10/09/2019

MISTUREBA


Percebi que a rapariga do caixa me olhou de um jeito esquisito quando fiz o pedido. Provavelmente eu era o primeiro cliente na história da lanchonete a escolher uma combinação tão absurda, e talvez por isso ela tenha aguardado a minha terceira confirmação verbal antes de gritar debochadamente para o pessoal da cozinha:


– Um McFish e um capuccino de meio litro, por favor!


Na semana passada, num restaurante italiano, daqueles em que se pode combinar livremente os ingredientes dos pratos, me aconteceu episódio parecido. Eu andava com vontade de experimentar o nhoque da casa e, ao mesmo tempo, com um desejo gestatório de comer espaguete à carbonara. O garçom, muito gentilmente, anotou o pedido.


– Qual massa, senhor?

– Nhoque.
– E o molho?
– Carbonara.
– Tem certeza?
– Por que, não pode?
– Pode... mas é estranho.

Quando anunciei que ia beber suco de abacaxi com hortelã para acompanhar, achei que ele fosse me bater com o cardápio na cara.


Inexplicavelmente, trinta minutos depois, um segundo funcionário veio servir a gororoba (admito, a aparência não fez jus ao sabor), enquanto o primeiro tomava um Plasil em outro setor do estabelecimento.



Ora, quem não tem lá as suas esquisitices gastronômicas? Meu irmão mais novo sempre come bolacha maria besuntada com o feijão que sobra do almoço; tive uma vizinha que amassava abacate com sal e pimenta em vez de açúcar e limão; eu mesmo, bebo café gelado e prefiro Coca-Cola sem gás. Além do mais, existem tantas harmonizações inviáveis – culinárias ou não – que ninguém contesta, como a Dakota Fanning fazendo papel de refugiada muçulmana, por exemplo. A democracia e o governo brasileiro também são coisas que não combinam, mas aí já é assunto para outro texto.

Voltando ao nosso tema: o que pretendo dizer é que nem a moça da lanchonete nem o garçom do restaurante têm o direito de torcer o nariz para nenhum pedido de nenhum cliente, por mais bizarro que pareça (o pedido, não o cliente). Cada um sabe de suas potencialidades digestivas e faz a mistureba que bem entender, dane-se a opinião alheia.


Por isso, não quero nem imaginar o que dirão os franceses se souberem que costumo raspar toda a cobertura do croque-monsieur ou como reagirão os enofílicos assim que eu revelar que tenho aqui, ao lado do computador, daqueles copos tipo long drink, com vinho importado, muita água, gelo, adoçante e um canudinho flexível.


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