26/11/2019

ROTINA


Há algumas semanas, meu vizinho do andar de cima tentou violentar minha vizinha do apartamento da frente, uma moça chamada Débora, no único elevador do prédio. Foi numa tarde de outubro, quando ela chegava mais cedo do trabalho.

Ninguém soube dizer o que o motivou. Talvez por ela ser tão sozinha, por não ter um homem em sua vida, por não contar com parentes na cidade, tampouco amigos íntimos. Talvez por ela ser tão misteriosa, usar óculos e até ostentar um certo charme.

Segundo o zelador, parece que o pulha passou os braços em volta de sua cintura e apalpou-lhe as nádegas, assim que a porta se fechou. Quis beijá-la à força, mas só conseguiu levar uma dentada na maçã do rosto, sobre a barba malfeita.

Débora era tão discreta, tão tímida, que sequer conseguiu gritar suficientemente alto para se fazer ouvir. Quando o elevador parou, ele a empurrou para fora, abriu a braguilha e mostrou-lhe o falo rígido e avermelhado. Depois seguiu viagem, rindo alto.

Hoje o edifício amanheceu cheio de policiais e médicos-legistas pelos corredores. Uma viatura e uma ambulância manobravam para bloquear a porta de entrada. Consta que um homem fora encontrado morto em seu apartamento, amarrado à cama. Teve o pênis decepado e introduzido no próprio ânus.

Débora e eu pegamos juntos o elevador e saímos do prédio por uma passagem alternativa, cada um para um lado, em sincronia. Ao longe, ainda pude ouvir o zelador reiterando em altos brados:

– Já disse que ninguém viu nada, caceta!

19/11/2019

DIAS DE CRIANÇA (2)


Eu devia ter uns seis ou sete anos de idade, e isso já faz algum tempo. A tevê estava sintonizada numa luta de boxe. Logo ao lado, minha mãe passava roupas e cantarolava uma canção de Sérgio Bittencourt.


🎶 Olho a rosa na janela, sonho um sonho pequenino 🎶


Eu brincava com os meus carrinhos Matchbox e, de vez em quando, dava uma espiadinha no combate, no qual um mulato de calção preto permanecia fixo no meio do ringue, enquanto o outro, um loiro de calção vermelho, girava em torno dele.


🎶 Se eu pudesse ser menino, eu roubava essa rosa 🎶


O locutor, esgoelando-se, avisava que o juiz acabara de descontar mais um ponto do pugilista do corner rubro. Minha mãe, sem levantar os olhos da tábua de passar, me perguntou, fingindo interesse: "Ele disse pugilista ou fugilista, meu filho?"


🎶 E ofertava, todo prosa, à primeira namorada 🎶


Com propriedade, eu que já era um ás no boxe, apesar da pouca idade, impostei minha voz aguda para respondê-la: "Acho que ele disse fugilista, mamãe, porque esse branquelo fica fugindo o tempo todo!"


Ela assentiu e continuou cantarolando a melodia, agora sem a letra.


12/11/2019

DA FALTA DE ATENÇÃO NOS CONDOMÍNIOS


Quase todos os dias, há mais de dois anos, pego o elevador com a vizinha do 801. Sempre na mesma hora, pouco antes das oito da manhã, eu seguro a porta e ela vem correndo, atrasada, lá do fim do corredor. Na primeira vez ela agradeceu, sorriu e disse um "Bom dia, vizinho!" encantador. Na segunda vez, quando eu me preparava para retribuir o cumprimento da manhã anterior, ela entrou direto, sem dizer palavra, e fez a viagem até a portaria ajeitando o penteado no espelho. Virou rotina: num dia, sorria e falava comigo; no outro, me ignorava e seguia muda. Durante esses dois anos e pouco me acostumei com seus altos e baixos, com sua dupla personalidade, com suas alterações de humor. Quando nossos horários não coincidiam, eu sentia falta de sua companhia no elevador, já não me importava se era dia de cordialidade ou de carranca. Mas hoje cedo, tal qual uma trama de Conan Doyle, o mistério da vizinha do 801 se esclareceu. Enquanto eu segurava a porta, ela veio correndo, atrasada. Logo atrás, gritando "Peraí que eu vou também!", uma outra, igualzinha, ainda mais atrasada do que a primeira. As gêmeas entraram no elevador, ofegantes. Uma falou comigo, a outra não.

05/11/2019

COMER, FALAR, AMAR


– O que houve, afinal? – Miguel me pergunta.

– Ela conheceu um cara mais velho, mais rico, mais pauzudo, sei lá.
– Mas assim, de uma hora pra outra?
– Claro que não, decerto já tinha um caso e o trouxa aqui nem reparou.

Tomo mais um gole de vinho. Miguel enche novamente as duas taças e não volta a me questionar. Eu é que sinto uma necessidade absurda de falar sobre ela, de trazê-la à tona, ainda que apenas em lembranças.


– Eu reparava em tudo, Miguelera... sabia quando tinha cortado a franja, quando comprava uma roupa nova, quando tava alegre, triste, menstruada, com fome, com tesão, com sono... ela enrolava os cabelos com os dedos quando queria dormir... não bocejava nem nada, só enrolava os cabelos nas pontas dos dedos.

– Mais vinho?
– Uma vez a gente fez uma borsch.
– O quê?
Borsch! Uma sopa russa de beterrabas e vinagre.
– Ui... até me deu azia.


Miguel é redator publicitário. Amigo e funcionário ao mesmo tempo. Atarracado, cheio de tatuagens, com uma cara engraçada de periquito-australiano. Já estava na agência quando entrei. E foi amor à primeira vista. Só perdia para ela, que se impregnara em mim bem antes dele.


– Passamos um dia inteiro procurando ingredientes, cozinhando juntos, esperando aquela porra ficar pronta... depois pusemos a mesa, escolhemos um disco, sentamos frente a frente e jantamos como se fosse data comemorativa... e nem era, era um domingo qualquer.

– Gostosa?
– Claro que era gostosa, Miguelera! Você não lembra dos coxões e dos peitões que ela tinha? Parecia até a...
– A sopa, animal! A sopa.
– Ah, sim... MA-RA-VI-LHO-SA!