24/09/2019

A PARENTE MENTE


Passava um pouco das nove da noite e já não havia mais ninguém nas ruas. "Sombrio, turvo, ermo", foi o que pensou o forasteiro que entrava na cidade a pé, carregando somente uma mochila de lona. Fora assaltado na estrada, levaram-lhe o cavalo, a arma e os últimos trocados. Agora, apesar de tudo, precisava apenas de um copo d'água, talvez uma bebida, e um canto para dormir.

À medida que avançava, percebia vultos por detrás das cortinas, por entre as venezianas, por qualquer espaço protegido pela escuridão. Caminhou na direção da única porta aberta, de onde vinham vozes e uma luz intermitente de velas acesas. Um corredor de velas, cada uma dançando num ritmo próprio toda vez que uma lufada de vento morno atravessava o ambiente. No centro da pequena casa de madeira, um caixão fechado, coberto de flores. "Mas que porra...", foi o que pensou o estranho ao tirar o chapéu em sinal de respeito. Entre meia dúzia de mulheres chorosas, o padre mostrou-se aliviado.

– Finalmente chegou quem faltava! Podem ir todos, com a graça de Deus. O cunhado do falecido cuidará de consolar sua querida irmã, diante desta perda lamentável. Amanhã cedo nos encontraremos novamente, no cemitério. Boa noite, meus filhos! Lembrem-se de orar pela viúva e pela alma de seu devotado esposo.

Depois de dez minutos, viu-se sozinho com uma moça de vestido preto, o caixão entre eles. A anfitriã fechou a porta por onde o povo acabara de sair e apagou o lampião da varanda. "Bela, recatada e do lar", foi o que pensou o forasteiro quando ela o encarou com enormes olhos castanhos, tristes e lacrimejantes, encobertos por um véu de filó.

– Meus pêsames.
– Obrigada.
– E agora?
– Agora nada, vamos dormir.

Sem mais palavras ou gestos, enquanto o visitante enchia dois baldes com água do poço no fundo do quintal, a viúva trocava os lençóis da cama de casal. "Hoje vou me vingar de todo o sofrimento, amado marido", foi o que ela pensou antes de rasgar o telegrama que recebera à tarde, durante o velório. Em um dos pedaços de papel, caído para fora da lixeira, ainda era possível ler claramente, logo abaixo do timbre da agência postal: "Não poderei comparecer, cuide-se bem".

17/09/2019

AS AVENTURAS DO HOMEM INDIZÍVEL


– Sequoia ou baobá? 
– Sobre o tamanho ou sobre a aparência?
– As duas coisas.
– A sequoia ganha em altura e o baobá ganha em beleza.
– Já viu algum de perto?
– Não, senhor... só em fotografias.

Era uma entrevista de emprego, mas não parecia. Estava mais para teste de cultura inútil. Percebi a impaciência no semblante do avaliador, ainda sem saber se ele me considerava muito novo ou muito velho para escrever aos leitores da sua revista semanal. Pensei em argumentar que na Folha de S. Paulo, por exemplo, hoje em dia qualquer zé-mané tem uma coluna ou um blog. Contudo, apenas pensei. Talvez não fosse o momento de admitir que eu também era um qualquer. Ele folheou a agenda à sua frente e veio com um bate-bola.

– Atriz preferida?
– Jennifer Connelly.
– Cantor?
– Vivo ou morto?
– Vivo.
– Morrissey.
– Escritor?
– Rubem Fonseca.

Pelas minhas pesquisas, a publicação se destinava aos jovens. Tinha mais imagens do que textos, obviamente, e dava importância aos avanços tecnológicos, aos festivais de música eletrônica, aos campeonatos de jogos on-line e aos cursos de educação à distância.

– Senna ou Piquet?
– Piquet.
– Por quê?
– Foi igualmente tricampeão dirigindo carros inferiores.
– Muito bem... Pepsi ou Coca?
Design ou sabor?
Design.
– Pepsi.

Estranhei o fato de o meu interlocutor beirar os 60 anos de idade e não ter a mínima ideia de como o mundo funciona. Uma revista impressa, distribuída nas bancas por um valor que nenhum adolescente desembolsaria, me pareceu claro indício de vida curta ou bancarrota.

– O que pensa sobre Anitta?
– Anita Malfatti?
– Não.
– Anita Garibaldi?
– Não.
– Anita Baker?
– Não.
– Mel Lisboa em "Presença de Anita"?
– Não.
– Então não penso nada, senhor.

Considerando que eu sempre me comportara como um ancião desde os tempos de escola, perguntei a mim mesmo se seria capaz de escrever para gente nova. Certamente que não. Meu desprezo pela juventude e os fantasmas de todos os meus ex-chefes normalmente são o grande empecilho nesses instantes da minha vida. Na hora H, no dia D, é batata que um outro Eu se sobrepõe ao Eu original e toma as rédeas da conversa. Sem plano de saúde, sem vale-refeição, sem relógio-ponto, sem independência editorial: "kkk".

– Pretensão salarial?
– Seria muita pretensão se eu dissesse.
– Prefere trabalhar em casa ou na redação?
– Tanto faz, moro aqui perto.
– Tem algo a acrescentar?
– A esta conversa ou à empresa?
– Ambos.
– Nada.
– Nada?
– Nadinha.

10/09/2019

MISTUREBA


Percebi que a rapariga do caixa me olhou de um jeito esquisito quando fiz o pedido. Provavelmente eu era o primeiro cliente na história da lanchonete a escolher uma combinação tão absurda, e talvez por isso ela tenha aguardado a minha terceira confirmação verbal antes de gritar debochadamente para o pessoal da cozinha:


– Um McFish e um capuccino de meio litro, por favor!


Na semana passada, num restaurante italiano, daqueles em que se pode combinar livremente os ingredientes dos pratos, me aconteceu episódio parecido. Eu andava com vontade de experimentar o nhoque da casa e, ao mesmo tempo, com um desejo gestatório de comer espaguete à carbonara. O garçom, muito gentilmente, anotou o pedido.


– Qual massa, senhor?

– Nhoque.
– E o molho?
– Carbonara.
– Tem certeza?
– Por que, não pode?
– Pode... mas é estranho.

Quando anunciei que ia beber suco de abacaxi com hortelã para acompanhar, achei que ele fosse me bater com o cardápio na cara.


Inexplicavelmente, trinta minutos depois, um segundo funcionário veio servir a gororoba (admito, a aparência não fez jus ao sabor), enquanto o primeiro tomava um Plasil em outro setor do estabelecimento.



Ora, quem não tem lá as suas esquisitices gastronômicas? Meu irmão mais novo sempre come bolacha maria besuntada com o feijão que sobra do almoço; tive uma vizinha que amassava abacate com sal e pimenta em vez de açúcar e limão; eu mesmo, bebo café gelado e prefiro Coca-Cola sem gás. Além do mais, existem tantas harmonizações inviáveis – culinárias ou não – que ninguém contesta, como a Dakota Fanning fazendo papel de refugiada muçulmana, por exemplo. A democracia e o governo brasileiro também são coisas que não combinam, mas aí já é assunto para outro texto.

Voltando ao nosso tema: o que pretendo dizer é que nem a moça da lanchonete nem o garçom do restaurante têm o direito de torcer o nariz para nenhum pedido de nenhum cliente, por mais bizarro que pareça (o pedido, não o cliente). Cada um sabe de suas potencialidades digestivas e faz a mistureba que bem entender, dane-se a opinião alheia.


Por isso, não quero nem imaginar o que dirão os franceses se souberem que costumo raspar toda a cobertura do croque-monsieur ou como reagirão os enofílicos assim que eu revelar que tenho aqui, ao lado do computador, daqueles copos tipo long drink, com vinho importado, muita água, gelo, adoçante e um canudinho flexível.


03/09/2019

LETRA & MÚSICA (2)


O casal de aficionados da MPB e do pop-rock nacional, divorciado há cinco anos, volta a se encontrar no mesmo barzinho com som ao vivo, na mesma minúscula mesa redonda. Ela tenta quebrar o gelo:

– Como vai você? 
– Tenho o que me falta e o que me basta, no mais é ficar só.
– Eu fico à vontade com a sua ausência...
– Eu quase não saio, eu quase não tenho amigos.
– Vai melhorar... é bola pra frente, depende da gente.
– Sou um presidiário cumprindo sentença.
– Pois vai curtir seu deserto, vai.
– Mas te vejo e sinto o brilho desse olhar...
– Você foi dar um mergulho e por pouco não se afogou.
– Eu percebi trauma, que eu vivi um trauma.
– Tente outra vez!
– Eu só preciso ter você por mais um dia.
– Eu, hein? Nem pensar.
– Estranho, mas já me sinto como um velho amigo seu.
– Pois é, não deu.
– Me diz por onde você me prende...
– Será que é tempo que lhe falta pra perceber?
– Tempo, tempo, mano velho!
– Fique feliz, na boa, e tudo vem.
– Tente passar pelo que estou passando...
– Esqueça de mim, que, afinal, pra esquecer você tem experiência.
– Me dá um beijo, então.

Beijam-se despudoradamente durante alguns minutos. O que ele imaginou ser uma reconciliação, para ela era uma tardia vingança. Pedem mais dois chopes, uma porção de fritas e retomam o diálogo.

– Eu bebo um pouquinho, pra ter argumento.
– Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar...
– Se você disser tudo que quiser, então eu escuto.
– Eu gosto é de mulher!
– Isso me dá tic-tic nervoso!
– Quando entrar setembro e a boa nova...
– Quem é ela?! Quem é ela?!
– Isso do medo se acalma, isso de sede se aplaca.
– Meu rosto vermelho e molhado é só dos olhos pra fora.
– Tanta coisa muda nessa hora, que o mais valente dos homens chora.
– Ok, você venceu.
– Acabou. Boa sorte!
– Não esquece de mim, mesmo que seja ruim.
– Cuide-se bem... perigos há por toda a parte.


Gabarito: Antônio Marcos, Sérgio Sampaio, Toni Platão, Dominguinhos e Gilberto Gil, Maria Rita, Vander Lee, Toquinho e Vinícius, Cidadão Quem, Camisa de Vênus, Clínica (Fernando Salem), Raul Seixas, Lô Borges, Kleiton & Kledir, Nando Reis, Los Hermanos, Marina Lima, Lenine, Pato Fu, Zizi Possi, Luiz Melodia, Pimpinela, Lulu Santos, Nana Caymmi, Geraldo Vandré, Secos & Molhados, Ultraje a Rigor, Magazine, Beto Guedes, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Frejat, Benito Di Paula, Blitz, Vanessa da Mata, Wander Taffo (Rádio Táxi), Guilherme Arantes.