28/05/2019

GLÁUCIA, FUTEBOL E FESTAS


Eis minha cabeça: aquela que caminha quase todo o tempo a uns sete palmos abaixo das nuvens e carrega, silenciosa, os crimes cometidos no passado. Por ela passam as pessoas e os sonhos que ninguém entende. É ela quem guarda as rimas dos meus versos e me protege das tentativas de suicídio nos fins de semana.

Não era incomum eu estar sozinho nas reuniões de família. Como não me dava com a maioria dos parentes e era considerado esquisito por uma parte ainda maior deles, acabava sempre batendo um papo com as crianças, normalmente sobre algum brinquedo do passado que resistia aos avanços tecnológicos ou sobre alguma irmã cocozenta que todo menino tem. Naquela noite, eu segurava um copo de Coca-Cola  com o gelo já derretido, que molhava ora o braço do sofá ora a parte interna das minhas coxas  e conversava sobre a última rodada do campeonato brasileiro com o filho mais novo da dona da casa.

E meus olhos: que brilham no escuro e fotografam coisas que ninguém mais pode perceber. Às vezes um abismo sem fim, às vezes um deserto escaldante, meus olhos são de outro mundo, tão diferente e tão melhor que o meu (ou o seu).

Gláucia sentou-se no sofá ao lado. Eu ainda não sabia quem era ela, jamais imaginaria que faríamos faculdade juntos e que minha paixão por ela atrapalharia todos os meus relacionamentos até o fim da vida. Passou a acompanhar a discussão e, em certo momento, opinou sobre o goleiro do Corinthians. Foi a primeira vez que ouvi sua voz grave. Em seguida, encarei por todo o tempo que pude seus grandes olhos verdes. Concordei com tudo: que Ronaldo Giovanelli era o melhor goleiro do Brasil e que merecia uma chance na seleção que ia à Copa de 1994. Se eu não era corintiano, passei a ser naquele instante.

E minhas mãos: trêmulas e macias, solitárias quase sempre. Conhecem de cor todos os corpos que já tocaram. Elas dançam, eu sei. São a outra face de meus pés masoquistas, que caminham até os mais estranhos lugares apenas para que meus olhos cheguem ao orgasmo.

"Gláucia, é você?", pergunto mais de uma vez. "Sou eu, querido, pode continuar dormindo, só vim buscar umas coisas". Não durmo nem acordo, me falta inspiração até para abrir os olhos. Não aquela inspiração de momento, como um dia ensolarado, cheiro de mato ou canto de passarinho; nem inspiração como forma de reflexão, tipo escovar os dentes pensando na vida ou dirigir por uma estrada deserta. O busílis é que essa mulher  elegante, de pernas um tanto finas  me inspirava a fazer diariamente o melhor possível, fosse a melhor crônica, a melhor dobradura de origami ou o melhor mingau de maisena.

E meu coração: de outono e inverno o ano inteiro, conformado com a rotina de bater descompassado. Tem quartos vagos e umas poucas cadeiras cativas. É o pior lugar do mundo, o mais aconchegante, e ainda quem mantém meu corpo em sobrevida.

George, Eric e Pattie, Kurt e Courtney, David e Ângela, Sid e Nancy... vamos ver o que posso usar de trilha sonora sem fazer com que todos vomitem o jantar. Nunca foi incomum eu estar sozinho nas reuniões de família, a não ser em minha própria casa, quando parentes e amigos atendem ao meu convite. As crianças cresceram, não há mais ninguém com quem eu possa conversar sobre brinquedos antigos ou futebol. Volta e meia, alguma tia velha me pergunta sobre "aquela moça" das Copas de 1994, 1998 e 2002. "Cada um para um lado, como num duelo de armas silenciosas", respondo enigmático.
  

21/05/2019

ATA DA REUNIÃO DE CONDOMÍNIO


Aos dezenove dias do mês de maio do ano de dois mil e dezenove, em segunda chamada, o senhor síndico do edifício Dona Josefa, um moreno grisalho, com princípio de calvície, cujo nome me foge agora, visto que sempre que nos encontramos pelos corredores do prédio dizemos apenas "opa" um para o outro, iniciou a reunião extraordinária do condomínio pontualmente às vinte horas, na saleta dos fundos, a qual apelidamos carinhosamente de salão de festas. Estavam presentes a secretária do escritório de contabilidade, a quem chamaremos de "gostosa dos boletos"; euzinho, do apartamento trezentos e dois; além de uma idosa do primeiro andar, um casal de viados da cobertura, uma mãe solteira com o filho de colo (estes não imagino de qual unidade, perdão), um lutador de artes marciais do quinto andar e a mulher do zelador, do apartamento funcional do térreo. A pauta, sem ordem específica, consistiu: 1. na prestação de contas do mês anterior, 2. na escolha das cores e no valor do rateio para a pintura da fachada, 3. na troca do nome do edifício, 
por sugestão minha. O síndico abriu os trabalhos dizendo "boa noite", ao que todos retribuíram com um muxoxo, e me ofereceu a palavra, a fim de que tratássemos de uma dúvida que sempre tive desde que passei residir no local: "quem diabos foi essa dona Josefa?", perguntei retoricamente. Ainda assim, houve quem levantasse a mão para responder, no caso, a senhora do primeiro andar, que não poupou energias para dirimir a questão e revelou modestamente: "eu sou a dona Josefa, meu falecido marido era o dono da construtora e quis me homenagear". Diante de um silêncio constrangedor, em que o ar poderia ser cortado com uma faca, retirei da pauta a mudança de nomenclatura e acrescentei minhas sinceras preocupações com a estrutura do prédio, principalmente quanto ao elevador em estilo gaiola, pois a julgar pela idade da musa do incorporador, concluiu-se que a obra era antiga pra, digo, para caralho. Em seguida, a gostosa dos boletos leu o relatório de despesas do mês anterior, e apesar de me parecer algo estranho a vultosa quantia gasta em produtos para a limpeza da piscina (sobretudo por que o empreendimento não tem piscina), não me manifestei, pois estava absorto em meus pensamentos, perguntando a mim mesmo como uma moça tão bonita podia ter a língua presa, que azar da porra. O síndico sugeriu passarmos diretamente ao último item, acerca da pintura, mas o lutador do quinto andar o interrompeu bruscamente, dirigindo-se, então, ao casal gay da cobertura, ameaçando cobri-los de porrada se não parassem de ouvir música eletrônica em alto volume durante a madrugada. Um dos rapazes alegres retrucou chamando o pugilista de "orelha de couve-flor"; foi quando houve um princípio de quiproquó, prontamente amainado pela esposa do zelador, que certamente era maior do que o reclamante e tinha a voz mais grossa do que os proprietários da penthouse. Devido ao incidente, a criança da mãe solteira desandou a chorar, e esta, aparentemente uma mãe prestimosa, avisou que ia dar de mamar lá fora, ao que eu solidariamente recomendei: "imagina, está frio, pode amamentar aí mesmo, ninguém vai reparar". Em prosseguimento, foi dado um minuto para que cada morador sugerisse duas cores para a nova pintura da fachada, uma para as paredes e outra para as sacadas; no entanto, como todos entreolhavam-se sem que nenhuma opção fosse apresentada, euzinho novamente, observando a vizinha que amamentava candidamente o seu bebê, propus em voz alta "bege com terracota" (se é que me entendem), e a combinação foi aprovada por unanimidade, a não ser pelo inconveniente de se pagar cento e cinquenta reais por mês na taxa de condomínio durante os próximos quinze meses. Diante da brochante notícia do inevitável rateio, os condôminos assinaram a lista de presença e concordância, mas ninguém teve apetite para aceitar o café com biscoitos, uns revelando que estavam de regime e outros alegando que precisavam voltar para casa porque estavam sentindo cheiro de gás. Em não havendo ocorrências a acrescentar, a gostosa dos boletos guardou suas planilhas numa pasta, dona Josefa guardou seu aparelho de surdez num estojo e a mãe solteira guardou os peitos dentro da blusa. Por volta das vinte e uma horas, encerrei o relato dos fatos, lavrados nesta ata, que deverá permanecer exposta no mural da portaria. Aproveitando o privilégio de ser o primeiro secretário da atual gestão, independentemente de não existir um segundo secretário, e antes que todos saibam por terceiros, aviso aos nobres vizinhos que não comparecerei à próxima reunião, pois já vendi o meu apartamento há quase seis meses e agora ficou meio contramão dirigir da puta que pariu onde estou morando até aqui, ainda mais sem poder rir de nada. Abração, digo, atenciosamente, AD.
  

14/05/2019

COMUNICAÇÃO


Eu estava de saída para levar a minha gata ao veterinário quando o telefone fixo tocou. Mesmo atrasado e não tendo reconhecido o número no identificador de chamadas, larguei a casinha com a bichana dentro e atendi pacientemente, torcendo apenas para que não fosse ninguém da Legião da Boa Vontade.

– Alô!
– É o senhor Dogman que está falando?
– É ele mesmo.
– Aqui é o Nailor, gerente do Banco Santo André.
– Pois não...
– Estou ligando para avisar que a sua conta está negativa.
– Meu amigo, eu nem tenho conta nesse banco.
– Bem, deve ter havido algum engano...
– Será?
– O senhor tem interesse em ser cliente do Santo André?
– Mas nem que fosse o último banco do mundo.
– Veja bem...
– Não vejo, não.

Respirei fundo, contei até dez e saí para cumprir a função de pai. Minha única filha (eu sei, é uma gata, não sou louco) acabara de passar por uma cirurgia para retirada de um tumor nas tetinhas e precisava consultar semanalmente.

Depois de alguns minutos na clínica, entre o momento de abrir a portinhola da jaula e a operação para resgatar a felina de cima do trilho da cortina, saí de lá com uma receita em mãos, na qual o zooiatra recomendava um 
spray miraculoso para ajudar na cicatrização. O papel timbrado, estampado com o logotipo de um cachorro enrolado em um estetoscópio, não deixava dúvidas de tratar-se de uma instituição de saúde estritamente animal.

Entrei, então, na drogaria mais tradicional da cidade, esquina de uma praça velha com um calçadão sujo. Abri a receita sobre o balcão e nem precisei de senha para ser atendido pelo farmacêutico.

– Meu jovem, por acaso tens esse remédio?

O rapaz, de jaleco impecavelmente branco, óculos bifocais, maior cara de cê-dê-efe e pinta de recém-formado, analisou o documento, leu e releu o nome do medicamento, coçou o queixo e perguntou, categórico:

– É para o senhor mesmo?
  

07/05/2019

FUTEBOL


Toc, toc, toc! Três batidinhas na porta dos fundos e eu já me apresentava de uniforme e arma na mão: camisetinha do Corinthians, bola de meia, pezinhos descalços.

– Aonde pensa que vai esse anjinho?

Por maior que fosse o silêncio e o cuidado, mamãe sempre me surpreendia na saída, e perguntava apenas por perguntar, ela sabia que era chegada a hora do futebolinho matinal.

– Põe a conguinha, meu filho, assim você acaba topando um dedo.

E eu saía sem dar ouvidos.

Na rua, tudo pronto. Era o dia da grande revanche contra o time do José Mendes, de camisetinha do Flamengo. O último jogo tinha sido um vexame: seis a zero (por que botei a bola debaixo do braço e saí de fininho). O juiz era o Maionese, albino, filho do seu Dadico da fiambreria, todo de preto, apito banhado a ouro, honesto até o último fio de cabelo.

Basset Hound (Fenella Smith, 2014)

O primeiro gol da equipe rival saiu logo a um minuto de partida. No mesmo embalo vieram o segundo, o terceiro e o quarto. Lá pelo oitavo, o Demóstenes, filho do Válter do açougue, inconformado com nova derrota, tentou uma arrancada espetacular pelo lado direito: passou por um, dois, três e pimba! Era a lajota do calçamento no fundo das redes.

Estava suspenso o espetáculo.

Coitado do Demóstenes, todo orgulhoso pelo nome bonito e todo engessado, inválido, sem poder andar.

– Não desiste não, gente, vai lá e pede outra revanche – dizia o valentão na visita do time.

Na manhã seguinte...

Toc, toc, toc! Três batidinhas na porta dos fundos e eu já me apresentava de uniforme e arma na mão: camisetinha do Corinthians, bola de meia, conguinha nos pés.