25/06/2019

OS ACESSAMENTOS


Noite de sexta-feira, me assusto com o interfone. O livro me cai das mãos e perco a página marcada. Seria normal que o interfone tocasse em um apartamento 
– de que outra forma o visitante entraria num edifício sem porteiro? , não fosse o fato de que não recebo visitas, ninguém sabe o meu endereço. Fora o carteiro e um ou outro entregador de pizza, não há motivo para alguém tocar o meu interfone.

Levanto-me do sofá, caminho até a cozinha e alcanço o aparelho. Digo "Pois não?" em vez de "Alô!", visto que interfone não é telefone. Como eu imaginava, ninguém das minhas relações. Era uma voz de mulher, me pedindo para abrir a porta, pois o interfone do 301 não está funcionando. Na semana passada, me pediram acesso ao 401, porque o interfone estaria com defeito. É um prédio pequeno (minúsculo, eu diria), de quatro andares, com somente quatro unidades. Além de mim, no 201, cujo interfone funciona perfeitamente, sobra apenas o 101, que jaz vazio, com uma placa de "aluga-se" na janela. Assim, de certa forma, eu me transformei no porteiro que o condomínio não tem.


Não abri para essa mulher que, educadamente até, me pedia para liberar a porta. Avisei que não era do 301 e sugeri a ela que ligasse para o celular dos moradores em questão. Minutos depois, ouvi passos na escadaria. Pelo olho mágico, vi alguém do apartamento de cima descer para receber sua convidada. Em seguida, subiu novamente a pessoa que descera antes, agora acompanhada de uma moça e duas crianças.


Aparentemente, tratava-se de alguma confraternização. O interfone ainda tocaria meia dúzia de vezes durante a noite. Não atendi a mais nenhuma das tentativas, nem as mais insistentes, bem como tirei o som da campainha do aparelho quando resolvi que não queria voltar a ser interrompido em minha leitura. Não que isso tenha me trazido o sossego esperado, pois, em se tratando de certos tipos de patuscada moderna, o volume da música era mais alto do que o aceitável, além de o repertório ser de gosto bastante duvidoso para os meus padrões.


Normalmente, em qualquer um dos edifícios em que vivi desde os dez anos de idade, eu interfonaria para quem estivesse fazendo barulho e pediria silêncio. Isso não é possível hoje, obviamente, já que o único interfone em funcionamento é o meu, o que me permitiria ligar apenas para mim mesmo. Esse outro eu, provavelmente, solicitaria que eu fizesse algum barulho ou violasse alguma regra, para não ser mais considerado o esquisito do prédio. Se pudesse interfonar a mim mesmo, talvez me perguntasse por que nunca uso a torneira externa para consumo próprio, por que espero o portão da garagem fechar ao entrar ou sair de carro ou por que não ando de salto alto dentro de casa.


Claro que não há reunião de condomínio onde moro. Também não há estatuto, vigilância ou coleta de lixo reciclável. Num lugar em que ninguém é capaz de consertar o próprio interfone, compreensível. Então, só me restou cutucar o teto com uma vassoura até que os vizinhos e seus convivas passassem a confraternizar mais civilizadamente. Restabelecida a paz, volto a ler e acabo cochilando no sofá.


Manhã de sábado, me assusto com a campainha. O livro está novamente no chão, sem o marcador de páginas. 
Levanto-me com dificuldade. Pelo olho mágico, reconheço a senhora miúda que sempre toma café da manhã comigo nos fins de semana desde que fiquei viúvo. Mal descerro a porta e minha mãe entra discursando: "Precisas consertar esse interfone, meu filho! O casal do 301 é que abriu pra mim lá embaixo".

18/06/2019

DA RELATIVIDADE DOS VALORES


Eu era o próximo da fila na pequena agência dos Correios. O senhor à minha frente acabara de ser chamado ao balcão de postagem, onde havia uma única atendente para todos os clientes. Não por que fosse intervalo de almoço, nada disso. Era assim sempre, em qualquer dia ou horário. Culpa da própria cidade, esquecida por Deus, com seus quase dois mil habitantes, igualmente esquecidos e conformados.

Apesar de falarem baixo, a curta distância entre mim e o guichê me permitia ouvir a conversa do idoso com a agente, identificada apenas por um crachá. Tratava-se de uma carta. Nos tempos de hoje, uma carta. Naqueles envelopes antigos, com as cores do Brasil nas bordas, indicação da posição do selo, linhas pontilhadas para os endereços e só cinco quadradinhos para o CEP. Educadamente, ele solicitou:

– Por favor, eu gostaria de enviar esta correspondência para a capital.
– É carta comum ou o senhor quer declarar o valor?
– Valor? Como assim, minha filha?
– Em caso de extravio, nós reembolsamos o valor declarado.
– Bem... certamente a minha carta tem muito valor.
– O que é que tem no envelope? Um cheque, uma joia?
– É uma carta de amor.
– Ah, então não vale nada... é carta comum, fica por três reais.

O missivista, desolado, me pareceu ainda mais velho ao sair vagarosamente da agência. Ora, como não haveria de ter valor uma carta de amor? Qual seria a medida dos Correios para avaliar o que vale ou deixa de valer para cada pessoa? E se o carteiro fosse assaltado sem que – naquelas linhas escritas à mão, em letra caprichadamente tremida – um "eu te amo" ou um "quanta saudade" chegasse ao seu destino?

Ao ser convocado pela atendente para ocupar o lugar do primeiro cliente, dei dois passos para frente e coloquei sobre o balcão um envelope pardo com três crônicas que eu pretendia inscrever em um concurso literário. Antes que a moça me fizesse a mesma injusta, cruel e constrangedora pergunta, fui logo avisando: "Não tem valor nenhum, não te preocupa, é só uma correspondência indigente e mal-amada".



11/06/2019

CONSIDERAÇÕES, FRASES, MÁXIMAS E OPINIÕES ACERCA DE NAMOROS, NOIVADOS, CASAMENTOS E DIVÓRCIOS


Aquilo que as mulheres gostariam de ouvir não tem nada a ver com o que os homens gostariam de dizer. Azar o meu, que só fui aprender isso depois de três divórcios e duas ordens de restrição.

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O amor é a intersecção entre duas pessoas.

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Se as mulheres soubessem o quanto ficam mais interessantes sérias do que sorrindo, nunca mais mostrariam os dentes a homem nenhum.

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Reclamo que faz dois anos que só como comida congelada. Ela se espanta: "Como você consegue? Quando eu chupo um picolé já me doem os dentes".

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Pior do que ninguém sentir sua falta é ninguém notar sua presença.

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Entre um cara inteligente e companheiro e um outro ignorante e bronco, as mulheres sempre escolhem aquele que tem mais dinheiro no banco.

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Vão por mim, morangos e calda de chocolate combinam relativamente bem com sexo. Carne defumada e maionese, não. Fica a dica.

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Acompanho minha esposa ao médico.

– Tá aqui o exame de urina dela, doutor!
– Não é pra mim, é pro urologista.
– Mas o senhor trabalha nessa área...
– Não é minha área, sou ginecologista.
– Me refiro à área da xereca, o senhor manja, não?


Minha esposa pede que eu espere lá fora.

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Agora só dou bola para as cheinhas. Cansei de mulheres vazias.

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Passei o dia sentindo um cheiro azedo, semelhante ao que exala das partes da patroa. Às seis da tarde, finalmente me avisaram que eu tinha maionese no bigode.

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Não é preconceito, mas mulheres realmente não têm noção de espaço. Isso se aplica à vaga de garagem, ao guarda-roupa e à cama de casal.

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Por que será que as mulheres ficam tão revoltadas quando dormimos com as melhores amigas delas? Depois reclamam que nós, homens, é que somos egoístas.

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Aos vinte anos, eu tinha a maior curiosidade de saber quem é que comia as coroas de quarenta. Agora que passei dos quarenta, já tenho a resposta: não sou eu.

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Prefiro uma mulher de extrema-direita a uma extremamente direita.

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Engana-se quem pensa que sou um homem cheio de mulheres. Corriqueiramente, elas é que costumam se encher de mim.

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Duas mulheres de uma vez aqui em casa! Minha sorte mudou! Tá certo que eram duas escoteiras de sete e oito anos vendendo cupcakes, mas já é um bom indício.

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Me fiscaliza, me chama de estabelecimento.

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Escolher uma mulher é que nem escolher maçãs no supermercado: as mais bonitas nunca são as mais suculentas.

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Tive apenas cinco relacionamentos especiais na minha vida. Os outros noventa e cinco não foram importantes. Definitivamente, eu não dou sorte com o sexo oposto.

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O ápice da vida sexual de um homem se dá quando ele convence uma torcedora do Palmeiras a vestir a camisa do Corinthians na cama.

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"Amo gordinho", disse a moça ao meu lado no bufê. Antes que eu retribuísse o elogio, ela completou: "É meu peixe preferido, pena que tem espinha".

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Era uma amante cheia de regras. Vivia menstruada.

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Podem me internar se um dia me encontrarem na piscina do prédio, ao lado de outros velhos barrigudos, falando mal das esposas durante a ausência delas.

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Mulher casada com homem que fuma charuto... lamentável.

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O casamento acabou quando ela disse que sonhava ver as Cataratas de perto. Ele, renomado oftalmologista, a levou para acompanhar uma consulta.

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A rapariga do caixa do supermercado viu as minhas compras e perguntou quantos filhos eu tinha. Acabei confessando que as guloseimas eram só para mim.

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Me organiza, me chama de evento.

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Dizem que não se deve convidar casais não casados para padrinhos de casamento. Na festa, a minha acompanhante pegou o buquê. Casou meses depois, mas não comigo.

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Amor de verdade precisa ter data e música. Se não houver um dia para comemorar nem uma trilha sonora para relembrar, não é amor.

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O preço da independência é a solidão.

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Estou escrevendo sobre os relacionamentos mais escatológicos que já vivi. O livro se chamará "50 Tons de Marrom-Cocô" e terá capa aromática.

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Fez as malas e fugiu de casa. Mais tarde, confessou à amiga que lhe dava guarida: "Ele me tratava bem demais, mulher nenhuma aguenta isso".

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Achei que tinha encontrado uma conhecida no shopping. Depois de passar a mão na bunda dela e levar um tapa na cara, percebi que não era quem eu imaginava.

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Mulher boa na cama tem aos montes por aí, mulher boa fora da cama é que é uma espécie em extinção.

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As bonitas que me perdoem, mas inteligência é fundamental.

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Fazendo uma autocrítica, descobri por que não quero ter um filho. É por causa do choro e dos gritos durante a madrugada. O bebê não suportaria.

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A bunda da mulher do vizinho é sempre mais verde.

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Gabava-se de ter levado duas mulheres para a cama ao mesmo tempo. Mais tarde, confessou que era sua própria esposa, grávida de sua primeira filha.

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Procura-se um amor que não ponha granola em tudo.

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As mulheres ficariam espantadas se soubessem quantos homens saem de um banheiro público sem lavar as mãos. Mais ainda com quantos deles puxam papo com o desconhecido que está mijando ao lado ou, o que é pior, quantos conversam com o próprio pinto.

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Me desrespeita, me chama de estatuto.

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A culpa de algumas mulheres se vestirem mal é dos homens. Todo marido ou namorado deveria ter coragem de comentar: "Essa calça deixa a tua bunda feia".

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Acabei de fazer uma limpa na minha carteira, não cabia mais no bolso. Além de cartões velhos e comprovantes do TRE, achei uma camisinha que venceu em 1994.

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Um homem só amadurece quando cai, que nem banana ou abacate.

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Quando finalmente cansamos de buscar o inusitado, acabamos descobrindo que o óbvio já nos teria feito felizes desde o começo.

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Meus dois critérios para escolher namoradas:

1. Leu um livro do Dan Brown, tô fora.
2. Leu um livro do Dan Brown e gostou, tô muito fora.

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Escrevi "rabinho" e o corretor do celular mudou para "rebanho". Espero que a moça compreenda que o meu interesse não é pelo gado no pasto.

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Essa crise já está afetando até a minha vida conjugal. Hoje, na cama, eu disse à patroa: "Amoreco, abre as pernas, vou te causar uma insegurança jurídica".

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Sei que cada um tem direito de usar a nomenclatura ou o apelido que bem entender para se referir a qualquer parte do seu corpo ou do corpo dos outros, mas, na boa, eu não tenho nenhum respeito por mulheres que chamam os próprios seios de "tetas".

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– Pois é, Ju, foi assim que aconteceu...
– Porra, Alê!
– Que foi?
– Você já me chamou de "Ju" quatro vezes.
– Putz, foi mal...
– Se acontecer de novo eu desligo, hein?
– Desculpa, Ju...


E desligou mesmo. Ora, tenho culpa se a guria se chamava Sylvia?

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No corredor dos absorventes no supermercado, ouvidos curiosos dos outros casais acompanham nossa discussão acerca das vantagens das abas e da cobertura seca.

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Um conselho: tome café com o seu amor.

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– Amorzão, onde está a nossa certidão de casamento?
– Na gaveta onde tu guardas o teu vibrador!

04/06/2019

JUSTIÇA DO TRABALHO


Corria o ano de 1998. Jeff Blackwell era o redator da agência há quase uma década. E na falta de pessoal mais experiente, acabara assumindo informalmente a coordenação do Departamento de Criação. Era ele também, desde o começo, logo nos primeiros meses a partir da fundação da empresa, que escolhia a trilha sonora do ambiente de trabalho. Atribuição que lhe dava ainda mais prazer do que escrever peças publicitárias ou ganhar prêmios.

Dono de um acervo particular invejável e de um gosto musical acima de qualquer suspeita, trazia seis CDs diferentes a cada dia, suficientes para oito ou nove horas de jornada. Sua equipe nunca tivera motivos para reclamação, pois o repertório, basicamente de rock, com variantes de blues, soul e power jazz, sempre fora impecável e adequado à rotina do setor. Até que lhe mandaram uma estagiária.

A agência acabara de ganhar uma nova conta, de um shopping recém-inaugurado no condado, e necessitava de mais mão de obra, porém, com o menor custo possível. A moça foi apresentada por Eric Sanders, o diretor de RH, e instalou-se numa pequena mesa com computador, entre a impressora laser colorida e o micro-system, para iniciar seu período de experiência de um mês, com possibilidade de efetivação.

Naquela manhã, Jeff pusera para tocar um de seus discos prediletos: 
Rocket To Russia, dos Ramones, de 1977, considerado pela crítica especializada um dos 100 álbuns mais importantes do século XX. A estagiária, por sua vez, concentrada em alterar o wallpaper de sua máquina, aproveitou um intervalo entre as faixas e dirigiu-se ao velho homem de propaganda.

– Dá pra trocar de música, tio? Essa aí tá muito barulhenta.

Murmurinho no setor. Entreolharam-se o arte-finalista, a revisora, o redator-júnior, o diretor de arte e até a faxineira. Ele encarou a mocinha por uns trinta segundos, talvez mais. Depois jogou a cabeça para trás, deu um suspiro, persignou-se, retomou a postura, levantou-se lentamente e, sem dizer palavra, cometeu a heresia de interromper 
Here Today, Gone Tomorrow ainda na introdução.

Nos vinte e nove dias seguintes, o expediente seguiu em silêncio. Com inspirados textos de Blackwell e uma prestimosa contribuição da criativa novata nos layouts, a agência entregou no prazo a campanha de rádio, TV e jornal ao novo cliente. No final da trigésima manhã, baseado no sucinto relatório do responsável informal pelo Departamento de Criação, coube a Eric Sanders, diretor de RH, comunicar à estagiária de que não precisariam mais de seus serviços.


  

28/05/2019

GLÁUCIA, FUTEBOL E FESTAS


Eis minha cabeça: aquela que caminha quase todo o tempo a uns sete palmos abaixo das nuvens e carrega, silenciosa, os crimes cometidos no passado. Por ela passam as pessoas e os sonhos que ninguém entende. É ela quem guarda as rimas dos meus versos e me protege das tentativas de suicídio nos fins de semana.

Não era incomum eu estar sozinho nas reuniões de família. Como não me dava com a maioria dos parentes e era considerado esquisito por uma parte ainda maior deles, acabava sempre batendo um papo com as crianças, normalmente sobre algum brinquedo do passado que resistia aos avanços tecnológicos ou sobre alguma irmã cocozenta que todo menino tem. Naquela noite, eu segurava um copo de Coca-Cola  com o gelo já derretido, que molhava ora o braço do sofá ora a parte interna das minhas coxas  e conversava sobre a última rodada do campeonato brasileiro com o filho mais novo da dona da casa.

E meus olhos: que brilham no escuro e fotografam coisas que ninguém mais pode perceber. Às vezes um abismo sem fim, às vezes um deserto escaldante, meus olhos são de outro mundo, tão diferente e tão melhor que o meu (ou o seu).

Gláucia sentou-se no sofá ao lado. Eu ainda não sabia quem era ela, jamais imaginaria que faríamos faculdade juntos e que minha paixão por ela atrapalharia todos os meus relacionamentos até o fim da vida. Passou a acompanhar a discussão e, em certo momento, opinou sobre o goleiro do Corinthians. Foi a primeira vez que ouvi sua voz grave. Em seguida, encarei por todo o tempo que pude seus grandes olhos verdes. Concordei com tudo: que Ronaldo Giovanelli era o melhor goleiro do Brasil e que merecia uma chance na seleção que ia à Copa de 1994. Se eu não era corintiano, passei a ser naquele instante.

E minhas mãos: trêmulas e macias, solitárias quase sempre. Conhecem de cor todos os corpos que já tocaram. Elas dançam, eu sei. São a outra face de meus pés masoquistas, que caminham até os mais estranhos lugares apenas para que meus olhos cheguem ao orgasmo.

"Gláucia, é você?", pergunto mais de uma vez. "Sou eu, querido, pode continuar dormindo, só vim buscar umas coisas". Não durmo nem acordo, me falta inspiração até para abrir os olhos. Não aquela inspiração de momento, como um dia ensolarado, cheiro de mato ou canto de passarinho; nem inspiração como forma de reflexão, tipo escovar os dentes pensando na vida ou dirigir por uma estrada deserta. O busílis é que essa mulher  elegante, de pernas um tanto finas  me inspirava a fazer diariamente o melhor possível, fosse a melhor crônica, a melhor dobradura de origami ou o melhor mingau de maisena.

E meu coração: de outono e inverno o ano inteiro, conformado com a rotina de bater descompassado. Tem quartos vagos e umas poucas cadeiras cativas. É o pior lugar do mundo, o mais aconchegante, e ainda quem mantém meu corpo em sobrevida.

George, Eric e Pattie, Kurt e Courtney, David e Ângela, Sid e Nancy... vamos ver o que posso usar de trilha sonora sem fazer com que todos vomitem o jantar. Nunca foi incomum eu estar sozinho nas reuniões de família, a não ser em minha própria casa, quando parentes e amigos atendem ao meu convite. As crianças cresceram, não há mais ninguém com quem eu possa conversar sobre brinquedos antigos ou futebol. Volta e meia, alguma tia velha me pergunta sobre "aquela moça" das Copas de 1994, 1998 e 2002. "Cada um para um lado, como num duelo de armas silenciosas", respondo enigmático.
  

21/05/2019

ATA DA REUNIÃO DE CONDOMÍNIO


Aos dezenove dias do mês de maio do ano de dois mil e dezenove, em segunda chamada, o senhor síndico do edifício Dona Josefa, um moreno grisalho, com princípio de calvície, cujo nome me foge agora, visto que sempre que nos encontramos pelos corredores do prédio dizemos apenas "opa" um para o outro, iniciou a reunião extraordinária do condomínio pontualmente às vinte horas, na saleta dos fundos, a qual apelidamos carinhosamente de salão de festas. Estavam presentes a secretária do escritório de contabilidade, a quem chamaremos de "gostosa dos boletos"; euzinho, do apartamento trezentos e dois; além de uma idosa do primeiro andar, um casal de viados da cobertura, uma mãe solteira com o filho de colo (estes não imagino de qual unidade, perdão), um lutador de artes marciais do quinto andar e a mulher do zelador, do apartamento funcional do térreo. A pauta, sem ordem específica, consistiu: 1. na prestação de contas do mês anterior, 2. na escolha das cores e no valor do rateio para a pintura da fachada, 3. na troca do nome do edifício, 
por sugestão minha. O síndico abriu os trabalhos dizendo "boa noite", ao que todos retribuíram com um muxoxo, e me ofereceu a palavra, a fim de que tratássemos de uma dúvida que sempre tive desde que passei residir no local: "quem diabos foi essa dona Josefa?", perguntei retoricamente. Ainda assim, houve quem levantasse a mão para responder, no caso, a senhora do primeiro andar, que não poupou energias para dirimir a questão e revelou modestamente: "eu sou a dona Josefa, meu falecido marido era o dono da construtora e quis me homenagear". Diante de um silêncio constrangedor, em que o ar poderia ser cortado com uma faca, retirei da pauta a mudança de nomenclatura e acrescentei minhas sinceras preocupações com a estrutura do prédio, principalmente quanto ao elevador em estilo gaiola, pois a julgar pela idade da musa do incorporador, concluiu-se que a obra era antiga pra, digo, para caralho. Em seguida, a gostosa dos boletos leu o relatório de despesas do mês anterior, e apesar de me parecer algo estranho a vultosa quantia gasta em produtos para a limpeza da piscina (sobretudo por que o empreendimento não tem piscina), não me manifestei, pois estava absorto em meus pensamentos, perguntando a mim mesmo como uma moça tão bonita podia ter a língua presa, que azar da porra. O síndico sugeriu passarmos diretamente ao último item, acerca da pintura, mas o lutador do quinto andar o interrompeu bruscamente, dirigindo-se, então, ao casal gay da cobertura, ameaçando cobri-los de porrada se não parassem de ouvir música eletrônica em alto volume durante a madrugada. Um dos rapazes alegres retrucou chamando o pugilista de "orelha de couve-flor"; foi quando houve um princípio de quiproquó, prontamente amainado pela esposa do zelador, que certamente era maior do que o reclamante e tinha a voz mais grossa do que os proprietários da penthouse. Devido ao incidente, a criança da mãe solteira desandou a chorar, e esta, aparentemente uma mãe prestimosa, avisou que ia dar de mamar lá fora, ao que eu solidariamente recomendei: "imagina, está frio, pode amamentar aí mesmo, ninguém vai reparar". Em prosseguimento, foi dado um minuto para que cada morador sugerisse duas cores para a nova pintura da fachada, uma para as paredes e outra para as sacadas; no entanto, como todos entreolhavam-se sem que nenhuma opção fosse apresentada, euzinho novamente, observando a vizinha que amamentava candidamente o seu bebê, propus em voz alta "bege com terracota" (se é que me entendem), e a combinação foi aprovada por unanimidade, a não ser pelo inconveniente de se pagar cento e cinquenta reais por mês na taxa de condomínio durante os próximos quinze meses. Diante da brochante notícia do inevitável rateio, os condôminos assinaram a lista de presença e concordância, mas ninguém teve apetite para aceitar o café com biscoitos, uns revelando que estavam de regime e outros alegando que precisavam voltar para casa porque estavam sentindo cheiro de gás. Em não havendo ocorrências a acrescentar, a gostosa dos boletos guardou suas planilhas numa pasta, dona Josefa guardou seu aparelho de surdez num estojo e a mãe solteira guardou os peitos dentro da blusa. Por volta das vinte e uma horas, encerrei o relato dos fatos, lavrados nesta ata, que deverá permanecer exposta no mural da portaria. Aproveitando o privilégio de ser o primeiro secretário da atual gestão, independentemente de não existir um segundo secretário, e antes que todos saibam por terceiros, aviso aos nobres vizinhos que não comparecerei à próxima reunião, pois já vendi o meu apartamento há quase seis meses e agora ficou meio contramão dirigir da puta que pariu onde estou morando até aqui, ainda mais sem poder rir de nada. Abração, digo, atenciosamente, AD.
  

14/05/2019

COMUNICAÇÃO


Eu estava de saída para levar a minha gata ao veterinário quando o telefone fixo tocou. Mesmo atrasado e não tendo reconhecido o número no identificador de chamadas, larguei a casinha com a bichana dentro e atendi pacientemente, torcendo apenas para que não fosse ninguém da Legião da Boa Vontade.

– Alô!
– É o senhor Dogman que está falando?
– É ele mesmo.
– Aqui é o Nailor, gerente do Banco Santo André.
– Pois não...
– Estou ligando para avisar que a sua conta está negativa.
– Meu amigo, eu nem tenho conta nesse banco.
– Bem, deve ter havido algum engano...
– Será?
– O senhor tem interesse em ser cliente do Santo André?
– Mas nem que fosse o último banco do mundo.
– Veja bem...
– Não vejo, não.

Respirei fundo, contei até dez e saí para cumprir a função de pai. Minha única filha (eu sei, é uma gata, não sou louco) acabara de passar por uma cirurgia para retirada de um tumor nas tetinhas e precisava consultar semanalmente.

Depois de alguns minutos na clínica, entre o momento de abrir a portinhola da jaula e a operação para resgatar a felina de cima do trilho da cortina, saí de lá com uma receita em mãos, na qual o zooiatra recomendava um 
spray miraculoso para ajudar na cicatrização. O papel timbrado, estampado com o logotipo de um cachorro enrolado em um estetoscópio, não deixava dúvidas de tratar-se de uma instituição de saúde estritamente animal.

Entrei, então, na drogaria mais tradicional da cidade, esquina de uma praça velha com um calçadão sujo. Abri a receita sobre o balcão e nem precisei de senha para ser atendido pelo farmacêutico.

– Meu jovem, por acaso tens esse remédio?

O rapaz, de jaleco impecavelmente branco, óculos bifocais, maior cara de cê-dê-efe e pinta de recém-formado, analisou o documento, leu e releu o nome do medicamento, coçou o queixo e perguntou, categórico:

– É para o senhor mesmo?
  

07/05/2019

FUTEBOL


Toc, toc, toc! Três batidinhas na porta dos fundos e eu já me apresentava de uniforme e arma na mão: camisetinha do Corinthians, bola de meia, pezinhos descalços.

– Aonde pensa que vai esse anjinho?

Por maior que fosse o silêncio e o cuidado, mamãe sempre me surpreendia na saída, e perguntava apenas por perguntar, ela sabia que era chegada a hora do futebolinho matinal.

– Põe a conguinha, meu filho, assim você acaba topando um dedo.

E eu saía sem dar ouvidos.

Na rua, tudo pronto. Era o dia da grande revanche contra o time do José Mendes, de camisetinha do Flamengo. O último jogo tinha sido um vexame: seis a zero (por que botei a bola debaixo do braço e saí de fininho). O juiz era o Maionese, albino, filho do seu Dadico da fiambreria, todo de preto, apito banhado a ouro, honesto até o último fio de cabelo.

Basset Hound (Fenella Smith, 2014)

O primeiro gol da equipe rival saiu logo a um minuto de partida. No mesmo embalo vieram o segundo, o terceiro e o quarto. Lá pelo oitavo, o Demóstenes, filho do Válter do açougue, inconformado com nova derrota, tentou uma arrancada espetacular pelo lado direito: passou por um, dois, três e pimba! Era a lajota do calçamento no fundo das redes.

Estava suspenso o espetáculo.

Coitado do Demóstenes, todo orgulhoso pelo nome bonito e todo engessado, inválido, sem poder andar.

– Não desiste não, gente, vai lá e pede outra revanche – dizia o valentão na visita do time.

Na manhã seguinte...

Toc, toc, toc! Três batidinhas na porta dos fundos e eu já me apresentava de uniforme e arma na mão: camisetinha do Corinthians, bola de meia, conguinha nos pés.


30/04/2019

AUTOBIOGRAFIA AUTORIZADA


Vou confessar a vocês: sempre gostei de escrever, desde pequeno. Os meninos da rua em que eu morava se reuniam para jogar bola, soltar pipa ou andar de bicicleta, e eu ficava em casa, escrevendo, tocando violão ou lendo. Escrevia letras de música, roteiros, poemas, pequenos contos e até um diário relativamente secreto.

Minha mãe, quando lia alguma redação nos meus cadernos de escola, dizia afetuosamente: "Tu levas jeito pra cacete, meu filho". A primeira namorada, que às vezes roubava o meu diário para ver se eu não andava apaixonado por outra, também comentava: "Você leva jeito pra cacete, Cachorrinho". E as professoras de Língua Portuguesa, apesar de me considerarem um tanto disperso, elogiavam com frequência: "O senhor leva jeito para cacete, pode acreditar".

Até que me tornei um cacete, pois parecia ser essa a minha vocação.

Claro que joguei bola, soltei pipa e andei de bicicleta. Namorei outras meninas depois da primeira namorada. Entretanto, foi só lá pela oitava série que ganhei a primeira nota dez em Redação. No mesmo ano, o aluno mais desajustado da escola, o Miguel, publicou um livro. Lembro que, na época, apenas pensei com os meus botões: "Porra". Imediatamente, comecei a desenvolver uma saga que levou todo o segundo grau para chegar ao fim. Era uma história – sobre um guri de onze anos que descobria que tinha um tumor no cérebro e precisava dar um jeito de comer a empregada para não morrer virgem – que não se aplicava nem a crianças nem a adolescentes, portanto, impublicável.

Desiludido com a primeira tentativa fracassada, deixei a literatura de lado e comprei uma guitarra. Foi um período de vacas gordas. E também de vacas magras, altas, baixas, loiras, morenas, mulatas, novas, velhas e japonesas. Sobre dinheiro, não posso dizer nada, mas é certo que músicos ganham mais mulheres do que escritores.

Já na faculdade de Letras, década de 1990, uma adorável professora de Literatura voltou a repetir a frase que me era tão familiar: "Você leva jeito, rapazinho". "Pra cacete?", eu perguntei. "Não, não, acho que você dá para cronista". Dessa vez não me deixei influenciar. Nunca dei nem para cronista nem para contista nem para poeta.

Então, o tempo passou. Muito mais tempo do que eu gostaria, aliás. Li bastante e escrevi pouco, até sofrer um espasmo de lucidez (talvez fossem gases, não tenho certeza) e ganhar novo ânimo para exercitar esse meu dom: o dom de transformar fatos irrelevantes em entretenimento barato. Acredito ser agora a derradeira chance 
 depois de um livrinho publicado, escrevendo o segundo, com o blog reativado – de deixar de ser o cacete que sempre fui. Além de preservar a integridade das minhas partes peripopéticas, sobretudo aquela onde o sol não brilha e que só a terra há de comer.
  

23/04/2019

BODAS DE VENTO


Foi num sebo do interior de São Paulo que David descobriu o livro de Gregory Corso (1930-2001). A raríssima edição compilada de 
Gasolina & Lady Vestal, autografada pelo autor, com prefácio de Allen Ginsberg, custaria a ele dois ou três meses de salário, mas não se importava com isso. Qualquer dinheiro sempre lhe parecia bem gasto se fosse para colocar um sorriso no rosto de Ângela, sobretudo na próxima quinta-feira, data em que completariam dez anos de casados. Era o livro predileto dela, que, por sua vez, já havia desistido de procurá-lo depois que seu exemplar desaparecera ao final de uma comemoração de Ano-Novo no apartamento onde moravam. Desde aquele dia, David passara a perseguir a obra por todo o Brasil, como um investigador que persegue um criminoso, disposto a pagar qualquer preço pela publicação, apenas para ver a esposa feliz e livrar-se da culpa de não estar atento ao sumiço de um bem tão valioso.

Ainda era véspera das bodas de estanho quando tomou o avião em vez de ir trabalhar. Não havia tempo para esperar pela entrega dos Correios. Além disso, precisava certificar-se de que o livreiro não o enganaria. Podia se dar ao luxo de viajar pela manhã e reaparecer à noite sem ser notado, pois a esposa saía antes para a empresa de contabilidade na qual trabalhava e onde, quase sempre, o expediente se prolongava. Seus horários de almoço também não coincidiam. Ele, na agência de propaganda, fazia seu próprio horário, e almoçar não era uma de suas prioridades.

Enquanto aguardava a decolagem, não conteve um sorriso ao imaginar que seria bem mais lógico pegar carona na carroceria de um caminhão, carregando apenas uma mochila velha nas costas. Certamente o faria se pertencesse à geração 
beat. A senhora na poltrona ao lado cochilava e pendia a cabeça para o seu ombro. Bondoso, David nada fez. Permitiu que a sonolenta passageira fosse assim escorada até o seu destino.

Chamou um táxi, estendeu ao motorista o endereço anotado num retalho de papel e recostou-se no banco traseiro para apreciar a paisagem. Não estava preocupado. Conhecia a assinatura do escritor americano, saberia identificar uma falsificação. Pensou na esposa e em tudo que aprendeu com ela sobre literatura durante uma década inteira de convivência.

David conhecera Ângela logo no primeiro ano da faculdade. Cursaram jornalismo e contabilidade, respectivamente. E ele nunca mais deixou de amá-la, embora tivesse consciência de que a recíproca jamais alcançara a mesma medida. No ano passado, na comemoração de nove anos, deu a ela um buquê de rosas e um relógio. Ganhou de volta um 
pack com seis cuecas, as quais passou a usar diuturnamente, alternando as cores de acordo com seu humor. Desta vez, por mais modesto e impensado que fosse o presente de Ângela para ele, iria surpreendê-la com uma prova de amor incontestável, motivo de sua busca por uma cidade desconhecida, a bordo de um táxi velho e barulhento.

Pediu que o motorista aguardasse na porta do sebo enquanto fechava o negócio. Pagou com cartão de débito e recebeu a encomenda embrulhada em papel de seda, acomodada confortavelmente num estojo aveludado. Trocou breves palavras com o livreiro, um senhor franzino e corcunda, que se revelou razoável conhecedor do poeta nova-iorquino. Recitaram, em uníssono, o único verso da obra que ambos sabiam de cor:


Braços estendidos,
mãos espalmadas contra o parapeito da janela,
ela olha para baixo,
pensa em Bartok, Van Gogh
e nas caricaturas do New Yorker.
Ela cai!
Levam-na embora com um Daily News no rosto,
e um lojista joga água quente na calçada.


Faltou pouco para aplaudirem-se mutuamente.


Gregory Corso, em 1989 (foto: Dario Bellini)

David voltou ao táxi e ao aeroporto e à sua cidade e ao seu apartamento. Anoitecia. Como previu, Ângela ainda não chegara. Tratou de esconder o presente no fundo de uma gaveta cheia de cacarecos, onde jamais seria encontrado, nem mesmo pela diarista, que espanava tudo superficialmente duas vezes por semana e lhe cobrava mais de cem reais a cada visita. Precisava trocar de faxineira. Não gostava de superficialidades em nenhum aspecto de sua vida, muito menos em relação à limpeza da casa.

Ângela irrompeu pela porta quase uma hora depois do marido. Largou a bolsa, descalçou os sapatos e perguntou o que havia para comer. David a beijou na boca e sugeriu que ela tomasse um banho enquanto ele providenciaria o jantar. Comeram em silêncio. Ela quis dormir cedo. Ele, no entanto, ficou alerta até o meio da madrugada, ansioso pela manhã seguinte. Sentia-se como uma criança que sabia exatamente a resposta para a indagação que o professor faria na prova oral, aplicada de surpresa, no meio da aula.

Quando o sol entrou pela janela do quarto, às seis e meia da manhã, David praticamente não tinha pregado o olho. Não sabia se corria para buscar o livro ou se esperava Ângela despertar. O que Gregory Corso faria em seu lugar?

Trouxe o pacote até a cama, escondeu-o debaixo de seu travesseiro. Ângela se remexeu, resmungou e, sem abrir os olhos, levantou e caminhou na direção do banheiro. Urinou, apertou a descarga, lavou as mãos e o rosto. Não compreendia muito bem o meio-sorriso do marido ao voltar para o quarto, contudo, num providencial lampejo, recordou a data. Apelou para a sinceridade, seguida de um abraço.

– Parabéns pelo nosso dia, amorzinho! Eu não comprei nada porque não tive tempo, você me perdoa, né?

Rápido como um voo de ida e volta ao interior de São Paulo, admirado da própria desfaçatez, ele respondeu:

– Ah, que bom... eu também não comprei nada e fiquei preocupado de você ficar puta comigo... parabéns pelo nosso dia, amorzão!

Como acontecia todas as manhãs, Ângela se aprontou e saiu antes dele para o escritório de contabilidade. David telefonou para a agência e avisou que chegaria mais tarde. Ligou o notebook ao mesmo tempo em que desembrulhava a raríssima edição compilada de 
Gasolina & Lady Vestal, autografada pelo autor, com prefácio de Allen Ginsberg. Fez algumas fotos com o celular, inclusive da página assinada por Gregory Corso. Publicou o anúncio do livro de poesias em um site de vendas on-line, por uma pechincha equivalente a quatro meses de seu salário. Dane-se a geração beat, pensou sem remorso.
  

16/04/2019

SÓ A BAILARINA QUE NÃO TEM


– Mainha, cadê minha sapatilha?

– Tá aqui em algum lugar, filha...
– Anda, já vai começar!
– Não tô achando...
– Olha pra mim, mãe...
– O quê?
– Eu tô sacaneando a senhora, eu não uso sapatilha.
– Como assim, filha?
– Sempre dancei descalça, nunca reparou?

Veio de algum lugar do Rio Grande do Norte até Santa Catarina para participar da mostra competitiva de um festival internacional de dança. Mochila nas costas, mãe a tiracolo. O resto do grupo chegara antes, mas ela só pode viajar na véspera, depois que o médico assinou a autorização. A última crise de ansiedade tivera influência nos ensaios e no seu condicionamento físico. Além disso, Débora Colker e Ana Botafogo compunham o júri especializado, o que já seria mais do que suficiente para fazer tremer uma menina tão franzina e delicada, ainda que talentosa e confiante.

Aos primeiros acordes da música clássica, posicionou-se na coxia e repassou mentalmente sua coreografia. Havia outras doze bailarinas no palco e algumas centenas de pessoas na plateia, mas isso pouco importava a ela, que agora estava segura e concentrada. Fim do allegro, início do primeiro adágio: era a sua deixa. Deu apenas dois passos na direção das luzes, quando ouviu-se o grito. Pisou na ponta de um prego no chão de tábuas. O teatro fora reformado às pressas para o evento e não houve tempo para ajustes na obra, tão pouco supervisão. A apresentação teve de ser interrompida para que uma equipe de socorro seguisse a trilha de gotas de sangue até chegar à primeira bailarina da companhia. Com dificuldades para respirar, entre o desespero e a vergonha, decidiu que nunca mais voltaria a dançar.

Mentira.

Assim que ouviu a introdução da música clássica, posicionou-se na coxia e repassou mentalmente sua coreografia. Entraria primeiro para um solo, antes das outras doze bailarinas. Não estava segura nem totalmente concentrada, pensava muito no ex-namorado, com quem tivera um relacionamento de seis anos e que implicava com a sua paixão pela dança. Apesar das últimas palavras dele ainda ecoarem em sua cabeça – "Você é meu sol, um metro e cinquenta e cinco de sol..." –, não considerava deixar que homem nenhum interferisse em seu futuro, seja em que atividade fosse. O fato é que ficou paralisada. Perdeu a deixa em um intervalo da trilha sonora, sob o olhar de reprovação de todo o corpo de baile. Rapidamente, a segunda bailarina entrou em seu lugar, mas a apresentação não agradou aos jurados.

Mentira.

Aos primeiros acordes de Here I Go Again, do Whitesnake, convocou as outras doze integrantes do elenco para um abraço coletivo. Era a primeira bailarina, a mais experiente aos 26 anos, sentia-se na obrigação de incentivar todas as colegas, sobretudo com a mudança de planos em relação à coreografia. Cansadas do balé clássico, elegeram a dança contemporânea para renovar a companhia. Subiram ao palco juntas, mesmo intimidadas pelas centenas de pessoas na plateia e pela câmera da tevê local, que cobria o evento para os três estados do sul do país. Ficaram em terceiro lugar na mostra competitiva, o que rendeu quinze minutos de fama ao grupo. Bem, não exatamente ao grupo. As outras meninas, que calçavam sapatilhas, não foram capa do jornal do dia seguinte, ao lado da mãe, de pés descalços.
  

09/04/2019

VIAGEM


Laura se aproxima de casa, tira da bolsa a chave da portaria, olha com alguma displicência para o rapaz que vem atravessando a rua e vai entrando no edifício.

– Esqueci a minha chave, posso entrar com você?
– Não sabia que você morava aqui.
– Mundo pequeno, né?

Ela abre a porta e deixa que ele entre.

– De onde eu te conheço?
– Daqui mesmo.
– Não, de outro lugar.
– Da saída da escola, eu acho...
– É isso aí.
– Você não foi à aula hoje?
– Fui ao dentista.

Interrompem a conversa com a chegada do elevador. Laura aperta o sexto e ele apressa-se em apertar o oitavo antes que ela pergunte para qual andar gostaria de ir.

– Arranquei um dente.
– É verdade, o seu lado esquerdo tá meio inchado.
– E dói.
– Imagino... qual é o seu apartamento?
– Por quê?
– Curiosidade.
The curiosity killed the cat...
– O quê?
– É um ditado inglês.
– Você mora com quem?
– Papai e mamãe.
– Tem namorado?
– A esperança é a última que morre.
– É um ditado inglês também?
– Chegou.
– O quê?
– O meu andar.
– Ah, é...

Laura sai, acena e sorri. Ele acompanha hipnotizado o rastro de seu perfume e o movimento daquele belo par de substanciosas coxas pelo corredor afora.

– Eu te amo! – cochicha para si.

Depois viaja pacientemente até o oitavo andar e aperta o "térreo" para voltar à portaria. Sai do elevador e do prédio, ganhando a rua, olhando de um lado para outro, à procura de um ponto de ônibus.
  

02/04/2019

JURADO DE MORTE


Apesar de não parecer, eu já fui um cara popular e fiz coisas muito legais na vida. No final dos anos 1980, por exemplo, quando ainda tocava em duas bandas de rock, fui convidado para ser jurado do "Garota Bumbum", um concurso que, obviamente, daria um prêmio à menina que tivesse a bunda mais bonita na opinião de especialistas como eu, um ás no nadegário feminino desde a tenra pré-adolescência.

O evento aconteceu num lugar que, naquela época, chamávamos de danceteria (na década anterior seria numa boate e, modernamente, num local indefinido denominado balada). As concorrentes, primeiro em grupo, em seguida uma a uma, atravessavam a passarela usando maiô e máscara 
 sim, máscara, pois o rosto não estava em questão , davam uma paradinha, de costas para os avaliadores, e voltavam ao camarim.

Havia dez candidatas inscritas. Logo no desfile geral, ficou relativamente claro que uma moreninha, baixinha, quase maior de idade, tinha uma daquelas bundas perfeitinhas, irretocáveis, tanto no desenho quanto na textura. Era de fato um bumbum que uma rapariga só consegue ostentar entre os dezesseis e os dezenove anos (depois, nunca mais). Ganhou nota máxima de todos os membros eretos do júri, lógico.


A segunda colocada, sob vaias do mulherio presente, foi uma bunda no melhor estilo tanajura: protuberante, hipnotizante, mas absolutamente firme e bronzeada. Levou nota nove e meio, também por unanimidade. Já o terceiro lugar, um traseiro apenas aceitável, pouco tonificado, passaria batido em qualquer praia do país, não fosse por um aspecto intrigante: aquelas nádegas estavam me parecendo familiares.

Ao cair das máscaras, na entrega dos prêmios, minhas suspeitas se confirmaram. A terceira classificada era uma guria que estudava comigo, cujo bumbum eu costumava apreciar na Educação Física. De quebra, fora o orgulho pela memória fotográfica, um garçom veio me entregar um bilhete com o telefone da vencedora. De próprio punho, ela escreveu que, dentre todos os jurados, eu tinha a bundinha mais gostosa.
    

26/03/2019

O CRIME DO FLUSS AZUL ATIVO


Lá na empresa têm acontecido umas coisas estranhas. Estranhamente, eu tenho recebido menos do que gostaria e trabalhado além do recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Mas não é disso que quero falar. O caso mais recente envolveu o bastão sanitário (aquele que fica numa cestinha e deixa a água azulada) do banheiro masculino. Um grande mistério, solucionado por mim na última semana.

Algum marmanjo do nosso setor, aparentemente por medo, nojo, convicção religiosa ou trauma de infância, quando ia fazer xixi, retirava a cestinha com o refil e a colocava no chão, ao lado da privada. A nossa dedicada faxineira, dona Gertrudes, na maior boa vontade, ao reparar, limpava o piso manchado e punha de volta o "cheirinho" na borda do bacio. Às vezes, no mesmo expediente ou, no máximo, no dia seguinte, estava o troço no chão de novo, sempre na mesma posição.

Cogitou-se, em reunião com a diretoria, instalar uma câmera oculta no toalete, só que o pessoal da empresa de vigilância já foi avisando que cobraria 50% a mais para fazer esse tipo de monitoramento. Então, a solução imediata foi redobrar a atenção no entra e sai de frequentadores com excesso de água no joelho, se é que o leitor me entende.

Histórias acerca do desodorizador higiênico eu conhecia muitas, como a de uma amiga de Porto Alegre, cujo vaso cheirava a urina diuturnamente, sem que ela conseguisse imaginar o motivo, pois vivia colocando pedras e bastões sanitários no entorno da cerâmica. Até o instante em que entrou de supetão no banheiro e flagrou o namorado mijando, mirando na cestinha e comemorando, entusiasmado e sacolejante, a cada acerto no fragrante alvo.

Mas igual ao caso da empresa eu nunca ouvira falar. Entretanto, o tal segredo (que se estendia por quase três meses) foi desvendado meio sem querer, no dia em que fui à cozinha buscar um copo d'água. Dona Gertrudes, uma senhora alemã, que havia sido governanta de Salvador Allende antes de vir para o Brasil, esquecera sua garrafa térmica particular aberta sobre a pia. O aroma era inconfundível, não deixava dúvidas: tratava-se do famoso "café dos Andes", preparado com 50ml de leite condensado, 100ml de creme de leite, 200ml de café espresso, 50ml de vinho do porto e 20ml de conhaque, no qual os ingredientes devem ser batidos no liquidificador, menos o conhaque, que vai por último, por cima, flambado diretamente na taça ou caneca. Anotaram?

Eis o que eu queria revelar: a velha faxineira, após o desjejum reforçado, retirava o acessório com o refil todas as manhãs para limpar a privada e esquecia de recolocá-lo no lugar. Mais tarde, novamente sóbria, parava na porta do setor, botava as duas mãos na cintura e esbravejava com seu carregado sotaque germânico:

– Eu quererrr saberrr quem foi o desgraçada que tirou o porra do cestinha da badezimmer outrrra vez!
  

19/03/2019

FOME DE QUÊ?


Em priscas eras, namorei uma menina, glutona incorrigível, da alta sociedade. Isso faz um tempinho, claro. Algumas coisas só me aconteciam quando eu ainda não havia crescido e amadurecido. Era uma dessas patricinhas que se vestem de cor-de-rosa, do celular aos sapatos, e que já tem carro, guarda-costas e cartão de crédito antes mesmo de completar dezoito anos. Foi graças a ela 
– e à sua insaciável obsessão gastronômica  que aprendi as diferenças entre tainha e salmão, sidra e champanhe, berbigão e ostra, bolacha recheada e alfajor, lámen e rigatone, prato feito e à francesa. Frequentei restaurantes caríssimos, bistrôs chiquérrimos e outras tantas biroscas de gente rica, mesmo não tendo dinheiro nem para a gorjeta e nem para o sal de fruta.

Até hoje não sei o que aquela rapariga viu em mim. Não tínhamos assuntos em comum, não gostávamos dos mesmos filmes nem das mesmas músicas, seus pais não aprovavam o meu cabelo comprido e, a bem da verdade, ela era meio mal diagramada pela natureza e não sabia beijar direito. Seus lábios eram finos, secos, rígidos demais. Era como tentar abrir a concha de um mexilhão com a língua, dá para imaginar?


Mas nada disso agora tem grande importância. Foram diversos almoços e jantares na cobertura em que a família morava. Experimentei desde caviar e lagosta até tâmaras e nêsperas (que nada mais são do que as nossas ameixas amarelas), de molho béarnaise a crème brûlée, além de croque-monsieurcroque-madame, profiteroles e outros milhares de acepipes – preparados pela cozinheira particular  a fim de preencher os curtos intervalos entre as nababescas refeições.

Um ano e meio depois, com o fim do namoro, ainda custei um pouco a perder parte dos quinze quilos que ganhei durante o empanzinante romance. Mais ou menos na mesma época, os meus amigos, finalmente, deixaram de me chamar de Fat Ken. Então a vida continuou, porém, com o perdão do trocadilho, não voltou a ter o mesmo sabor. Às vezes lembro daqueles momentos culinários com alguma nostalgia, geralmente quando meu estômago começa a roncar. E sempre que penso na dondoquinha, com suas roupas cafonas, bolsas peludas, joias caríssimas, sobrancelhas tatuadas, gordurinhas localizadas e seu apetite descomunal, sinto uma vontade incontrolável de comer, sem nenhuma frescura, um pratarrão de macarrão com salsicha.

  


     

05/03/2019

MAISTRÊSCRÔNICASCOLADAS


Sabe esses dias em que você já acorda cantarolando, abre as cortinas e dá bom-dia ao sol e aos pássaros, veste a camisa mais colorida que encontra no armário, toma seu café da manhã demoradamente, sai de casa com um sorriso nos lábios, dança com a faxineira e abraça o porteiro, assovia, pensa no seu primeiro amor, pensa no seu mais recente amor, cumprimenta o jornaleiro, caminha pisando em ovos, repara no céu e nas árvores, se encanta com construções antigas, cheira uma rosa, se equilibra no meio-fio, chega ao trabalho como se fosse a primeira vez, usa a escada em vez do elevador, respira fundo (com os olhos fechados), sorri ao ler seu próprio nome na porta do escritório e se pergunta o porquê de tanta felicidade? Definitivamente, não é como estou me sentindo hoje.


Eu devia ter uns seis ou sete anos de idade, e isso já faz algum tempo, obviamente. A tevê estava sintonizada numa luta de boxe. Logo ao lado, minha mãe passava roupa e cantarolava uma canção de Sérgio Bittencourt (Olho a rosa na janela, sonho um sonho pequenino...). Eu brincava com os meus carrinhos Matchbox e, de vez em quando, dava uma espiadinha no combate, no qual um branquelo de calção preto permanecia fixo no meio do ringue, enquanto o outro, um mulato de calção vermelho, girava em torno dele (Se eu pudesse ser menino, eu roubava essa rosa...). O locutor, esgoelando-se, avisava que o juiz acabara de descontar mais um ponto do pugilista do corner rubro. Minha mãe, sem levantar os olhos da tábua de passar, me perguntou fingindo interesse: "Ele disse pugilista ou fugilista, meu filho?" (E ofertava, todo prosa, à primeira namorada...). Com propriedade, eu que já era um ás no boxe, apesar da pouca idade, impostei minha voz aguda para respondê-la: "Acho que ele disse fugilista, mamãe, porque esse negão fica fugindo o tempo todo". Ela assentiu e continuou cantarolando a melodia, agora sem a letra.

Tanta coisa mereceria ser dita numa crônica. Pena que eu não seja um iluminado com o poder de controlar as palavras a qualquer momento, que nem o Rubem Braga ou o Zuenir Ventura, por exemplo. Aliás, dou graças ao Senhor por conseguir controlar pelo menos o meu esfíncter e, de vez em quando, ainda cometer um texto engraçadinho. Pensando bem, é melhor não escrever nada do que escrever bobagem. Meu avô sempre alertava: em boca fechada não entra mosquito. Amanhã converso com a minha consciência, não há de me faltar inspiração para mais uma desculpa literariamente esfarrapada.