26/02/2019

PRECIPITAÇÕES PLUVIOMÉTRICAS


Acordo com os pingos na vidraça. Chego perto da janela e levo ainda alguns minutos para decifrar a paisagem por detrás da tarde gris. Abro e fecho os olhos um par de vezes até despertar do cochilo fora de hora e lembrar exatamente onde estou e o que pretendo fazer da minha vida: em Joinville – a maior cidade de Santa Catarina, colonizada por alemães, suíços e noruegueses em 9 de março de 1851 –, num quarto de hotel, à procura de paz ou de um apartamento virado para o sol nascente, o que me surgir primeiro.

Já devia ter visitado alguns imóveis e desbravado alguns bairros, assim como planejava (e não me mexi) conhecer o parque zoobotânico, a rua com palmeiras dos dois lados, o museu dos imigrantes, a escola de dança, a estação ferroviária, o campo de futebol, um ou outro museu, uma ou outra feira e o portal de exposições. A chuva, entretanto, não tem permitido. Às vezes desço para o café, motivado por uma nesga de céu azul, que logo se fecha e dá lugar ao aguaceiro e ao vento, antes mesmo do fim da primeira xícara.

No mapa do município, desdobrado em cima do criado-mudo faz dias, permanecem assinaladas as recomendações de parentes e amigos: duas pastelarias, shoppings, empadinhas de massa folhada, um mirante, uma baía com nome indígena, passeio de barco, uma fábrica de cerveja desativada, uma trilha ecológica, casas em estilo enxaimel e o Instituto Internacional Juarez Machado. Tempestades inoportunas e de humor variável, porém, fizeram com que eu não me aproximasse de nenhum desses pontos até agora.


A filha da chuva por incompetência do sol
(Juarez Machado, 2015)

Do pintor e escultor Juarez Machado, aliás, conheci por fotografia, antes de vir, uma obra batizada de Joinville, a "filha da chuva" por incompetência do sol, sobre a qual o próprio artista pondera que esta não é uma cidade de flores nem de bicicletas: é uma cidade de chuvas. Tendo a concordar com ele. Mar já não digo, mas quede sol? Como podem 600 mil pessoas, espargidas em mil e poucos quilômetros quadrados, conviver diuturnamente com borrascas de toda sorte, feito filme de suspense? Não uso guarda-chuva – apesar de apreciar mulheres de sombrinha armada –, não gosto de me molhar nem de saltar poças d'água, então, consideraria viver onde o céu se abre apenas durante quinze dias a cada mês?

Pois quase encosto o rosto na vidraça, a fim de incorporar a paisagem úmida e cinzenta. Meu quarto de hotel tem a fragrância da última xícara de café que pedi antes de cochilar e que acabei não tomando. Calço o 
All Star, pego um casaco e desço para a rua, pouco me importando com o estado do tempo e das coisas. Não existe dilúvio que não se possa atravessar nem gota de orvalho que nunca se evapore. Vou ficando. Vou ficar. Encharcar meus pés na água da chuva com tudo, como quem não quer nada, está decidido.
  

19/02/2019

CARTA DE AMOR E PRIMAVERAS


Minha amada aniversariante...


Não és capaz de imaginar a enormidade do paradoxo que invadiu o meu coração nesta data: uma tamanha alegria, por completares mais um ano de vida (transformando-te, assim, na mais apaixonante das balzaquianas de que tenho notícia), acompanhada da profunda tristeza de não poder cobrir-te de ósculos e amplexos, de não estar contigo do primeiro ao último minuto deste dia, apesar de, em pensamento, invariavelmente, adormecer e despertar ao teu lado.

Sei que, por inúmeras circunstâncias, algumas pelas quais sou o único responsável, incluída aí a falta de bom senso, não estamos juntos fisicamente. No entanto, embora sejas cética, mergulhada no estoicismo comum aos aquarianos, posso garantir que o nosso destino está traçado, pois o universo premia aqueles que se mantêm leais ao "gostar" verdadeiro – altruísta, paciente, humilde – ainda que não tenham plena consciência dessa condição. O teu caminho e o meu não são paralelos, como poderias acreditar, são absolutamente concorrentes. Perpendiculares, provavelmente.

Dentro de mim, há mais de meia década, venho guardado (acumulando, na verdade) um sentimento que não tinha aparência nem denominação, mas que sempre me foi muito claro em todos os instantes. Eu sempre soube que o meu rio corria na direção do teu mar; que sempre foste, simultaneamente, a minha regra e a minha exceção, um outono e uma primavera, o meu tormento e a minha paz. Hoje, posso afirmar que essa disposição emocional, essa coisa maior do que a realidade, que se moldou na área mais nobre do meu hipotálamo, atende pelo nome de "amor" e tem os teus olhos.

Pouco me importa não estar à tua altura sob quase todos os aspectos, és uma pessoa melhor do que eu desde o dia em que vieste ao mundo, graciosamente num fevereiro de quarenta e poucos anos atrás. Importa-me é ser merecedor do teu afeto e da tua infinita bondade. Importa-me um único chamado teu, cujas palavras tenho aguardado como quem aguarda pacientemente o desabrochar anual da flor-de-seda.

Em havendo alguma justiça nesta vida, minha doce e encantadora musa, não tornarás a passar mais um único aniversário sem a minha presença, ainda que, mesmo que não percebas, nunca tenhas ficado sem o meu carinho e a minha admiração. Por enquanto, desejo apenas que a felicidade tome conta de ti neste momento, que um sorriso tímido brote do teu rosto angelical e que guardes um lugar em teu coração para todas as alegrias que o futuro nos reserva.

Finalmente, em meio ao turbilhão no qual me encontro, sinto, em meu íntimo, a iminente necessidade de resguardar-me, de afastar-me das consequências que este amor cego e insano poderá me impor. Deixo o vosso aconchegante lar abastecido, para quando retornares dessa interminável viagem. Atendendo aos teus desejos, a carne congelada no freezer são partes do teu ex-namorado Luciano. Não penses que nunca reparei nas ocasiões em que sussurraste durante o sono: "Oh, Senhor! Traz o Lulu de volta para junto de mim". Pois até eu, minha amada imortal, que nunca fui afeito aos prazeres da glutonaria, tenho gostado mais dele agora, em bifes. Alvíssaras!

Para sempre teu.
  

12/02/2019

SAPIÊNCIA


O seu Dadá é o faxineiro da agência de propaganda. Um velhinho bastante folclórico e divertido, sempre com uma boa história para contar ou um sábio conselho para ofertar aos mais jovens. Quando desanda a falar, declamando causos em carregado sotaque interiorano, incrementado por gestos e caretas, o avoengo serviçal interrompe a limpeza e ninguém sabe em que momento ele irá retomá-la. No último bate-papo com o pessoal do setor de criação, não houve quem não marcasse no relógio: entre um caso e outro, foram 45 minutos só para espanar a poeira de uma persiana horizontal.

Hoje o seu Dadá contou de quando pediu a mão da esposa em casamento. Disse que não foi difícil, pois antigamente as coisas eram bem mais simples, numa época em que a palavra de um homem tinha realmente valor. Ele prometeu a ela apenas duas coisas: que não deixaria faltar nada em casa e que jamais olharia para outra mulher. Orgulhoso, confirmou diante de meia empresa atenta que, de sua parte, o combinado se cumprira.

Enquanto o seu Dadá falava, não pude deixar de imaginar a vida daqui a vinte ou trinta anos, mas passei longe de conseguir me ver assim tão animado e cheio de sabedoria. O que eu poderia ensinar de útil à próxima geração de funcionários do meu setor? No máximo, daria uns conselhos sem importância, como: "lembrem-se que bebida láctea não é iogurte" ou "pratiquem sodomia, preferencialmente, com as vegetarianas", e mais nada. 
Quanto aos compromissos assumidos às vésperas de um matrimônio, em meio às desilusões e aos descaminhos dos tempos modernos, talvez eu prometesse não deixar a tampa da privada levantada ou olhar para outras mulheres apenas de canto de olho, com muita discrição.

Em comum com o ancião da limpeza, no futuro, provavelmente, terei somente o fato de precisar fazer um bico de faxineiro para complementar a renda da aposentadoria.

Com a cabeça já não tão longe, aterrissei dos meus devaneios quando me cutucaram para cobrar um anúncio 
atrasado. Antes de seguir (a passos lentos) para varrer a sala da diretoria, empunhando sua inseparável piaçava, o seu Dadá ainda anotou caprichadamente num pedaço de papel, para quem quisesse copiar, a sua receita caseira de desinfetante para banheiros.
  

05/02/2019

DO ABASTECIMENTO DE GÁS NOS CONDOMÍNIOS


O Oscarzinho não saía lá de casa. Como o nosso apartamento ficava no caminho para a escola 
 e ele não tinha irmãos para brincar , dava sempre um jeito de chegar mais cedo, só para matar um tempinho antes de o primeiro sinal bater. E mesmo depois das aulas, nos dias em que havia Educação Física ou reunião do grêmio estudantil, aproveitava para filar um almoço e esticar a diversão até o fim da tarde. Bons tempos aqueles da oitava série, último ano do ensino fundamental, ainda na primeira metade da década de 1980.

Mamãe vivia de cabelos em pé quando o Oscarzinho estava por perto. Sem nenhuma habilidade para o futebol, por exemplo, toda vez que chutava uma bola nas nossas disputas de "gol a gol" no corredor, era batata que acertaria uma estatueta, um quadro, um porta-retratos ou um abajur. Por isso, tínhamos sempre Superbonder à mão, para socorrê-lo nos momentos de tragédia anunciada.

Na cozinha, também era um desastre. Até para preparar um simples lanche, antes de estudar para alguma prova, ele arranjava confusão. Nós nunca fomos capazes de explicar à minha mãe – a quem ele chamava carinhosamente de "tia" – como o Oscarzinho foi capaz de derrubar uma lata de Nescau dentro de uma jarra de suco de laranja. A cor ficou bisonha, mas o gosto acabou agradando aos mais exigentes paladares da nossa turma.

Daquela época de inocência, dentre todas as histórias que envolviam o Oscarzinho, a melhor continua sendo a do fornecedor de gás. É que não havia gás central no condomínio, então, uma vez por mês, o caminhão da companhia distribuidora estacionava na calçada e oferecia o produto recarregado aos moradores interessados.

Certa vez, a encomenda estava demorando a chegar, já fazia quinze minutos que o zelador avisara pelo interfone que o entregador estava subindo. Mamãe pediu ao Oscarzinho para abrir a porta e verificar o porquê do atraso. A poucos metros do nosso apartamento, perto do elevador em manutenção, o moço uniformizado, suado e ofegante, largara o botijão e sentara-se sobre ele para descansar um pouco, após avançar cinco andares pelas escadas. O meu amigo não teve dúvidas, depois de olhar lá fora, botou de novo a cabeça para dentro e gritou na direção da cozinha:

– Peraí, tia... o homem ainda tá enchendo o bujão!