26/03/2019

O CRIME DO FLUSS AZUL ATIVO


Lá na empresa têm acontecido umas coisas estranhas. Estranhamente, eu tenho recebido menos do que gostaria e trabalhado além do recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Mas não é disso que quero falar. O caso mais recente envolveu o bastão sanitário (aquele que fica numa cestinha e deixa a água azulada) do banheiro masculino. Um grande mistério, solucionado por mim na última semana.

Algum marmanjo do nosso setor, aparentemente por medo, nojo, convicção religiosa ou trauma de infância, quando ia fazer xixi, retirava a cestinha com o refil e a colocava no chão, ao lado da privada. A nossa dedicada faxineira, dona Gertrudes, na maior boa vontade, ao reparar, limpava o piso manchado e punha de volta o "cheirinho" na borda do bacio. Às vezes, no mesmo expediente ou, no máximo, no dia seguinte, estava o troço no chão de novo, sempre na mesma posição.

Cogitou-se, em reunião com a diretoria, instalar uma câmera oculta no toalete, só que o pessoal da empresa de vigilância já foi avisando que cobraria 50% a mais para fazer esse tipo de monitoramento. Então, a solução imediata foi redobrar a atenção no entra e sai de frequentadores com excesso de água no joelho, se é que o leitor me entende.

Histórias acerca do desodorizador higiênico eu conhecia muitas, como a de uma amiga de Porto Alegre, cujo vaso cheirava a urina diuturnamente, sem que ela conseguisse imaginar o motivo, pois vivia colocando pedras e bastões sanitários no entorno da cerâmica. Até o instante em que entrou de supetão no banheiro e flagrou o namorado mijando, mirando na cestinha e comemorando, entusiasmado e sacolejante, a cada acerto no fragrante alvo.

Mas igual ao caso da empresa eu nunca ouvira falar. Entretanto, o tal segredo (que se estendia por quase três meses) foi desvendado meio sem querer, no dia em que fui à cozinha buscar um copo d'água. Dona Gertrudes, uma senhora alemã, que havia sido governanta de Salvador Allende antes de vir para o Brasil, esquecera sua garrafa térmica particular aberta sobre a pia. O aroma era inconfundível, não deixava dúvidas: tratava-se do famoso "café dos Andes", preparado com 50ml de leite condensado, 100ml de creme de leite, 200ml de café espresso, 50ml de vinho do porto e 20ml de conhaque, no qual os ingredientes devem ser batidos no liquidificador, menos o conhaque, que vai por último, por cima, flambado diretamente na taça ou caneca. Anotaram?

Eis o que eu queria revelar: a velha faxineira, após o desjejum reforçado, retirava o acessório com o refil todas as manhãs para limpar a privada e esquecia de recolocá-lo no lugar. Mais tarde, novamente sóbria, parava na porta do setor, botava as duas mãos na cintura e esbravejava com seu carregado sotaque germânico:

– Eu quererrr saberrr quem foi o desgraçada que tirou o porra do cestinha da badezimmer outrrra vez!
  

19/03/2019

FOME DE QUÊ?


Em priscas eras, namorei uma menina, glutona incorrigível, da alta sociedade. Isso faz um tempinho, claro. Algumas coisas só me aconteciam quando eu ainda não havia crescido e amadurecido. Era uma dessas patricinhas que se vestem de cor-de-rosa, do celular aos sapatos, e que já tem carro, guarda-costas e cartão de crédito antes mesmo de completar dezoito anos. Foi graças a ela 
– e à sua insaciável obsessão gastronômica  que aprendi as diferenças entre tainha e salmão, sidra e champanhe, berbigão e ostra, bolacha recheada e alfajor, lámen e rigatone, prato feito e à francesa. Frequentei restaurantes caríssimos, bistrôs chiquérrimos e outras tantas biroscas de gente rica, mesmo não tendo dinheiro nem para a gorjeta e nem para o sal de fruta.

Até hoje não sei o que aquela rapariga viu em mim. Não tínhamos assuntos em comum, não gostávamos dos mesmos filmes nem das mesmas músicas, seus pais não aprovavam o meu cabelo comprido e, a bem da verdade, ela era meio mal diagramada pela natureza e não sabia beijar direito. Seus lábios eram finos, secos, rígidos demais. Era como tentar abrir a concha de um mexilhão com a língua, dá para imaginar?


Mas nada disso agora tem grande importância. Foram diversos almoços e jantares na cobertura em que a família morava. Experimentei desde caviar e lagosta até tâmaras e nêsperas (que nada mais são do que as nossas ameixas amarelas), de molho béarnaise a crème brûlée, além de croque-monsieurcroque-madame, profiteroles e outros milhares de acepipes – preparados pela cozinheira particular  a fim de preencher os curtos intervalos entre as nababescas refeições.

Um ano e meio depois, com o fim do namoro, ainda custei um pouco a perder parte dos quinze quilos que ganhei durante o empanzinante romance. Mais ou menos na mesma época, os meus amigos, finalmente, deixaram de me chamar de Fat Ken. Então a vida continuou, porém, com o perdão do trocadilho, não voltou a ter o mesmo sabor. Às vezes lembro daqueles momentos culinários com alguma nostalgia, geralmente quando meu estômago começa a roncar. E sempre que penso na dondoquinha, com suas roupas cafonas, bolsas peludas, joias caríssimas, sobrancelhas tatuadas, gordurinhas localizadas e seu apetite descomunal, sinto uma vontade incontrolável de comer, sem nenhuma frescura, um pratarrão de macarrão com salsicha.

  

    

12/03/2019

A CONSULTA


Passava das nove da noite quando a senhora Crabtree bateu à porta da casa de veraneio da família Arnold. A temporada já estava no fim, porém, ela ouvira falar que um dos irmãos, o doutor Alexander, ainda permanecia na cidade para tratar da organização de um congresso de ginecologia e obstetrícia. Antes que acionasse novamente a aldrava, uma luz da varanda se acendeu e, em seguida, ouviu-se o giro da maçaneta. Atendeu um homem relativamente jovem, de porte atlético, vestido com um robe de chambre aveludado, calçando chinelos, um pouco mais bronzeado do que se poderia esperar de um médico. Afastando a franja de cima dos olhos com um leve movimento de cabeça, dirigiu a palavra àquela visitante inesperada.

– Boa noite, madame... em que posso ajudá-la?

– Queira me desculpar pelo adiantado da hora, mas é importante... e confidencial também. Sou a esposa do banqueiro Archibald Crabtree, vim por recomendação de uma vizinha que conhece bem o seu trabalho... estou um pouco nervosa, pois o que está me acontecendo não é comum a uma dama da minha estirpe... será que posso contar-lhe o meu caso? Creio que só o senhor... o senhor você, não o Senhor Deus, que fique claro, será capaz de compreender o motivo de tal aflição.

– Farei o que estiver ao meu alcance, senhora... senhora...

– Crabtree!

– Sim, Crabtree. Entre, por favor... sente-se. Gostaria de um chá?

– Não é necessário, pois não pretendo me demorar... ninguém sabe que vim vê-lo, por isso devo voltar antes que algum fuxiqueiro note a minha ausência. Archie está viajando, deve retornar amanhã à tarde, acredito que sairei daqui com a solução e o tempo necessários para resolver o meu problema.

– Bem, pelo que percebo da sua conversa...

– Por gentileza, não me julgue antecipadamente, vou abrir meu coração e expor todos os detalhes, para que o seu diagnóstico seja preciso... tudo começou há uma semana, meu marido fez amor comigo, muito rapidamente como sempre, sem que minha vagina estivesse totalmente lubrificada... apesar de ser um homenzinho baixo, ele tem o pênis em formato de cogumelo, com uma glande desproporcional, que custa a entrar e, quando entra, vai arranhando e esgarçando tudo que encontra pelo caminho.

– Madame Crabtree...

– Não me interrompa, eu lhe peço... já é muito humilhante para uma dama do meu gabarito estar aqui a essa hora, então deixe-me continuar... ele estava com saudades, aparentemente, acabara de chegar de uma de suas viagens, não me deu tempo para nada, em menos de dois minutos ejaculou abundantemente e se retirou-se para o banheiro com seu falo murcho, ainda mais cabeçudo naquele estado... de minha parte, limpei o sêmen que ameaçava me escorrer pelas coxas e fui preparar o jantar.

– Não quero ser indelicado, é que...

– Não se preocupe, a história não é longa. O problema é que, a partir desse episódio, diferentemente das outras vezes, tive uma cistite... há quem chame de infecção urinária. Não consigo dar dois passos sem ter vontade de ir ao banheiro... no caminho para cá, precisei entrar na mata para me aliviar, acredita? Além disso, minha vulva está cheia de brotoejas, sinto uma coceira infernal... agora mesmo, só não me coço na sua frente em respeito ao decoro que a minha posição social exige.

– Não sei o que dizer, mademoiselle...

– Não diga nada, apenas ouça... sou uma mulher forte, meu sistema imunológico é invejável, estou com quase quarenta e anos e nunca tive esse tipo de desconforto... está certo que casei-me virgem e Archibald foi meu único homem, a não ser por uma vez em que um jardineiro, que já não é mais nosso funcionário, me exibiu seu membro e eu fraquejei... ainda assim, foi somente uma felação sem maiores consequências, não deixei que ele ousasse chegar perto das portas do paraíso.

– Deus do céu, eu...

– Portanto! Portanto... a cistite que contraí pela primeira vez na vida não tem nada a ver com o clima frio das noites nem com alguma deficiência do meu organismo, é praticamente certo que o meu esposo tem uma amante... e cada vez que ele volta de uma reunião de negócios, além de flores e uma caixa de chocolates, também me traz candidíase, herpes, fungos, bactérias e sabe-se lá o que mais... fui clara, doutor Arnold? Restou alguma dúvida?

– Bem, senhora Crabtree... não digo que não tenha ficado impressionado com o seu depoimento, mas creio que é minha consciência que me obriga a dizer o que vou dizer: realmente eu gostaria muitíssimo de ajudá-la, contudo, talvez eu não seja a pessoa certa para isso, pois sou contador, não médico... queira aguardar aqui apenas um minuto enquanto eu vou chamar o meu irmão gêmeo, Alexander, que está repousando no cômodo ao lado... fique à vontade, por favor.
  

05/03/2019

MAISTRÊSCRÔNICASCOLADAS


Sabe esses dias em que você já acorda cantarolando, abre as cortinas e dá bom-dia ao sol e aos pássaros, veste a camisa mais colorida que encontra no armário, toma seu café da manhã demoradamente, sai de casa com um sorriso nos lábios, dança com a faxineira e abraça o porteiro, assovia, pensa no seu primeiro amor, pensa no seu mais recente amor, cumprimenta o jornaleiro, caminha pisando em ovos, repara no céu e nas árvores, se encanta com construções antigas, cheira uma rosa, se equilibra no meio-fio, chega ao trabalho como se fosse a primeira vez, usa a escada em vez do elevador, respira fundo (com os olhos fechados), sorri ao ler seu próprio nome na porta do escritório e se pergunta o porquê de tanta felicidade? Definitivamente, não é como estou me sentindo hoje.


Eu devia ter uns seis ou sete anos de idade, e isso já faz algum tempo, obviamente. A tevê estava sintonizada numa luta de boxe. Logo ao lado, minha mãe passava roupa e cantarolava uma canção de Sérgio Bittencourt (Olho a rosa na janela, sonho um sonho pequenino...). Eu brincava com os meus carrinhos Matchbox e, de vez em quando, dava uma espiadinha no combate, no qual um branquelo de calção preto permanecia fixo no meio do ringue, enquanto o outro, um mulato de calção vermelho, girava em torno dele (Se eu pudesse ser menino, eu roubava essa rosa...). O locutor, esgoelando-se, avisava que o juiz acabara de descontar mais um ponto do pugilista do corner rubro. Minha mãe, sem levantar os olhos da tábua de passar, me perguntou fingindo interesse: "Ele disse pugilista ou fugilista, meu filho?" (E ofertava, todo prosa, à primeira namorada...). Com propriedade, eu que já era um ás no boxe, apesar da pouca idade, impostei minha voz aguda para respondê-la: "Acho que ele disse fugilista, mamãe, porque esse negão fica fugindo o tempo todo". Ela assentiu e continuou cantarolando a melodia, agora sem a letra.

Tanta coisa mereceria ser dita numa crônica. Pena que eu não seja um iluminado com o poder de controlar as palavras a qualquer momento, que nem o Rubem Braga ou o Zuenir Ventura, por exemplo. Aliás, dou graças ao Senhor por conseguir controlar pelo menos o meu esfíncter e, de vez em quando, ainda cometer um texto engraçadinho. Pensando bem, é melhor não escrever nada do que escrever bobagem. Meu avô sempre alertava: em boca fechada não entra mosquito. Amanhã converso com a minha consciência, não há de me faltar inspiração para mais uma desculpa literariamente esfarrapada.