09/07/2019

OS ROBINSON


Um bairro de classe média-alta. Mais para alta, na verdade. Desses lugares em que as casas não têm muros, onde vivem advogados e gerentes de banco, com suas esposas pedagogas ou psicólogas, suas filhas chamadas Harriet, cachorros de língua cinza e carros suecos. O senhor Robinson lavava a calçada em frente à garagem quando, entre um e outro intervalo do aparelho vaporizador, ouviu um miado muito fraco, que lhe pareceu ser de um filhote de gato debilitado.

Precisou dar poucos passos em direção ao fundo do quintal para avistar a caixa de papelão com o animal dentro. Ao mesmo tempo, a senhora Robinson, que também ouvira sons estranhos, aproximava-se do local.

– É mesmo um gatinho! As crianças vão adorar, não? – disse ele.
– O bicho é cego, meu bem... arrancaram-lhe os olhos  observou ela.

No lugar dos globos oculares, apenas dois vazios, tomados por secreções. O minúsculo felino, de pelagem parda, já miava sem forças, mexendo a cabeça feito um periscópio, como quem procura as chaves do Volvo ao se atrasar para um compromisso importante.

O casal providenciou um pires com leite. E enquanto o homem guiava a cabeça do filhote até o alimento, a senhora Robinson retomou o diálogo:

 Você precisa sacrificá-lo antes que as crianças cheguem.

Ele sabia que a esposa estava certa. Não podia condenar aquela criatura a viver sem visão, a ser mais um estorvo no mundo, como tantos, incluindo os que enxergam perfeitamente. Levantou-se e buscou uma sacola retornável, de supermercado, na qual enfiou o bichano. Saiu a pé pela rua principal. Depois dobrou a esquina, numa travessa estreita, e seguiu ainda um quilômetro. Parou diante de uma construção abandonada.

Começava a escurecer. No interior ermo da obra, separou dois blocos de concreto. Ajeitou o primeiro no chão de areia e depositou sobre ele a sacola com o gato cego, que mal se debatia. Levantou a segunda peça acima da cabeça e, num único movimento, desferiu o golpe definitivo. Alguma coisa se quebrara em pedaços, mas era impossível reconhecer a diferença entre ossos ou tijolos.

No caminho de volta, nenhum novo miado, somente o silêncio ensurdecedor do bairro. Entrou pela casa de dois andares, com floreiras nas janelas. Subiu as escadas e foi direto para a suíte, onde se deixou cair sobre a cama king, com o rosto mergulhado nos travesseiros de plumas de ganso e fronhas de algodão egípcio.

Na calçada, o ônibus escolar largava o casal de filhos. Ao descer para receber as crianças, a senhora Robinson fechou a porta do quarto, para que o marido pudesse chorar mais um pouco antes do jantar.

02/07/2019

UM FURTO FURTIVO


Roubaram o meu capacho. E não me refiro a nenhum aspone puxa-saco nem a nenhuma secretária adepta do serão extra noturno, não. Roubaram mesmo foi o tapetinho que fica do lado de fora da porta de entrada do meu apartamento.

Um caso muito estranho: cheguei do trabalho e ele, que é peludo, com formato e estampa de gatinho, não estava no lugar de sempre. Olhei primeiro pela janela do corredor, afinal, podia ter voado lá embaixo, como aconteceu há pouco tempo com o tapete de pele de urso de uma senhora do andar de cima. Olhei também na lixeira do prédio. Procurei nas portas dos outros apartamentos, pois a faxineira do período vespertino, já um tanto idosa, eventualmente promove uma dança de capachos no condomínio, inclusive entre os andares. Mas não, nada. Sumiu, desapareceu, escafedeu-se. A velhinha não viu, o porteiro não viu, o zelador não viu, o síndico não viu.

Claro que ninguém viu, certamente estão todos mancomunados com o larápio de adornos de piso que, por sua vez, deve servir a uma rede internacional de tráfico de pelegos com motivos animais.



Na minha lista de suspeitos, em avaliação preliminar, figuram as gêmeas do fim do corredor, sobretudo a mais antipática; o padre Parkinson, com menos chance, pois se ele pegasse o capacho ao meio-dia eu ainda o alcançaria antes das seis da tarde; a estudante solitária e tímida, provavelmente como forma de chamar a atenção antes de apelar para o suicídio; o pai solteiro, tendo como cúmplice a sua filhinha com cabelo de Playmobil, porque a menina decerto achara o tapete fofinho; e, por último, o velho pedófilo da porta ao lado, que pode tê-lo oferecido como mimo a uma de suas vítimas, dizendo carinhosamente: "dá uma pegadinha aqui no gatinho peludo do vovô, dá". O fato é que todos tinham um motivo razoável para cometer o crime.

Agora, de cabeça fria, passadas algumas horas da lamentável ocorrência, já não penso mais em denunciar nem em dar porrada no meliante ou na meliante que subtraiu o tapetinho da minha porta. Decidi que não vale a pena perder o sono por uma caganifância dessas. Amanhã compro outro capacho e pronto, também em formato especial, com desenho de bichinho, tão atraente quanto o antigo.

Por precaução, o próximo ficará colado ao chão com Superbonder, ligado a um sensor de movimento e a uma câmera fotográfica embutida no olho mágico. Eu sempre fui assim, desapegado das coisas materiais.