13/11/2018

ACRILIC ON CANVAS


Não sei em que momento ela se mudou para o meu apartamento. Começou com uma trepada e um banho; depois uma trepada e um jantar; mais tarde, uma trepada e um cochilo; até acabar numa trepada, seguida de cochilo, banho, jantar, outra trepada e uma noite inteira de roncos, pernas nervosas, sono superficial e o sol entrando pela janela na manhã seguinte. Foi ficando.


Era estudante de Artes Plásticas. Além de roupas e maquiagem, trouxe cavalete, telas, pincéis, espátula, paleta, godê, solvente, carvão, grafite, verniz e tintas, muitas tintas, acrílicas e a óleo. Passaram a colorir minha vida pequena e lenta o branco de titânio, o azul-ultramar, o verde-oliva, o verde-ouro, o verde-oriental, o amarelo-ocre-claro-dourado, o terra de siena e o vermelho-veneza.


Tinha predileção pelos impressionistas: Degas, Manet, Monet, Sisley, Renoir, Pissarro. Passava os dias a reproduzir as pinturas mais famosas da segunda metade do século XIX, sempre atenta às incidências de luz e à falta de nitidez proposital em cada contorno, características daquele movimento. Dos brasileiros Visconti e Almeida Júnior, então, não lhe escapava um mínimo detalhe.


Boulevard Montmartre Spring Rain (Camille Pissarro, 1897)
Valia-se da técnica do acrílico sobre tela, devido à secagem mais rápida, embora, eventualmente, se aventurasse pelo óleo sobre tela, que exigia a utilização de verniz de linhaça como secante ou diluidor e deixava o ambiente com um fedor semelhante ao de um gambá numa aula de aeróbica. Mas eram transtornos menores e passageiros, pois assim que terminava seus trabalhos, em consideração ao nosso lar de dimensões reduzidas, levava os quadros para a casa dos pais. Segundo o porteiro do prédio, a mãe ou o pai ou ambos apareciam antes do fim da tarde, enquanto eu ainda estava no trabalho, portanto, nunca cheguei a conhecê-los.

Entre trepadas e pinceladas, seis meses se passaram. Também não sei em que momento cheguei ao apartamento e não a encontrei. Nenhuma tela, roupa, vestígio. Liguei a TV e continuei procurando um bilhete ou qualquer outra pista de seu sumiço. No programa policial, uma quadrilha de falsificadores de obras de arte. Da direita para a esquerda, ela era a terceira. Uma pintura de tão linda.
 

06/11/2018

APARTAMENTO 201


Acordo assustado com a trepidação da furadeira na parede. É domingo, dia de descanso, e esse filho da puta do andar de baixo, mesmo tendo recebido uma cópia do estatuto do condomínio com o horário de silêncio grifado com caneta marca-texto, insiste em descumpri-lo. Depois tem gente que não entende por que é que um cara discreto e pacato como eu, que viveu a vida inteira em apartamento, de uma hora para outra esfaqueia outro morador até a morte.

Ontem à noite foi o cachorro da vizinha de cima que não me deixou dormir. Passou a madrugada uivando, sentindo falta da dona, aquela vadia. Durante o sábado, foram as merdinhas das crianças no playground. Parece até que não têm pais, pois passam mais tempo incomodando pessoas que não incomodam ninguém do que na escola ou em casa. São tão chatas, gritam tanto, que já compreendi por que os adultos as mandam brincar nas áreas comuns do prédio, bem longe da família. Como hoje não se pode mais cobrir os bastardos de porrada, apenas torço para que peguem uma doença ou quebrem uma perna.

Enquanto não consigo voltar a dormir, fico olhando para a piscina, onde as senhoras expõem suas pelancas e varizes, onde as meninas novinhas expõem seus peitos de silicone e onde as outras mulheres, nem novas nem velhas, expõem suas amarguras. No trampolim, um bobalhão de trinta e poucos anos, que ainda mora com a mãe, dá piruetas e tenta chamar a atenção das adolescentes. Bem feito! Bateu com a cabeça na borda de azulejos e teve de ser carregado pelo zelador.

Ligo a TV e o ar-condicionado. Não que precise de distração ou esteja com calor, nada disso, é que o barulho constante de ambos me protege temporariamente de marteladas e furações, de móveis sendo arrastados, de casais discutindo, de liquidificadores e aspiradores de pó, de música ruim, de sapatos de salto, de camas rangendo, de gritos, gemidos e sexo sem a minha participação. Ainda assim, com os ouvidos a salvo, o nariz nunca estará livre de uma comida fedorenta. O cheiro entra pelas frestas e gruda em tudo. Nessas horas, tenho a nítida impressão de que algum corno está a cozinhar um cadáver deteriorado, um gambá ou um caldeirão de cuecas usadas.

Escurece, finalmente, depois de um pôr do sol de cinema. Uma nuvem de cupins invade o apartamento antes que eu tenha tempo de fechar os basculantes da cozinha e do banheiro. Aposto que os bichos não entraram na casa de nenhum dos esporrentos, catinguentos e mal-educados da vizinhança, só aqui mesmo. Então, lembro de uma frase que meu avô sempre repetia em tardes assim bonitas: "Lindo dia para morrer enforcado". E não digo que já não tenha pensado nisso.