulher 
– já de uma certa idade – pediu a ele uma nota de dez reais, justificando que em papel-moeda a sorte se apresentava mais claramente, e que ela não ficaria com o dinheiro, apenas o usaria como instrumento de trabalho. Em grave crise profissional e amorosa, abriu a carteira e ofereceu uma cédula para o sacrifício. A velha zíngara respirou fundo, puxou todo o ar que conseguiu e, num frêmito expectorante, rosnando alto, cuspiu na nota novinha, recentemente saída do caixa eletrônico. Com a ponta dos dedos, remexeu o catarro disforme e volumoso, até desenhar uma rosa-dos-ventos. Durante cinco minutos, a enrugada vidente falou do passado e do futuro, sem que seu cliente prestasse atenção a nenhuma palavra, devido a um embrulho no estômago, seguido de leve tontura. Chegado o fim da consulta, a escatológica senhora devolveu o dinheiro, como havia prometido. Ele segurou a nota – agora úmida e fedorenta – por uma das pontas e seguiu atordoado, cambaleando rumo ao interior da praça. Ao longe, pouco antes de vomitar no canteiro de amores-perfeitos, ainda pode ouvir a voz esganiçada da matusalênica cigana, que dizia impropérios e lhe rogava pragas num idioma muito suspeito.

Chico Peixeiro, pacato cidadão de Miracema do Norte, gastara com gosto todo o décimo terceiro salário no único meretrício do município. Tarde da noite, bêbado feito um guaxinim e jogando futebol com uma bola imaginária, acabou dando uma topada no paralelepípedo da calçada de casa. "Caralho!" "Hehe, bem feito!", tirou sarro a patroa, empunhando um rolo de macarrão. "Vai-te à merda, coisa medonha!" Chico estava puto com uma sua teúda e manteúda, que trocara o segredo da fechadura da palhoça onde se encontravam, além de tê-lo trocado por um conhecido caminhoneiro chamado Arlindo Orlando. "Quem manda eu me meter com fã de música baiana", pensou alto. Quando ia entrando pelo portão, já imaginando a cama quentinha, foi recebido pela esposa com uma traulitada no meio da testa. Caiu por cima das flores do jardim, as mesmas que plantaram juntos logo depois da lua de mel. O sangue espirrou até em suas alpargatas novinhas. Não muito distante dali, os agentes Carmichael e Inojoza nada notaram.
  

20/11/2018

ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL E CORDAS VOCAIS


– Mas tu tens voz de rádio FM, pô!

Foi o que eu disse quando ele apareceu na loja pela quarta ou quinta vez para me vender sanduíches naturais.

Chamava-se Jaime. Gaúcho, amasiado, pai de uma menininha, morava em Florianópolis com a família havia dois anos somente. Devia ter por volta de trinta anos de idade, boa aparência e uma dicção perfeita, sem sotaque, com um timbre que lembrava o do Dirceu Rabelo, o locutor oficial da Rede Globo.

Jaime reclamava da vida dura. Contou-me que a mulher acordava cedíssimo para preparar os sanduíches – de dois sabores apenas: frango e atum – que ele vendia durante todo o dia em lojas, empresas e terminais de ônibus. Concluiu o segundo grau, mas não cursou nenhuma faculdade. Acabou casando cedo, pois a namorada, agora concubina, engravidara sem querer. Como as coisas em Porto Alegre andavam difíceis, acatou a recomendação de um parente e mudou-se definitivamente para a capital catarinense.

– Sabe que já me disseram isso?

Foi o que ele respondeu quando comentei sobre seu vozeirão.

Ofereci-me para apresentá-lo ao Douglas, um amigo que acabara de montar um estúdio de gravações. Eu não podia compreender como uma pessoa com aquela impostação nunca se apercebera do dom que Deus lhe deu. Por sorte, o Douglas andava cadastrando novos locutores para um portfólio, não foi difícil encaixar o Jaime em um teste sem compromisso.

Acompanhei tudo ao lado da mesa de som, de frente para uma salinha com isolamento acústico e um microfone condensador vindo do teto. O texto, digitado em folha A4, descrevia o lançamento de algum cosmético feminino e precisava durar trinta segundos. Jaime gravou de primeira, sem nenhum vacilo, como se nunca tivesse seguido outra carreira que não a de narrador. Preencheu uma ficha com dados pessoais e, antes de sairmos, foi alertado a ficar de sobreaviso, pois poderia ser convocado a qualquer momento.

– Teu fornecedor de sandubas me passou um telefone que não existe.

Foi o que o Douglas me falou quando nos cruzamos em um restaurante do Calçadão. Os 
spots e comerciais foram todos parar nas mãos – ou nas bocas – dos outros profissionais cadastrados.

Fiquei puto. Não sou de ajudar ninguém e, quando resolvo abrir uma exceção, passo vergonha. Ainda bem que o Jaime nunca mais apareceu na loja para me vender sanduíches naturais, senão ia tomar um esporro gutural.
  

18/11/2018

O TAPETE VOADOR


Quem mora em edifício sabe bem do que vou falar.


Geralmente, é pela área de serviço que escutamos os sons mais estranhos e as conversas mais bizarras, vindas dos apartamentos vizinhos. Sei lá, deve ser por causa da conformação arquitetônica, mas o fato é que qualquer coisa que se cochiche parece propagada por todo o prédio, amplificada dez vezes, o que equivale a publicar nossos segredos na pauta da reunião de condomínio.

Pois eu acabara de dar comida aos meus gatos quando reconheci a voz do morador do andar de cima, aparentemente falando sozinho. Depois me toquei que ele estava ao interfone (já que ninguém respondia) e, sem grandes alterações no tom de voz, dizia mais ou menos assim:

Alô! É do novecentos e três? Quem fala? Cremilda? Ah, Cremildes... bom dia, dona Cremildes, aqui é o seu vizinho do setecentos e três, o Ademar, tudo bem com a senhora? (...) Eu sei que a senhora está fazendo o almoço, mas é assunto rápido, é sobre o seu tapete... (...) Como que tapete? A senhora não tem um tapete de pele de urso? (...) Pois é, este seu tapete, que a senhora provavelmente estendeu na janela para pegar um solzinho, acabou de voar janela abaixo e caiu lá no playground. (...) É, no playground(...) Eu sei que a senhora vai mandar a faxineira buscar, só que o problema é um pouquinho mais grave: é que, na passagem, o seu tapete derrubou a minha bochecha-de-velho. (...) Cirurgia plástica? Não, dona Cremildes, eu não sou velho nem bochechudo, me refiro à salacia polyanthomaniaca, que é uma planta ornamental da família das hipocrateáceas, popularmente chamada de bochecha-de-velho. (...) Isso mesmo, a pobre plantinha se estabacou lá embaixo junto com um vaso de porcelana de vinte e dois centímetros de altura por dezoito de diâmetro. (...) Tudo bem que foi a faxineira quem colocou o tapete na janela, mas a senhora é dona do tapete e dona da faxineira, se é que faxineira tem dono. (...) Como e daí? Eu acabei de perder uma planta e um vaso por causa do seu tapete. (...) Quem é que está queimando? Ah, o feijão... (...) A planta custa quarenta e oito reais e o vaso doze. Sessentinha! (...) Não vai pagar? Como não vai pagar? (...) Tudo bem, dona Cremildes, então eu fico com o seu tapete de pele de urso até segunda ordem, combinado? Passar bem!

Na sequência, ouvi a batida do interfone no gancho, uma porta se abrindo e, segundos depois, ecos na escadaria do prédio, de passadas nervosas, em direção ao playground. Lá embaixo, preso na gangorra, um cafona, porém, valioso, tapete de pele de urso.