29/11/2020

A PROMESSA


A vida os dispersou, cada um para um lado. Ele não soube mais dela. Descobriram-se, namoraram, passaram todo o tempo que puderam juntos, fizeram alguns planos e engendraram, detalhadamente, o futuro de um ao lado do outro. Futuro? Beijaram-se pela primeira vez num dia 29 de novembro, em tarde nublada de primavera, no alto de uma escadaria que ligava a rua em que ele morava à rua onde ela trabalhava. Conheciam-se pouco. Entretanto, como em todo caso de amor fadado ao sucesso, tinham a impressão de haverem se beijado, ininterruptamente, desde a primeira infância.

E sem imaginar que as sensações e os sentimentos se tornariam ainda maiores e mais intensos ao longo dos meses de convivência, porém, "sem saber que o pra sempre sempre acaba", de comum acordo, olhos nos olhos, fizeram uma promessa: em dez anos, acontecesse o que acontecesse, mesmo que estivessem casados, entre si ou com pessoas diferentes, ou que seus rumos se desencontrassem, que tivessem sofrido um acidente, que morassem longe, que se amassem ou se odiassem, enfim, voltariam a se ver naquela escadaria, no dia 29 de novembro, às 16 horas.

Como era de se imaginar, aconteceu com os dois o que costuma acontecer com os melhores e mais compatíveis casais: separaram-se, após cinco anos. Em seguida, mudaram de endereço, de trabalho, talvez de cidade. Ele não soube mais dela. E enganou a si próprio nos cinco anos seguintes tentando convencer-se de que a vida era boa, de que a vida continuava, de que a vida valia a pena. Namorou outras mulheres, fez novos amigos, passou a beber e a jogar com frequência, a gastar com roupas e extravagâncias, até transformar-se em quem não era. Depois, gradativamente, acabou retomando a rotina de solidão, leituras, frugalidade e silêncio. Mas ainda havia a promessa! Então, a ela se agarraria como a um tronco num rio selvagem, sujeito a ser salvo definitivamente ou a desaparecer na espuma fumacenta da queda d'água que era a sua descompensada existência.


Na data combinada, ele chegou alguns minutos antes. O lugar não mudara. Os sobrados, os vasos de flores, os degraus irregulares, tudo continuava como antes. Vestia uma roupa que lembrava a daquela ocasião, e policiou-se durante a semana para não fazer a barba, pois ela preferia assim. Continuaria preferindo assim? Preocupou-se. Dizia para si mesmo que esperaria somente até 16h30. No entanto, quando soou a hora marcada no sino da catedral mais próxima, desejou jamais ter estado ali. Não sabia se ela viria pelo lado de cima ou pelo lado de baixo, ou – o que era mais provável – se realmente viria. Era mais bonita do que ele, mais bem-sucedida do que ele, mais inteligente do que ele, por que se daria ao trabalho?

Distraiu-se olhando para o alto. Imaginou uma escada jacobeia, por onde os anjos desceriam e subiriam da terra para o céu. Quando voltou a si, nem sessenta segundos haviam se passado. Moveu-se em 180 graus, do sopé para o topo da escadaria. Semicerrou os olhos e os arregalou novamente. Ela vinha descendo, lentamente, com seu andar malandro e um sorriso encabulado, ainda mais encantadora do que há dez anos, como se nada tivesse acontecido.

10/11/2020

CRÔNICA ESFARRAPADA


Sempre achei que fosse folclore essa história de que os escritores, de vez em quando, têm um bloqueio criativo e não conseguem produzir nada. Pois aconteceu comigo pela primeira vez: a síndrome da página em branco. Ou melhor, da tela do Word em branco. Já estou há horas na frente do computador tentando ter uma ideia, encontrar um assunto, divagar em cima de alguma fofoca, lembrar de coisas engraçadas (reais ou imaginárias) e nada. Nem um titulozinho fui capaz de inventar para servir de ponto de partida.

Logo o prazo de fechamento da coluna vai se esgotar e, caso o lado direito do meu cérebro continue em greve, existe uma grande possibilidade de eu ficar desempregado antes do fim do ano. Pensei em fazer como o Rubem Braga fazia quando não sabia o que escrever, ele mandava o leitor se catar e pronto, sugeria que ocupassem o tempo com coisas mais úteis ou que fossem ler outros colunistas e o deixassem em paz. Só que o Rubem Braga era o maior de todos, podia tudo. Enquanto euzinho, um ilustre desconhecido, se tentasse coisa parecida, correria o risco de não ser mais lido nem pela própria família.

Fácil mesmo seria falar sobre as eleições nos Estados Unidos, sobre a cara permanente de cu com cãibra do presidente Trump, ainda mais contraída e apatetada após a acachapante derrota. No campo dos fracassos, tirar sarro do Flamengo não é uma opção que se possa descartar, visto que seus zagueiros medianos e seus laterais idosos talvez rendam uns parágrafos. Mas é que já tem tanta gente comentando de política e futebol – e parece que o mundo gira em torno disso – que eu acabaria me transformando em mais um chato sem inspiração, fazendo de conta que entendo de tudo, cagando-regras e proferindo bobagens, uma espécie de Galvão Bueno das letras.

Assim, sob pressão, sobram poucas opções. Advogados escrotos? O preço do óleo de soja? Quem sabe a pandemia resulte em algumas linhas, sobretudo por que as vacinas que pipocam aqui e acolá coloquem em xeque o limite da inépcia dos que governam. A implantação do Pix é outro tema atraente, porém, infelizmente, não tenho cacife para discorrer acerca de nenhum aspecto econômico ou tecnológico do sistema bancário brasileiro, a não ser que "pix", na minha época, era somente uma agulhada de injeção.

Tanta coisa mereceria ser dita numa crônica. Pena que eu não seja um iluminado, com o poder de controlar as palavras a qualquer momento, que nem o Zuenir Ventura, por exemplo. Aliás, dou graças ao Senhor por conseguir controlar pelo menos o meu esfíncter e, de vez em quando, cometer um texto engraçadinho. Pensando bem, é melhor não escrever nada do que bostear uma constantinice qualquer. Vovô sempre dizia: em boca fechada não entra mosquito. Amanhã converso com o editor, não há de me faltar inspiração para uma boa desculpa esfarrapada.

26/10/2020

MERCADO IMOBILIÁRIO


Logo que saltou do carro, em frente ao prédio, a simpática corretora de imóveis veio em sua direção. Apertaram-se as mãos e, antes que ele dissesse qualquer coisa, ela lhe entregou um cartão com seu nome e número do Creci. Seguiram juntos pela portaria. No pequeno elevador, cara a cara, ele pode sentir o hálito fresco de goma de mascar enquanto ela falava das melhorias recentes feitas no condomínio.

O apartamento ficava no oitavo andar e estava à venda. Tinha uma suíte com hidromassagem, sala com sacada, banheiro social, cozinha americana, área de serviço e uma vaga de garagem. Parecia mesmo sob medida para um homem de meia-idade, boêmio, solteiro, sem filhos.

Os dois caminharam até o fim do corredor. Ele um pouco mais atrás, de onde pode vê-la sacar da bolsa um molho de chaves. Ainda tagarelando sobre o bom estado de conservação do edifício, ela abriu a porta e o deixou entrar primeiro. Por causa da claridade, ambos fecharam os olhos e piscaram várias vezes até as pupilas se adaptarem. Não havia cortinas nem venezianas, nada que impedisse a entrada do sol da manhã.

Sempre no comando das ações, a corretora foi abrindo a sacada e apontando a vista livre para o mar. Ele aprovou com a cabeça, já sendo puxado pelo braço em direção ao quarto. Acima da abertura do ar-condicionado, quase no teto, reparou numa pequena infiltração.

Reparou também num piso rachado no hall, na falta da tampa da caixa de descarga do vaso sanitário, nas dezenas de furos nos azulejos da cozinha e na parede chamuscada em volta do aquecedor a gás; mas preferiu não comentar. Assim como não gostava que botassem defeito nas suas coisas, não pretendia acabar com o entusiasmo da vendedora desmerecendo o imóvel. Além do mais, tudo tinha conserto.

Novamente ela reiterou o baixo custo do investimento e garantiu ao cliente a preferência de compra, porém, sugeriu que não demorasse muito a tomar uma decisão, pois a fila de interessados em residir na região era grande. Antes de sair, ambos deram uma última olhada na sala vazia.

Despediram-se na calçada. Quando o carro dela partiu, ele acenou discretamente. Durante alguns minutos, ficou imaginando como seria morar sozinho naquele lugar. Olhou no relógio, preocupado com o almoço. Entrou apressado no prédio e apertou o botão do oitavo andar no elevador. Não via a hora de voltar ao seu apartamento, de dois quartos, que dividia com a esposa e a filha, ao lado do que estava para vender.

03/10/2020

DAS COISAS SIMPLES DA VIDA


O amor existe, sim, eu já senti uma vez. Foi numa autoestrada, rumo ao norte. O posto de pedágio se aproximava e a mulher ao meu lado soltou o cinto de segurança para pegar as moedas na bolsa, no banco de trás. Antes abaixou o volume da faixa 4 do meu CD do Lulu Santos. Concentradamente, juntou o valor exato indicado nas placas ao longo da rodovia e, quando parei o carro, me estendeu as mãos em concha, sorriu e disse: "Quatro e setenta e cinco". Foi assim, adventício como nos filmes. Pela bagatela de quatro reais, setenta e cinco centavos e um sorriso, eu experimentei uma sensação que até então não conhecia. Ela recolocou o cinto, aumentou a música e seguimos viagem. E eu nunca mais deixei o amor escapar.

23/09/2020

CORAÇÃO DISLÉXICO


Preencho uns postais e tomo um chá enquanto espero pelo jantar. Minha gata, a Muriel, tenta comer o cadarço do meu All Star por debaixo da mesa. Nem parece que há duas semanas ela retirava mais um tumor das tetinhas e, ainda agora, tem um mapa rodoviário desenhado na barriga, costurado com vinte e três pontos de linha preta.

Tudo bem que uma gata de doze anos passe por problemas de saúde, mas é incrível como a vida da gente (e dos gatos) num momento parece que está nos eixos e, no minuto seguinte, já está degringolando.

E se fosse tarde demais? E se não desse para operar?

Aí eu viveria o resto dos meus dias com aquela sensação de ter uma bala Soft atravessada na garganta, porque a falta de perspectiva no presente, de forma irreversível, tende a condenar o futuro. E a desesperança, independentemente dos avanços da ciência, se espalha num átimo, como um câncer nas glândulas de um felino.


Olhando para a Muriel, lembrei de uns colegas de escola que "eram legais e, além do mais, não queriam nem saber". Caras que faziam poesia, tocavam guitarra, baixo e bateria, desenhavam, escreviam manifestos, amavam platonicamente, pichavam muros com palavras de ordem, dirigiam sem carteira, amanheciam jogando conversa fora em dia de prova, sonhavam em conhecer Porto Alegre e Londres.

Faz um tempo que não sei como eles estão, só ouvi dizer que alguns apenas sobrevivem e outros se foram. Quem continua por aqui, não é nem sombra do que imaginou ser um dia. E quem partiu não deixou sequer recordações do talento transbordante da adolescência.

Como na vida da gente (e na dos gatos), a coisa parece estar nos eixos agora, mas, fatalmente, vai degringolar no próximo minuto, na próxima semana, no próximo mês, no próximo ano. Em algum momento, cedo ou tarde, todos nós vamos pensar uma coisa e fazer outra, amar uma pessoa e nos entregar a outra, ser lembrados num dia e esquecidos no outro. Vivos e mortos, quase simultaneamente.

Inocentemente, a Muriel adormece sobre os meus pés. Não interessa a ela se o mundo saiu do prumo ou se foi seu dono a perder o rumo. Nem a enorme cicatriz em sua barriga é capaz de atrapalhar um cochilo tão humano. Eu é que acabo de reparar que o chá esfriou, que os postais ainda estão vazios e que a noite chegou, escura como nunca.

11/09/2020

FACULDADES MENTAIS


Quando eu era criança, fui vizinho de um louco. Nem sei se era mesmo louco, desses que precisam de camisa de força e internação em hospício, mas como todo mundo afirmava que o sujeito era louco, eu acreditava e repetia: "O moço aí do lado é louco". Parece que batia na mãe e nos irmãos, gritava com quem passasse na calçada em frente à sua janela e, às vezes (dava para ouvir de longe), cantarolava uma música do Silvio Brito, cuja letra era mais ou menos assim: "Espelho meu, espelho meu, diga se no mundo existe alguém mais louco do que eu". Obviamente, tanto eu quanto minha família inteira mantínhamos distância da casa do maluco. Um muro mais alto, com cacos de vidro em cima, foi construído para separar os dois quintais, e grades de ferro passaram a reforçar as aberturas do andar inferior. Tudo para que o desajustado não chegasse perto de nós com a sua loucura contagiosa.

Anos mais tarde, logo que nos mudamos para um bairro diferente, para um sobrado mais bonito e espaçoso do que o antigo, descobri que o morador do outro lado da rua também era louco. Talvez não fosse do tipo que oferece perigo imediato à sociedade, só que muita coisa se falava a respeito do homem. Criava galinhas, tinha um cavalo e uma carroça. Andava pelo bairro fuçando nos sacos de lixo, recolhendo garrafas, ferro retorcido e pedaços de azulejo. Ainda que nunca houvesse demonstrado agressividade nem emitido nenhum som desde que passáramos a residir em frente, as senhoras costumavam virar-lhe o rosto, enquanto os meninos caçoavam das ceroulas que ele próprio lavava e estendia no varal quando abria o sol. Eu não estava convencido, mas ratificava: "Esse velho é louco". Então, por causa de sua solitária esquisitice, nossas portas e portões permaneciam trancados na maior parte do tempo.

Na adolescência, passei a viver em edifício. A cidade estava crescendo e já era preciso pensar na segurança da família. Em vez de bater bola na várzea com os amigos, eu jogava futebol de botão com o meu avô. A televisão tornou-se uma grande companheira nos intervalos entre as descidas de hora em hora ao playground do prédio. O único alerta aos condôminos era tácito: "Cuidado, o zelador é louco". Não que o homem não fizesse seu trabalho direito, muito pelo contrário. Retirava o lixo, varria o pátio, distribuía a correspondência. Mas cultivava uma barba enorme e desgrenhada, além de colecionar livros. Eram tantos, comprados diariamente nos sebos das redondezas, que até o salão de festas acabou virando biblioteca. Eu mesmo cheguei a pegar uns Monteiros Lobatos emprestados sem que meus pais soubessem, embora sempre ficasse receoso no momento de devolvê-los ao demente.

Atualmente, com a vida ganha e tempo de sobra para dedicar à escrita e à leitura, escolhi um bairro afastado, tranquilo e seguro para morar. A vizinhança é pacata, de gente normal, ao que tudo indica. E a proximidade com o mar tem me trazido inspiração, apesar de eu jamais ter colocado os pés na areia da praia. Do meu pequeno apartamento, costumo sair pouco, apenas para caminhar ou ir até a padaria. Não conheço ninguém e ninguém me conhece. Ainda ontem, uma mãe e sua filha esperavam o elevador ao meu lado na portaria. Como não me cumprimentaram, também não as cumprimentei. Sem motivo aparente, desistiram de subir comigo quando segurei a porta para elas. Apertei o botão com o número do meu andar e segui viagem. Certas de que eu me afastara o suficiente, entreolharam-se. De longe, pude ouvir uma cochichar no ouvido da outra: "Esse aí é o louco do 201".

27/08/2020

AMIZADE COLORIDA


No estacionamento do supermercado, ele chegando e ela saindo.

– Quer ajuda?
– Não, obrigada, comprei pouca coisa.
– É sempre às segundas que tu faz compras?
– Que pergunta estranha...
– Me fala, qual é o dia da semana?
– Pra que você quer saber?
– É que eu faço compras aqui todo dia só pra te ver.
– Me deixe em paz... às segundas e quintas, por favor.

***

Em pleno ato, antes que ele termine, ela se levanta abruptamente.

– Ei! Aonde é que tu vai?
– Preciso ir embora.
– Assim, na metade?
– Pra mim tá bom, já gozei três vezes.
– E eu?
– Você o quê?
– Não tenho direito a final feliz também?
– Aguenta um pouquinho, mês que vem as crianças viajam de novo.

***

Ele vai entrando no banheiro, ela interrompe antes que a porta se feche.

– Vai fazer cocô?
– Não, vou fazer a barba.
– Ah, não faz...
– É que assim barbado eu te arranho toda.
– Eu não me importo, é gostoso.
– É feio também.
– Que nada, fica mais cafajeste ainda.
– Tá bom, se tu prefere... mas agora sai que eu quero fazer cocô.

***

Ela abre a gaveta do criado-mudo dele em busca de camisinhas.

– O que é isso aqui?
– Gel lubrificante.
– Mas... você dá a bunda?!
– Não.
– Então, pra que isso?
– Mulher também tem cu, não tem?
– Tem, claro.
– Vira aí...

***

Ela olha assustada enquanto ele tem um ataque de tosse.

– É o repuxo que me faz tossir assim.
– Refluxo.
– Não foi isso que eu disse?
– Você falou repuxo.
– Pois é... tem dias que eu durmo sentado pra não passar mal.
– Tem que comer mais salada, fruta, tomar chá, essas coisas...
– Deus me livre, prefiro continuar com o repuxo.
– RE-FLU-XO!

***

Ele continua deitado enquanto ela confere chamadas perdidas no celular.

– Alguém ligou?
– Não, ainda bem.
– Vamos sair pra comer um pastel de berbigão?
– Não posso.
– Vamos ao cinema? Tá passando o novo dos irmãos Coen.
– Você sabe que eu não posso.
– Olha... te dou até o teu aniversário pra tomar uma decisão, pode ser?
– Não precisa, eu sou mulher de um homem só.

20/08/2020

BARBITÚRICO


Sorte que eu já estava acordado quando o telefone tocou, senão a mocinha da seguradora ia ouvir um monte. Todo mundo sabe que eu acordo pontualmente às onze horas da manhã, então, para se atrever a ligar antes, tinha que ser alguém que não me conhece mesmo. Pelo número no identificador de chamadas (sempre igual, todos os meses) não foi difícil imaginar a proposta que ela me faria pela vigésima vez.

Bom dia, senhor!
– Fala, filha...
Vamos fazer um seguro de vida?
– Não, obrigado.
Apenas 50 reais mensais, debitados diretamente da sua conta corrente, com indenização de 75 mil reais em caso de invalidez permanente e de 150 mil reais aos seus beneficiários em caso de morte acidental.
– Vale pra suicídio?
Como, senhor?
– Se eu me matar, vocês também pagam os 150 mil?

A rapariga não perdeu a pose:

Nesse caso, haverá uma carência de dois anos, senhor.
– Tá bom, vou pensar...
Não quer aproveitar a oportunidade?
– Não, primeiro tenho que arranjar uma forma de morrer sem sofrer.
O senhor está falando sério ou brincando?
– Falando sério, claro.
O senhor já experimentou Nembutal?
– Se eu tivesse experimentado nós não estaríamos tendo esta conversa...
É proibido aqui, mas tem em qualquer pet shop mexicana, dá para comprar no e-Bay.
– Não foi esse Nembutal que matou o Jimi Hendrix, o Bruce Lee, o Elvis Presley, o Heath Ledger e a Marilyn Monroe?
Exatamente, senhor.
– Comprimido ou gotas?
É líquido, só que é amargo, precisa misturar com alguma bebida.
– E depois?
Bem, a gente dorme e espera não acordar nunca mais.

Quinze segundos de silêncio, não me aguento de curiosidade:

– A morte é sem dor mesmo?
Não, senhor... a dor é para sempre.

13/08/2020

LOGÍSTICA


Foi no meio do nada que o carro pifou. Não exatamente no meio do nada, mas em um lugar bem longe de casa, sem comércio nem residências, apenas com várias pistas de avenida, um acostamento, uma ciclovia e metros e metros quadrados de calçamento, grama e árvores. O painel interno, iluminado por causa dos faróis acesos àquela altura da noite, de repente se apagou inteiro, ainda com o veículo em movimento. Arregalei os olhos e procurei a pista da direita, até conseguir encostar com segurança. O motor 1.8 já não dava mais sinal de vida.

Fazia alguns dias que eu abastecera com sete reais e cinquenta centavos, portanto, não podia acreditar que a pane tivesse ocorrido por falta de gasolina. Como o rádio funcionava, concluí que o problema não estava na bateria. Vasculhei de ponta a ponta a gigantesca paisagem urbana e não avistei nenhum posto de combustíveis. Então peguei um pedaço de mangueira de gás e uma garrafa plástica (que sempre carrego no porta-malas) e me aproximei do automóvel mais antigo estacionado nas redondezas, um modelo do tempo em que os tanques de gasolina não tinham chave. Eu só precisava de meio litro para dar novamente a partida. Introduzi uma ponta da mangueira na abertura e suguei a outra extremidade com toda a força. Engoli praticamente todo o líquido e acabei por perder os sentidos ali mesmo, na escuridão do passeio público.

Mentira.

Liguei o alerta e me refiz do susto. Girei a chave mais algumas vezes, sem resultado. Saltei do carro e passei a andar em torno dele (eu penso melhor caminhando), tentando achar uma solução para o incidente. Não havia guardas por perto, nem da polícia militar nem da guarda municipal. O celular, assim como o combalido Kadett 1998, estava mortinho da silva. Somente um andarilho meio bebum me observava da calçada, com olhar curioso. Perguntei quanto cobraria para ajudar a empurrar o possante até em casa e, para minha surpresa, ele topou por módicos dez reais. Antes que o homem mudasse de ideia, destravei o volante, desengatei a marcha e dei o primeiro impulso para movimentar as rodas. Pois foi assim: eu do lado esquerdo, ajeitando a direção pela janela, e o meu assistente empurrando a traseira por dez intermináveis quilômetros.

Mentira.

Caralhos me mordam! Foi o que eu disse quando o carro parou. Já passava das nove horas da noite de um dia cansativo e chuvoso, daqueles que custam a chegar ao fim e sempre reservam alguma surpresa desagradável perto de acabar. Com o celular sem carga na bateria, o seguro vencido e nenhum telefone público nas redondezas, não tive dúvidas: levantei os vidros, tranquei as duas portas da lata velha e corri para o ponto. Peguei o primeiro ônibus que ia na direção do meu bairro. "Amanhã mando guinchar essa merda", ainda pensei antes de embarcar.

06/08/2020

LETRA & MÚSICA


Era um casal aficionado da MPB e do pop-rock nacional. Sentados frente a frente, na pequena mesa redonda de um barzinho com som ao vivo, conversavam pela última vez antes da separação.

– Sei que você fez os seus castelos e sonhou ser salva do dragão.
– Eu apenas queria que você soubesse que esta menina hoje é uma mulher.
– Eu quero é viver em paz! Por favor, me beije a boca...
– Se você não entende, não vê...
– Eu quis dizer, você não quis escutar.
– O que me importa essa tristeza em seu olhar?
– Não tem jeito mesmo, não tem dó no peito, não tem nem talvez.
– Não pense na separação... não despedace o coração...
That’s over, baby! Freud explica.
– Agora que faço eu da vida sem você?
– Não me procure mais... assim será melhor, meu bem.
– Nós somos medo e desejo, somos feitos de silêncio e sons.
– Desculpe o auê, eu não queria magoar você.
– Eu nem sonhava te amar desse jeito.
– A emoção acabou...
– O que é que há? O que é que tá se passando com essa cabeça?
– Nada, nada, nada, nada!
– Nunca se esqueça, nem um segundo, que eu tenho o amor maior do mundo.
– Bem que se quis, depois de tudo, ainda ser feliz.
– Nada mais vai me ferir, eu já me acostumei.
– É isso aí.
– Então vem cá, me dá sua língua...

Beijaram-se despudoradamente durante alguns minutos. O que ela imaginou ser uma reconciliação, para ele era uma despedida. Pediram mais dois chopes, uma porção de fritas e retomaram o diálogo.

– Desejo que você tenha a quem amar.
– Mas não quero deixá-lo na mão nem sozinho no escuro.
I don’t want to stay here, I wanna to go back to Bahia.
– Eu prefiro as curvas da estrada de Santos.
– Devia ter me importado menos com problemas pequenos...
– Eu vejo flores em você!
– Pra ser sincero, não espero de você mais do que educação.
– Prefiro ser essa metamorfose ambulante...
– Eu tô voltando pra casa.
– Decida o que é bom pra você.
– Ah, mas o que você espera de mim...
– Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu.


Gabarito: Marina Lima (Erasmo Carlos), Gonzaguinha, Djavan, Kiko Zambianchi, Paralamas do Sucesso, Tim Maia (Cury Heluy), Geraldo Azevedo, Gilberto Gil, Zé Ramalho, Fernando Mendes, Leno & Lilian, Lulu Santos, Rita Lee, Guilherme Arantes, Cazuza, Fábio Jr., Blitz, Roberto Carlos, Marisa Monte, Legião Urbana, Ana Carolina & Seu Jorge, Seu Jorge, Frejat, Marina Lima, Paulo Diniz, Roberto Carlos, Titãs, Ira!, Engenheiros do Hawaii, Raul Seixas, Lulu Santos, Zélia Duncan, Raul Seixas, Chico Buarque.

LETRA & MÚSICA (2) – LEIA AQUI

30/07/2020

JOZIANE


A Joziane era a menina mais bonita do meu bairro. Antes mesmo de eu conhecê-la, logo que me mudei para a casa nova com meus pais e irmãos, já ouvia os outros meninos falarem maravilhas sobre ela. Diziam que era uma deusa, uma princesa, uma bênção divina, cuja beleza era indescritível e, sobretudo, inalcançável.

Além dos guris da rua, algumas raparigas também teciam elogios à outra, que, curiosamente, não era vista como concorrente. Contavam que a Joziane era uma amiga exemplar, que jogava vôlei como ninguém, que era carinhosa com a família, que ia bem na escola, enfim, que possuía incontáveis qualidades. Era tão sem defeitos, que não gostava de festas e não tinha namorado, pelo que pude apurar na vizinhança.

Assim que descobri seu endereço, a uns dois quilômetros de onde eu morava, passei a rodear sua casa com frequência, montado na minha bicicleta Caloi de dez marchas. Quando não estava na escola, era certo eu estar dando voltas pela frente do quintal da Joziane, ansioso por encontrá-la ao vivo pela primeira vez.

Ainda correram alguns dias até o momento esperado. Da porta dos fundos da construção simples, de madeira, ela saiu segurando um balde de roupas recém-lavadas, e pôs-se a estendê-las no varal, sem notar minha presença, espiando encantado por entre as frestas do cercado. Joziane tinha olhos da cor do céu, cabelos dourados como o Sol e uma pele tão branca quanto a areia de uma praia selvagem.

Durante vários meses eu sonhei com ela, vigiei sua casa, guardei seu andar e seus gestos na minha memória de moleque. A Joziane devia ser uns três ou quatro anos mais velha que eu, praticamente mulher feita se comparada a mim, um fedelho de dentes tortos, pernas finas e espinhas na cara.

Quando meus pais anunciaram que nos mudaríamos novamente, caí doente. Não conseguia me conformar em ter de viver longe da Joziane, aquela que eu elegera para ser a mãe dos meus filhos, mesmo jamais tendo lhe dirigido a palavra. A febre e as dores pelo corpo só aplacaram quando não havia mais jeito. O caminhão partira com as nossas coisas, inclusive a minha bicicleta, da qual eu nunca mais quis saber.

Quase trinta anos se passaram, mas nem precisei de tanto tempo para esquecê-la, apesar de não ter encontrado nenhuma outra como ela. Cultivei diversos amores, boa parte platônicos, e até me casei em duas oportunidades, mas de vez em quando me pego imaginando como teria sido a vida ao lado da Joziane.

Agora, espiando envergonhado por uma fresta do cercado, vejo sair uma senhora com um cesto de roupas recém-lavadas pela porta dos fundos da construção simples, toda de alvenaria. Tem os cabelos desgrenhados e a pele maltratada pelo sol, porém, seus olhos azuis continuam sendo os mais lindos do bairro. A dona Joziane logo tratou de pendurar as peças no varal, displicentemente, sem notar a minha presença.

16/07/2020

FICUS BENJAMINA


Subiu na figueira e não descia de jeito nenhum. Desde que a construtora descumprira o acordo de preservar as árvores e demolir apenas o sobrado, ele estava acorrentado aos galhos mais altos. Do pouco que havia no terreno onde nasceu, não ligava tanto para a casa. Sua grande paixão era a centenária figueira, onde costumava se refugiar depois das aulas na escolinha do bairro. Tratou de arranjar uma corrente e um cadeado assim que viu metade do pomar destruído pelas máquinas, e não teve dificuldade para subir a quase cinco metros de altura. Exigia uma intervenção judicial que garantisse o cumprimento do contrato.

Um pequeno grupo de curiosos e dois ou três fotógrafos da imprensa escrita já ocupavam parte da calçada do outro lado da rua. A família, também presente, reduzida a um irmão e à esposa, não compartilhava do mesmo sentimento pela causa. Os operários da obra paralisaram as atividades e aguardavam instruções do advogado da empresa.

Durante os três dias em que estava ali, alimentou-se de algumas balas que trouxera nos bolsos e bebeu água da chuva. Não queria conversa nem aceitava ajuda. Pensava nos melhores momentos de sua infância, no quanto tinha sido lindo aquele lugar e no balanço que o avô construíra para ele, pouco abaixo do galho em que agora se encontrava.


Pensou também no restante da cidade, absolutamente tomada por fábricas e edifícios. Carregava a impressão de que a figueira era o único pedaço de natureza sobrevivente, solitária como ele, na imensidão da selva de pedra. Lembrou dos milhares de pinguins mortos no litoral catarinense devido a um vazamento de óleo no mar e da devastação de metade da Floresta Amazônica em território mato-grossense para beneficiar plantadores de soja. Sentiu um súbito desânimo, muito maior que o cansaço pela posição incômoda no alto da árvore.

Perto da meia-noite, notou que a rua estava vazia. O vigilante da construtora fazia sua ronda do outro lado do terreno. Ele abriu o cadeado, soltou a corrente e desceu da velha figueira. Silenciosamente, caminhou pelas sombras até tomar o rumo de casa. Preferiu desistir antes que o considerassem louco. Não podia mesmo fazer mais nada.

07/07/2020

MUNDANA


– Já vou indo – ele diz, abotoando nervosamente a braguilha.
– Pode ficar se quiser.
– Não, não posso.

Levanto para levá-lo até a porta. Sinto a porra ainda quente me escorrer por entre as pernas. Visto o robe e esfrego uma coxa na outra enquanto caminho. O velho me estende duas notas de cem.

– Toma aqui.
– Não tenho troco.
– Não faz mal, semana que vem eu desconto.
– Tá.

Ofereço o rosto para um beijo, mas ele não entende. Me dá apenas um tapinha nas costas enquanto roça sua enorme barriga na minha cintura. Desaparece no fim do corredor. Fecho a porta, o telefone toca.

– Alô.
– Quem fala?
– Madre Teresa.
– Oi, gostosa!
– Vendeu as fotos?
– Vendi.
– Não acredito! Pros japoneses?
– É... e eles querem mais.
– De que tipo?
– Aquelas com a tua amiga, como é mesmo o nome?
– Marcinha.
– Isso mesmo.
– Me traz a grana hoje à noite que a gente combina.
– Só se tiver trepada.
– Nem pensar.
– Boquete?
– Não.
– Punhetinha!
– Fechado.

É o preço da eficiência. Desligo aliviada. Corro para o banheiro, nua pelo apartamento. Talvez um bom banho me lave a alma. Deixo a água correr no ar e depois pelo corpo. Esqueço um pouco do mundo lá fora.

Ao fechar o chuveiro, sinto frio, um arrepio que congela os ossos. Enxugo cabeça, tronco e membros. Quando finalmente paro em frente ao espelho, percebo as marcas dos dentes do velho nos meus peitos. Filho da puta! Procuro o pan-cake na gaveta, disfarço o que posso.

Visto minha melhor roupa de passeio, faço uma maquiagem discreta e não fico satisfeita. Só nascendo de novo, então. Saio pela garagem, atrasada, tentando me equilibrar no salto um tanto alto. Ela já me espera do outro lado da rua.

O carro não é o mesmo, mas é maior e mais bonito que o da última vez. Sorri quando me vê.

– Oi – cumprimento.
– Quinze minutos atrasada.
– Desculpa... vamos lá?
– Sinceramente, hoje eu só queria companhia.
– Sem problemas.

Entro no carro e sinto seu perfume.

– Vamos ao cinema?
– Vamos.

Ela abre a bolsa, tira um maço de cigarros e uma nota de cem.

– Toma...
– Não precisa.
– É pelo tempo perdido.

Aceito a nota. Ela acende um cigarro e dá uma tragada longa. Solta a fumaça pela janela e atira o cigarro na calçada. Nada entendo. Guardo meu dinheiro, já com o automóvel em movimento. Passo suavemente a mão em seus joelhos, em sua coxas, em sua barriga. Levanto sua saia e invado o delicado vale entre suas pernas. Sinto a umidade e o calor.

– Hoje não, por favor...
– Tudo bem.

Sei que não iremos a nenhum cinema. Rodamos sem parar, durante quase uma hora, pela cidade cinzenta e vazia. O céu escurece rápido, então peço a ela que me deixe no endereço – impossível de ser pronunciado – que mostro anotado em um guardanapo. Rimos juntas uma última vez.

Quando o carro para em frente à casinha verde, me despeço com dois beijos, um no rosto, outro na boca. Ela fica de ligar na próxima semana, o que consinto com um movimento de cabeça. Nem amor nem dor, apenas a sensação de dever cumprido.

Entro pelo portãozinho enferrujado e toco a campainha. Ouço passos do lado de dentro. Ele abre a porta, de pijama, um pouco despenteado, cara de sono.

– Oi, mulher!
– Não sou mais sua mulher, esqueceu?
– Pra mim é como se fosse...
– As crianças?
– Na escola.

Abro minha bolsa e tiro o bolo de notas que nem tive tempo de contar.

– Vim trazer o dinheiro.
– Ainda tem do mês passado.
– Não faz mal, compra alguma coisa pra você.
– Quer entrar? Acabei de passar um café.
– Não, não, tenho que ir.
– Tá.

Viro as costas e saio apressada pela rua sem calçamento. Noto um fio puxado na meia fina. Merda! Ajeito a calcinha que vai entrando na bunda. Chamo um táxi e relaxo um pouco. Tento lembrar de cabeça o número do telefone da minha amiga Marcinha.

27/06/2020

LE PASTICHE


Aconteceu na vizinhança, durante a minha meninice. Na casa ao lado, morava uma senhora chamada Cleunice. Tinha duas filhas: Beatriz e Berenice. A primeira, mais nova, muito feinha, quase não saía de casa, e era raro que alguém a visse. Já a mais velha, um azougue, desfilava pelo bairro, como se fosse uma misse. Não chegaram a conhecer o pai, vítima de parada cardíaca, bem no meio de um jogo de boliche.

Esqueçamos a pequena, pois não há tempo para disse me disse. A outra é que nos interessa, ainda que pareça tolice. Quando completou dezoito anos, começou a sonhar com o príncipe encantado ou com qualquer um que lhe sorrisse. Não tardou a ser correspondida, tamanha a sua brejeirice. Correu para contar à caçula, que desdenhou de tais sentimentos resmungando apenas: "Que enorme babaquice".

O pretendente era rico e bonito, recém-chegado de Nice. Gostava de jazz, de vinhos caros e das obras de Matisse. Apaixonara-se, desde o primeiro olhar, pela formosa Berenice. Decidiu que investiria nela, pois seus namoros anteriores tinham sido uma mesmice. Mandou flores, escreveu bilhetes, fez até serenatas, o que ela considerou criancice. Ele não se importou, ia conquistá-la ou não se chamava Maurice.

Mas nenhum esforço extra se fez necessário para que o destino os unisse. Eram praticamente duas fatias de pão de um mesmo sanduíche. Na tarde em que consentiu no casamento, lágrimas rolaram dos olhos de dona Cleunice. A noiva, que esnobara tantos pretendentes, só queria saber de passar a lua de mel em Garmisch. Agora não precisava mais procurar, e lutar contra a paixão seria, no mínimo, sandice.

Organizar a cerimônia foi uma chatice. As famílias optaram por poucas flores e vetaram músicas com tendência à pieguice. Beatriz presenteou a irmã com uma calcinha azul, e logo avisou que era para dar sorte, antes que a outra reagisse. O presente foi direto para o lixo, já que sorte maior não poderia haver, nem que um anjo do céu caísse. Escolheu uma lingerie da cor do vestido, desconsiderando qualquer crendice.

Vieram parentes distantes, assim que receberam o convite, tanto os jovens quanto os que beiravam a velhice. Uma foto dos nubentes foi parar na coluna social, como era de praxe: o cúmulo da breguice. Naquele mês de maio, vendo a igreja lotada, a mãe agradeceu, com uma fé tão grande que não havia quem medisse. Enquanto o noivo não cansava de repetir à sua amada: je t’aime ou ich liebe dich.

Caminhou sozinha até o altar a bela Berenice. Concentrou-se na imagem do elegante príncipe encantado, apesar de sentir a calcinha branca apertando, contendo-se para não cometer nenhuma macaquice. Ao seu encontro veio o futuro esposo, com um sorriso de ofuscante branquice. Escorregou no primeiro degrau, bateu a cabeça e morreu na hora, pobre Maurice. O padre, que era nordestino, exclamou incrédulo: "Vixe".

16/06/2020

MARIA ANGÉLICA NÃO MORA MAIS AQUI


Depois de nascer e crescer em família pobre, de não ganhar nem meio ovo de chocolate em várias Páscoas seguidas, de brincar com uma boneca de segunda mão; depois de tomar banho de caneca, de passar frio e fome, de caminhar cinco quilômetros para frequentar a escola; depois de aprender a ler e escrever, de lavar a louça e a roupa dos quatro irmãos, de pular corda e jogar peteca na rua de terra...

depois de beber uma Coca-Cola gelada, de tirar meleca do nariz e grudar embaixo da mesa, de ver televisão pela janela da vizinha; depois de furar o dedo com agulha de costura, de ser abusada pelo padrasto, de conversar com amigos imaginários; depois de quebrar o vaso com a bola, de esconder a cachorra que deu cria no porão do sobrado, de querer virar atriz de novela quando fosse mocinha...

depois de menstruar pela primeira vez, de passar de ano sem recuperação, de ir à padaria comprar apenas um pão para cada um; depois de herdar a bicicleta do mais velho, de pegar goiaba direto do pé, de treinar beijo nas costas da mão; depois de calçar o sapato apertado da missa, de deixar de acreditar em Papai Noel e na melhor amiga, de fingir que já dormiu só para ficar com o lado bom da cama...

depois de perder a inocência, de namorar escondido o patinho feio da classe, de economizar o dinheiro do lanche; depois de fugir de casa, de perder horas olhando para o céu procurando bichinhos nas nuvens, de desistir de aparecer nas revistas de gente famosa; depois de comer x-salada com ovo e muita maionese, de conseguir vaga em universidade pública, de roer as unhas e a pele dos dedos...

depois de esquecer o passado, de nunca ter usado sutiã na vida, de preferir dormir cedo a dançar a noite inteira; depois de chorar assistindo a um filme do Clint Eastwood, de recusar proposta de casamento, de montar um quebra-cabeça de cinco mil peças em uma tarde; depois de ser promovida, de colar band-aid nos dois calcanhares, de não pensar em sorte, azar, destino, mandinga, essas coisas...

depois de tudo, levando nada, Maria Angélica mudou-se.

05/06/2020

UMA CRÔNICA DE SONHO


Garanto a vocês: bom mesmo é sonhar com a mulher amada. A certa altura da noite, no quinto estágio do sono, nenhum especialista seria capaz de explicar como, de súbito, surge o sorriso maroto no rosto do paciente que estava dormindo seriamente até poucos minutos atrás, abarrotado de eletrodos pelo corpo. É por que o pobre especialista, obviamente, nunca sonhou com a mulher da sua vida.

Fascinante é visualizar nossa musa em imagens desconexas ou lógicas, em tecnicolor ou em preto e branco, tanto faz. Além de carregá-la na memória durante todo o dia, sonhar com seu sorriso, com seu olhar, com suas curvas, é como se fosse um complemento à falta que ela nos faz. Até num cochilo rápido após as refeições ela pode surgir, inesperadamente, doce como uma sobremesa.

Gostoso é sonhar que se está dirigindo sem destino com o nosso amor ao lado, no banco do carona, e que, em sonho, ela não liga para as nossas barbeiragens; é ouvir a campainha fora de hora, abrir uma porta imaginária e dar de cara com a sua pequena trazendo um pedaço de bolo de cenoura com cobertura de chocolate que ela fez especialmente para o seu café da manhã hipercalórico.

Sensacional é sentir, no meio da noite, o próprio metabolismo corporal voltar a acelerar quando a mulher amada aparece trajando aquela blusinha justa, de um ombro só (que você considera vulgar e excitante ao mesmo tempo), já que na vida real ela não tem coragem de usar; é ter consciência de se estar inconsciente e tentar manter a concentração para que o sonho jamais chegue ao fim.

Femme Nue Couchée (Pablo Picasso, 1936)

Maravilhoso é realizar, ao menos dormindo, todos os desejos econômicos, emocionais, sexuais e gastronômicos de sua grande paixão; é sonhar que se está passeando de mãos dadas pela Champs Élysées num minuto e comendo um sanduíche de carne de segunda no sofá de casa no minuto seguinte, embora você mal conheça os países do Mercosul e ela seja vegetariana.

Supimpa é sonhar com um beijo roubado, ainda que, na realidade, o primeiro beijo em sua adorável parceira tenha sido cuidadosamente planejado (e executado com sucesso, ao que tudo indica); é continuar apaixonado, apesar de, em seus devaneios noturnos, ela às vezes ter apenas um olho, seis braços ou três peitos, sem que isso caracterize um pesadelo, muito pelo contrário.

Delicioso é rolar na cama, virtualmente abraçado em nossa musa inspiradora, num campo de girassóis pintado por Van Gogh; é vislumbrar o futuro com clareza e esquecer o passado nebuloso; é marcar um gol de bicicleta em final de campeonato ou subir ao palco e cantar Under My Skin com a voz do Frank Sinatra, tendo a certeza de que ela está na plateia prestigiando a sua falta de talento.

Pois reitero, então, caros amigos: bom mesmo é sonhar com a mulher amada. E de nada adianta o especialista em distúrbios do sono tentar justificar qualquer anormalidade, pois bem sei que ele não sabe de nada, afinal, nunca sonhou com a mulher da sua vida. Melhor ainda é despertar de um sonho desses, ao amanhecer ou no meio da noite, tanto faz, cheio de cuidados para não acordá-la.

29/05/2020

MICÇÃO


Ela nunca tinha visto um homem mijando. Nem irmão nem pai nem primo nem ex-namorado; nem em revista nem no cinema nem na internet. Nunca, ele soube mais tarde. Então começou a entender por que, nas primeiras vezes em que saía da cama para ir ao banheiro após o sexo, ela ficava espionando pela fresta da porta, em silêncio, olhos brilhantes, fixos nos jatos amarelados que jorravam de seu pau lambuzado para a cerâmica branquinha.

No começo, ele achava estranho, ficava encabulado, às vezes nem conseguia mijar, mas fazia de conta que não percebia. Depois de um tempo, passou a deixar a porta escancarada. Ela ficava encostada no umbral, nua, descalça, observando todos os seus movimentos.

Aquela vigilância durante a madrugada, às vezes pela manhã, provocava nele um tesão improvável: partia mijando de pinto murcho e terminava em riste, respingando pelas paredes. Ela ria, e também se excitava com a comédia.

Quando ia para o banheiro, sabia que ela viria junto. Quando não vinha, ele esperava pacientemente, de pé, tampa do bacio levantada, bexiga cheia, aguardando seu tiro de largada com o olhar.

No segundo mês, ela passou a ficar mais perto, com a bunda apoiada no granito da pia, braços cruzados. Eventualmente se encaixava atrás dele, segurava seu pau e, na ponta dos pés, olhando por cima dos ombros, mirava com precisão até acertar na água da privada. Ele teve de ensiná-la que é melhor apontar para as laterais do vaso e deixar o líquido escorrer, senão, além do barulho e da espuma, acabam voando algumas gotas para o chão.

O ritual se repetia diariamente, quase sem palavras. Então voltavam para a cama ou iniciavam uma nova sessão ali mesmo, ela com as mãos espalmadas no azulejo, pernas afastadas, buceta encharcada como ele nunca vira igual. Nunca, ele soube mais tarde.

Até que se separaram, tão rápido quanto um jato de urina. Incompatibilidade fora da cama, divergências políticas ou religiosas, ninguém soube listar exatamente os motivos. Ela deixou de segui-lo ao banheiro, depois deixou de atender seus telefonemas, depois sumiu de sua vida. Não totalmente, na verdade. Ainda hoje, sempre que precisa mijar, ele sente seu olhar curioso por trás da porta entreaberta.

17/05/2020

MOÇA DE FAMÍLIA COM HAVAIANAS NOS PÉS (versão 2020)


Eu gosto mesmo é das moças de família que usam sandálias Havaianas. Ou melhor, gostava. Porque elas já não existem, não que eu saiba.

Das que caminhavam sozinhas na chuva, então, gostava mais ainda. Coisa minha, desde muito tempo. Tinha um fraco por aquelas meninas entre vinte e vinte e seis anos de idade, que moravam com os pais, que ajudavam a mãe e a avó com as sacolas do supermercado ou que eram escolhidas para comprar o pão ao entardecer. É que elas andavam sem bolsa, sem carteira, sem celular, sem companhia. Levavam só o dinheiro dobrado no bolso de trás.

Ninguém sabia dizer se estudavam ou trabalhavam, mas o certo é que no fim do dia tiravam os sapatos, faziam um rabo-de-cavalo, calçavam as sandálias e partiam a cumprir alguma tarefa nas redondezas. Eram quase todas iguais, como se combinassem um padrão: camiseta ou blusinha, calça jeans, Havaianas. E cabelo preso, sempre preso.

Não tinham espinhas no rosto, não sorriam à toa, não usavam maquiagem. Nunca mostravam do corpo mais do que devia ser mostrado, nunca falavam com estranhos mais do que o necessário, nunca enfrentavam um olhar mais do que o suficiente para nos deixar sem jeito. Misteriosas além da conta. Davam a impressão de que jamais namoravam, de que não saíam à noite, de que eram inalcançáveis. Pois acho que eram de fato, senão não seriam "de família". Aliás, nunca houve marmanjo que conseguisse fazer balançar o coração de uma rapariga dessas.

Em tardes de aguaceiro, as moças de família que usavam Havaianas não dividiam a sombrinha por nada. E molhavam os pés porque não abriam mão da sandália de dedo.

Só não se podia confundi-las com outras duas categorias de mulheres solitárias: as domésticas eram menos discretas, sem a mesma elegância nem a pele tão clara, característica de menina caseira; já as casadas e independentes, essas não exalavam o mesmo frescor, a mesma pureza. Todas atraentes ao seu modo, mas não para o meu gosto.

Assistiam à novela e também liam livros. Faziam questão de esconder a inteligência e a beleza. Não queriam papo com galãs de quaresma de oito braços, cheios de segundas intenções, nem com caras legais e sensíveis como eu. Elas não tinham e-mail, não faziam amigos virtuais e não apreciavam os meus textos. As moças de família com Havaianas nos pés, na verdade, não estavam nem aí.

Teriam habitado este mundo? Eu juro que sim.

10/05/2020

ESPIRAL DO SILÊNCIO


Somos cinco na mesa de sempre, perto da janela, à esquerda da porta de entrada. As outras mesas da cantina também estão ocupadas. Os músicos deram uma pausa, as pessoas agora falam e riem um pouco mais baixo. Estamos na quinta rodada de vinho e polenta.

Meu amigo Júlio me aponta um homem no balcão do bar. Ana, Lúcio e Lígia viram-se para olhar.

– É aquele nojento do Gustavo! – diz Ana, franzindo as sobrancelhas.
– Eu até que gosto dele, sujeito bacana – pondera Lúcio.

Guga Menezes é artista plástico. Estudamos juntos, os seis, nos últimos anos do colegial. Ele foi muito famoso e ganhou algum dinheiro, hoje está pobre e é soropositivo. Aceno para que venha beber conosco.

Ana pede licença, levanta-se e vai ao banheiro. Lúcio e Lígia enchem suas bocas de polenta.

– Ora, ora... como vão os inseparáveis?
– Vi você no jornal um dia desses – eu digo.
– Ah, é... foi no sábado, me entrevistaram para saber de um argentino que pagou dez mil por uma escultura minha, nem acreditei.
– Caralhos me mordam! – exclama Júlio, sem se conter.

Guga nos conta que já não tem ânimo para o trabalho, mas que fará uma última exposição, de quadros e esculturas, no fim do próximo mês, no Museu de Arte. Convida a todos para o evento e se despede:

– Pois bem... não vou mais constranger os amigos com a minha presença, espero revê-los em breve.

O artista toma outro gole de vinho e volta ao bar, enquanto Ana retoma seu lugar à mesa.

– Onde é que você se meteu? – pergunto.
– Tava no banheiro.
– E mijou durante quinze minutos?
– Vai te foder, Júlio! – Ana se exaspera, aos prantos.

Entreolhamo-nos. Lígia incentiva:

– O que foi, querida? Fala pra gente...
– A culpa é minha! Podem me denunciar!
– Culpa de que, querida? Não estamos entendendo.
– Eu infectei ele... trepei com ele de propósito.

Os músicos voltam a tocar, ninguém ouve a voz de ninguém.

Meia hora depois, pagamos nossa conta e vestimos nossos casacos. Todos os lugares ainda estão ocupados, há uma fila de espera do lado de fora da cantina. Na calçada, nada de abraços. Cada um, em seu íntimo, sabe que nunca mais seremos cinco na mesa de sempre.

28/04/2020

AO MOÇO


Cozinhava nua por causa do calor. Os cabelos soltos, apesar da bandana, batiam na altura do cóccix, quase cobrindo a bunda. O monte de vênus roçando a porta do forno, os mamilos intumescidos diante das quatro bocas acesas do fogão a gás. Algo entre tímida e inocente, falava relativamente pouco. Com o pano de louça, enxugava o suor do rosto antes de me perguntar qualquer coisa.

– Tem alguma comida que o senhor não come?
– Tudo! Comeria tudo, toda... como de tudo, foi o que eu quis dizer.
– Supimpa! Fiquei com receio de preparar o quiabo.

Que raio de gosto teria um quiabo? Eu ouvira falar de quiabos lendo Fernando Sabino. Sabia que pertenciam à família das malváceas, e que os pré-adolescentes de O Encontro Marcado apelidavam seus birros de quiabinhos, pois eram finos e estavam sempre "babando". Não que não fosse o caso agora, mas eu certamente provaria. Bom ou ruim, devoraria meia caçarola de quiabada.

– Não se preocupe, eu adoro.
– O senhor é um docinho! Vou caprichar.

E virava-se novamente para a pia, para o fogão, para a janela que dava para o quintal, concentrada em sua tarefa. Eu permanecia sentado num canto, diante da mesa para dois, observando e aguardando.

Ter uma cozinheira foi recomendação da senhoria que me alugara o sobrado, logo que revelei que sofria de gastrite atrófica. Na empresa que me contratara para três meses de consultoria no parque eólico não havia refeitório, tampouco existiam restaurantes na pequena cidade de dois mil habitantes. Assim, contar com alguém para preparar o almoço – que fatalmente sobraria para o jantar – pareceu a melhor solução.

Chegava no fim da manhã e ia embora perto das duas da tarde, de segunda a sábado. Depois de tudo pronto, preparava um prato generoso e me servia. Ela mesma jamais saboreava a própria refeição. Enquanto eu comia, tampava as panelas, lavava a louça, vestia-se com as roupas que deixava penduradas no mancebo da entrada e, antes de sair, articulava uma despedida imperativa:

– Quando terminar, o senhor guarda as sobras na geladeira.

Até o momento de voltar ao trabalho, sozinho em casa, porcelana limpa sobre a mesa, eu continuava divagando a respeito daquela mulher. Aparentava uns sessenta e poucos anos de idade, era viúva, diziam que tinha sido professora da escola municipal. Apesar do calor, usava sempre um vestido preto, de tecido muito pesado, e lenço na cabeça, bem diferente de uma bandana descolada.

Preparava almoços divinos, era indiscutível, mas certamente nunca cozinhou nua em toda a sua vida, nem mesmo na flor da juventude. Fazia isso exclusivamente na minha cozinha.

20/04/2020

O PASSAGEIRO (2)


O vidro do ônibus é uma poeira só. Ele suja a manga da camisa de flanela tentando limpar. Fica agoniado se não consegue olhar para fora, ver as pessoas na calçada, as lojas se fechando. Prepara-se para dar um esporro no cobrador antes de descer, não admite que deixem um vidro sujar assim. Salta e continua a pé.

Passa por um cara que voa por dentro de uma argola em chamas, com um monte de desocupados espiando em volta. Uns aplaudem, outros riem, mas não pagam um centavo pelo espetáculo. Tem também uma indiazinha que vende bichos de madeira, sempre no mesmo lugar, com um bebê no colo. Aposta como ela nunca vendeu nenhum bicho daqueles. Quando tiver algum dinheiro sobrando, vai ajudar comprando uma capivara ou uma onça-pintada.

Para em frente à padaria. O cheiro de pão fresquinho invade meio quarteirão, e ele sem um puto no bolso. Nem lembra mais o que comeu no almoço. Arroz, ovo frito e salada de tomate, talvez tenha sido isso. Deve haver no armário umas bolachas para molhar no café.

Dona Cassiana vem passando e lhe cobra o aluguel atrasado. Ele pergunta se ela não quer trocar por uma trepada mais tarde no quartinho. A coroa ri, não diz nem que sim nem que não. Treparam apenas uma vez, logo que foi morar na casa dela, antes de o marido morrer. Mulher peituda sempre foi seu fraco. Dona Cassiana até que é boa de cama, deixa fazer de tudo, menos meter atrás, diz que é contra as leis na natureza. Tudo bem, já se satisfaz se ela o deixa pegar nos peitos. Só tem de ser em silêncio, para a vizinhança não ficar sabendo.

A criançada deixa de jogar bola e pede para ver o seu Fender. Abre o estojo e mostra o instrumento importado. Avisa para ninguém encostar, não quer marca de dedo. Alguns não chegam perto porque têm medo. Na verdade, as mães é que têm medo e dizem para os filhos não chegarem perto do "marginal que mora na pensão da cafetina". Coisa que odeia é mulher que se faz de santa, dessas que dizem para os filhos não chegarem perto desse ou daquele.

Pensando com seus botões, conclui que é melhor botar medo do que sentir medo. O medo faz doer o estômago. O sujeito perde a fome, fica brocha, tem dor de cabeça, úlcera, vomita sem motivo, não dorme direito nunca mais na vida.

Agora é o cheiro de mofo que aumenta, sabe que está perto de casa. Pega a chave debaixo do assoalho. Tropeça no tapete antes de entrar. Esbraveja em voz alta. Acende o interruptor, fecha a porta e larga o contrabaixo num canto. Liga o televisor no telejornal da noite. Abre o chuveiro frio. Daqui a pouco a dona Cassiana aparece e ele precisa estar limpinho para ela chupá-lo sem nojo.

10/03/2020

O PASSAGEIRO


Todos buzinam ao mesmo tempo, o trânsito não anda. Ele salta do táxi, batendo a porta com força. Sai caminhando por entre os carros. O motorista xinga sem convicção. Ele faz de conta que não ouve. Não paga a corrida e o chofer continua íntegro.

Ajuda uma idosa a atravessar a rua. Ela não enxerga muito longe, e isso o comove. Parece bastante com sua avó, apenas um pouquinho mais corcunda. Nenhuma senhora faz bolinhos de chuva melhor do que a sua avó. Saudade dela e dos bolinhos. Quando a velhota chega ao outro lado, agradece a ajuda, pede a Deus que o abençoe. Não foi nada! Ela mal sabe que ele já é abençoado.

Anda um pouco mais rápido. Queria parar para rezar, mas precisa chegar ao ensaio e está atrasado. Pensando bem, não precisa chegar em lugar nenhum. Os caras que esperem, pois se ele não chegar, ninguém toca. Não existe banda de rock sem baixista. Diminui o passo e vai arquitetando um nome para o grupo. Também não existe banda sem nome. O Rinaldo sugeriu chamar de Clitóris Intumescido. Ele não acha ruim, entretanto, prefere arranjar coisa pior.

Reza baixinho pelo caminho, inventando uma oração. Toda vez que passa sobre o viaduto da igreja sente uma vontade louca de se jogar.

A porta da garagem está aberta. Ouve o barulho dos instrumentos desafinados lá dentro. Rinaldo reclama do atraso e ele responde: Vai tomar no cu! Pega de volta o Fender e sai. Não quer tocar numa banda sem nome, tem mais o que fazer da vida. Ninguém contesta.


Agora chuta uma latinha de refrigerante pela rua. Faz um esporro danado, as pessoas ficam olhando para ele. O baixo parece de chumbo, faz doer seu braço. Sempre quis tocar numa banda de rock, mas com caras legais, tipo o Nasi e o Scandurra, não com umas bichonas feito o Rinaldo e os primos dele.

Planeja ir para casa pensar. Só consegue pensar em casa, de banho tomado e barriga cheia. Imagina que deve haver um monte de bandas de rock precisando de baixista, ainda mais um que tenha um Fender bonito e caro que nem o dele, modelo precision bass, pesado que nem chumbo, que faz doer o braço.

Senta num ponto de ônibus com o estojo no colo. Mora na casa do caralho, nem sabe se passa a sua linha por ali, está acostumado a voltar de carona com o Rinaldo. Ao lado, um casal se beija. Pode ouvir até o barulhinho da saliva passando de uma língua para a outra. Não consegue deixar de olhar. O rapaz é preto e a guria é branca. Dizem que preto é mais bem-dotado, vai ver por isso ela o escolheu. O pau entra pela buceta e vai até o estômago.

Ele escuta os dois falarem em casamento. Acabarão casando mesmo, vão se encher de filhos, acompanhar novela da Globo, cagar de porta aberta. E não há nada pior do que cagar de porta aberta! Só novela da Globo, filosofa silenciosamente.

Quando o ônibus chega, tem sono e fome. Daria qualquer coisa por um pão com mortadela. Escora-se na janela e põe o contrabaixo no banco que sobrou. Não quer ninguém sentando perto. A cidade vai ficando azulada, mas ele cochila antes de reparar nisso.