15/10/2019

DA COMPOSTURA NA PUBLICIDADE


Sentei-me numa das pontas da grande mesa da sala de reuniões. A moça da cozinha já servira a água e o café, Miguel já estava ao meu lado. Ainda de pé, a assistente de atendimento conversava animadamente com o diretor de arte da campanha. Todos aguardávamos o cliente, um empresário, dono de uma gigantesca loja de calçados, e um de seus gerentes, aos quais apresentaríamos meia dúzia de anúncios para revistas e jornais, um folder com as promoções do mês e algumas sugestões de outdoors simples e duplos.

– Tá por dentro de tudo, né? – Miguel perguntou, preocupado.
– Relaxa, passei a noite estudando as peças.
– Ficaram legais, né?
– Pra quem são, ficaram ótimas.

A porta de vidro se abriu e a recepcionista fez entrar um senhor grisalho, de terno e gravata, que, não fosse a cara fechada, poderia ter sido apresentador de qualquer programa de auditório da década de 1960. Logo atrás, bem mais à vontade e rebolativo, o coordenador de marketing da rede calçadista.

– Boa tarde, senhores – disse o velho, sem entusiasmo.

Sentaram-se nas cadeiras à minha esquerda. Ambos esfregaram as mãos, mais para mímicos siameses do que para executivos. Cutuquei Miguel com o cotovelo para fazê-lo entender que poderia começar seu discurso e mostrar as pranchas com os layouts e o boneco do folheto.

Assim que o meu amigo redator começou a falar, flutuei por sobre a mesa, como se tivesse ingerido alguma droga lisérgica, observando tudo e todos de fora do meu corpo. Vi a mão do diretor de arte sobre a coxa da assistente de atendimento; vi a cara de nojo do velho e a cara de tédio de seu aspone gay; acompanhei o esforço da equipe para tentar aprovar um material sofrível, com fotos mal escolhidas e fontes inadequadas, que, na opinião dos criativos, poderia até ganhar prêmio em Cannes. E me vi na cabeceira da mesa, ainda com boa aparência, um ou outro fio de cabelo branco, mais para coroa do que para jovem, com ares de intruso, de bicão, de ator de pegadinhas.

– Onde estão as fotos da minha neta que eu pedi para colocar?
– Desculpe, senhor, as fotos não tinham qualidade – respondi.
– Mas vocês são pagos para fazer o que eu mando!
– Opa, peralá! Somos pagos para fazer a divulgação da sua loja...
– E fazem muito malfeita, por sinal.
– É que não dá pra fazer milagre com aquela espelunca – arrematei.

O velho pulou da cadeira. Também fiquei de pé e quase encostei meu nariz no dele. Pude sentir o fedor de pinho do seu Très Brut De Marchand na pele enrugada. Alterado e corado, ameaçou:

– Essa loja está na família há cem anos, seu moleque!
– Pois então o senhor enfie essa loja no seu cu centenário!

Houve princípio de quiproquó. A reunião seguinte, na tarde do mesmo dia, seria com os outros sócios da agência de propaganda. Na pauta, a minha exclusão do contrato social, em definitivo.

08/10/2019

SETE VIDAS


O velho caminha lentamente, apoiando-se no cabo da pá que carrega na mão esquerda. Na mão direita, um saco de lixo com o cadáver do gato de estimação. Toma mais um pouco de ar e continua rumo aos fundos do terreno. Sente os pulmões ressecados, a musculatura frouxa pela falta de exercícios, as articulações dormentes. Vai entrando pela sombra das árvores. Repara na abundância de verde, mas não se impressiona. Ignora a natureza e suas belezas, como fizera desde sempre. Estaciona-se. Inspira, expira. Escolhe um ponto de chão mais macio e marca um xis com o bico do sapato. Encosta a pá no muro, larga o embrulho com a criatura morta. Olha em volta, num gesto mecânico.


O velho, que nem é tão velho se comparado aos outros velhos, começa a cavar sem ânimo. Enfia a ferramenta no solo, usa um dos pés para empurrar mais fundo, faz a alavanca e arranca um naco de barro misturado com areia e capim. Tenta acelerar o processo, mas consegue apenas acelerar seus batimentos cardíacos. Vai amontoando a terra ao lado do buraco, que nem precisa ser tão largo nem tão profundo, pois o corpo na sacola não é de um felino adulto. Inspira, expira. A camiseta vai grudando em suas costas.

Apronta o funeral da melhor maneira que suas forças permitem. Gostaria de ter preparado enterros como aquele para muita gente: para quem gostava pouco, para quem não gostava, para quem odiava. No entanto, ele mesmo morrera antes, de certa forma. O velho goteja de suor em pleno inverno. Um suor que desce pela testa e vai se acumulando nas sobrancelhas.

Não imagina quanto tempo se passou desde que saiu do quarto. Meia hora, talvez. Mas é improvável que sintam sua falta. Então desenrola o saco plástico e deixa cair o bicho, já endurecido, a pelagem alaranjada sem nenhum brilho ou maciez. Chuta-o para dentro da cova, sem pompa nem cerimônia. Dedica alguns segundos a avaliar toda a cena antes de puxar o barro de volta, cobrindo-o rapidamente, como se tivesse receio de que o animal pudesse reviver e fugir. Aguentaria um fantasma ou dois ou três, qualquer um de seus fantasmas assombrando suas noites, mas não resistiria se voltasse a ter a companhia de um único ser vivo. Enterraria a si próprio antes que isso acontecesse.

O velho olha em volta novamente. Inspira, expira. Ajeita a areia que cobre a sepultura, encosta a pá outra vez no muro e procura por uma nesga de brisa. Não sabe se deve rezar, cantar uma canção em homenagem a todos os gatos do mundo ou só virar as costas e ir embora. Abaixa a parte da frente do moletom, segura o pênis flácido, puxa para trás toda a pele que recobre a glande e aponta-o para a terra recém-remexida. Concentra-se um pouco e mija com dificuldade. Depois se recompõe para fazer o trajeto de volta.

Sunrise Cat (Caroline Conkin, 2014)

Diante do retorno tormentoso, o enterro minimalista parece ter sido a parte fácil da tarefa. Não tormentoso de tristeza pelo gato, longe disso. É que já não pode percorrer nem mesmo pequenas distâncias. Ao menor sinal de palpitação, caga-se de medo de perder os sentidos sem ser notado, nos fundos do quintal da clínica, por exemplo, em meio à mata por onde somente ele costumava se embrenhar de vez em quando. Apoia-se na pá, faz dela uma muleta. Não fosse o desleixo da roupa, poderia se fazer passar por um profeta com o seu cajado. Bem, não por um profeta, na verdade, apenas por um maluco bisonho.

Na metade do caminho inverso, avista um dos enfermeiros. O velho para e observa, a fim de divertir-se com o andar desengonçado e a falta de habilidade do serviçal em mover-se pelo terreno irregular.

– Bom dia, seu Dávide!
– Não é Dávide, é Dêividi.
– Chegou uma encomenda pro senhor, coloquei no seu quarto.
– Que merda.
– Deixa que eu levo essa pá...
– Toma, vai na frente.

O velho ainda permanece parado por alguns instantes enquanto espera o rapaz sumir pela trilha. Em seu íntimo, gostaria de ser atingido por um raio em vez de precisar voltar ao asilo. Suspira. Retoma a passada lenta. Aproxima-se do casarão de paredes azuis, telhado azul, janelas e colunas azuis. Agora a passagem de pedregulhos transforma-se numa calçada lisa e bem cuidada. Inspira, expira. Sobe um par de degraus e dá apenas mais quatro passos sobre o piso estampado em direção ao hall de entrada, e dali ao corredor que leva aos dormitórios.

Tropeça na caixa de papelão logo que empurra a porta. O embrulho se mexe. E se mexe novamente. Um miado muito fraco vem de seu interior e o velho nem precisa abri-lo para entender o que está acontecendo.

– Esse gato não morre nunca... filho de uma puta!

01/10/2019

NOTA DE FALECIMENTO

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia.
(...) No espelho, essa cara não é minha.


Tenho um amigo que sempre soube que não chegaria aos cinquenta. Morreu antes, bem antes. Na verdade, veio morrendo amiúde, até quase atingir meio século de idade. Virou um arremedo de ser humano.

Da criança quieta ao adolescente inquieto, e de lá ao homem absolutamente deslocado no mundo, foi ficando mais triste, mais pobre, solitário, menor. Corcunda, magro, anêmico, impotente. Foi perdendo o vigor, o brilho, a esperança. Esquecido, cansado, incompreendido. Um cão sem dono, uma árvore no outono. Definhando.

Não por doença nem por nenhuma fatalidade, apenas pela vida mal vivida. Quem dera fosse envenenamento, acidente, tiro, amor, cólera, punhalada nas costas. Ele só morreu e pronto. Não encontrou razão para continuar, não vejo nada de espantoso nisso.

Simplesmente não sonha mais nem quer chegar a lugar nenhum. Não foi o que pretendia ser nem pretende ser diferente do que é. Pela primeira vez, não tem paixão nem ódio dentro de si. Toda a responsabilidade e dedicação, toda a ética e sensibilidade, enfim, virtudes das quais se orgulhava, nunca tiveram utilidade. Cultura? Criatividade? Lérias.

O tempo foi passando, as rugas foram aparecendo, os cabelos embranquecendo. E ele se transformando numa criatura abominável, intolerante, amargurada, incapaz de conviver com seus semelhantes. Um zé-ninguém, um zero à esquerda, um qualquer. Inábil, infeliz. Morto por dentro e por fora. Aquele que não sabe a diferença entre o certo e o duvidoso, entre o bem e o mal, entre o céu e o inferno.

Ele confessa: não presta. E também não existe. É um homem invisível, um perdedor, o cara que todos amam detestar. Será sempre aquele que não nasceu para aquilo. Cada vez mais desajustado, cada vez pior. Com frio, com fome, a pé. Sem dinheiro, sem parentes, atroz.

Contudo, calado. Cem ressurreições seguidas, até não haver mais saída. E nem foi preciso pular do alto de um edifício ou se atirar na frente de um caminhão. Bastou ter coração, personalidade, acreditar na sorte.

Dizem que o fim chega logo para canalhas como ele, sem berço, sem estrela. Do tipo que não se vende, que não recua, que não chora. Da categoria dos excluídos, dos esquisitos, dos que não foram abençoados. Dos que fazem de tudo um pouco e quase tudo mal feito. Insosso, insípido, inodoro. Frio, de alma canhestra.

Esse meu amigo jura que lutou, mas perdeu a guerra. Tomou o trem errado, saltou no bairro errado, viveu uma vida que não era a sua.

E agora morreu, antes mesmo dos cinquenta, como havia imaginado. Sem plantar uma árvore, sem ter um filho, sem escrever um livro. Anônimo. Gauche desde o início. Somente um peso, um estorvo, um cadáver. Amontoado disforme de culpas e cinzas.

E vazio. Imensamente vazio, ele me contou.

24/09/2019

A PARENTE MENTE


Passava um pouco das nove da noite e já não havia mais ninguém nas ruas. "Sombrio, turvo, ermo", foi o que pensou o forasteiro que entrava na cidade a pé, carregando somente uma mochila de lona. Fora assaltado na estrada, levaram-lhe o cavalo, a arma e os últimos trocados. Agora, apesar de tudo, precisava apenas de um copo d'água, talvez uma bebida, e um canto para dormir.

À medida que avançava, percebia vultos por detrás das cortinas, por entre as venezianas, por qualquer espaço protegido pela escuridão. Caminhou na direção da única porta aberta, de onde vinham vozes e uma luz intermitente de velas acesas. Um corredor de velas, cada uma dançando num ritmo próprio toda vez que uma lufada de vento morno atravessava o ambiente. No centro da pequena casa de madeira, um caixão fechado, coberto de flores. "Mas que porra...", foi o que pensou o estranho ao tirar o chapéu em sinal de respeito. Entre meia dúzia de mulheres chorosas, o padre mostrou-se aliviado.

– Finalmente chegou quem faltava! Podem ir todos, com a graça de Deus. O cunhado do falecido cuidará de consolar sua querida irmã, diante desta perda lamentável. Amanhã cedo nos encontraremos novamente, no cemitério. Boa noite, meus filhos! Lembrem-se de orar pela viúva e pela alma de seu devotado esposo.

Depois de dez minutos, viu-se sozinho com uma moça de vestido preto, o caixão entre eles. A anfitriã fechou a porta por onde o povo acabara de sair e apagou o lampião da varanda. "Bela, recatada e do lar", foi o que pensou o forasteiro quando ela o encarou com enormes olhos castanhos, tristes e lacrimejantes, encobertos por um véu de filó.

– Meus pêsames.
– Obrigada.
– E agora?
– Agora nada, vamos dormir.

Sem mais palavras ou gestos, enquanto o visitante enchia dois baldes com água do poço no fundo do quintal, a viúva trocava os lençóis da cama de casal. "Hoje vou me vingar de todo o sofrimento, amado marido", foi o que ela pensou antes de rasgar o telegrama que recebera à tarde, durante o velório. Em um dos pedaços de papel, caído para fora da lixeira, ainda era possível ler claramente, logo abaixo do timbre da agência postal: "Não poderei comparecer, cuide-se bem".

17/09/2019

AS AVENTURAS DO HOMEM INDIZÍVEL


– Sequoia ou baobá? 
– Sobre o tamanho ou sobre a aparência?
– As duas coisas.
– A sequoia ganha em altura e o baobá ganha em beleza.
– Já viu algum de perto?
– Não, senhor... só em fotografias.

Era uma entrevista de emprego, mas não parecia. Estava mais para teste de cultura inútil. Percebi a impaciência no semblante do avaliador, ainda sem saber se ele me considerava muito novo ou muito velho para escrever aos leitores da sua revista semanal. Pensei em argumentar que na Folha de S. Paulo, por exemplo, hoje em dia qualquer zé-mané tem uma coluna ou um blog. Contudo, apenas pensei. Talvez não fosse o momento de admitir que eu também era um qualquer. Ele folheou a agenda à sua frente e veio com um bate-bola.

– Atriz preferida?
– Jennifer Connelly.
– Cantor?
– Vivo ou morto?
– Vivo.
– Morrissey.
– Escritor?
– Rubem Fonseca.

Pelas minhas pesquisas, a publicação se destinava aos jovens. Tinha mais imagens do que textos, obviamente, e dava importância aos avanços tecnológicos, aos festivais de música eletrônica, aos campeonatos de jogos on-line e aos cursos de educação à distância.

– Senna ou Piquet?
– Piquet.
– Por quê?
– Foi igualmente tricampeão dirigindo carros inferiores.
– Muito bem... Pepsi ou Coca?
Design ou sabor?
Design.
– Pepsi.

Estranhei o fato de o meu interlocutor beirar os 60 anos de idade e não ter a mínima ideia de como o mundo funciona. Uma revista impressa, distribuída nas bancas por um valor que nenhum adolescente desembolsaria, me pareceu claro indício de vida curta ou bancarrota.

– O que pensa sobre Anitta?
– Anita Malfatti?
– Não.
– Anita Garibaldi?
– Não.
– Anita Baker?
– Não.
– Mel Lisboa em "Presença de Anita"?
– Não.
– Então não penso nada, senhor.

Considerando que eu sempre me comportara como um ancião desde os tempos de escola, perguntei a mim mesmo se seria capaz de escrever para gente nova. Certamente que não. Meu desprezo pela juventude e os fantasmas de todos os meus ex-chefes normalmente são o grande empecilho nesses instantes da minha vida. Na hora H, no dia D, é batata que um outro Eu se sobrepõe ao Eu original e toma as rédeas da conversa. Sem plano de saúde, sem vale-refeição, sem relógio-ponto, sem independência editorial: "kkk".

– Pretensão salarial?
– Seria muita pretensão se eu dissesse.
– Prefere trabalhar em casa ou na redação?
– Tanto faz, moro aqui perto.
– Tem algo a acrescentar?
– A esta conversa ou à empresa?
– Ambos.
– Nada.
– Nada?
– Nadinha.

10/09/2019

MISTUREBA


Percebi que a rapariga do caixa me olhou de um jeito esquisito quando fiz o pedido. Provavelmente eu era o primeiro cliente na história da lanchonete a escolher uma combinação tão absurda, e talvez por isso ela tenha aguardado a minha terceira confirmação verbal antes de gritar debochadamente para o pessoal da cozinha:


– Um McFish e um capuccino de meio litro, por favor!


Na semana passada, num restaurante italiano, daqueles em que se pode combinar livremente os ingredientes dos pratos, me aconteceu episódio parecido. Eu andava com vontade de experimentar o nhoque da casa e, ao mesmo tempo, com um desejo gestatório de comer espaguete à carbonara. O garçom, muito gentilmente, anotou o pedido.


– Qual massa, senhor?

– Nhoque.
– E o molho?
– Carbonara.
– Tem certeza?
– Por que, não pode?
– Pode... mas é estranho.

Quando anunciei que ia beber suco de abacaxi com hortelã para acompanhar, achei que ele fosse me bater com o cardápio na cara.


Inexplicavelmente, trinta minutos depois, um segundo funcionário veio servir a gororoba (admito, a aparência não fez jus ao sabor), enquanto o primeiro tomava um Plasil em outro setor do estabelecimento.



Ora, quem não tem lá as suas esquisitices gastronômicas? Meu irmão mais novo sempre come bolacha maria besuntada com o feijão que sobra do almoço; tive uma vizinha que amassava abacate com sal e pimenta em vez de açúcar e limão; eu mesmo, bebo café gelado e prefiro Coca-Cola sem gás. Além do mais, existem tantas harmonizações inviáveis – culinárias ou não – que ninguém contesta, como a Dakota Fanning fazendo papel de refugiada muçulmana, por exemplo. A democracia e o governo brasileiro também são coisas que não combinam, mas aí já é assunto para outro texto.

Voltando ao nosso tema: o que pretendo dizer é que nem a moça da lanchonete nem o garçom do restaurante têm o direito de torcer o nariz para nenhum pedido de nenhum cliente, por mais bizarro que pareça (o pedido, não o cliente). Cada um sabe de suas potencialidades digestivas e faz a mistureba que bem entender, dane-se a opinião alheia.


Por isso, não quero nem imaginar o que dirão os franceses se souberem que costumo raspar toda a cobertura do croque-monsieur ou como reagirão os enofílicos assim que eu revelar que tenho aqui, ao lado do computador, daqueles copos tipo long drink, com vinho importado, muita água, gelo, adoçante e um canudinho flexível.


03/09/2019

LETRA & MÚSICA (2)


O casal de aficionados da MPB e do pop-rock nacional, divorciado há cinco anos, volta a se encontrar no mesmo barzinho com som ao vivo, na mesma minúscula mesa redonda. Ela tenta quebrar o gelo:

– Como vai você? 
– Tenho o que me falta e o que me basta, no mais é ficar só.
– Eu fico à vontade com a sua ausência...
– Eu quase não saio, eu quase não tenho amigos.
– Vai melhorar... é bola pra frente, depende da gente.
– Sou um presidiário cumprindo sentença.
– Pois vai curtir seu deserto, vai.
– Mas te vejo e sinto o brilho desse olhar...
– Você foi dar um mergulho e por pouco não se afogou.
– Eu percebi trauma, que eu vivi um trauma.
– Tente outra vez!
– Eu só preciso ter você por mais um dia.
– Eu, hein? Nem pensar.
– Estranho, mas já me sinto como um velho amigo seu.
– Pois é, não deu.
– Me diz por onde você me prende...
– Será que é tempo que lhe falta pra perceber?
– Tempo, tempo, mano velho!
– Fique feliz, na boa, e tudo vem.
– Tente passar pelo que estou passando...
– Esqueça de mim, que, afinal, pra esquecer você tem experiência.
– Me dá um beijo, então.

Beijam-se despudoradamente durante alguns minutos. O que ele imaginou ser uma reconciliação, para ela era uma tardia vingança. Pedem mais dois chopes, uma porção de fritas e retomam o diálogo.

– Eu bebo um pouquinho, pra ter argumento.
– Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar...
– Se você disser tudo que quiser, então eu escuto.
– Eu gosto é de mulher!
– Isso me dá tic-tic nervoso!
– Quando entrar setembro e a boa nova...
– Quem é ela?! Quem é ela?!
– Isso do medo se acalma, isso de sede se aplaca.
– Meu rosto vermelho e molhado é só dos olhos pra fora.
– Tanta coisa muda nessa hora, que o mais valente dos homens chora.
– Ok, você venceu.
– Acabou. Boa sorte!
– Não esquece de mim, mesmo que seja ruim.
– Cuide-se bem... perigos há por toda a parte.


Gabarito: Antônio Marcos, Sérgio Sampaio, Toni Platão, Dominguinhos e Gilberto Gil, Maria Rita, Vander Lee, Toquinho e Vinícius, Cidadão Quem, Camisa de Vênus, Clínica (Fernando Salem), Raul Seixas, Lô Borges, Kleiton & Kledir, Nando Reis, Los Hermanos, Marina Lima, Lenine, Pato Fu, Zizi Possi, Luiz Melodia, Pimpinela, Lulu Santos, Nana Caymmi, Geraldo Vandré, Secos & Molhados, Ultraje a Rigor, Magazine, Beto Guedes, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Frejat, Benito Di Paula, Blitz, Vanessa da Mata, Wander Taffo (Rádio Táxi), Guilherme Arantes.

27/08/2019

A LENDA*


Acabara de deixar um passageiro em Higienópolis. Longe de seu ponto, mas aproveitando que já estava por ali, resolveu procurar a oficina que lhe recomendaram, em algum canto do Jardim Lindoia. Precisava ver o que era esse barulho no motor, cada vez mais agudo, sempre que acelerava. "Correia dentada... só pode ser correia dentada", pensava ele, ao mesmo tempo em que correspondia ao aceno de um transeunte.


Mauro Edson Santana Castro, o taxista mais famoso de Porto Alegre, nunca fora afeito a manutenções periódicas em seu veículo. Preferia trocar de carro (como fizera recentemente) a consertar pequenos defeitos. No entanto, o caso agora era diferente: com o táxi ainda na garantia, não se conformava com a incompetência da rede autorizada, que não havia descoberto o defeito em duas revisões seguidas. Por isso, meio a contragosto, estava prestes a apelar para uma suspeitíssima mecânica de fundo de quintal.


Quando avistou a placa, na qual a palavra "suspensão" aparecia escrita com cê-cedilha, não teve dúvidas de que chegara ao seu destino. Ao descrever os sintomas para o mecânico-chefe, descobriu que correia dentada não existe mais (modernamente fala-se apenas "correia") e que o problema era de simples solução. "Nada que uma enceradinha com vela de sete dias não resolva", concluiu o curandeiro automobilístico do estabelecimento. Assim, aliviado com a notícia do baixo custo do conserto, bateu-lhe uma tremenda vontade de fazer xixi.


Corajosamente, Mauro encaminhou-se ao banheiro que ficava na parte de trás da oficina, ao lado da máquina de calibragem. No ambiente, ricamente decorado com calendários de garotas seminuas, encantou-se com uma loira de olhar distante e seios fartos. Permaneceu alguns segundos hipnotizado diante dela, sobretudo por uma pinta próxima ao canto esquerdo do lábio superior, no melhor estilo Cindy Crawford. Pensou em arrancar a página da folhinha como recordação, mas contentou-se em fotografá-la com a câmera do celular.


Pouco depois, já no caminho de volta para o seu ponto (na esquina da rua Saldanha Marinho com a avenida Getúlio Vargas), recolheu uma passageira que lhe fazia sinal desesperadamente. Pelo retrovisor, logo que a mulher guardou os óculos escuros num estojo, ajeitando-se nervosamente no banco traseiro, Mauro a reconheceu e não se conteve:


– Santa Francisca Romana! Mas é a loira do banheiro...


Constrangida, a modelo baixou os olhos e pôs-se a procurar algo em sua bolsa. Não era um telefone nem maquiagem nem nenhuma arma de fogo. Finalmente, agora sorrindo enigmaticamente, pegou uma caneta e um exemplar bastante surrado do livro de crônicas lançado pelo calvo chofer de praça em 2006. Com as mãos trêmulas de emoção, cutucou-lhe o ombro e sussurrou com voz rouca, suplicante:


– Escreve aí, seu Mauro: "Para Gislaine, com carinho", por favor.



*Crônica antiga, de 2009, em homenagem ao amigo Mauro Castro, autor dos quatro volumes de "Táxi Tramas: Diário de um Taxista", que viraram até série de TV, pela Prime Box Brazil, em 2019.


20/08/2019

TROCO


Era muito cedo, a lanchonete ainda estava vazia. Escolhi uma mesa de fundos, num canto, preparada com toalha de plástico, paliteiro, saleiro e porta-guardanapos. A tevê ligada no canal de esportes, sem volume. O dono logo apareceu, meio que se desculpando:

– O senhor aguenta um pouquinho que o meu garçom já tá chegando.
– Não tem problema, não tô com pressa nenhuma.
 Toma aqui o cardápio...
– Só me vê um copinho d'água antes, pode ser torneiral mesmo, que eu hoje acordei com aquele gosto de cabo de guarda-chuva na boca, sabe? Escovei os dentes duas vezes e não adiantou nada.

Enquanto eu passava os olhos no menu, o garçom vinha chegando, à paisana, segurando dois sacos de ração canina, um em cada mão. Sumiu pela porta da cozinha. Dali a uns minutos voltou, gomalina no cabelo, ajeitando a gravata-borboleta.

– Bom dia! O senhor quer pedir agora?
– Sim... pode ser uma média e um pão com manteiga.

Outro tempinho, ele me serve.

– Mais alguma coisa para o doutor?
– Tu tens cachorro?
– Tenho coxinha de frango e pastel de carne, os dois fresquinhos.
– Não, não... é que te vi chegando com uns sacos de ração, vais levar pra casa no fim do dia ou foste comprar pro teu patrão?
– Ah! É pro meu cachorro, achei em promoção numa agropecuária.
– É de raça?
– Que nada, peguei na rua... uma história meio triste e meio alegre.

Na falta de novos clientes no estabelecimento, incentivei:

– Me conta, pô.
– Pois é... o senhor lembra de uma notícia que deu no jornal há umas duas semanas, daquele policial rodoviário que tava de mudança, levou toda a mobília, a mulher e os filhos, mas ia deixando o vira-lata?
– E dá pra esquecer? O cretino amarrou o bicho no para-choque e arrastou o pobrezinho por um quilômetro, até que a corda arrebentou.
– Isso mesmo... a criatura ficou em carne viva, praticamente sem vida, doutor. Aí os meus meninos trouxeram ele pra casa e nós ficamos cuidando. Tá vivinho! Correndo, pulando cerca, tudo.

Percebi seus olhos marejados e resolvi encerrar o assunto.

– Então a parte alegre é que apareceu uma boa alma como tu?
– Que nada, a parte boa vem agora: fiquei sabendo ontem que o tal policial rodoviário tava controlando o trânsito na BR-101 por conta de um acidente, veio um caminhão desgovernado e passou por cima.
– Morreu?
– Mais ou menos... o motorista não viu que ele tinha ficado preso num pneu e só foi parar quinhentos metros adiante.

Àquela altura, o café estava frio e o pão murcho. Terminei meu lanche vendo um jogo repetido na tevê sem som. Acenei de longe para o garçom e fui me dirigindo ao caixa. O dono se desculpou novamente:

– O senhor perdoe o meu funcionário, já pedi pra ele não puxar conversa com cliente. Uma média e um pão com manteiga, mais alguma coisa?
– Me dá o troco todo em bala de hortelã! Esse gosto de cabo de guarda-chuva na boca hoje tá me matando.

13/08/2019

UMA NOITE EM 89


Completara dezoito anos, mas ainda não sabia dirigir. Os vizinhos contemporâneos já davam voltas pelo quarteirão desde os quatorze, nos carros dos pais, enquanto ele, humildemente, fazia todas as suas viagens a pé ou de bicicleta. Que perdedor! Mesmo assim, sem que houvesse explicação para isso, as garotas se apaixonavam. Talvez por que fosse fã de Suzanne Vega e tivesse uma banda de rock.


Em seu bairro, no lugar onde hoje fica o Seven Rocks, existia outro bar, no qual as bandas locais podiam tocar cinco ou seis músicas por noite em troca de cervejas. Uma garrafa para cada integrante e mais nada. Por ser simpático, criado nas redondezas, permutava a bebida a que tinha direito por duas latas de Coca-Cola, uma para o começo e uma para o fim da jornada. Esse antigo estabelecimento era sombrio, com paredes pichadas e uma única lâmpada verde acima do palco. Nem era exatamente um palco, somente um tablado, em que cabiam grupos de pós-punk de três elementos, bem como big bands de doze músicos, incluindo naipe de metais. O público, os de sempre: pessoas conhecidas umas das outras, apesar de não se conhecerem de fato.


Há muito abandonara a ideia de virar músico profissional, não se dava com os caras que tocavam com ele ou com quaisquer caras do meio musical. Entretanto, havia uma garota que frequentava os shows – um dia na semana, todas às quintas – e que, de certa forma, não o deixava desistir. Várias vezes convenceu a banda a abrir mão de se apresentar em lugares melhores, com cachê, apenas para revê-la. Não era o tipo de mulher por quem um homem se masturba diariamente, nada disso. Para ele, ela não tinha peitos nem bunda nem vagina, tinha só olhar e sorriso, ambos de efeito hipnótico.


Antes de aceitar uma carona e levar seu contrabaixo para junto do restante dos instrumentos, mirava o ambiente. Precisava certificar-se de que ela estaria em algum canto, com seus olhos negros e cabelos azuis ou olhos azuis e cabelos negros (a luz esverdeada o fazia confundir as cores), discretamente a observá-lo, num jogo indefinível. Dançava, bebia, cantava e, ao final de tudo, desaparecia sem que ele pudesse lhe oferecer um refrigerante.

Quando o bar estava prestes a mudar de dono  para depois transformar-se no refinado e iluminado Seven Rocks , houve uma espécie de festival, com todos os grupos que por lá passaram nos últimos anos. Ao jovem baixista, já não interessavam as lembranças nem as bebidas nem a festa, queria vê-la novamente e, se lhe brotasse alguma coragem, pediria seu número de telefone.


Passava das quatro horas da madrugada. A van da banda buzinava na calçada, em frente à porta de entrada. Procurou a garota e entrou em pânico ao percebê-la se aproximando. Era quase tão alta quanto ele e tinha uma pele alva e lisa como jamais vira na vida. Ela deu um beijo em seu rosto, desconsiderou sua franja ensebada e disse com uma voz grave, mais adulta do que indicava a frágil aparência:


– My name is Luka!


06/08/2019

A BIBLIOTECÁRIA


Era um convite de casamento. E o fato de não ter remetente nem carimbo de postagem significava que fora deixado ali pessoalmente. Da inicial lentidão, Paulina passou a acelerar o processo de abertura do envelope, rasgando-o completamente. Ao reconhecer o nome e o sobrenome de um de seus ex-namorados, o único por quem fora verdadeiramente apaixonada, lembrou-se de uma canção de Reginaldo Rossi e não conteve as lágrimas.

Com as lentes dos óculos embaçadas pelo choro, seguiu para o trabalho. Pelo caminho, ia lendo e relendo todos os dados impressos em papel vergê no convite humilde, do nome dos pais da noiva ao endereço da capela em que a cerimônia seria realizada, no município de Schroeder, ao norte da pacata Jaraguá do Sul do final da década de 1990. A distância até a Biblioteca Pública Municipal Rui Barbosa, no centro da cidade, parecia ter dobrado naquela manhã de segunda-feira. Mesmo assim, Paulina chegou no horário.

Durante todo o expediente – e no restante da semana –, classificou livros e revistas com os códigos invertidos, além de guardá-los na seção errada. Confundiu, em diversas ocasiões, a Classificação Facetada, na qual os documentos mais complexos sofrem sucessivos desdobramentos a fim de facilitar-lhes a compreensão e o arquivamento, com a Classificação Decimal Dewey (CDD), bem mais simples, utilizada para agilizar a localização de material em qualquer parte do acervo. Nas prateleiras organizadas recentemente pela bibliotecária, tornaram-se comuns os encontros de Carl Sagan e Carl Jung no espaço destinado à literatura oriental ou de Cora Coralina e Cora Rónai no estande dos semanários.

Apesar da paixão com que costumava se entregar ao ofício, não conseguia parar de pensar no grande amor de sua vida nem na proximidade da data do casamento. O homem a quem ela dedicara quase cinco anos da adolescência e da juventude ia se casar com uma desconhecida em menos de dez dias.



Conheceram-se por acaso. Ele, ainda muito novo, havia perdido quase toda a visão em decorrência de uma retinite pigmentosa, doença ocular degenerativa de acentuado caráter hereditário. Paulina o avistou pela primeira vez próximo a uma construção tentando ler um muro de chapisco, imaginando tratar-se de um outdoor em braille. Encantou-se imediatamente com sua ingenuidade e com sua delicadeza. Após o terceiro ou quarto encontro, ele já era incapaz de ir a algum lugar sem ela ou de criticar sua maneira bisonha de se vestir.

O fim do romance foi inesperado, porém, previsível. Enquanto Paulina estava de mudança para Florianópolis, onde cursaria Biblioteconomia na UFSC, ele decidiu seguir sua rotina como instrutor de uma autoescola no próspero município de Corupá, maior produtor de bananas de Santa Catarina. Não houve despedida nem juras de amor. Nem nunca mais deram notícias um ao outro.

Agora, na véspera do matrimônio para o qual fora convidada, estava agitada. Preferia não ter sido lembrada pelos noivos. Perdida num turbilhão de pensamentos desconexos, não conseguiu dormir durante toda a noite de sexta-feira. Precisava libertar-se do passado, precisava fazer com que aquele sábado de maio fosse apenas mais um sábado sem importância.

Ao despontar dos primeiros raios de sol, finalmente, tinha um plano. Perfeito, infalível. Paulina levantou-se, tomou um banho, vestiu sua melhor roupa, contou as notas de dinheiro na carteira e saiu, decidida a fazer o que qualquer mulher faria em seu lugar. Primeiro cortou os cabelos bem curtos; depois comprou três pares de sapatos no crediário. A plástica no nariz aquilino, infelizmente, teria de esperar mais um pouco. Talvez até a sua próxima licença-prêmio.


30/07/2019

A MELHOR CRÔNICA DE TODOS OS TEMPOS DA ÚLTIMA SEMANA


Imprimo duas cópias da crônica que acabo de escrever. Acondiciono as folhas num envelope e, em seguida, ligo para o jornal. Peço que mandem o boy vir buscar. Também aproveito para recomendar que o texto passe pelo copidesque, pois não o revisei com o esmero de sempre. O tempo era curto, mas está feito: minha última coluna para o jornal de domingo, depois de trinta anos.

– Tá atrasado, pô! Vai foder todos os prazos  desespera-se o editor.

– Calma! Escrevo devagar porque já tive pressa...
– Vai tomar no teu cu! Isso é hora de fazer piadinha?

Afasto o aparelho do ouvido. Ele continua:

– Sobre o que é?
– Sobre o que é o quê?
– A crônica, viado! A crônica!
– Ah... não importa, é surpresa.

Ao primeiro toque da campainha, atendo o contínuo e lhe ofereço um copo d'água. Com o envelope nas mãos, antes de ir, o rapaz não se contém:

– O senhor sabe que dá pra mandar esse material por fax, né? Tem até um negócio chamado e-mail, que o jornal começou a usar, dizem que vai tudo pela linha telefônica, mas aí precisa de um computador...
– Sim, estou por dentro.
– Seria mais rápido, tá todo mundo só esperando o seu texto.
– Então corre, meu filho!

De fato, eu saberia depois, o diagramador estava de plantão, olhos fixos no único espaço em branco da edição especial, aguardando a composição que chegara há pouco e que estava sendo digitada e revisada ou, na pior das hipóteses, um calhau*.

Perto da meia-noite, o telefone toca.

– Alô!
– Tiveste mais sorte do que juízo, a crônica vai sair.
– Podias ter deixado de fora.
– Imagina, justo a tua última coluna... até o presidente já ligou perguntando.
– O presidente da república?
– Não viaja, pô! O presidente do grupo de comunicação.
– E o que achaste?
– Ele estava com a voz boa, se curou daquele resfriado.
– Da crônica, viado!
– Ah... sensacional, a melhor que já escreveste.

No domingo de manhã, bem cedinho, desço para tomar um café no boteco do outro lado da rua. Pergunto ao porteiro pelo jornal e ele me diz que o entregador está atrasado. Dou de ombros e saio do prédio. Uma equipe da CNN me aborda na calçada. Na banca da esquina, uma longa fila vai se formando.


*Determinados anúncios, referentes ao próprio jornal, preparados com antecedência para preencher os espaços em branco criados pela falta de material previsto, tanto jornalístico quanto de publicidade.

09/07/2019

OS ROBINSON


Um bairro de classe média-alta. Mais para alta, na verdade. Desses lugares em que as casas não têm muros, onde vivem advogados e gerentes de banco, com suas esposas pedagogas ou psicólogas, suas filhas chamadas Harriet, cachorros de língua cinza e carros suecos. O senhor Robinson lavava a calçada em frente à garagem quando, entre um e outro intervalo do aparelho vaporizador, ouviu um miado muito fraco, que lhe pareceu ser de um filhote de gato debilitado.

Precisou dar poucos passos em direção ao fundo do quintal para avistar a caixa de papelão com o animal dentro. Ao mesmo tempo, a senhora Robinson, que também ouvira sons estranhos, aproximava-se do local.

– É mesmo um gatinho! As crianças vão adorar, não? – disse ele.
– O bicho é cego, meu bem... arrancaram-lhe os olhos  observou ela.

No lugar dos globos oculares, apenas dois vazios, tomados por secreções. O minúsculo felino, de pelagem parda, já miava sem forças, mexendo a cabeça feito um periscópio, como quem procura as chaves do Volvo ao se atrasar para um compromisso importante.

O casal providenciou um pires com leite. E enquanto o homem guiava a cabeça do filhote até o alimento, a senhora Robinson retomou o diálogo:

 Você precisa sacrificá-lo antes que as crianças cheguem.

Ele sabia que a esposa estava certa. Não podia condenar aquela criatura a viver sem visão, a ser mais um estorvo no mundo, como tantos, incluindo os que enxergam perfeitamente. Levantou-se e buscou uma sacola retornável, de supermercado, na qual enfiou o bichano. Saiu a pé pela rua principal. Depois dobrou a esquina, numa travessa estreita, e seguiu ainda um quilômetro. Parou diante de uma construção abandonada.

Começava a escurecer. No interior ermo da obra, separou dois blocos de concreto. Ajeitou o primeiro no chão de areia e depositou sobre ele a sacola com o gato cego, que mal se debatia. Levantou a segunda peça acima da cabeça e, num único movimento, desferiu o golpe definitivo. Alguma coisa se quebrara em pedaços, mas era impossível reconhecer a diferença entre ossos ou tijolos.

No caminho de volta, nenhum novo miado, somente o silêncio ensurdecedor do bairro. Entrou pela casa de dois andares, com floreiras nas janelas. Subiu as escadas e foi direto para a suíte, onde se deixou cair sobre a cama king, com o rosto mergulhado nos travesseiros de plumas de ganso e fronhas de algodão egípcio.

Na calçada, o ônibus escolar largava o casal de filhos. Ao descer para receber as crianças, a senhora Robinson fechou a porta do quarto, para que o marido pudesse chorar mais um pouco antes do jantar.

02/07/2019

UM FURTO FURTIVO


Roubaram o meu capacho. E não me refiro a nenhum aspone puxa-saco nem a nenhuma secretária adepta do serão extra noturno, não. Roubaram mesmo foi o tapetinho que fica do lado de fora da porta de entrada do meu apartamento.

Um caso muito estranho: cheguei do trabalho e ele, que é peludo, com formato e estampa de gatinho, não estava no lugar de sempre. Olhei primeiro pela janela do corredor, afinal, podia ter voado lá embaixo, como aconteceu há pouco tempo com o tapete de pele de urso de uma senhora do andar de cima. Olhei também na lixeira do prédio. Procurei nas portas dos outros apartamentos, pois a faxineira do período vespertino, já um tanto idosa, eventualmente promove uma dança de capachos no condomínio, inclusive entre os andares. Mas não, nada. Sumiu, desapareceu, escafedeu-se. A velhinha não viu, o porteiro não viu, o zelador não viu, o síndico não viu.

Claro que ninguém viu, certamente estão todos mancomunados com o larápio de adornos de piso que, por sua vez, deve servir a uma rede internacional de tráfico de pelegos com motivos animais.



Na minha lista de suspeitos, em avaliação preliminar, figuram as gêmeas do fim do corredor, sobretudo a mais antipática; o padre Parkinson, com menos chance, pois se ele pegasse o capacho ao meio-dia eu ainda o alcançaria antes das seis da tarde; a estudante solitária e tímida, provavelmente como forma de chamar a atenção antes de apelar para o suicídio; o pai solteiro, tendo como cúmplice a sua filhinha com cabelo de Playmobil, porque a menina decerto achara o tapete fofinho; e, por último, o velho pedófilo da porta ao lado, que pode tê-lo oferecido como mimo a uma de suas vítimas, dizendo carinhosamente: "dá uma pegadinha aqui no gatinho peludo do vovô, dá". O fato é que todos tinham um motivo razoável para cometer o crime.

Agora, de cabeça fria, passadas algumas horas da lamentável ocorrência, já não penso mais em denunciar nem em dar porrada no meliante ou na meliante que subtraiu o tapetinho da minha porta. Decidi que não vale a pena perder o sono por uma caganifância dessas. Amanhã compro outro capacho e pronto, também em formato especial, com desenho de bichinho, tão atraente quanto o antigo.

Por precaução, o próximo ficará colado ao chão com Superbonder, ligado a um sensor de movimento e a uma câmera fotográfica embutida no olho mágico. Eu sempre fui assim, desapegado das coisas materiais.


25/06/2019

ACESSAMENTOS


Noite de sexta-feira, me assusto com o interfone. O livro me cai das mãos e perco a página marcada. Seria normal que o interfone tocasse em um apartamento 
– de que outra forma o visitante entraria num edifício sem porteiro? , não fosse o fato de que não recebo visitas, ninguém sabe o meu endereço. Fora o carteiro e um ou outro entregador de pizza, não há motivo para alguém tocar o meu interfone.

Levanto-me do sofá, caminho até a cozinha e alcanço o aparelho. Digo "Pois não?" em vez de "Alô!", visto que interfone não é telefone. Como eu imaginava, ninguém das minhas relações. Era uma voz de mulher, me pedindo para abrir a porta, pois o interfone do 301 não está funcionando. Na semana passada, me pediram acesso ao 401, porque o interfone estaria com defeito. É um prédio pequeno (minúsculo, eu diria), de quatro andares, com somente quatro unidades. Além de mim, no 201, cujo interfone funciona perfeitamente, sobra apenas o 101, que jaz vazio, com uma placa de "aluga-se" na janela. Assim, de certa forma, eu me transformei no porteiro que o condomínio não tem.


Não abri para essa mulher que, educadamente até, me pedia para liberar a porta. Avisei que não era do 301 e sugeri a ela que ligasse para o celular dos moradores em questão. Minutos depois, ouvi passos na escadaria. Pelo olho mágico, vi alguém do apartamento de cima descer para receber sua convidada. Em seguida, subiu novamente a pessoa que descera antes, agora acompanhada de uma moça e duas crianças.


Aparentemente, tratava-se de alguma confraternização. O interfone ainda tocaria meia dúzia de vezes durante a noite. Não atendi a mais nenhuma das tentativas, nem as mais insistentes, bem como tirei o som da campainha do aparelho quando decidi que não queria voltar a ser interrompido em minha leitura. Não que isso tenha me trazido o sossego esperado, pois, em se tratando de certos tipos de patuscada moderna, o volume da música era mais alto do que o aceitável, além de o repertório ser de gosto bastante duvidoso para os meus padrões.


Normalmente, em qualquer um dos edifícios em que vivi nos últimos quarenta anos, eu interfonaria para quem estivesse fazendo barulho e pediria silêncio. Atitude impossível hoje, obviamente, já que o único interfone em funcionamento é o meu, o que me permitiria ligar apenas para mim mesmo. Esse outro eu, provavelmente, solicitaria que eu fizesse algum barulho ou violasse alguma regra, para não ser mais considerado o esquisito do prédio. Se pudesse interfonar a mim mesmo, talvez me perguntasse por que nunca uso a torneira externa para consumo próprio, por que espero o portão da garagem fechar ao entrar ou sair de carro ou por que não ando de salto alto dentro de casa.


Claro que não há reunião de condomínio onde moro. Também não há estatuto, vigilância ou coleta de lixo reciclável. Num lugar em que ninguém é capaz de consertar o próprio interfone, compreensível. Então, só me restou cutucar o teto com uma vassoura até que os vizinhos e seus convivas passassem a confraternizar mais civilizadamente. Restabelecida a paz, volto a ler e acabo cochilando no sofá.


Manhã de sábado, me assusto com a campainha. O livro está novamente no chão, sem o marcador de páginas. 
Levanto-me com dificuldade. Pelo olho mágico, reconheço a senhora miúda que sempre toma café da manhã comigo nos fins de semana desde que fiquei viúvo. Mal descerro a porta e minha mãe entra discursando: "Precisas consertar esse interfone, meu filho! O casal do 301 é que abriu pra mim lá embaixo".

18/06/2019

DA RELATIVIDADE DOS VALORES


Eu era o próximo da fila na pequena agência dos Correios. O senhor à minha frente acabara de ser chamado ao balcão de postagem, onde havia uma única atendente para todos os clientes. Não por que fosse intervalo de almoço, nada disso. Era assim sempre, em qualquer dia ou horário. Culpa da própria cidade, esquecida por Deus, com seus quase dois mil habitantes, igualmente esquecidos e conformados.

Apesar de falarem baixo, a curta distância entre mim e o guichê me permitia ouvir a conversa do idoso com a agente, identificada apenas por um crachá. Tratava-se de uma carta. Nos tempos de hoje, uma carta. Naqueles envelopes antigos, com as cores do Brasil nas bordas, indicação da posição do selo, linhas pontilhadas para os endereços e só cinco quadradinhos para o CEP. Educadamente, ele solicitou:

– Por favor, eu gostaria de enviar esta correspondência para a capital.
– É carta comum ou o senhor quer declarar o valor?
– Valor? Como assim, minha filha?
– Em caso de extravio, nós reembolsamos o valor declarado.
– Bem... certamente a minha carta tem muito valor.
– O que é que tem no envelope? Um cheque, uma joia?
– É uma carta de amor.
– Ah, então não vale nada... é carta comum, fica por três reais.

O missivista, desolado, me pareceu ainda mais velho ao sair vagarosamente da agência. Ora, como não haveria de ter valor uma carta de amor? Qual seria a medida dos Correios para avaliar o que vale ou deixa de valer para cada pessoa? E se o carteiro fosse assaltado sem que (naquelas linhas escritas à mão, em letra caprichadamente tremida) um "eu te amo" ou um "quanta saudade" chegasse ao seu destino?

Ao ser convocado pela atendente para ocupar o lugar do primeiro cliente, dei dois passos para frente e coloquei sobre o balcão um envelope pardo com três crônicas que eu pretendia inscrever em um concurso literário. Antes que a moça me fizesse a mesma injusta, cruel e constrangedora pergunta, fui logo avisando: "Não tem valor nenhum, não te preocupa, é só uma correspondência indigente e mal-amada".