10/03/2020

O PASSAGEIRO


Todos buzinam ao mesmo tempo, o trânsito não anda. Ele salta do táxi, batendo a porta com força. Sai caminhando por entre os carros. O motorista xinga sem convicção. Ele faz de conta que não ouve. Não paga a corrida e o chofer continua íntegro.

Ajuda uma idosa a atravessar a rua. Ela não enxerga muito longe, e isso o comove. Parece bastante com sua avó, apenas um pouquinho mais corcunda. Nenhuma senhora faz bolinhos de chuva melhor do que a sua avó. Saudade dela e dos bolinhos. Quando a velhota chega ao outro lado, agradece a ajuda, pede a Deus que o abençoe. Não foi nada! Ela mal sabe que ele já é abençoado.

Anda um pouco mais rápido. Queria parar para rezar, mas precisa chegar ao ensaio e está atrasado. Pensando bem, não precisa chegar em lugar nenhum. Os caras que esperem, pois se ele não chegar, ninguém toca. Não existe banda de rock sem baixista. Diminui o passo e vai arquitetando um nome para o grupo. Também não existe banda sem nome. O Rinaldo sugeriu chamar de Clitóris Intumescido. Ele não acha ruim, entretanto, prefere arranjar coisa pior.

Reza baixinho pelo caminho, inventando uma oração. Toda vez que passa sobre o viaduto da igreja sente uma vontade louca de se jogar.

A porta da garagem está aberta. Ouve o barulho dos instrumentos desafinados lá dentro. Rinaldo reclama do atraso e ele responde: Vai tomar no cu! Pega de volta o Fender e sai. Não quer tocar numa banda sem nome, tem mais o que fazer da vida. Ninguém contesta.


Agora chuta uma latinha de refrigerante pela rua. Faz um esporro danado, as pessoas ficam olhando para ele. O baixo parece de chumbo, faz doer seu braço. Sempre quis tocar numa banda de rock, mas com caras legais, tipo o Nasi e o Scandurra, não com umas bichonas feito o Rinaldo e os primos dele.

Planeja ir para casa pensar. Só consegue pensar em casa, de banho tomado e barriga cheia. Imagina que deve haver um monte de bandas de rock precisando de baixista, ainda mais um que tenha um Fender bonito e caro que nem o dele, modelo precision bass, pesado que nem chumbo, que faz doer o braço.

Senta num ponto de ônibus com o estojo no colo. Mora na casa do caralho, nem sabe se passa a sua linha por ali, está acostumado a voltar de carona com o Rinaldo. Ao lado, um casal se beija. Pode ouvir até o barulhinho da saliva passando de uma língua para a outra. Não consegue deixar de olhar. O rapaz é preto e a guria é branca. Dizem que preto é mais bem-dotado, vai ver por isso ela o escolheu. O pau entra pela buceta e vai até o estômago.

Ele escuta os dois falarem em casamento. Acabarão casando mesmo, vão se encher de filhos, acompanhar novela da Globo, cagar de porta aberta. E não há nada pior do que cagar de porta aberta! Só novela da Globo, filosofa silenciosamente.

Quando o ônibus chega, tem sono e fome. Daria qualquer coisa por um pão com mortadela. Escora-se na janela e põe o contrabaixo no banco que sobrou. Não quer ninguém sentando perto. A cidade vai ficando azulada, mas ele cochila antes de reparar nisso.

03/03/2020

BLIND DATE


O problema é que a moça tinha dois queixos. Depois da primeira impressão, todo o resto parecia perfeito: roupas discretas, bolsa de couro natural, cabeça proporcional ao corpo, pele bem tratada, olhos claros muito grandes, dentes no lugar, sorriso bonito, orelhas pequenas, voz suave, narizinho arrebitado, unhas bem-feitas. Mas havia esse detalhe, do qual ele não conseguia desviar a atenção.

Aprendera em aulas de etiqueta que, ao conversar com qualquer pessoa, deve-se sempre fixar o olhar na região nasal, mais ou menos na altura das maçãs do rosto. No entanto, no caso de sua interlocutora, a tarefa parecia impossível. Abaixo da boca vinha o queixo e, em seguida, uma enorme papada, que ocupava o espaço onde deveria estar o pescoço e se estendia até o Bósforo de Almasy.

A conversa seguia agradável. Tinham gostos parecidos para música, cinema e literatura, trabalhavam em áreas afins, moravam em bairros vizinhos e, em épocas diferentes, estudaram no mesmo colégio. Vasculhando as árvores genealógicas, descobriram inclusive um parente comum nas gerações passadas. Porém, apesar de tantas coincidências, ela possuía dois queixos e ele, por sorte, apenas um.

Quando ela pediu licença para ir ao banheiro, ele aproveitou para reparar nos outros atributos de sua acompanhante. Tentava encontrar uma explicação para o único defeito que percebera até o momento. Talvez fosse uma gordinha que emagreceu, daí a sobra de pele na região. Contudo, o que viu foi um andar gracioso, uma bundinha firme e empinada, numa silhueta absolutamente esbelta.

Tarde da noite, ele pagou a conta, ainda sem saber se gostaria de encontrá-la novamente. Caminharam lado a lado até o estacionamento. Assim, de perfil, sob a luz da Lua, os dois queixos pareciam muito mais assustadores do que de frente, iluminados artificialmente no interior do bar. Ela abriu a bolsa, puxou um cigarro e perguntou se ele tinha fogo. Aliviado, respondeu sorrindo:

– Desculpe, eu não me relaciono com fumantes em hipótese alguma.

25/02/2020

FOLIA & CINZAS


Eu não gosto nadinha de Carnaval. Que me desculpem aqueles que gostam, mas essas festas populares, com muita gente alegre reunida, onde ninguém é de ninguém e o aumento da taxa de natalidade no mês de novembro é recorde, na verdade, me deixam até um pouco deprimido. Pelo menos o feriadão é longo e, acabada a folia, da quarta-feira de cinzas em diante, surgem ótimas histórias para se contar ou para se esquecer, dependendo de qual lado da trama você faz parte. Eu não faço parte de trama nenhuma, obviamente, visto que o meu desfile no bloco Acadêmicos do Ortobom não foi dos mais emocionantes e ainda estourou o tempo.

Falando em histórias, lembrei de uma boa: um conhecido de infância (hoje dono de bistrô), grande, gordo, peludo, cismou de sair vestido de odalisca, com uma fantasia toda feita de papel crepom vermelho. No sábado à tarde, na Praça XV, caiu uma chuva torrencial e a roupa derreteu inteirinha, deixando o jovem culinarista apenas de sunga, todo escarlate do pescoço para baixo, que nem chiclete de criança com anilina quando mancha a língua.

Tem também a da mocinha que, mesmo não gostando de Carnaval, aceitou ir com as amigas ao baile do Clube 12. Dormiu das duas da madrugada às seis da manhã no confortável sofá do banheiro feminino. A mesma dublê de foliã, um pitéu aos dezoito anos de idade (hoje psicóloga de renome), desferiu um mae-geri no estômago de um Batman que lhe passou a mão nas nádegas. Ficou lá o "super-herói", estatelado no salão, sem nada poder fazer contra as aulas de caratê que ela vinha tomando há mais de seis meses.

Mas a melhor dessas passagens momescas é a da filha da dona Glorinha, a Maria de Lurdes, que juntou todas as economias e foi para o Rio de Janeiro fazer um curso de esteticista. Um dia, telefonou e avisou à mãe que ia ser destaque no abre-alas da Unidos da União do Império Imperial, uma escola de samba do segundo grupo.

Dona Glorinha, viúva há doze anos, religiosa, muito querida na vizinhança, espalhou a notícia por todo o bairro e, na noite de sexta-feira, reuniu mais de quarenta pessoas, entre amigos, parentes e curiosos, frente ao seu televisor para acompanhar o desfile. Em pleno sambódromo, no alto do primeiro carro, surgiu a Lurdinha, filmada de vários ângulos por oito câmeras diferentes, com nome e sobrenome na legenda, lidos em voz alta pelo locutor da emissora, totalmente nua, peladinha da silva, só com um montinho de purpurina pouco abaixo do umbigo. Na sala lotada, ninguém ousou abrir a boca, muito menos a dona Glorinha. O infarto foi fulminante.

30/01/2020

O DIA DA SAUDADE


Não é feriado, mas bem que podia ser. Dia 30 de janeiro é mesmo o dia da saudade e pouca gente sabe disso. Eu comemoro desde os dez anos de idade, quando ouvi pela primeira vez Raul Seixas a recitar: "Hoje é o feriado do dia da saudade, onde todo mundo chora, canta e conta coisas tristes".

Nunca encontrei quem quisesse celebrar a data comigo. Então, a minha nostalgia ficava incubada até o ano seguinte, e eu não desgostava. Ficava saudoso, mais pelos fatos do que pelas pessoas, como uma música em tom menor que não sai da cabeça.

Dizem que não há palavra equivalente em outra língua, mas creio que o sentimento é universal: te extraño, I miss you, dá no mesmo. A saudade, nos dicionários, é tratada como uma lembrança nostálgica e suave, mas não sei, não. Ela às vezes pesa, dói, angustia, faz cócegas, muda o rumo. Tudo bem, na maior parte do tempo é suave, sim.

Gilberto Freyre escreveu que a saudade do passado, aliada à fé no futuro, é o que faz o mundo andar para a frente. Como a falta que eu sinto das coisas e dos amigos de antigamente é maior do que a minha crença em dias melhores, não acharia má ideia que a Terra girasse ao contrário de vez em quando. Já pensou, chegar bem pertinho de reviver seus melhores momentos em vez de apenas guardá-los na memória?

Saudade existe para a gente não esquecer o primeiro beijo, os almoços de domingo, o pátio do colégio. O tombo, a professorinha, a comunhão. A última vez em que não faltou ninguém à mesa, o quarto azul, o quarto rosa, o momento exato em que a bicicleta não precisou mais das rodinhas de apoio.

Saudade diminui a distância entre quem fomos e no que nos transformamos; dá o empurrão nas costas e o passo atrás, simultaneamente; separa o porto seguro do momento seguinte, quando começa a agir sem piedade, sobretudo nos fins de caso. "Creio que será permitido guardar uma leve tristeza e também uma boa lembrança; que não será proibido confessar que, às vezes, se tem saudade", nas palavras de Rubem Braga. Portanto, é coisa muito gostosa e muito ruim de se sentir, que, só pelo paradoxo, já mereceria um feriado.

Ué, não inventaram justificativa até para Tiradentes e Corpus Christi?

Pois sempre que me sinto assim – agora você sabe como –, todo dia 30 de janeiro de cada ano, acredito que só os beija-flores e os caranguejos são verdadeiramente felizes. Mas como eu não voo nem ando para trás, vou morrendo, aos pouquinhos, de saudade.

17/12/2019

DA SUPERFICIALIDADE DAS RELAÇÕES


Fazia algum tempo que não se encontravam.

Ela tirou a blusa, ficou só de sutiã e saia. Depois descalçou os sapatos, tão lentamente que ele quase se ajoelhou para arrancá-los. Tinha um anel (de prata, com motivos tribais) no dedo médio do pé esquerdo.

– Que merda é essa?
– Um anel, nunca viu?
– Assim, no pé, só em papagaio.
– Eu não acredito que tu nunca viu, tá se usando direto.
– Põe uma meia minha... só o pé esquerdo, eu te empresto.

Ela o olhou fixamente, durante uns trinta segundos, talvez menos. Calçou de volta os sapatos, no mesmo ritmo com que os havia tirado. Vestiu a blusa, ajeitou o cabelo, puxou um cigarro da bolsa.

Ele abriu a porta, de súbito, apontando o corredor do prédio com um movimento de cabeça.

– Fuma lá fora, me faz o favor.



10/12/2019

DIÁRIO DA DESESPERANÇA


Quarto dia – Ninguém jamais aguentaria passar pelo que eu passei, ninguém. Coisas assim me fazem repensar a vida, perder o rumo, trocar o dia pela noite, atrasar as contas, esquecer a data do meu próprio aniversário. Acontecimentos desse tipo não desaparecem nunca da memória. Sei que vou ficar velhinho e me lembrar claramente, como se tudo estivesse se repetindo mais uma vez.

Quinto dia – A nova manhã se revela estranha. Continuo tentando imaginar se foi sonho ou verdade, pois custo a acreditar que o fato tenha realmente ocorrido. Não consigo me concentrar em nada nem sinto falta de uma companhia. Talvez seja preciso alguma forma de lavagem (cerebral, estomacal, espiritual) para os meus fantasmas sumirem sem deixar nenhum vestígio.

Sexto dia – Mais de setenta e duas horas de agonia. O telefone toca, toca, toca e nem me levanto para verificar o número no identificador de chamadas. Não quero comentar ou dividir o que aconteceu, nem hoje nem nunca, a não ser que incidentes piores me façam esquecer esse outro de uns dias atrás. Espero que o tempo me ajude a recuperar a rotina, mas não creio nisso agora.

Décimo primeiro dia – Está sendo mais penoso do que se desenhava. Olho para o nada, para o vazio do teto e das paredes, para o espelho sem nenhuma imagem refletida. Não tenho certeza se os sons da campainha e do interfone estão vindo de fora ou de dentro da minha cabeça. Prédios pegam fogo, aviões colidem, morros desabam. E eu nem aí para o futuro de humanidade.

Vigésimo quarto dia – Já se vão três semanas. No entanto, parece que foi ontem. Casos como esse tiram o sono, embrulham o estômago, dão dor de barriga, suor, calafrios, brotoejas. Pelo menos não houve testemunhas, foi um evento isolado. Perturbador, traumatizante, cruel. Ainda sonho com a cena, ainda acordo no meio da madrugada, sem me conformar com a realidade dos fatos.

Vigésimo nono dia – Não vejo qualquer utilidade em comer, tomar banho, fazer a barba, abrir as cortinas. Talvez se eu não tivesse feito o que fiz, não tivessem feito comigo o que fizeram. Preciso urgentemente aprender a ficar passivo, pois somente alguém como eu seria capaz de deixar as coisas chegarem a esse ponto. Ninguém, ninguém mesmo aguentaria passar pelo que eu passei.

PS: Numa rua próxima, comendo donuts na viatura, os agentes Carmichael e Inojoza nada notaram.

03/12/2019

VERBORRAGIA


Claridade. Despertador, música, sono, preguiça. Remela. Chuva, bocejo, chinelo, tropeção. Banheiro. Tampa, assovio, urina, chão. Espelho. Água, nariz, sabonete, toalha. Televisão. Café, leite, pão, manteiga. Bafo. Escova, pasta, gengiva, siso. Roupeiro. Terno, camisa, gravata, sapato. Estrada. Buzina, freio, estacionamento, calma. Pesadelo. Repartição, escada, sala, computador. Dinheiro. Futuro, sonho, sacrifício, destino. Tempo. Relatório, lentidão, prece, refeição.

Fome. Arroz, feijão, bife, ovo. Fila. Livraria, banco, banca, sorvete. Ponto. Trabalho, trabalho, trabalho, trabalho. Cafezinho. Secretária, saia, panturrilha, loa. Chefe. Bigode, piada, suor, risada. Recomeço. Cadeira, óculos, chiclete, cacoete. Déjà-vu. Trabalho, trabalho, trabalho, trabalho. Janela. Distração, passado, viagem, paixão. Fadiga. Drágea, pomada, massagem, emplastro. Desejo. Campo, árvore, fruta, sossego. Crepúsculo. Rebanho, porteira, alívio, rua.


Movimento. Povo, odor, fofoca, sombrinha. Carro. Rádio, atalho, multa, palavrão. Namorada. Confeitaria, beijo, morango, regime. Planejamento. Conversa, família, noivado, casamento. Carona. Banho, cama, língua, Tampax. Suspiro. Silêncio, vazio, cafuné, perspectiva. Novela. Abraço, sofá, relógio, noite. Olhar. Lágrima, remorso, reclame, porta. Ternura. Perfume, pele, toque, afinidade. Compensação. Dó, ré, mi, falo. Vento. Rosto, endereço, distância, paz.

Garagem. Correspondência, elevador, chave, luz. Blues. Cueca, cerveja, mensagem, amendoim. Telefone. Pai, mãe, irmão, prima-irmã. Luar. Sacada, rede, saudade, cochilo. Ablução. Barba, loção, reunião, prazo. Poltrona. Pé, pufe, arroto, controle. Futebol. Lateral, centroavante, cabeça, gol. Pizza. Borda, atum, calabresa, sobra. Caneta. Conta, lista, rabisco, passaralho. Modorra. Pepsamar, pijama, travesseiro, lençol. Madrugada. Refluxo, ronco, apneia, solidão.

26/11/2019

ROTINA


Há algumas semanas, meu vizinho do andar de cima tentou violentar minha vizinha do apartamento da frente, uma moça chamada Débora, no único elevador do prédio. Foi numa tarde de outubro, quando ela chegava mais cedo do trabalho.

Ninguém soube dizer o que o motivou. Talvez por ela ser tão sozinha, por não ter um homem em sua vida, por não contar com parentes na cidade, tampouco amigos íntimos. Talvez por ela ser tão misteriosa, usar óculos e até ostentar um certo charme.

Segundo o zelador, parece que o pulha passou os braços em volta de sua cintura e apalpou-lhe as nádegas, assim que a porta se fechou. Quis beijá-la à força, mas só conseguiu levar uma dentada na maçã do rosto, sobre a barba malfeita.

Débora era tão discreta, tão tímida, que sequer conseguiu gritar suficientemente alto para se fazer ouvir. Quando o elevador parou, ele a empurrou para fora, abriu a braguilha e mostrou-lhe o falo rígido e avermelhado. Depois seguiu viagem, rindo alto.

Hoje o edifício amanheceu cheio de policiais e médicos-legistas pelos corredores. Uma viatura e uma ambulância manobravam para bloquear a porta de entrada. Consta que um homem fora encontrado morto em seu apartamento, amarrado à cama. Teve o pênis decepado e introduzido no próprio ânus.

Débora e eu pegamos juntos o elevador e saímos do prédio por uma passagem alternativa, cada um para um lado, em sincronia. Ao longe, ainda pude ouvir o zelador reiterando em altos brados:

– Já disse que ninguém viu nada, caceta!

19/11/2019

DIAS DE CRIANÇA (2)


Eu devia ter uns seis ou sete anos de idade, e isso já faz algum tempo. A tevê estava sintonizada numa luta de boxe. Logo ao lado, minha mãe passava roupas e cantarolava uma canção de Sérgio Bittencourt.


🎶 Olho a rosa na janela, sonho um sonho pequenino 🎶


Eu brincava com os meus carrinhos Matchbox e, de vez em quando, dava uma espiadinha no combate, no qual um mulato de calção preto permanecia fixo no meio do ringue, enquanto o outro, um loiro de calção vermelho, girava em torno dele.


🎶 Se eu pudesse ser menino, eu roubava essa rosa 🎶


O locutor, esgoelando-se, avisava que o juiz acabara de descontar mais um ponto do pugilista do corner rubro. Minha mãe, sem levantar os olhos da tábua de passar, me perguntou, fingindo interesse: "Ele disse pugilista ou fugilista, meu filho?"


🎶 E ofertava, todo prosa, à primeira namorada 🎶


Com propriedade, eu que já era um ás no boxe, apesar da pouca idade, impostei minha voz aguda para respondê-la: "Acho que ele disse fugilista, mamãe, porque esse branquelo fica fugindo o tempo todo!"


Ela assentiu e continuou cantarolando a melodia, agora sem a letra.


12/11/2019

DA FALTA DE ATENÇÃO NOS CONDOMÍNIOS


Quase todos os dias, há mais de dois anos, pego o elevador com a vizinha do 801. Sempre na mesma hora, pouco antes das oito da manhã, eu seguro a porta e ela vem correndo, atrasada, lá do fim do corredor. Na primeira vez ela agradeceu, sorriu e disse um "Bom dia, vizinho!" encantador. Na segunda vez, quando eu me preparava para retribuir o cumprimento da manhã anterior, ela entrou direto, sem dizer palavra, e fez a viagem até a portaria ajeitando o penteado no espelho. Virou rotina: num dia, sorria e falava comigo; no outro, me ignorava e seguia muda. Durante esses dois anos e pouco me acostumei com seus altos e baixos, com sua dupla personalidade, com suas alterações de humor. Quando nossos horários não coincidiam, eu sentia falta de sua companhia no elevador, já não me importava se era dia de cordialidade ou de carranca. Mas hoje cedo, tal qual uma trama de Conan Doyle, o mistério da vizinha do 801 se esclareceu. Enquanto eu segurava a porta, ela veio correndo, atrasada. Logo atrás, gritando "Peraí que eu vou também!", uma outra, igualzinha, ainda mais atrasada do que a primeira. As gêmeas entraram no elevador, ofegantes. Uma falou comigo, a outra não.

05/11/2019

COMER, FALAR, AMAR


– O que houve, afinal? – Miguel me pergunta.

– Ela conheceu um cara mais velho, mais rico, mais pauzudo, sei lá.
– Mas assim, de uma hora pra outra?
– Claro que não, decerto já tinha um caso e o trouxa aqui nem reparou.

Tomo mais um gole de vinho. Miguel enche novamente as duas taças e não volta a me questionar. Eu é que sinto uma necessidade absurda de falar sobre ela, de trazê-la à tona, ainda que apenas em lembranças.


– Eu reparava em tudo, Miguelera... sabia quando tinha cortado a franja, quando comprava uma roupa nova, quando tava alegre, triste, menstruada, com fome, com tesão, com sono... ela enrolava os cabelos com os dedos quando queria dormir... não bocejava nem nada, só enrolava os cabelos nas pontas dos dedos.

– Mais vinho?
– Uma vez a gente fez uma borsch.
– O quê?
Borsch! Uma sopa russa de beterrabas e vinagre.
– Ui... até me deu azia.


Miguel é redator publicitário. Amigo e funcionário ao mesmo tempo. Atarracado, cheio de tatuagens, com uma cara engraçada de periquito-australiano. Já estava na agência quando entrei. E foi amor à primeira vista. Só perdia para ela, que se impregnara em mim bem antes dele.


– Passamos um dia inteiro procurando ingredientes, cozinhando juntos, esperando aquela porra ficar pronta... depois pusemos a mesa, escolhemos um disco, sentamos frente a frente e jantamos como se fosse data comemorativa... e nem era, era um domingo qualquer.

– Gostosa?
– Claro que era gostosa, Miguelera! Você não lembra dos coxões e dos peitões que ela tinha? Parecia até a...
– A sopa, animal! A sopa.
– Ah, sim... MA-RA-VI-LHO-SA!

29/10/2019

DA VIDA SEXUAL DOS IDOSOS


Os velhos se reuniam no boteco todas as quintas-feiras. Chegavam por volta das dezenove horas e sentavam-se sempre ao redor da mesma mesa. Bebiam cerveja sem álcool, beliscavam petiscos com pouca gordura e falavam sobre suas amantes. Um dizia que estava mais potente agora do que na juventude, graças à pouca idade da gatinha com quem andava saindo; o outro contava que sua atual concubina o proibira de manter relações com a própria esposa, quebrando-lhe o vidro do carro como alerta; um terceiro lamentava-se por gastar em caixas de Viagra o dobro das compras mensais de supermercado; e o último confidenciava que passara a pagar a faculdade da amásia em troca de alguns chamegos fora dos padrões. A conversa fiada se repetia a cada semana, encontro após encontro: um tentando se vangloriar mais do que os outros. Às vinte e três horas, pontualmente, rachavam a conta e partiam em desabalada carreira. Enquanto não ficassem viúvos, ai daquele que aparecesse em casa depois da meia-noite.

As velhas jogavam canastra todas as quintas-feiras. Começavam cedo, perto das cinco da tarde, após um chá ou café acompanhado de bolinhos de chuva. Às vezes tomavam um Kahlúa – mas só as que não fossem dirigir depois – e falavam mal de seus homens e suas respectivas amantes. Uma dizia que, por sorte, não precisava mais cumprir as obrigações do casamento, já que o esposo andava às voltas com uma adolescente de quarenta anos; a outra dava risadas sempre que lembrava das tentativas do marido de explicar o vidro do carro em pedaços; a terceira contava que todos os meses fazia compras de supermercado também para os filhos, para as irmãs e para a faxineira; e a última comemorava o fato de seu velho companheiro nunca mais ter sugerido nenhuma prática contrária às leis da natureza. Divertiam-se muito, disputavam ao menos seis partidas e, lá pelas vinte e duas horas, despediam-se calorosamente. Faziam questão de estar em casa antes dos parceiros, apenas para ter assunto na semana seguinte.

Era às quintas-feiras que ela mais faturava. Podia escolher entre sair com os homens que ligavam por causa do anúncio no jornal ou atender aos clientes da boate nos fundos do próprio estabelecimento. Enquanto retocava a maquiagem, esforçava-se para não pensar em seus outros "padrinhos". Um deixava duas notas de cem reais em seu criado-mudo, apesar de sofrer de ejaculação precoce e jamais tê-la penetrado; o outro era depressivo, cobrava-lhe demonstrações públicas de afeto, mesmo que beirassem a violência; um terceiro comprava dela, semanalmente, várias caixas de Viagra falsificado, o que lhe rendia trezentos por cento de lucro sobre cada lote; e o último oferecera-se para pagar a mensalidade de sua segunda faculdade, dessa vez de Secretariado Bilíngue, em troca de uma simples inversão de papéis. Desdobrava-se tentando encaixar todos os encontros na agenda atribulada, mas não perdia o sono por isso. Sempre soube que os homens são extremamente estúpidos. E que tornam-se ainda mais estúpidos quando envelhecem.

22/10/2019

DE CUJUS


Eu nunca tinha ido a um velório. Nem dos mortos da minha família nem da família de ninguém. Mas acabei indo a esse, só para fazer média com a menina com quem eu estava saindo. Ela choramingou um "fica do meu lado" tão fofinho que não pude recusar. Além do mais, o falecido em questão era seu avô materno, dono de um considerável patrimônio em terrenos e salas comerciais, prometido em vida à neta predileta no caso de óbito repentino e irreversível. Era o caso, aparentemente.

Na modesta capela da funerária, uma multidão de parentes se aglomerava. Fiquei do lado de fora enquanto pude, consolando a minha pequena, oferecendo o ombro para que ela derramasse suas lágrimas e contando a quantidade de arranjos e coroas de flores espalhadas por todos os lados, do pátio externo ao entorno do caixão. Uns choravam, outros sorriam. Sim, sorriam. Um sorriso de Monalisa, prontamente transformado em pesar quando da aproximação de algum descendente mais íntimo do defunto.

Os jovens, entre adolescentes e adultos imaturos, alguns vindos da cidade vizinha, reunidos num canto afastado, já combinavam programa para a noite. Os idosos, sentados nas poucas cadeiras disponíveis no local, tentavam adivinhar quem seria o próximo a dobrar o Cabo da Boa Esperança, pois regulavam em idade com o cadáver.

Em circunstâncias nada ideais, fui apresentado a vários primos, primas, tios, tias, amigos e amigas da família para a qual eu pretendia entrar. Educadamente, apesar da insistência da ala masculina, me recusei a contar piadas que alegrassem o ambiente e me dispus a confirmar os resultados dos jogos do Brasileirão depois do enterro.

Alheio ao movimento à sua volta, o avô da futura mãe dos meu filhos repousava lúgubre, decúbito dorsal, no caixão aberto.

Quando a neta foi entrando no salão, me puxando pela mão, tentei resistir delicadamente, mas não houve jeito. Eu ia chegar perto de um morto pela primeira vez na vida, e logo de um homem a quem nunca tinha visto mais gordo  nem mais branco nem mais gelado , parecido com uma vela de sete dias derretida, de terno e gravata, com algodõezinhos no nariz.

A fila para o último adeus diminuía. Atrás da namorada e imediatamente à frente da viúva, ambas aos prantos, procurei imaginar como se age ou o que se diz numa hora dessas. Não que eu tivesse qualquer obrigação, afinal, nem sabia o nome do patriarca, apenas queria evitar um fiasco em pleno funeral, antes de firmar compromisso.

Cara a cara com o de cujus, em pensamento, pedi uma bênção para o romance que se iniciava. O falecido pareceu entender o recado. Emitiu um som semelhante a um peido, só que com a boca. Em seguida, expirou o ar derradeiro dos pulmões, atirando longe a bolinha de algodão de uma das narinas. Definitivamente, aquilo era um "não" em forma de suspiro. Sem que ninguém notasse, cobri rapidamente o orifício nasal do velho, persignei-me e saí de fininho. Direto para o banheiro da capela mortuária.

15/10/2019

COMPOSTURA NA PUBLICIDADE


Sentei-me numa das pontas da grande mesa da sala de reuniões. A moça da cozinha já servira a água e o café, Miguel já estava ao meu lado. Ainda de pé, a assistente de atendimento conversava animadamente com o diretor de arte da campanha. Todos aguardávamos o cliente, um empresário, dono de uma gigantesca loja de calçados, e um de seus gerentes, aos quais apresentaríamos meia dúzia de anúncios para revistas e jornais, um folder com as promoções do mês e algumas sugestões de outdoors simples e duplos.

– Tá por dentro de tudo, né? – Miguel perguntou, preocupado.
– Relaxa, passei a noite estudando as peças.
– Ficaram legais, né?
– Pra quem são, ficaram ótimas.

A porta de vidro se abriu e a recepcionista fez entrar um senhor grisalho, de terno e gravata, que, não fosse a cara fechada, poderia ter sido apresentador de qualquer programa de auditório da década de 1960. Logo atrás, bem mais à vontade e rebolativo, o coordenador de marketing da rede calçadista.

– Boa tarde, senhores – disse o velho, sem entusiasmo.

Sentaram-se nas cadeiras à minha esquerda. Ambos esfregaram as mãos, mais para mímicos siameses do que para executivos. Cutuquei Miguel com o cotovelo para fazê-lo entender que poderia começar seu discurso e mostrar as pranchas com os layouts e o boneco do folheto.

Assim que o meu amigo redator começou a falar, flutuei por sobre a mesa, como se tivesse ingerido alguma droga lisérgica, observando tudo e todos de fora do meu corpo. Vi a mão do diretor de arte sobre a coxa da assistente de atendimento; vi a cara de nojo do velho e a cara de tédio de seu aspone gay; acompanhei o esforço da equipe para tentar aprovar um material sofrível, com fotos mal escolhidas e fontes inadequadas, que, na opinião dos criativos, poderia até ganhar prêmio em Cannes. E me vi na cabeceira da mesa, ainda com boa aparência, um ou outro fio de cabelo branco, mais para coroa do que para jovem, com ares de intruso, de bicão, de ator de pegadinhas.

– Onde estão as fotos da minha neta que eu pedi para colocar?
– Desculpe, senhor, as fotos não tinham qualidade – respondi.
– Mas vocês são pagos para fazer o que eu mando!
– Opa, peralá! Somos pagos para fazer a divulgação da sua loja...
– E fazem muito malfeita, por sinal.
– É que não dá pra fazer milagre com aquela espelunca – arrematei.

O velho pulou da cadeira. Também fiquei de pé e quase encostei meu nariz no dele. Pude sentir o fedor de pinho do seu Très Brut De Marchand na pele enrugada. Alterado e corado, ameaçou:

– Essa loja está na família há cem anos, seu moleque!
– Pois então o senhor enfie essa loja no seu cu centenário!

Houve princípio de quiproquó. A reunião seguinte, na tarde do mesmo dia, seria com os outros sócios da agência de propaganda. Na pauta, a minha exclusão do contrato social, em definitivo.

08/10/2019

SETE VIDAS


O velho caminha lentamente, apoiando-se no cabo da pá que carrega na mão esquerda. Na mão direita, um saco de lixo com o cadáver do gato de estimação. Toma mais um pouco de ar e continua rumo aos fundos do terreno. Sente os pulmões ressecados, a musculatura frouxa pela falta de exercícios, as articulações dormentes. Vai entrando pela sombra das árvores. Repara na abundância de verde, mas não se impressiona. Ignora a natureza e suas belezas, como fizera desde sempre. Estaciona-se. Inspira, expira. Escolhe um ponto de chão mais macio e marca um xis com o bico do sapato. Encosta a pá no muro, larga o embrulho com a criatura morta. Olha em volta, num gesto mecânico.


O velho, que nem é tão velho se comparado aos outros velhos, começa a cavar sem ânimo. Enfia a ferramenta no solo, usa um dos pés para empurrar mais fundo, faz a alavanca e arranca um naco de barro misturado com areia e capim. Tenta acelerar o processo, mas consegue apenas acelerar seus batimentos cardíacos. Vai amontoando a terra ao lado do buraco, que nem precisa ser tão largo nem tão profundo, pois o corpo na sacola não é de um felino adulto. Inspira, expira. A camiseta vai grudando em suas costas.

Apronta o funeral da melhor maneira que suas forças permitem. Gostaria de ter preparado enterros como aquele para muita gente: para quem gostava pouco, para quem não gostava, para quem odiava. No entanto, ele mesmo morrera antes, de certa forma. O velho goteja de suor em pleno inverno. Um suor que desce pela testa e vai se acumulando nas sobrancelhas.

Não imagina quanto tempo se passou desde que saiu do quarto. Meia hora, talvez. Mas é improvável que sintam sua falta. Então desenrola o saco plástico e deixa cair o bicho, já endurecido, a pelagem alaranjada sem nenhum brilho ou maciez. Chuta-o para dentro da cova, sem pompa nem cerimônia. Dedica alguns segundos a avaliar toda a cena antes de puxar o barro de volta, cobrindo-o rapidamente, como se tivesse receio de que o animal pudesse reviver e fugir. Aguentaria um fantasma ou dois ou três, qualquer um de seus fantasmas assombrando suas noites, mas não resistiria se voltasse a ter a companhia de um único ser vivo. Enterraria a si próprio antes que isso acontecesse.

O velho olha em volta novamente. Inspira, expira. Ajeita a areia que cobre a sepultura, encosta a pá outra vez no muro e procura por uma nesga de brisa. Não sabe se deve rezar, cantar uma canção em homenagem a todos os gatos do mundo ou só virar as costas e ir embora. Abaixa a parte da frente do moletom, segura o pênis flácido, puxa para trás toda a pele que recobre a glande e aponta-o para a terra recém-remexida. Concentra-se um pouco e mija com dificuldade. Depois se recompõe para fazer o trajeto de volta.

Sunrise Cat (Caroline Conkin, 2014)

Diante do retorno tormentoso, o enterro minimalista parece ter sido a parte fácil da tarefa. Não tormentoso de tristeza pelo gato, longe disso. É que já não pode percorrer nem mesmo pequenas distâncias. Ao menor sinal de palpitação, caga-se de medo de perder os sentidos sem ser notado, nos fundos do quintal da clínica, por exemplo, em meio à mata por onde somente ele costumava se embrenhar de vez em quando. Apoia-se na pá, faz dela uma muleta. Não fosse o desleixo da roupa, poderia se fazer passar por um profeta com o seu cajado. Bem, não por um profeta, na verdade, apenas por um maluco bisonho.

Na metade do caminho inverso, avista um dos enfermeiros. O velho para e observa, a fim de divertir-se com o andar desengonçado e a falta de habilidade do serviçal em mover-se pelo terreno irregular.

– Bom dia, seu Dávide!
– Não é Dávide, é Dêividi.
– Chegou uma encomenda pro senhor, coloquei no seu quarto.
– Que merda.
– Deixa que eu levo essa pá...
– Toma, vai na frente.

O velho ainda permanece parado por alguns instantes enquanto espera o rapaz sumir pela trilha. Em seu íntimo, gostaria de ser atingido por um raio em vez de precisar voltar ao asilo. Suspira. Retoma a passada lenta. Aproxima-se do casarão de paredes azuis, telhado azul, janelas e colunas azuis. Agora a passagem de pedregulhos transforma-se numa calçada lisa e bem cuidada. Inspira, expira. Sobe um par de degraus e dá apenas mais quatro passos sobre o piso estampado em direção ao hall de entrada, e dali ao corredor que leva aos dormitórios.

Tropeça na caixa de papelão logo que empurra a porta. O embrulho se mexe. E se mexe novamente. Um miado muito fraco vem de seu interior e o velho nem precisa abri-lo para entender o que está acontecendo.

– Esse gato não morre nunca... filho de uma puta!

01/10/2019

NOTA DE FALECIMENTO

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia.
(...) No espelho, essa cara não é minha.


Tenho um amigo que sempre soube que não chegaria aos cinquenta. Morreu antes, bem antes. Na verdade, veio morrendo amiúde, até quase atingir meio século de idade. Virou um arremedo de ser humano.

Da criança quieta ao adolescente inquieto, e de lá ao homem absolutamente deslocado no mundo, foi ficando mais triste, mais pobre, solitário, menor. Corcunda, magro, anêmico, impotente. Foi perdendo o vigor, o brilho, a esperança. Esquecido, cansado, incompreendido. Um cão sem dono, uma árvore no outono. Definhando.

Não por doença nem por nenhuma fatalidade, apenas pela vida mal vivida. Quem dera fosse envenenamento, acidente, tiro, amor, cólera, punhalada nas costas. Ele só morreu e pronto. Não encontrou razão para continuar, não vejo nada de espantoso nisso.

Simplesmente não sonha mais nem quer chegar a lugar nenhum. Não foi o que pretendia ser nem pretende ser diferente do que é. Pela primeira vez, não tem paixão nem ódio dentro de si. Toda a responsabilidade e dedicação, toda a ética e sensibilidade, enfim, virtudes das quais se orgulhava, nunca tiveram utilidade. Cultura? Criatividade? Lérias.

O tempo foi passando, as rugas foram aparecendo, os cabelos embranquecendo. E ele se transformando numa criatura abominável, intolerante, amargurada, incapaz de conviver com seus semelhantes. Um zé-ninguém, um zero à esquerda, um qualquer. Inábil, infeliz. Morto por dentro e por fora. Aquele que não sabe a diferença entre o certo e o duvidoso, entre o bem e o mal, entre o céu e o inferno.

Ele confessa: não presta. E também não existe. É um homem invisível, um perdedor, o cara que todos amam detestar. Será sempre aquele que não nasceu para aquilo. Cada vez mais desajustado, cada vez pior. Com frio, com fome, a pé. Sem dinheiro, sem parentes, atroz.

Contudo, calado. Cem ressurreições seguidas, até não haver mais saída. E nem foi preciso pular do alto de um edifício ou se atirar na frente de um caminhão. Bastou ter coração, personalidade, acreditar na sorte.

Dizem que o fim chega logo para canalhas como ele, sem berço, sem estrela. Do tipo que não se vende, que não recua, que não chora. Da categoria dos excluídos, dos esquisitos, dos que não foram abençoados. Dos que fazem de tudo um pouco e quase tudo mal feito. Insosso, insípido, inodoro. Frio, de alma canhestra.

Esse meu amigo jura que lutou, mas perdeu a guerra. Tomou o trem errado, saltou no bairro errado, viveu uma vida que não era a sua.

E agora morreu, antes mesmo dos cinquenta, como havia imaginado. Sem plantar uma árvore, sem ter um filho, sem escrever um livro. Anônimo. Gauche desde o início. Somente um peso, um estorvo, um cadáver. Amontoado disforme de culpas e cinzas.

E vazio. Imensamente vazio, ele me contou.

24/09/2019

A PARENTE MENTE


Passava um pouco das nove da noite e já não havia mais ninguém nas ruas. "Sombrio, turvo, ermo", foi o que pensou o forasteiro que entrava na cidade a pé, carregando somente uma mochila de lona. Fora assaltado na estrada, levaram-lhe o cavalo, a arma e os últimos trocados. Agora, apesar de tudo, precisava apenas de um copo d'água, talvez uma bebida, e um canto para dormir.

À medida que avançava, percebia vultos por detrás das cortinas, por entre as venezianas, por qualquer espaço protegido pela escuridão. Caminhou na direção da única porta aberta, de onde vinham vozes e uma luz intermitente de velas acesas. Um corredor de velas, cada uma dançando num ritmo próprio toda vez que uma lufada de vento morno atravessava o ambiente. No centro da pequena casa de madeira, um caixão fechado, coberto de flores. "Mas que porra...", foi o que pensou o estranho ao tirar o chapéu em sinal de respeito. Entre meia dúzia de mulheres chorosas, o padre mostrou-se aliviado.

– Finalmente chegou quem faltava! Podem ir todos, com a graça de Deus. O cunhado do falecido cuidará de consolar sua querida irmã, diante desta perda lamentável. Amanhã cedo nos encontraremos novamente, no cemitério. Boa noite, meus filhos! Lembrem-se de orar pela viúva e pela alma de seu devotado esposo.

Depois de dez minutos, viu-se sozinho com uma moça de vestido preto, o caixão entre eles. A anfitriã fechou a porta por onde o povo acabara de sair e apagou o lampião da varanda. "Bela, recatada e do lar", foi o que pensou o forasteiro quando ela o encarou com enormes olhos castanhos, tristes e lacrimejantes, encobertos por um véu de filó.

– Meus pêsames.
– Obrigada.
– E agora?
– Agora nada, vamos dormir.

Sem mais palavras ou gestos, enquanto o visitante enchia dois baldes com água do poço no fundo do quintal, a viúva trocava os lençóis da cama de casal. "Hoje vou me vingar de todo o sofrimento, amado marido", foi o que ela pensou antes de rasgar o telegrama que recebera à tarde, durante o velório. Em um dos pedaços de papel, caído para fora da lixeira, ainda era possível ler claramente, logo abaixo do timbre da agência postal: "Não poderei comparecer, cuide-se bem".

17/09/2019

AS AVENTURAS DO HOMEM INDIZÍVEL


– Sequoia ou baobá? 
– Sobre o tamanho ou sobre a aparência?
– As duas coisas.
– A sequoia ganha em altura e o baobá ganha em beleza.
– Já viu algum de perto?
– Não, senhor... só em fotografias.

Era uma entrevista de emprego, mas não parecia. Estava mais para teste de cultura inútil. Percebi a impaciência no semblante do avaliador, ainda sem saber se ele me considerava muito novo ou muito velho para escrever aos leitores da sua revista semanal. Pensei em argumentar que na Folha de S. Paulo, por exemplo, hoje em dia qualquer zé-mané tem uma coluna ou um blog. Contudo, apenas pensei. Talvez não fosse o momento de admitir que eu também era um qualquer. Ele folheou a agenda à sua frente e veio com um bate-bola.

– Atriz preferida?
– Jennifer Connelly.
– Cantor?
– Vivo ou morto?
– Vivo.
– Morrissey.
– Escritor?
– Rubem Fonseca.

Pelas minhas pesquisas, a publicação se destinava aos jovens. Tinha mais imagens do que textos, obviamente, e dava importância aos avanços tecnológicos, aos festivais de música eletrônica, aos campeonatos de jogos on-line e aos cursos de educação à distância.

– Senna ou Piquet?
– Piquet.
– Por quê?
– Foi igualmente tricampeão dirigindo carros inferiores.
– Muito bem... Pepsi ou Coca?
Design ou sabor?
Design.
– Pepsi.

Estranhei o fato de o meu interlocutor beirar os 60 anos de idade e não ter a mínima ideia de como o mundo funciona. Uma revista impressa, distribuída nas bancas por um valor que nenhum adolescente desembolsaria, me pareceu claro indício de vida curta ou bancarrota.

– O que pensa sobre Anitta?
– Anita Malfatti?
– Não.
– Anita Garibaldi?
– Não.
– Anita Baker?
– Não.
– Mel Lisboa em "Presença de Anita"?
– Não.
– Então não penso nada, senhor.

Considerando que eu sempre me comportara como um ancião desde os tempos de escola, perguntei a mim mesmo se seria capaz de escrever para gente nova. Certamente que não. Meu desprezo pela juventude e os fantasmas de todos os meus ex-chefes normalmente são o grande empecilho nesses instantes da minha vida. Na hora H, no dia D, é batata que um outro Eu se sobrepõe ao Eu original e toma as rédeas da conversa. Sem plano de saúde, sem vale-refeição, sem relógio-ponto, sem independência editorial: "kkk".

– Pretensão salarial?
– Seria muita pretensão se eu dissesse.
– Prefere trabalhar em casa ou na redação?
– Tanto faz, moro aqui perto.
– Tem algo a acrescentar?
– A esta conversa ou à empresa?
– Ambos.
– Nada.
– Nada?
– Nadinha.

10/09/2019

MISTUREBA


Percebi que a rapariga do caixa me olhou de um jeito esquisito quando fiz o pedido. Provavelmente eu era o primeiro cliente na história da lanchonete a escolher uma combinação tão absurda, e talvez por isso ela tenha aguardado a minha terceira confirmação verbal antes de gritar debochadamente para o pessoal da cozinha:


– Um McFish e um capuccino de meio litro, por favor!


Na semana passada, num restaurante italiano, daqueles em que se pode combinar livremente os ingredientes dos pratos, me aconteceu episódio parecido. Eu andava com vontade de experimentar o nhoque da casa e, ao mesmo tempo, com um desejo gestatório de comer espaguete à carbonara. O garçom, muito gentilmente, anotou o pedido.


– Qual massa, senhor?

– Nhoque.
– E o molho?
– Carbonara.
– Tem certeza?
– Por que, não pode?
– Pode... mas é estranho.

Quando anunciei que ia beber suco de abacaxi com hortelã para acompanhar, achei que ele fosse me bater com o cardápio na cara.


Inexplicavelmente, trinta minutos depois, um segundo funcionário veio servir a gororoba (admito, a aparência não fez jus ao sabor), enquanto o primeiro tomava um Plasil em outro setor do estabelecimento.



Ora, quem não tem lá as suas esquisitices gastronômicas? Meu irmão mais novo sempre come bolacha maria besuntada com o feijão que sobra do almoço; tive uma vizinha que amassava abacate com sal e pimenta em vez de açúcar e limão; eu mesmo, bebo café gelado e prefiro Coca-Cola sem gás. Além do mais, existem tantas harmonizações inviáveis – culinárias ou não – que ninguém contesta, como a Dakota Fanning fazendo papel de refugiada muçulmana, por exemplo. A democracia e o governo brasileiro também são coisas que não combinam, mas aí já é assunto para outro texto.

Voltando ao nosso tema: o que pretendo dizer é que nem a moça da lanchonete nem o garçom do restaurante têm o direito de torcer o nariz para nenhum pedido de nenhum cliente, por mais bizarro que pareça (o pedido, não o cliente). Cada um sabe de suas potencialidades digestivas e faz a mistureba que bem entender, dane-se a opinião alheia.


Por isso, não quero nem imaginar o que dirão os franceses se souberem que costumo raspar toda a cobertura do croque-monsieur ou como reagirão os enofílicos assim que eu revelar que tenho aqui, ao lado do computador, daqueles copos tipo long drink, com vinho importado, muita água, gelo, adoçante e um canudinho flexível.


03/09/2019

LETRA & MÚSICA (2)


O casal de aficionados da MPB e do pop-rock nacional, divorciado há cinco anos, volta a se encontrar no mesmo barzinho com som ao vivo, na mesma minúscula mesa redonda. Ela tenta quebrar o gelo:

– Como vai você? 
– Tenho o que me falta e o que me basta, no mais é ficar só.
– Eu fico à vontade com a sua ausência...
– Eu quase não saio, eu quase não tenho amigos.
– Vai melhorar... é bola pra frente, depende da gente.
– Sou um presidiário cumprindo sentença.
– Pois vai curtir seu deserto, vai.
– Mas te vejo e sinto o brilho desse olhar...
– Você foi dar um mergulho e por pouco não se afogou.
– Eu percebi trauma, que eu vivi um trauma.
– Tente outra vez!
– Eu só preciso ter você por mais um dia.
– Eu, hein? Nem pensar.
– Estranho, mas já me sinto como um velho amigo seu.
– Pois é, não deu.
– Me diz por onde você me prende...
– Será que é tempo que lhe falta pra perceber?
– Tempo, tempo, mano velho!
– Fique feliz, na boa, e tudo vem.
– Tente passar pelo que estou passando...
– Esqueça de mim, que, afinal, pra esquecer você tem experiência.
– Me dá um beijo, então.

Beijam-se despudoradamente durante alguns minutos. O que ele imaginou ser uma reconciliação, para ela era uma tardia vingança. Pedem mais dois chopes, uma porção de fritas e retomam o diálogo.

– Eu bebo um pouquinho, pra ter argumento.
– Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar...
– Se você disser tudo que quiser, então eu escuto.
– Eu gosto é de mulher!
– Isso me dá tic-tic nervoso!
– Quando entrar setembro e a boa nova...
– Quem é ela?! Quem é ela?!
– Isso do medo se acalma, isso de sede se aplaca.
– Meu rosto vermelho e molhado é só dos olhos pra fora.
– Tanta coisa muda nessa hora, que o mais valente dos homens chora.
– Ok, você venceu.
– Acabou. Boa sorte!
– Não esquece de mim, mesmo que seja ruim.
– Cuide-se bem... perigos há por toda a parte.


Gabarito: Antônio Marcos, Sérgio Sampaio, Toni Platão, Dominguinhos e Gilberto Gil, Maria Rita, Vander Lee, Toquinho e Vinícius, Cidadão Quem, Camisa de Vênus, Clínica (Fernando Salem), Raul Seixas, Lô Borges, Kleiton & Kledir, Nando Reis, Los Hermanos, Marina Lima, Lenine, Pato Fu, Zizi Possi, Luiz Melodia, Pimpinela, Lulu Santos, Nana Caymmi, Geraldo Vandré, Secos & Molhados, Ultraje a Rigor, Magazine, Beto Guedes, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Frejat, Benito Di Paula, Blitz, Vanessa da Mata, Wander Taffo (Rádio Táxi), Guilherme Arantes.

27/08/2019

A LENDA*


Acabara de deixar um passageiro em Higienópolis. Longe de seu ponto, mas aproveitando que já estava por ali, resolveu procurar a oficina que lhe recomendaram, em algum canto do Jardim Lindoia. Precisava ver o que era esse barulho no motor, cada vez mais agudo, sempre que acelerava. "Correia dentada... só pode ser correia dentada", pensava ele, ao mesmo tempo em que correspondia ao aceno de um transeunte.


Mauro Edson Santana Castro, o taxista mais famoso de Porto Alegre, nunca fora afeito a manutenções periódicas em seu veículo. Preferia trocar de carro (como fizera recentemente) a consertar pequenos defeitos. No entanto, o caso agora era diferente: com o táxi ainda na garantia, não se conformava com a incompetência da rede autorizada, que não havia descoberto o defeito em duas revisões seguidas. Por isso, meio a contragosto, estava prestes a apelar para uma suspeitíssima mecânica de fundo de quintal.


Quando avistou a placa, na qual a palavra "suspensão" aparecia escrita com cê-cedilha, não teve dúvidas de que chegara ao seu destino. Ao descrever os sintomas para o mecânico-chefe, descobriu que correia dentada não existe mais (modernamente fala-se apenas "correia") e que o problema era de simples solução. "Nada que uma enceradinha com vela de sete dias não resolva", concluiu o curandeiro automobilístico do estabelecimento. Assim, aliviado com a notícia do baixo custo do conserto, bateu-lhe uma tremenda vontade de fazer xixi.


Corajosamente, Mauro encaminhou-se ao banheiro que ficava na parte de trás da oficina, ao lado da máquina de calibragem. No ambiente, ricamente decorado com calendários de garotas seminuas, encantou-se com uma loira de olhar distante e seios fartos. Permaneceu alguns segundos hipnotizado diante dela, sobretudo por uma pinta próxima ao canto esquerdo do lábio superior, no melhor estilo Cindy Crawford. Pensou em arrancar a página da folhinha como recordação, mas contentou-se em fotografá-la com a câmera do celular.


Pouco depois, já no caminho de volta para o seu ponto (na esquina da rua Saldanha Marinho com a avenida Getúlio Vargas), recolheu uma passageira que lhe fazia sinal desesperadamente. Pelo retrovisor, logo que a mulher guardou os óculos escuros num estojo, ajeitando-se nervosamente no banco traseiro, Mauro a reconheceu e não se conteve:


– Santa Francisca Romana! Mas é a loira do banheiro...


Constrangida, a modelo baixou os olhos e pôs-se a procurar algo em sua bolsa. Não era um telefone nem maquiagem nem nenhuma arma de fogo. Finalmente, agora sorrindo enigmaticamente, pegou uma caneta e um exemplar bastante surrado do livro de crônicas lançado pelo calvo chofer de praça em 2006. Com as mãos trêmulas de emoção, cutucou-lhe o ombro e sussurrou com voz rouca, suplicante:


– Escreve aí, seu Mauro: "Para Gislaine, com carinho", por favor.



*Crônica antiga, de 2009, em homenagem ao amigo Mauro Castro, autor dos quatro volumes de "Táxi Tramas: Diário de um Taxista", que viraram até série de TV, pela Prime Box Brazil, em 2019.