30/10/2018

CINCO MINUTOS


Distraio-me tentando decifrar a forma das nuvens espumosas que cobrem o céu do pequeno paraíso. Longe, no mar muito azul, um barco de pesca joga sua rede.

O vulto de um homem caminha desengonçado pela praia. Não o reconheço ainda. Ele usa terno e gravata e vem em minha direção. É Donald, meu editor. Não parece muito à vontade nem de bom humor. Seca o suor que lhe brota da testa com um lenço de tecido.

– E então, chefe?
– Como é que você veio parar aqui, seu demente?
– Cansei da vida na cidade.
– Ah, a boneca ficou cansadinha...
– Um pouquinho, sim.
– Pois cansados estamos nós: eu, editora, gráfica, livrarias, leitores...
– E o queco, Donald? – debocho.
– Nada demais, basta você me entregar um texto razoável nos próximos dois meses que eu garanto a sua sobrevivência por mais dois anos.
– E se eu não conseguir?
– Vai virar pescador aqui nesse fim de mundo!
– Você torce por isso, né?
– Olha aqui, seu animal! Eu sou seu amigo há muito tempo, sei tudo o que aquela vadia fez com você no ano passado e até consigo entender como funciona essa sua cabeça idiota, mas nada justifica a apatia, ouviu? Se você tem vontade de morrer, então escreva sobre isso... escreva, porque é a única coisa que você sabe fazer bem feito. Entendeu, seu puto?

Um minuto de silêncio. Ele continua.

– Dois meses, nem mais um dia!

Donald vira as costas e sai patinando pela areia com seus sapatos de bico fino. Esbraveja e gesticula uma última vez antes de desaparecer atrás de um par de dunas. Tento entender que tipo de amigo ele é. Talvez seja do pior tipo, aquele que não nos deixa optar pelo fracasso.

Jogo uma pedra na água. Fecho os olhos. Esqueço as nuvens no céu.

Molho meus pés, depois escrevo uns versos na areia. Um livro de poesias, quem sabe? Com um pouco de esforço talvez eu não perca o meu emprego. Ainda tenho um apartamento na cidade, ainda tenho o meu talento, ainda tenho a minha insegurança...

Olho para o mar enquanto penso. Longe, o barco de pesca naufraga lentamente.
  

23/10/2018

A PROCURA


Escavávamos animadamente o chão em busca de trufas. Apesar de nunca termos visto uma de perto, sabíamos que aquele era o lugar indicado pelo apresentador de TV, no documentário ao qual assistíramos ontem à noite. Em nosso pequeno grupo, todos se animaram quando ouviram em alto e bom som o nome do vilarejo. Nas colinas arredondadas de Formosa, havia trufas. Não as raríssimas trufas brancas
 (tuber magnatum), nada disso, somente trufas negras (tuber melanosporum), mas havia e pronto.


Não estava frio para a época do ano. Da minha testa brotavam algumas gotas de suor, por causa do esforço. Os outros esbravejavam cada vez que faziam mais um buraco inútil. Procurávamos uma massa disforme, localizada entre vinte e quarenta centímetros de profundidade no solo úmido, de odor característico e gosto desconhecido para nós. Ninguém ainda tirara a sorte grande, e talvez, justamente por isso, não queríamos desistir. Era divertido, acima de tudo.



Passadas algumas horas, recostei-me a uma pedra para comer azedinhas. Era tudo que a terra tinha me dado até ali. Semicerrando os olhos, notei que, ao longe, um homem vestido de branco, franzino, consideravelmente idoso, acompanhava nossa busca sem lógica. Não era dali nem da cidade vizinha, certamente, senão eu o teria reconhecido. Quando percebeu que fora descoberto, veio em minha direção, caminhando lenta e delicadamente pelo pasto muito verde.

O estranho sentou-se ao meu lado e, sem nenhuma cerimônia, perguntou:

– Não é muito bom viver nessa agonia, não é?

De que agonia estaria falando? Da agonia de procurar obsessivamente alguma coisa e jamais encontrar? Da agonia de viver em uma cidade esquecida por Deus? Observei meus colegas, que, entre a curiosidade e o espanto, também me observavam. Pude sentir o cheiro de mofo nas roupas do velho. Ele tocou meu ombro de leve, como um pai a consolar um filho, e, com a outra mão espalmada, me estendeu uma enorme trufa negra, lavada, pronta para consumo.

– Tome, experimente...
– Mas o que é isso, meu senhor? Eu nem o conheço!
– É uma trufa, você sabe... aqui em Formosa elas nascem aos montes, não é preciso nem escavar a terra para encontrá-las... são divinas!

Preocupado com o meu comportamento, o grupo de amigos não demorou a se reunir ao redor da pedra onde eu permanecia sentado. Uns apenas me olhavam, receosos, outros cochichavam entre si. Até que um deles exclamou:

– Você encontrou uma trufa!
– Bem...
– Devia ter avisado em vez de ficar falando sozinho que nem um maluco.

No alto de uma colina que dava para a mata fechada, onde a vista ainda podia alcançar com nitidez, distingui novamente o homem de branco, muito idoso e franzino, que parecia ter estado ao meu lado há poucos minutos. Eu mesmo já não tinha certeza. Ele segurava uma trufa, mais ou menos do tamanho daquela com a qual me presenteara. Mordeu-a com gosto, mastigou pausadamente, revirou os olhinhos e desapareceu em algum ponto da paisagem.
  

16/10/2018

VINTE MULHERES


1. Alana só ia para a cama com homens mais velhos. Até a noite em que um deles teve um infarto durante o orgasmo e morreu em cima dela. Passou a sair apenas com rapazes com menos de 30 anos.


2. Arlete tinha incontinência urinária. Certa vez deixou escapar um xixizinho na boca do namorado durante um 69. Ele terminou com ela. Desde então, nunca mais deixou ninguém lhe fazer sexo oral.


3. Bárbara caía na gargalhada sempre que lhe tocavam os seios. Mais de uma vez mentiu que estava amamentando, para não ter de despir o sutiã e, assim, proteger-se das cócegas que sentia.


4. Eduarda jamais havia transado de pé. No dia em que tentou, escorregou no porcelanato molhado de um motel e fraturou o ilíaco. Atualmente, só consegue copular deitada e de barriga para cima.


5. Elza gritava quando atingia o orgasmo. Não entendia o motivo de seus namorados tamparem sua boca com as mãos, pois não percebia que gritava. Descobriu no mês em que foi multada pela síndica.


6. Estela não tirava o sutiã na frente de ninguém, pois tinha o seio esquerdo bem maior que o direito. Logo que juntou dinheiro, fez um implante de silicone. Agora o direito está maior que o esquerdo.


7. Germana se masturbava enquanto escovava os dentes. A escova na mão esquerda e o clitóris na direita, em movimentos sincronizados. As duas atividades duravam o mesmo tempo.


8. Jussara não sabia se gostava mais de homens ou de mulheres. Quando era penetrada, imaginava-se lambendo um xoxota. Quando lambia uma xoxota, suplicava por um pau de verdade.


9. Lúcia não era muito fã de sexo, preferia uma boa conversa. Ia para a cama com qualquer um que aceitasse a sua única condição: meia hora de papo antes e meia hora de papo depois.


10. Maria nunca tinha visto um homem mijando. Nem pai nem irmão nem primo nem namorado. No Carnaval, saiu mascarada, vestida de homem. Finalmente, num beco, viu vários ao mesmo tempo.


11. Nicole chorava sempre que chegava ao orgasmo. Chorava de soluçar. E aproveitava-se disso para chantagear seus homens emocionalmente, arrancando-lhes confissões de amor eterno.


12. Regina roçava os dentes no pau de seus parceiros. Ela não sabia que fazia isso. Quando um deles ousou avisar, Regina agradeceu, caprichou no boquete e, no final, mordeu até sangrar.


13. Rosana morria de nojo de sêmen. Não suportava nem o cheiro nem o gosto nem a textura. No dia a dia, evitava a todo custo: água sanitária, detergente de coco, creme de milho e iogurte natural.


14. Sibila tinha medo de fazer sexo anal. Dizia que, para preservar a virgindade de alguma parte do corpo, só faria o sacrifício durante a lua de mel. Está com 55 anos de idade e até hoje não se casou.


15. Sônia também tinha pavor de pensar em sodomia. Também dizia que só faria o sacrifício depois de casada, como prova de amor. Casou-se com um homem que dava a bunda para outros homens.


16. Suzane desmaiava por alguns segundos toda vez que gozava. Ela nunca contou isso a ninguém. E dos poucos homens que a fizeram gozar com penetração, nenhum desconfiou.


17. Tainá sentia vergonha do próprio corpo. Apesar dos elogios aos seus seios bem-desenhados e à sua grande bunda firme, não confiava nas opiniões masculinas. Trepava sempre com a luz apagada.


18. Vanessa sempre transava no trabalho, com um colega de setor por quem se apaixonara. Conhecia todos os pontos cegos das câmeras de segurança. Jamais deu para o rapaz em outro lugar.


19. Vera gozava rápido com seu amante, dificilmente demorava mais do que cinco minutos. E assim que gozava, uma vez apenas a cada visita, pegava suas coisas e ia embora, sem se despedir.


20. Zélia 
chamava pau de pênis, buceta de vagina e usava lingerie bege. Arranjou um marido que fumava charuto e calçava sapatênis. "Amor não precisa de sexo", concluiu em pouco tempo.
  

13/10/2018

DIAS DE CRIANÇA


Crianças não são o meu assunto predileto. No entanto, são elas que rendem as melhores e mais inusitadas histórias. Com um pouco de sorte, rendem até três boas histórias no mesmo dia: uma pela manhã, outra à tarde e mais uma no comecinho da noite.

1. Cinderela, displicente, tirava meleca do nariz; Branca de Neve, que chegara atrasada, tomava uma Fanta Uva direto da latinha; Chapeuzinho Vermelho, desprovida de vaidade, usava óculos de grau; mais ao fundo, um Zorro descabelado gritava para um Peter Pan obeso: "Larga essa bola, seu bastardo sem-vergonha".

Assim como você que está lendo este parágrafo, eu também achei que estava ficando maluco. Não eram nem oito horas da manhã e a molecada da escolinha do bairro (que fica no meu caminho para o trabalho) já estava alvoroçada, aguardando o início do primeiro baile à fantasia do ano. Coisa divertidíssima de se ver. De longe, claro.

Parece que "em novembro vai ter outro", ouvi a professora Sininho cochichar para a Bruxa Malvada, sua assistente. Informação relevante, pelo menos da próxima vez não ficarei imaginando que alguém lá em casa pôs bebida no meu Nescauzinho logo cedo.

2. Fim de tarde. Saída da escolinha do bairro (que fica no meu caminho de volta para casa). Um simpático velhinho ia à minha frente pela calçada, de mãos dadas com seu neto, que não devia ter mais de seis ou sete anos e era pouca coisa maior do que a própria mochila. O ancião coruja, de cabelos totalmente brancos e andar vagaroso, fazia perguntas ao guri. Eu, curioso, ultrapassei os dois para tentar ouvir mais claramente o diálogo.

– O que foi que a professora ensinou hoje, Gustavinho?
– Prê-fi-qui-ssôs.
– Hein?
– Prefixos, vovô.
– Ah, prefixos...
– Isso, prefixos.
– Existem muitos prefixos, não é mesmo?
– Um montão, vovô! É uma coisa inacreditável, inexplicável e infinita.

3. À noite, depois de verificar a correspondência, corri para não perder o elevador. Do lado de dentro já estavam o zelador do prédio, o Vesgo – 
tem um olho sempre a boiar e outro que agita –, e sua estranha filhinha, uma criança loira (pouco mais nova que o Gustavinho), que ele acabara de buscar na escolinha do bairro.

Fazia meses que eu não encontrava o homem com a menina, então, em vez de falar sobre o clima ou sobre as horas, resolvi puxar uma conversa mais criativa para os padrões do condomínio.

– Nossa, como cresceu essa tua guria, hein?
– É, mais ou menos.
– Cresceu, sim, deu uma espichada boa...

Nisso a pirralhinha me cutuca na altura da coxa e, quando olho para baixo, arremata seriamente:

– Deve ser porque eu estou calçando botas, o salto me deixa mais alta.

"Putz!", pensei com os meus botões. Era uma punição, um castigo, um tapa com luva de pelica em nome de todas as crianças que eu ignorei durante a vida inteira. E sobre as que ainda pretendo ignorar, nem tive tempo de imaginar quais lições elas me reservam. Fui saindo de fininho quando o elevador parou.