18/12/2018

LÍNGUA NOS DENTES

 
O guri estava sempre na calçada em frente ao nosso prédio. Minha mãe entrava ou saía, sozinha ou com os filhos – eu e meu irmão –, e ele fazia plantão. Pela manhã, à tarde e até certa hora da noite, perambulava pela quadra, brincava solitário com algum carrinho de plástico esquecido ou simplesmente chutava pedregulhos de um lado a outro da rua.

Regulava em idade conosco, devia ter uns oito ou nove anos, mas era mais magro e franzino, queimado de sol, cabelos sem corte. Reparávamos no short desbotado e na camiseta listrada com alguns furos, usados diuturnamente. Muito simpático, sorria sempre, porém, nunca dizia nada. "Não tens mãe? Não tens família?", mamãe perguntava e ele não respondia.

Quando íamos à padaria, voltávamos com alguns pães a mais, às vezes com um sonho ou bolo. Nos revezávamos para estender o embrulho até que seus dedinhos de unhas sujas agarrassem o presente com firmeza. Mostrava os dentes e meneava a cabeça, sem dizer palavra. "Acho que ele é mudo", eu arriscava. E minha mãe me mandava calar a boca.

Na semana em que o general Figueiredo visitava a cidade, o guri sumiu por uns dias. Isso era novembro de 1979. Havia tropas e policiais à beça nas ruas, estudantes em marcha e um clima de iminente revolução. Achamos que poderia ter sido levado para algum abrigo ou que talvez tivesse um lar como o nosso, com mãe, irmãos, comida farta e boas roupas.

Depois reapareceu. Quando saí do prédio para comprar um cachorro-quente na praça, cruzei com ele. Comi o meu ao lado do carrinho, numa esquina próxima, e pedi outro para viagem. Também separamos as roupas que não usávamos mais e as repassamos ao moleque. Na manhã seguinte, já se apresentava com calção menos puído e camiseta sem rasgos.

Em conferência, no quarto do meu irmão menor, ficou decidido que convidaríamos o mascote para subir e tomar um café conosco, à mesa, como se fizesse parte da família. Minha mãe voltava do supermercado e fez o alerta: "Amanhã, às cinco da tarde, venho te buscar pra tomar um café lá em cima com a gente". Ele sorriu de orelha a orelha, mudo como sempre.

No fim do dia seguinte, o piá estava sentado nos degraus da portaria. Banho tomado, cabelos penteados, calça jeans e uma camisa quase nova. Ao lado dele, mais quatro crianças, de idades e cores variadas, todas igualmente arrumadinhas, prontas para fazer uma refeição em nossa casa. "Eu convidei só tu, seu linguarudo!", foi como mamãe o dispensou.

Tivemos de chamar a polícia a certa altura. Aquela pequena gangue de esfomeados passou a atirar pedras nas janelas do apartamento, que não ficava num andar alto. Ainda rondaram a vizinhança por um tempo, até sumirem de vez, o guri entre eles. Nós também acabamos mudando de bairro. E nunca mais oferecemos café a nenhum desconhecido.
  

11/12/2018

TRÊS CHEGADAS

 
Vinha no avião pensando sobre a chegada. Deixara Salvador sem remorso, disposta a mudar de vida, de bairro, de cidade, de estado. E contava apenas com o homem que a esperava em Curitiba. Estaria mesmo esperando? Duvidou por um instante, ainda que não pudesse fazer mais nada. Pedira demissão do emprego, doara algumas roupas, ofendera pela última vez cada um dos muitos parentes dos quais não gostava e despedira-se definitivamente de alguns poucos que não desgostava totalmente. Agora, passava ilesa por uma turbulência leve, enquanto catava os farelos no fundo do saco de batatinhas fritas oferecido pela companhia aérea.

Recolheu a bagagem na esteira e caminhou elegantemente pelo corredor de desembarque. Abriu a bolsa e ligou o celular. Distraiu-se verificando se havia algum recado na caixa de mensagens e tropeçou na barra da própria saia. Tombou de joelhos, chocando o rosto contra a catraca de controle de saída. Um baque agudo, dolorido. Não imaginava de onde vinha o sangue que lhe escorria pelo nariz e não tinha certeza se os dois dentes caídos no piso eram seus ou se já estavam ali antes. Perdeu a consciência. E quando voltou a si, viu-se amarrada a uma maca, que deslizava pelo saguão na direção da saída de emergência, guiada por quatro socorristas uniformizados. Continuava tonta, a ponto de esquecer onde estava e o que viera fazer naquele lugar. O homem permanecia na sala de espera, conforme combinado. Depois de meia hora, entretanto, concluiu que ela não embarcara na capital baiana, que desistira da aventura sem ao menos tê-lo conhecido. Partiu desolado.

Mentira.

Nem pensou na bagagem, uma mala média somente, que passeava solitária pela esteira. Esgueirou-se por uma saída lateral, a procura de uma passagem alternativa ao portão de desembarque. Queria ver com que expressão ele a esperava. Aliás, queria ver as feições do homem ao vivo, pois conheciam-se apenas por fotografias. Em meio às suas divagações, perdeu-se no labirinto de corredores. Não fazia ideia de como fora desembocar no estacionamento, pouco iluminado àquela hora da noite. Tentou voltar pelo mesmo caminho, mas foi abordada por dois estranhos. Um deles apontou-lhe uma arma, enquanto o outro já a asfixiava com um lenço embebido em clorofórmio. Inconsciente, foi arrastada e jogada no porta-malas de um carro. O homem com o qual pretendia se encontrar permanecia na sala de espera. Depois de trinta minutos, porém, desistiu de aguardar. Concluiu que ela optara por não embarcar. E nunca mais soube de seu paradeiro.

Mentira.

Recolheu sua bagagem na esteira e caminhou elegantemente pelo corredor de desembarque. Nem cogitou abrir a bolsa e tirar o celular do "modo avião". Queria apenas que ele a estivesse esperando, talvez com um buquê de flores-do-campo nas mãos, para marcar seu renascimento em terras paranaenses. Olhou de um lado e outro do saguão, até reconhecer seu homem, exatamente como aquele que aparecia nas fotos trocadas ao longo de meses. Não havia flores, mas havia um sorriso em seu rosto, e isso bastou para ela. Quando pararam frente a frente, foi ele que não se conteve:

– Caralhos me mordam! Você é muito mais bonita pessoalmente.
  

04/12/2018

A SECRETÁRIA DO DR. PACHECO


A secretária do doutor Pacheco pediu para sair mais cedo naquela tarde. Quarta-feira era sempre um dia de pouco movimento no consultório, por isso o doutor Pacheco não se opôs. Ela trabalhava há quase dez anos para ele, jamais faltara ou chegara atrasada ao trabalho, e apesar de ser também a primeira vez que pedia dispensa antes do fim do expediente, o afabilíssimo clínico geral não lhe exigiu nenhuma justificativa.

Depois que a sua fiel funcionária se foi, por volta das dezesseis horas, o doutor Pacheco encheu um copo plástico com o café que sobrara na garrafa térmica e folheou a agenda de consultas. Tinha um paciente em seguida – já na sala de espera, para o horário das dezesseis e trinta – e somente um outro, para as dezessete e quarenta e cinco. Sabia que o próximo atendimento seria rápido, pois se tratava de um caso clássico de "mijacão", uma espécie de abcesso na sola dos pés, causado pelo contato com a urina dos equinos, muito comum em cidades interioranas como aquela. Nada que uma pequena incisão, uma pomada cicatrizante e uma bandagem protetora não resolvessem. Então, como não pretendia passar mais uma hora e meia no consultório vazio, resolveu ligar para o último paciente e remarcar a consulta para o dia seguinte.
 


O doutor Pacheco era o único médico do pequeno município de trinta mil habitantes. Atendia pela manhã no posto de saúde da prefeitura e, à tarde, em seu estabelecimento particular. Era casado havia mais de vinte anos e tinha um casal de filhos, ambos estudantes de medicina em uma conceituada universidade da capital do estado. Morava apenas com a mulher em um bairro nobre, na casa que estampara a capa da edição de aniversário da revista 
Medicina & Decoração. Homem de hábitos simples, dormia cedo, acordava cedo, cultivava um bigode e alguns bonsais, frequentava o clube de bocha, bebia Campari e não abria mão de usar cuecas samba-canção, pois os modelos tradicionais, justos e com elásticos nas pernas, pressionavam seus testículos e lhe provocavam insuportáveis cefaleias.

Naquele fim de tarde, portanto, livre de qualquer compromisso profissional, o doutor Pacheco passou no maior supermercado da região e comprou ingredientes para preparar um jantar para a esposa. Depois de tanto tempo, estava certo de que ainda conseguiria impressioná-la com seus dotes culinários.

Abriu o portão automático da garagem, estacionou o carro, apertou a buzina – como fazia sempre ao chegar do trabalho – e esperou o portão fechar. Retirou as sacolas com as compras do porta-malas, acionou as travas e o alarme, constatou que os pneus dianteiros precisavam de calibragem, recolheu a correspondência e foi entrando pela porta da frente. Ao mesmo tempo, nos fundos do quintal, a secretária do doutor Pacheco pulava o muro que dava para um manguezal.
  

27/11/2018

TRÊSCRÔNICASCOLADAS


De manhã cedo, o beijo no rosto. "Tá na hora, meu nego... vai trabalhar, vai." Irene sai apressada e negro Inácio vira-se na cama, cheio de amor no coração. Ainda dá uma afofada no travesseiro antes de voltar a dormir. Lá fora, ela desliza suave morro abaixo. Cadeiras pra lá, cadeiras pra cá, sorrindo aos que só vão descer a ladeira mais tarde. "Bom dia, dona Carminha!" "Bom dia, Irene! Como é que vai o Inácio?" Logo adiante: "Sai pra lá, menino traquinas!" "Desculpa, dona Irene, foi sem querer..." E segue seu caminho de todos os dias. A primeira a sair, a última a chegar, com a disposição e a beleza que Deus lhe deu, os dentes abre-alas muito brancos. No pé do morro, a avenida. Irene toma o ônibus. Quarenta minutos de viagem até a casa do prefeito. Eita, mulata importante: dona da cozinha e a quem os dois filhos de madame Elvira, a primeira-dama, chamam de mãe. Estaciona o lotação. "Vai saltar, seu cobrador, vai saltar!" Desembarca Irene, meiga, distraída em manhã de sol. A cabeça no meio-fio.

Foi abordado por uma cigana na principal praça da cidade. Com carregado sotaque paraguaio, exalando discreto bafo de cachaça, a mulher 
– já de uma certa idade – pediu a ele uma nota de dez reais, justificando que em papel-moeda a sorte se apresentava mais claramente, e que ela não ficaria com o dinheiro, apenas o usaria como instrumento de trabalho. Em grave crise profissional e amorosa, abriu a carteira e ofereceu uma cédula para o sacrifício. A velha zíngara respirou fundo, puxou todo o ar que conseguiu e, num frêmito expectorante, rosnando alto, cuspiu na nota novinha, recentemente saída do caixa eletrônico. Com a ponta dos dedos, remexeu o catarro disforme e volumoso, até desenhar uma rosa-dos-ventos. Durante cinco minutos, a enrugada vidente falou do passado e do futuro, sem que seu cliente prestasse atenção a nenhuma palavra, devido a um embrulho no estômago, seguido de leve tontura. Chegado o fim da consulta, a escatológica senhora devolveu o dinheiro, como havia prometido. Ele segurou a nota – agora úmida e fedorenta – por uma das pontas e seguiu atordoado, cambaleando rumo ao interior da praça. Ao longe, pouco antes de vomitar no canteiro de amores-perfeitos, ainda pode ouvir a voz esganiçada da matusalênica cigana, que dizia impropérios e lhe rogava pragas num idioma muito suspeito.

Chico Peixeiro, pacato cidadão de Miracema do Norte, gastara com gosto todo o décimo terceiro salário no único meretrício do município. Tarde da noite, bêbado feito um guaxinim e jogando futebol com uma bola imaginária, acabou dando uma topada no paralelepípedo da calçada de casa. "Caralho!" "Hehe, bem feito!", tirou sarro a patroa, empunhando um rolo de macarrão. "Vai-te à merda, coisa medonha!" Chico estava puto com uma sua teúda e manteúda, que trocara o segredo da fechadura da palhoça onde se encontravam, além de tê-lo trocado por um conhecido caminhoneiro chamado Arlindo Orlando. "Quem manda eu me meter com fã de música baiana", pensou alto. Quando ia entrando pelo portão, já imaginando a cama quentinha, foi recebido pela esposa com uma traulitada no meio da testa. Caiu por cima das flores do jardim, as mesmas que plantaram juntos logo depois da lua de mel. O sangue espirrou até em suas alpargatas novinhas. Não muito distante dali, os agentes Carmichael e Inojoza nada notaram.
  

20/11/2018

ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL E CORDAS VOCAIS


– Mas tu tens voz de rádio FM, pô!

Foi o que eu disse quando ele apareceu na loja pela quarta ou quinta vez para me vender sanduíches naturais.

Chamava-se Jaime. Gaúcho, amasiado, pai de uma menininha, morava em Florianópolis com a família havia dois anos somente. Devia ter por volta de trinta anos de idade, boa aparência e uma dicção perfeita, sem sotaque, com um timbre que lembrava o do Dirceu Rabelo, o locutor oficial da Rede Globo.

Jaime reclamava da vida dura. Contou-me que a mulher acordava cedíssimo para preparar os sanduíches – de dois sabores apenas: frango e atum – que ele vendia durante todo o dia em lojas, empresas e terminais de ônibus. Concluiu o segundo grau, mas não cursou nenhuma faculdade. Acabou casando cedo, pois a namorada, agora concubina, engravidara sem querer. Como as coisas em Porto Alegre andavam difíceis, acatou a recomendação de um parente e mudou-se definitivamente para a capital catarinense.

– Sabe que já me disseram isso?

Foi o que ele respondeu quando comentei sobre seu vozeirão.

Ofereci-me para apresentá-lo ao Douglas, um amigo que acabara de montar um estúdio de gravações. Eu não podia compreender como uma pessoa com aquela impostação nunca se apercebera do dom que Deus lhe deu. Por sorte, o Douglas andava cadastrando novos locutores para um portfólio, não foi difícil encaixar o Jaime em um teste sem compromisso.

Acompanhei tudo ao lado da mesa de som, de frente para uma salinha com isolamento acústico e um microfone condensador vindo do teto. O texto, digitado em folha A4, descrevia o lançamento de algum cosmético feminino e precisava durar trinta segundos. Jaime gravou de primeira, sem nenhum vacilo, como se nunca tivesse seguido outra carreira que não a de narrador. Preencheu uma ficha com dados pessoais e, antes de sairmos, foi alertado a ficar de sobreaviso, pois poderia ser convocado a qualquer momento.

– Teu fornecedor de sandubas me passou um telefone que não existe.

Foi o que o Douglas me falou quando nos cruzamos em um restaurante do Calçadão. Os 
spots e comerciais foram todos parar nas mãos – ou nas bocas – dos outros profissionais cadastrados.

Fiquei puto. Não sou de ajudar ninguém e, quando resolvo abrir uma exceção, passo vergonha. Ainda bem que o Jaime nunca mais apareceu na loja para me vender sanduíches naturais, senão ia tomar um esporro gutural.
  

18/11/2018

O TAPETE VOADOR


Quem mora em edifício sabe bem do que vou falar.


Geralmente, é pela área de serviço que escutamos os sons mais estranhos e as conversas mais bizarras, vindas dos apartamentos vizinhos. Sei lá, deve ser por causa da conformação arquitetônica, mas o fato é que qualquer coisa que se cochiche parece propagada por todo o prédio, amplificada dez vezes, o que equivale a publicar nossos segredos na pauta da reunião de condomínio.

Pois eu acabara de dar comida aos meus gatos quando reconheci a voz do morador do andar de cima, aparentemente falando sozinho. Depois me toquei que ele estava ao interfone (já que ninguém respondia) e, sem grandes alterações no tom de voz, dizia mais ou menos assim:

Alô! É do novecentos e três? Quem fala? Cremilda? Ah, Cremildes... bom dia, dona Cremildes, aqui é o seu vizinho do setecentos e três, o Ademar, tudo bem com a senhora? (...) Eu sei que a senhora está fazendo o almoço, mas é assunto rápido, é sobre o seu tapete... (...) Como que tapete? A senhora não tem um tapete de pele de urso? (...) Pois é, este seu tapete, que a senhora provavelmente estendeu na janela para pegar um solzinho, acabou de voar janela abaixo e caiu lá no playground. (...) É, no playground(...) Eu sei que a senhora vai mandar a faxineira buscar, só que o problema é um pouquinho mais grave: é que, na passagem, o seu tapete derrubou a minha bochecha-de-velho. (...) Cirurgia plástica? Não, dona Cremildes, eu não sou velho nem bochechudo, me refiro à salacia polyanthomaniaca, que é uma planta ornamental da família das hipocrateáceas, popularmente chamada de bochecha-de-velho. (...) Isso mesmo, a pobre plantinha se estabacou lá embaixo junto com um vaso de porcelana de vinte e dois centímetros de altura por dezoito de diâmetro. (...) Tudo bem que foi a faxineira quem colocou o tapete na janela, mas a senhora é dona do tapete e dona da faxineira, se é que faxineira tem dono. (...) Como e daí? Eu acabei de perder uma planta e um vaso por causa do seu tapete. (...) Quem é que está queimando? Ah, o feijão... (...) A planta custa quarenta e oito reais e o vaso doze. Sessentinha! (...) Não vai pagar? Como não vai pagar? (...) Tudo bem, dona Cremildes, então eu fico com o seu tapete de pele de urso até segunda ordem, combinado? Passar bem!

Na sequência, ouvi a batida do interfone no gancho, uma porta se abrindo e, segundos depois, ecos na escadaria do prédio, de passadas nervosas, em direção ao playground. Lá embaixo, preso na gangorra, um cafona, porém, valioso, tapete de pele de urso.
  

13/11/2018

ACRILIC ON CANVAS


Não sei em que momento ela se mudou para o meu apartamento. Começou com uma trepada e um banho; depois uma trepada e um jantar; mais tarde, uma trepada e um cochilo; até acabar numa trepada, seguida de cochilo, banho, jantar, outra trepada e uma noite inteira de roncos, pernas nervosas, sono superficial e o sol entrando pela janela na manhã seguinte. Foi ficando.


Era estudante de Artes Plásticas. Além de roupas e maquiagem, trouxe cavalete, telas, pincéis, espátula, paleta, godê, solvente, carvão, grafite, verniz e tintas, muitas tintas, acrílicas e a óleo. Passaram a colorir minha vida pequena e lenta o branco de titânio, o azul-ultramar, o verde-oliva, o verde-ouro, o verde-oriental, o amarelo-ocre-claro-dourado, o terra de siena e o vermelho-veneza.


Tinha predileção pelos impressionistas: Degas, Manet, Monet, Sisley, Renoir, Pissarro. Passava os dias a reproduzir as pinturas mais famosas da segunda metade do século XIX, sempre atenta às incidências de luz e à falta de nitidez proposital em cada contorno, características daquele movimento. Dos brasileiros Visconti e Almeida Júnior, então, não lhe escapava um mínimo detalhe.


Boulevard Montmartre Spring Rain (Camille Pissarro, 1897)
Valia-se da técnica do acrílico sobre tela, devido à secagem mais rápida, embora, eventualmente, se aventurasse pelo óleo sobre tela, que exigia a utilização de verniz de linhaça como secante ou diluidor e deixava o ambiente com um fedor semelhante ao de um gambá numa aula de aeróbica. Mas eram transtornos menores e passageiros, pois assim que terminava seus trabalhos, em consideração ao nosso lar de dimensões reduzidas, levava os quadros para a casa dos pais. Segundo o porteiro do prédio, a mãe ou o pai ou ambos apareciam antes do fim da tarde, enquanto eu ainda estava no trabalho, portanto, nunca cheguei a conhecê-los.

Entre trepadas e pinceladas, seis meses se passaram. Também não sei em que momento cheguei ao apartamento e não a encontrei. Nenhuma tela, roupa, vestígio. Liguei a TV e continuei procurando um bilhete ou qualquer outra pista de seu sumiço. No programa policial, uma quadrilha de falsificadores de obras de arte. Da direita para a esquerda, ela era a terceira. Uma pintura de tão linda.
 

06/11/2018

APARTAMENTO 201


Acordo assustado com a trepidação da furadeira na parede. É domingo, dia de descanso, e esse filho da puta do andar de baixo, mesmo tendo recebido uma cópia do estatuto do condomínio com o horário de silêncio grifado com caneta marca-texto, insiste em descumpri-lo. Depois tem gente que não entende por que é que um cara discreto e pacato como eu, que viveu a vida inteira em apartamento, de uma hora para outra esfaqueia outro morador até a morte.

Ontem à noite foi o cachorro da vizinha de cima que não me deixou dormir. Passou a madrugada uivando, sentindo falta da dona, aquela vadia. Durante o sábado, foram as merdinhas das crianças no playground. Parece até que não têm pais, pois passam mais tempo incomodando pessoas que não incomodam ninguém do que na escola ou em casa. São tão chatas, gritam tanto, que já compreendi por que os adultos as mandam brincar nas áreas comuns do prédio, bem longe da família. Como hoje não se pode mais cobrir os bastardos de porrada, apenas torço para que peguem uma doença ou quebrem uma perna.

Enquanto não consigo voltar a dormir, fico olhando para a piscina, onde as senhoras expõem suas pelancas e varizes, onde as meninas novinhas expõem seus peitos de silicone e onde as outras mulheres, nem novas nem velhas, expõem suas amarguras. No trampolim, um bobalhão de trinta e poucos anos, que ainda mora com a mãe, dá piruetas e tenta chamar a atenção das adolescentes. Bem feito! Bateu com a cabeça na borda de azulejos e teve de ser carregado pelo zelador.

Ligo a TV e o ar-condicionado. Não que precise de distração ou esteja com calor, nada disso, é que o barulho constante de ambos me protege temporariamente de marteladas e furações, de móveis sendo arrastados, de casais discutindo, de liquidificadores e aspiradores de pó, de música ruim, de sapatos de salto, de camas rangendo, de gritos, gemidos e sexo sem a minha participação. Ainda assim, com os ouvidos a salvo, o nariz nunca estará livre de uma comida fedorenta. O cheiro entra pelas frestas e gruda em tudo. Nessas horas, tenho a nítida impressão de que algum corno está a cozinhar um cadáver deteriorado, um gambá ou um caldeirão de cuecas usadas.

Escurece, finalmente, depois de um pôr do sol de cinema. Uma nuvem de cupins invade o apartamento antes que eu tenha tempo de fechar os basculantes da cozinha e do banheiro. Aposto que os bichos não entraram na casa de nenhum dos esporrentos, catinguentos e mal-educados da vizinhança, só aqui mesmo. Então, lembro de uma frase que meu avô sempre repetia em tardes assim bonitas: "Lindo dia para morrer enforcado". E não digo que já não tenha pensado nisso.
 

30/10/2018

CINCO MINUTOS


Distraio-me tentando decifrar a forma das nuvens espumosas que cobrem o céu do pequeno paraíso. Longe, no mar muito azul, um barco de pesca joga sua rede.

O vulto de um homem caminha desengonçado pela praia. Não o reconheço ainda. Ele usa terno e gravata e vem em minha direção. É Donald, meu editor. Não parece muito à vontade nem de bom humor. Seca o suor que lhe brota da testa com um lenço de tecido.

– E então, chefe?
– Como é que você veio parar aqui, seu demente?
– Cansei da vida na cidade.
– Ah, a boneca ficou cansadinha...
– Um pouquinho, sim.
– Pois cansados estamos nós: eu, editora, gráfica, livrarias, leitores...
– E o queco, Donald? – debocho.
– Nada demais, basta você me entregar um texto razoável nos próximos dois meses que eu garanto a sua sobrevivência por mais dois anos.
– E se eu não conseguir?
– Vai virar pescador aqui nesse fim de mundo!
– Você torce por isso, né?
– Olha aqui, seu animal! Eu sou seu amigo há muito tempo, sei tudo o que aquela vadia fez com você no ano passado e até consigo entender como funciona essa sua cabeça idiota, mas nada justifica a apatia, ouviu? Se você tem vontade de morrer, então escreva sobre isso... escreva, porque é a única coisa que você sabe fazer bem feito. Entendeu, seu puto?

Um minuto de silêncio. Ele continua.

– Dois meses, nem mais um dia!

Donald vira as costas e sai patinando pela areia com seus sapatos de bico fino. Esbraveja e gesticula uma última vez antes de desaparecer atrás de um par de dunas. Tento entender que tipo de amigo ele é. Talvez seja do pior tipo, aquele que não nos deixa optar pelo fracasso.

Jogo uma pedra na água. Fecho os olhos. Esqueço as nuvens no céu.

Molho meus pés, depois escrevo uns versos na areia. Um livro de poesias, quem sabe? Com um pouco de esforço talvez eu não perca o meu emprego. Ainda tenho um apartamento na cidade, ainda tenho o meu talento, ainda tenho a minha insegurança...

Olho para o mar enquanto penso. Longe, o barco de pesca naufraga lentamente.
  

23/10/2018

A PROCURA


Escavávamos animadamente o chão em busca de trufas. Apesar de nunca termos visto uma de perto, sabíamos que aquele era o lugar indicado pelo apresentador de TV, no documentário ao qual assistíramos ontem à noite. Em nosso pequeno grupo, todos se animaram quando ouviram em alto e bom som o nome do vilarejo. Nas colinas arredondadas de Formosa, havia trufas. Não as raríssimas trufas brancas
 (tuber magnatum), nada disso, somente trufas negras (tuber melanosporum), mas havia e pronto.


Não estava frio para a época do ano. Da minha testa brotavam algumas gotas de suor, por causa do esforço. Os outros esbravejavam cada vez que faziam mais um buraco inútil. Procurávamos uma massa disforme, localizada entre vinte e quarenta centímetros de profundidade no solo úmido, de odor característico e gosto desconhecido para nós. Ninguém ainda tirara a sorte grande, e talvez, justamente por isso, não queríamos desistir. Era divertido, acima de tudo.



Passadas algumas horas, recostei-me a uma pedra para comer azedinhas. Era tudo que a terra tinha me dado até ali. Semicerrando os olhos, notei que, ao longe, um homem vestido de branco, franzino, consideravelmente idoso, acompanhava nossa busca sem lógica. Não era dali nem da cidade vizinha, certamente, senão eu o teria reconhecido. Quando percebeu que fora descoberto, veio em minha direção, caminhando lenta e delicadamente pelo pasto muito verde.

O estranho sentou-se ao meu lado e, sem nenhuma cerimônia, perguntou:

– Não é muito bom viver nessa agonia, não é?

De que agonia estaria falando? Da agonia de procurar obsessivamente alguma coisa e jamais encontrar? Da agonia de viver em uma cidade esquecida por Deus? Observei meus colegas, que, entre a curiosidade e o espanto, também me observavam. Pude sentir o cheiro de mofo nas roupas do velho. Ele tocou meu ombro de leve, como um pai a consolar um filho, e, com a outra mão espalmada, me estendeu uma enorme trufa negra, lavada, pronta para consumo.

– Tome, experimente...
– Mas o que é isso, meu senhor? Eu nem o conheço!
– É uma trufa, você sabe... aqui em Formosa elas nascem aos montes, não é preciso nem escavar a terra para encontrá-las... são divinas!

Preocupado com o meu comportamento, o grupo de amigos não demorou a se reunir ao redor da pedra onde eu permanecia sentado. Uns apenas me olhavam, receosos, outros cochichavam entre si. Até que um deles exclamou:

– Você encontrou uma trufa!
– Bem...
– Devia ter avisado em vez de ficar falando sozinho que nem um maluco.

No alto de uma colina que dava para a mata fechada, onde a vista ainda podia alcançar com nitidez, distingui novamente o homem de branco, muito idoso e franzino, que parecia ter estado ao meu lado há poucos minutos. Eu mesmo já não tinha certeza. Ele segurava uma trufa, mais ou menos do tamanho daquela com a qual me presenteara. Mordeu-a com gosto, mastigou pausadamente, revirou os olhinhos e desapareceu em algum ponto da paisagem.