29/01/2019

HOTEL HANNOVER


Dispensou o 
bellhop, não havia bagagem. Menos mal, ela pensou, pois o elevador estava desativado e teria de subir ao terceiro andar pelas escadas. Tudo o que precisava cabia na bolsa, como em todas as outras vezes. Admirava-se apenas do fato de haver um carregador de malas à disposição, uniformizado, ainda que ninguém passasse mais do que alguns momentos naquele lugar; uma noite, no máximo, para os que eram de fato viajantes.


Devia ser o quinto ou sexto encontro, sempre no mesmo quarto, no mesmo horário e, provavelmente, com a mesma duração. Ela chegava antes, preenchia uma ficha com nome falso e o aguardava. Não era ninguém, podia expor-se à vontade, ao contrário dele, porta-voz do governo, casado com uma apresentadora de telejornal. O hotel inteiro cheirava a mofo, dificultava-lhe manter a concentração e a excitação. Acabava mais preocupada com a poeira dos móveis ou com a pressão da água do chuveiro do que com a qualidade da própria lingerie. Naquele fim de tarde, aliás, um conjunto de renda um tanto puído e esgarçado.

Não tinha pressa, chegara realmente cedo. Por isso, subia lentamente as escadarias, revestidas de um carpete verde muito escuro, sem estampa. Apoiava-se nos corrimãos somente na passagem entre um piso e outro, quando contornava o vão central – de onde avistava não o térreo, mas uma parte do mezanino onde ofereciam o café da manhã – e continuava no sentido contrário. Em cada corredor, iluminado por uma minguada luz natural, logo abaixo de um grande espelho sem moldura, havia um aparador e, sobre ele, um filtro transparente com água, gelo e fatias de limão e abacaxi. Serviu-se de um gole antes de meter a chave na fechadura do quarto 302.



Sua primeira providência foi abrir uma fresta da janela. A paisagem não tinha nada de especial, dava para o pátio de um convento de freiras muito idosas, que quase nunca eram vistas ao ar livre. Em seguida, largou a bolsa, tirou o casaco de lãzinha e descalçou as sandálias. Conferiu se havia toalhas limpas perto da pia. Passou os olhos por todo o banheiro e mais uma vez por todo o cômodo, até retirar o matelassê e recostar-se na cama. Resolveu que permaneceria de vestido. O lusco-fusco que se encarregasse de disfarçar a falta de cor de sua calcinha e de seu sutiã quando ele quisesse desnudá-la. Fechou os olhos para imaginar a cena; a contragosto, acabou adormecendo.


Sonhou um sonho estranho. Depois de preencher o registro na recepção, deixava as roupas no balcão e subia despida as escadarias rumo ao terceiro andar, a fim de encontrar-se com um professor de matemática – que cheirava a Très Marchand – da época do ensino médio. Despertou assustada, tanto pela posição dos ponteiros do relógio na parede quanto pelo sonho sem sentido, a não ser por uma sua secreta atração por homens de guarda-pó.

Sem sentido agora também lhe parecia aquele encontro. Meia hora havia se passado além do horário combinado, e transcorreria ainda mais rapidamente a meia hora seguinte. Escurecia. Apesar da angústia, não cogitava ligar para o número dele. Nenhuma promessa fora feita, não teria o que cobrar daquele seu amante de ocasião, de quem, após poucos encontros, já preferia a conversa ao desempenho. Levantou-se. Fez o processo inverso dessa vez: estendeu a colcha, lavou e enxugou o rosto numa toalha limpa, enfiou todas as roupas na bolsa e fechou a janela. Desceu as escadas tão lentamente quanto subira noventa minutos atrás. Nua.
  

22/01/2019

TECNOLOGIA


Eu estava de saída para ir ao shopping, mas antes resolvi tentar (mais uma vez) ligar para a operadora de tevê a cabo. O novo plano do condomínio custava metade do preço, portanto, não havia motivo para eu continuar pagando individualmente pelo mesmo pacote de canais.


Nas últimas duas semanas foram dez ligações e nada: ou o sistema estava fora do ar ou os atendentes eram meio retardados ou, simplesmente, desligavam na minha cara quando ouviam a palavra "desconexão". Não que agora eu tivesse alguma esperança de alcançar o objetivo, só queria aproveitar o meu primeiro dia de férias, que é quando a minha inesgotável paciência ainda não se esgotou totalmente.

– Bom dia, senhor! Em que posso estar lhe ajudando?
– Quero cancelar a minha tevê a cabo, será que é pedir demais?
– Ah, mas eu estou vendo aqui que o senhor é um cliente muito antigo...
– E daí, qual é a vantagem?
– Nenhuma, senhor, apenas verifiquei que sua assinatura é antiga.
– E eu por acaso te pedi pra verificar alguma coisa? Fica na tua, pô!


Respirei, contei até dez e saí de casa para um passeio ao shopping, como havia planejado. Precisava urgentemente trocar o meu celular, que já andava meio acabado, praticamente morto (ao contrário do que sugeria o nome da operadora, se é que me entendem), todo arranhado, com a tela sem sensibilidade e a qualidade de ligação cada vez pior.

Olhei a vitrine com toda a calma do mundo. Certifiquei-me de que a maioria daquelas geringonças modernas fazia também chamadas de um telefone para outro, além de enviar mensagens, tirar fotos, tocar músicas, conectar-se à internet e até, dependendo do preço, beijar na boca. Decidido, chamei o vendedor e apontei para um smartphone que me sairia de graça.

– É esse que eu quero.
– O senhor já conhece o modelo?
– Já conheço, sim... não tem custo, né?
– Sem nenhum custo, senhor.
– Tá bom, vou levar.
– Ivete Sangalo, Jota Quest ou Anitta?
– Acho que o Kiko Zambianchi faz mais o meu estilo.
– Não, não... é que o senhor tem de optar por um dos três modelos, pois os aparelhos já vêm com músicas, fotos e vídeos do seu artista favorito.
– Cruzes! Então não quero nem de graça... me vê aquele outro ali.
  

15/01/2019

COISAS DE CASAL


Sexta-feira abafada de fim de primavera, depois de uma semana daquelas, mais ou menos nove da noite, eu já de pijama, ar-condicionado ligado no modo glacial, apenas esperando o entregador da pizzaria. Ela chega da rua, elétrica, ofegante, e, antes mesmo de fechar a porta, faz a proposta indecente:

– Amorzinho, mais tarde vai ter churrasco do pessoal do meu trabalho, lá na casa da Dandara e do Koothrappali, vamos?
– Hummm... o casal de maconheiros?
– Ah, eles só fumam no fim da festa, aí a gente vem embora.
– Sei...
– Só temos que levar cerveja.
– Mas eu nem bebo, pô! Quem mais vai?
– Ah, vão os meus amigos do Face...
– Hummm... aqueles que você nem conhece pessoalmente?
– Pois é, vou conhecer hoje! Os meus primos, o Cecê e o Beto Caroteno, também vão... e a Maria do Socorro, aquela da Igreja do Evangelho Disforme, também disse que vai.
– Hummm... não foi essa que deu pro seu ex-namorado?
– Ah, são águas passadas, amorzinho, agora eu tô com você... vamos?
– Faz assim, benzinho: você pega o nosso carro, vai lá, faz um social, come, bebe e volta na hora que você quiser, enquanto eu fico aqui vendo Mirassol e Catanduvense pela Rede Vida, que tal?
– Ah, se você não for eu não vou.
– Vai, sim... você se diverte lá com as filhas da Baby Consuelo e o Exército de Brancaleone que eu me divirto aqui tomando Nescauzinho com pizza.
– Mas, amorzinho...

Por ventura, soa a campainha. Levanto do sofá em busca das minhas Havaianas e do dinheiro para a encomenda. Pego a caixa sextavada gigante e, antes mesmo de eu abri-la, ela faz cara de choro. Agora bem menos entusiasmada, resmunga baixinho:

– Quais são os sabores?
– Meia atum acebolado, meia coração de frango.
– Você não pediu de rúcula com tomate seco?
– Hummm... não.
– Ah, eu sabia que isso ia acontecer um dia...
– Isso o quê?
– Você não me ama mais.


08/01/2019

CALLING DR. LOVE


Apesar de tudo, creio que não sei muito sobre amor. Mesmo tendo vivido mais casos e romances, passado por mais experiências, atravessado mais décadas do que a maioria das pessoas; mesmo que eu conheça mais palavras para expressar sentimentos – e saiba expressá-los de fato – além da média vocabular dos habitantes dos países de Língua Portuguesa; ainda assim, mesmo que vários me considerem um ás no amor e na arte da conquista, só sei que nada sei.

Digo isso porque, dias atrás, recebi um e-mail de uma leitora que me pedia conselhos sobre os relacionamentos e suas várias variáveis. Ela começou a missiva digital com uma pergunta bem simples, bem direta: "O amor existe?" E eu, obviamente, entrei em pânico. Achei melhor não mentir, apenas florear, aumentar, disfarçar e, em último caso, inventar.

O que dizer quando sempre se gostou mais do que se foi gostado? A única certeza, tanto na visão de quem entra quanto na visão de quem sai, é que o amor existe, sim. E se manifesta das formas mais inusitadas: como em um posto de pedágio, quando você pede moedas à moça ao seu lado, no banco do carona; como em um passeio público, ao avistar uma conhecida – por quem você nutria uma discretíssima simpatia – vindo no sentido contrário; ou como na festa junina da escola do bairro, na qual a professora (que também é sua vizinha) aparece vestida de prenda e coordena com pulso firme a barraca do beijo.

Desconsiderando a parte da fantasia, o normal, na minha modesta opinião, é a gente amar solitariamente, às vezes platonicamente, e sofrer e se frustrar um monte. Vá lá, cedo ou tarde as coisas se encaixam e alguém nos corresponderá quase na mesma medida. Entretanto, como isso pode ocorrer uma única vez na vida, é preciso estar atento e forte. Eu chutaria que o amor verdadeiro surge entre os 25 e os 40 anos de idade, mais ou menos. Antes disso é entusiasmo, e depois, quando passamos a nos contentar com pouco, é carência. Em resumo: o amor é unilateral. Reciprocidade ajuda, mas a regra é não existir "toma lá, dá cá", lamento.

E atração, paixão, química? Química já é outra coisa, não tem nada a ver com amor. Química é um encaixe de pele, totalmente físico. Amor é um sentimento cerebral. Daí as meninas acharem que ainda amam os primeiros namorados ou os homens fugirem com suas amantes. Após uns meses, quando o sexo fica monótono, não sobra nadica de nada.

Importante mesmo é juntar subsídios para comparação. Só dá para saber se amávamos para valer se, depois do terceiro ou quarto romance, continuamos com a impressão de que o primeiro era disparado o melhor de todos. Claro, sempre levando em conta que amamos sozinhos, por nossa conta e risco. Aquele nosso caso antigo 
– ficante, noivo(a), amante – também pode considerar, depois de três ou quatro amores, que fomos uma grandíssima perda de tempo. Cruel, não?
  

01/01/2019

MICO MEU


Alguns episódios da minha infância eu não consigo esquecer. Nada grave, são aquelas pequenas histórias que, no fim das contas, não me provocaram maiores danos materiais ou psicológicos. O problema é que, q
uando eu acho que já recordei todos os casos infelizes da minha época de criança, sempre acabo lembrando de mais algum. Não foram melhores nem piores do que as tolices que eu cometo hoje em dia, apenas estavam muito bem guardados nos anais empoeirados da minha memória e acabam voltando à tona sempre que me acontece uma situação semelhante ou quando não tenho coisa melhor para resgatar daquele passado de outrora.

Cronologicamente, a primeira que aprontei foi ainda na pré-escola. No colégio de freiras em que eu estudava, os banheiros ficavam dentro das salas de aula, como se fossem suítes. Faltando dois minutos para o recreio, precisei fazer xixi. Quando voltei, com mais vontade de brincar no parquinho do que de comer o meu lanche, não encontrei ninguém. A turma toda havia saído para o intervalo e a professora, que em nenhum momento sentira a minha falta, tinha chaveado a porta.


No mesmo colégio, houve uma fase em que os banheiros não eram totalmente separados para meninos e meninas. A pia era comum a ambos, mas havia duas portas, uma azul e uma cor-de-rosa, cada uma com uma privada. No dia em que fui acometido de uma baita dor de barriga, desafortunadamente, o compartimento masculino estava ocupado. Foi de dentro da "casinha" rosada, entre uma aula e outra, que ouvi o banheiro se encher de meninas, todas fazendo fila para usar o vaso sanitário a elas destinado.

Ano seguinte, já no primário, o uniforme mudara. Em vez de camiseta vermelha e jardineira, passamos a usar camisa branca e calça azul-marinho. Era desconfortável, só que não o suficiente para me impedir de subir na amoreira que ficava nos fundos do quintal da escola, antes que meus pais viessem me buscar. A noviça que cuidava do portão sempre perguntava se eu andava roubando amoras, mas eu sempre negava, apesar da camisa manchada de roxo e das folhas nos cabelos.

Na terceira série, aconteceram duas tragédias, praticamente na mesma época. Para impressionar uma menina que estudava na minha turma, ingressei na banda marcial. Estava tudo acertado para eu tocar bumbo nos desfiles do dia 7 de setembro. Logo no primeiro ensaio, quando agachei para pegar meu instrumento, a calça de tergal descosturou bem na bunda, do cós ao gavião. Tive de ensaiar uma tarde inteira com o casaco do uniforme enrolado na cintura.

Ainda apaixonado pela rapariga que me fizera entrar para a fanfarra, resolvi demonstrar mais claramente todo o amor 
 
de uma década de vida  que eu sentia por ela. Arranquei um pedacinho de uma das folhas do caderno, escrevi em garranchos um "gosto muito de você", dobrei bem e estendi o papelzinho à minha musa. Ela abriu, leu, releu, suspirou e não teve dúvidas: levantou de sua carteira e correu para entregar o bilhete à professora.

Na quarta série, em determinado momento do final da década de 1970, era moda os meninos colecionarem figurinhas. Tendo preenchido os álbuns do Super-Homem e do King-Kong, chegara a vez dos Futebol Cards, uns cromos com fotos de jogadores do Campeonato Brasileiro que vinham dentro da embalagem do chiclete Ping-Pong. Eu jamais largava as minhas figurinhas, ao ponto de, com medo de ser roubado, guardá-las dentro da cueca durante a aula de Educação Física. Numa tarde de vento forte, logo no aquecimento, no primeiro polichinelo, voaram todas pelo pátio. Não sobrou uma para contar a história.


Das últimas que me lembro, quando eu já não me sentia mais tão criança, aconteceu nas férias de verão. Minha mãe pegou a calça do meu agasalho de praticar esportes e transformou numa bermuda. Cortou as duas pernas na altura do joelho e refez a bainha. Orgulhoso, vesti a nova peça e saí para uma volta pelo bairro, onde absolutamente todos que cruzaram o meu caminho olharam para o extravagante calção. Devem ter reparado, antes de mim, que uma perna era bem mais curta do que a outra.

Depois da escola, no playground do meu prédio, a pirralhada recém-apresentada à pré-adolescência costumava brincar de "casamento atrás da porta", um antigo jogo no qual um dos participantes, com os olhos vendados, escolhia, entre os restantes, alguém para dar um aperto de mão, um abraço, um beijo no rosto ou um beijo na boca. A menina mais velha era sempre a mais cobiçada por todos. Na minha vez, quando tive a sorte de ser escolhido, ela foi taxativa: "Vai ser no rosto, porque eu não beijo menino de aparelho".

Antes de entrar em definitivo na vida adulta, ainda teve uma boa, dessa vez no colégio de padres em que concluí meus estudos. Um professor faltou e não havia ninguém para substituí-lo, então fomos dispensados até a aula seguinte, incluindo o recreio. As meninas foram jogar vôlei; os meninos, futebol. Como eu usava um Rainha Yatch, extinto modelo de tênis sem cadarço que voava longe cada vez que eu dava um chute na bola, troquei o pé direito pelo All Star de um amigo canhoto. Mais tarde, após quarenta minutos de pelada, soou o sinal, anunciando a hora do intervalo. A turma toda debandou, cada um para um lado. Eu também, usando um pé de cada tênis.


Hoje eu já não pago mais micos. A inocência se foi. Tenho evoluído bastante desde que saí da escola. De lá para cá, não apronto quase nada que mereça ser contado numa crônica, muito pelo contrário. As bobagens que eu cometo sem parar, mesmo as mais engraçadinhas, são incomensuráveis. Normalmente, geram algum tipo de ônus para o meu ânus. Além disso, não fazem rir como as estripulias daquela época. Essas de agora eu nem conto, pois são de chorar.