01/10/2019

NOTA DE FALECIMENTO

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia.
(...) No espelho, essa cara não é minha.


Tenho um amigo que sempre soube que não chegaria aos cinquenta. Morreu antes, bem antes. Na verdade, veio morrendo amiúde, até quase atingir meio século de idade. Virou um arremedo de ser humano.

Da criança quieta ao adolescente inquieto, e de lá ao homem absolutamente deslocado no mundo, foi ficando mais triste, mais pobre, solitário, menor. Corcunda, magro, anêmico, impotente. Foi perdendo o vigor, o brilho, a esperança. Esquecido, cansado, incompreendido. Um cão sem dono, uma árvore no outono. Definhando.

Não por doença nem por nenhuma fatalidade, apenas pela vida mal vivida. Quem dera fosse envenenamento, acidente, tiro, amor, cólera, punhalada nas costas. Ele só morreu e pronto. Não encontrou razão para continuar, não vejo nada de espantoso nisso.

Simplesmente não sonha mais nem quer chegar a lugar nenhum. Não foi o que pretendia ser nem pretende ser diferente do que é. Pela primeira vez, não tem paixão nem ódio dentro de si. Toda a responsabilidade e dedicação, toda a ética e sensibilidade, enfim, virtudes das quais se orgulhava, nunca tiveram utilidade. Cultura? Criatividade? Lérias.

O tempo foi passando, as rugas foram aparecendo, os cabelos embranquecendo. E ele se transformando numa criatura abominável, intolerante, amargurada, incapaz de conviver com seus semelhantes. Um zé-ninguém, um zero à esquerda, um qualquer. Inábil, infeliz. Morto por dentro e por fora. Aquele que não sabe a diferença entre o certo e o duvidoso, entre o bem e o mal, entre o céu e o inferno.

Ele confessa: não presta. E também não existe. É um homem invisível, um perdedor, o cara que todos amam detestar. Será sempre aquele que não nasceu para aquilo. Cada vez mais desajustado, cada vez pior. Com frio, com fome, a pé. Sem dinheiro, sem parentes, atroz.

Contudo, calado. Cem ressurreições seguidas, até não haver mais saída. E nem foi preciso pular do alto de um edifício ou se atirar na frente de um caminhão. Bastou ter coração, personalidade, acreditar na sorte.

Dizem que o fim chega logo para canalhas como ele, sem berço, sem estrela. Do tipo que não se vende, que não recua, que não chora. Da categoria dos excluídos, dos esquisitos, dos que não foram abençoados. Dos que fazem de tudo um pouco e quase tudo mal feito. Insosso, insípido, inodoro. Frio, de alma canhestra.

Esse meu amigo jura que lutou, mas perdeu a guerra. Tomou o trem errado, saltou no bairro errado, viveu uma vida que não era a sua.

E agora morreu, antes mesmo dos cinquenta, como havia imaginado. Sem plantar uma árvore, sem ter um filho, sem escrever um livro. Anônimo. Gauche desde o início. Somente um peso, um estorvo, um cadáver. Amontoado disforme de culpas e cinzas.

E vazio. Imensamente vazio, ele me contou.

10/09/2019

MISTUREBA


Percebi que a rapariga do caixa me olhou de um jeito esquisito quando fiz o pedido. Provavelmente eu era o primeiro cliente na história da lanchonete a escolher uma combinação tão extravagante, e talvez por isso ela tenha aguardado a minha terceira confirmação verbal antes de gritar debochadamente para o pessoal da cozinha:


– Um McFish e um capuccino de meio litro, por favor!


Na semana passada, num restaurante italiano, daqueles em que se pode combinar livremente os ingredientes dos pratos, me aconteceu episódio parecido. Eu andava com vontade de experimentar o nhoque da casa e, ao mesmo tempo, com um desejo gestatório de comer espaguete à carbonara. O garçom, muito gentilmente, anotou o pedido.


– Qual massa, senhor?

– Nhoque.
– E o molho?
– Carbonara.
– Tem certeza?
– Por que, não pode?
– Pode... mas é estranho.

Quando anunciei que ia beber suco de abacaxi com hortelã para acompanhar, achei que ele fosse me bater com o cardápio na cara.


Inexplicavelmente, trinta minutos depois, um segundo funcionário veio servir a gororoba (admito, a aparência não fez jus ao sabor), enquanto o primeiro tomava um Plasil em outro setor do estabelecimento.



Ora, quem não tem lá as suas esquisitices gastronômicas? Meu irmão mais novo sempre come bolacha maria besuntada com o feijão que sobra do almoço; tive uma vizinha que amassava abacate com sal e pimenta em vez de açúcar e limão; eu mesmo, bebo café gelado e prefiro Coca-Cola sem gás. Além do mais, existem tantas harmonizações inviáveis – culinárias ou não – que ninguém contesta, como a Dakota Fanning fazendo papel de refugiada muçulmana, por exemplo. A democracia e o governo brasileiro também são coisas que não combinam, mas aí já é assunto para outro texto.

Voltando ao nosso tema: o que pretendo dizer é que nem a moça da lanchonete nem o garçom do restaurante têm o direito de torcer o nariz para nenhum pedido de nenhum cliente, por mais bizarro que pareça (o pedido, não o cliente). Cada um sabe de suas potencialidades digestivas e faz a mistureba que bem entender, dane-se a opinião alheia.


Por isso, não quero nem imaginar o que dirão os franceses se souberem que costumo raspar toda a cobertura do croque-monsieur ou como reagirão os enofílicos assim que eu revelar que tenho aqui, ao lado do computador, daqueles copos tipo long drink, com vinho importado, muita água, gelo, adoçante e um canudinho flexível.


03/09/2019

LETRA & MÚSICA (2)


O casal de aficionados da MPB e do pop-rock nacional, divorciado há cinco anos, volta a se encontrar no mesmo barzinho com som ao vivo, na mesma minúscula mesa redonda. Ela tenta quebrar o gelo:

– Como vai você? 
– Tenho o que me falta e o que me basta, no mais é ficar só.
– Eu fico à vontade com a sua ausência...
– Eu quase não saio, eu quase não tenho amigos.
– Vai melhorar... é bola pra frente, depende da gente.
– Sou um presidiário cumprindo sentença.
– Pois vai curtir seu deserto, vai.
– Mas te vejo e sinto o brilho desse olhar...
– Você foi dar um mergulho e por pouco não se afogou.
– Eu percebi trauma, que eu vivi um trauma.
– Tente outra vez!
– Eu só preciso ter você por mais um dia.
– Eu, hein? Nem pensar.
– Estranho, mas já me sinto como um velho amigo seu.
– Pois é, não deu.
– Me diz por onde você me prende...
– Será que é tempo que lhe falta pra perceber?
– Tempo, tempo, mano velho!
– Fique feliz, na boa, e tudo vem.
– Tente passar pelo que estou passando...
– Esqueça de mim, que, afinal, pra esquecer você tem experiência.
– Me dá um beijo, então.

Beijam-se despudoradamente durante alguns minutos. O que ele imaginou ser uma reconciliação, para ela era uma tardia vingança. Pedem mais dois chopes, uma porção de fritas e retomam o diálogo.

– Eu bebo um pouquinho, pra ter argumento.
– Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar...
– Se você disser tudo que quiser, então eu escuto.
– Eu gosto é de mulher!
– Isso me dá tic-tic nervoso!
– Quando entrar setembro e a boa nova...
– Quem é ela?! Quem é ela?!
– Isso do medo se acalma, isso de sede se aplaca.
– Meu rosto vermelho e molhado é só dos olhos pra fora.
– Tanta coisa muda nessa hora, que o mais valente dos homens chora.
– Ok, você venceu.
– Acabou. Boa sorte!
– Não esquece de mim, mesmo que seja ruim.
– Cuide-se bem... perigos há por toda a parte.


Gabarito: Antônio Marcos, Sérgio Sampaio, Toni Platão, Dominguinhos e Gilberto Gil, Maria Rita, Vander Lee, Toquinho e Vinícius, Cidadão Quem, Camisa de Vênus, Clínica (Fernando Salem), Raul Seixas, Lô Borges, Kleiton & Kledir, Nando Reis, Los Hermanos, Marina Lima, Lenine, Pato Fu, Zizi Possi, Luiz Melodia, Pimpinela, Lulu Santos, Nana Caymmi, Geraldo Vandré, Secos & Molhados, Ultraje a Rigor, Magazine, Beto Guedes, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Frejat, Benito Di Paula, Blitz, Vanessa da Mata, Wander Taffo (Rádio Táxi), Guilherme Arantes.

LETRA & MÚSICA – LEIA AQUI

27/08/2019

A LENDA*


Acabara de deixar um passageiro em Higienópolis. Longe de seu ponto, mas aproveitando que já estava por ali, resolveu procurar a oficina que lhe recomendaram, em algum canto do Jardim Lindoia. Precisava ver o que era esse barulho no motor, cada vez mais agudo, sempre que acelerava. "Correia dentada... só pode ser correia dentada", pensava ele, ao mesmo tempo em que correspondia ao aceno de um transeunte.


Mauro Edson Santana Castro, o taxista mais famoso de Porto Alegre, nunca fora afeito a manutenções periódicas em seu veículo. Preferia trocar de carro (como fizera recentemente) a consertar pequenos defeitos. No entanto, o caso agora era diferente: com o táxi ainda na garantia, não se conformava com a incompetência da rede autorizada, que não havia descoberto o defeito em duas revisões seguidas. Por isso, meio a contragosto, estava prestes a apelar para uma suspeitíssima mecânica de fundo de quintal.


Quando avistou a placa, na qual a palavra "suspensão" aparecia escrita com cê-cedilha, não teve dúvidas de que chegara ao seu destino. Ao descrever os sintomas para o mecânico-chefe, descobriu que correia dentada não existe mais (modernamente fala-se apenas "correia") e que o problema era de simples solução. "Nada que uma enceradinha com vela de sete dias não resolva", concluiu o curandeiro automobilístico do estabelecimento. Assim, aliviado com a notícia do baixo custo do conserto, bateu-lhe uma tremenda vontade de fazer xixi.


Corajosamente, Mauro encaminhou-se ao banheiro que ficava na parte de trás da oficina, ao lado da máquina de calibragem. No ambiente, ricamente decorado com calendários de garotas seminuas, encantou-se com uma loira de olhar distante e seios fartos. Permaneceu alguns segundos hipnotizado diante dela, sobretudo por uma pinta próxima ao canto esquerdo do lábio superior, no melhor estilo Cindy Crawford. Pensou em arrancar a página da folhinha como recordação, mas contentou-se em fotografá-la com a câmera do celular.


Pouco depois, já no caminho de volta para o seu ponto (na esquina da rua Saldanha Marinho com a avenida Getúlio Vargas), recolheu uma passageira que lhe fazia sinal desesperadamente. Pelo retrovisor, logo que a mulher guardou os óculos escuros num estojo, ajeitando-se nervosamente no banco traseiro, Mauro a reconheceu e não se conteve:


– Santa Francisca Romana! Mas é a loira do banheiro...


Constrangida, a modelo baixou os olhos e pôs-se a procurar algo em sua bolsa. Não era um telefone nem maquiagem nem nenhuma arma de fogo. Finalmente, agora sorrindo enigmaticamente, pegou uma caneta e um exemplar bastante surrado do livro de crônicas lançado pelo calvo chofer de praça em 2006. Com as mãos trêmulas de emoção, cutucou-lhe o ombro e sussurrou com voz rouca, suplicante:


– Escreve aí, seu Mauro: "Para Gislaine, com carinho", por favor.



*Crônica antiga, de 2009, em homenagem ao amigo Mauro Castro, autor dos quatro volumes de "Táxi Tramas: Diário de um Taxista", que viraram até série de TV, pela Prime Box Brazil, em 2019.

13/08/2019

UMA NOITE EM 89


Completara dezoito anos, mas ainda não sabia dirigir. Os vizinhos contemporâneos já davam voltas pelo quarteirão desde os quatorze, nos carros dos pais, enquanto ele, humildemente, fazia todas as suas viagens a pé ou de bicicleta. Que perdedor! Mesmo assim, sem que houvesse explicação para isso, as garotas se apaixonavam. Talvez por que fosse fã de Suzanne Vega e tivesse uma banda de rock.


Em seu bairro, no lugar onde hoje fica o Seven Rocks, existia outro bar, no qual as bandas locais podiam tocar cinco ou seis músicas por noite em troca de cervejas. Uma garrafa para cada integrante e mais nada. Por ser simpático, criado nas redondezas, permutava a bebida a que tinha direito por duas latas de Coca-Cola, uma para o começo e uma para o fim da jornada. Esse antigo estabelecimento era sombrio, com paredes pichadas e uma única lâmpada verde acima do palco. Nem era exatamente um palco, somente um tablado, em que cabiam grupos de pós-punk de três elementos, bem como big bands de doze músicos, incluindo naipe de metais. O público, os de sempre: pessoas conhecidas umas das outras, apesar de não se conhecerem de fato.


Há muito abandonara a ideia de virar músico profissional, não se dava com os caras que tocavam com ele ou com quaisquer caras do meio musical. Entretanto, havia uma garota que frequentava os shows – um dia na semana, todas às quintas – e que, de certa forma, não o deixava desistir. Várias vezes convenceu a banda a abrir mão de se apresentar em lugares melhores, com cachê, apenas para revê-la. Não era o tipo de mulher por quem um homem se masturba diariamente, nada disso. Para ele, ela não tinha peitos nem bunda nem vagina, tinha só olhar e sorriso, ambos de efeito hipnótico.


Antes de aceitar uma carona e levar seu contrabaixo para junto do restante dos instrumentos, mirava o ambiente. Precisava certificar-se de que ela estaria em algum canto, com seus olhos negros e cabelos azuis ou olhos azuis e cabelos negros (a luz esverdeada o fazia confundir as cores), discretamente a observá-lo, num jogo indefinível. Dançava, bebia, cantava e, ao final de tudo, desaparecia sem que ele pudesse lhe oferecer um refrigerante.

Quando o bar estava prestes a mudar de dono – para depois transformar-se no refinado e iluminado Seven Rocks –, houve uma espécie de festival, com todos os grupos que por lá passaram nos últimos anos. Ao jovem baixista, já não interessavam as lembranças nem as bebidas nem a festa, queria vê-la novamente e, se lhe brotasse alguma coragem, pediria seu número de telefone.


Passava das quatro horas da madrugada. A van da banda buzinava na calçada, em frente à porta de entrada. Procurou a garota e entrou em pânico ao percebê-la se aproximando. Era quase tão alta quanto ele e tinha uma pele alva e lisa como jamais vira na vida. Ela deu um beijo em seu rosto, desconsiderou sua franja ensebada e disse com uma voz grave, mais adulta do que indicava a frágil aparência:


– My name is Luka!


06/08/2019

A BIBLIOTECÁRIA


Era um convite de casamento. E o fato de não ter remetente nem carimbo de postagem significava que fora deixado ali pessoalmente. Da inicial lentidão, Paulina passou a acelerar o processo de abertura do envelope, rasgando-o completamente. Ao reconhecer o nome e o sobrenome de um de seus ex-namorados, o único por quem fora verdadeiramente apaixonada, lembrou-se de uma canção de Reginaldo Rossi e não conteve as lágrimas.

Com as lentes dos óculos embaçadas pelo choro, seguiu para o trabalho. Pelo caminho, ia lendo e relendo todos os dados impressos em papel vergê no convite humilde, do nome dos pais da noiva ao endereço da capela em que a cerimônia seria realizada, no município de Schroeder, ao norte da pacata Jaraguá do Sul do final da década de 1990. A distância até a Biblioteca Pública Municipal Rui Barbosa, no centro da cidade, parecia ter dobrado naquela manhã de segunda-feira. Mesmo assim, Paulina chegou no horário.

Durante todo o expediente – e no restante da semana –, classificou livros e revistas com os códigos invertidos, além de guardá-los na seção errada. Confundiu, em diversas ocasiões, a Classificação Facetada, na qual os documentos mais complexos sofrem sucessivos desdobramentos a fim de facilitar-lhes a compreensão e o arquivamento, com a Classificação Decimal Dewey (CDD), bem mais simples, utilizada para agilizar a localização de material em qualquer parte do acervo. Nas prateleiras organizadas recentemente pela bibliotecária, tornaram-se comuns os encontros de Carl Sagan e Carl Jung no espaço destinado à literatura oriental ou de Cora Coralina e Cora Rónai no estande dos semanários.

Apesar da paixão com que costumava se entregar ao ofício, não conseguia parar de pensar no grande amor de sua vida nem na proximidade da data do casamento. O homem a quem ela dedicara quase cinco anos da adolescência e da juventude ia se casar com uma desconhecida em menos de dez dias.



Conheceram-se por acaso. Ele, ainda muito novo, havia perdido quase toda a visão em decorrência de uma retinite pigmentosa, doença ocular degenerativa de acentuado caráter hereditário. Paulina o avistou pela primeira vez próximo a uma construção tentando ler um muro de chapisco, imaginando tratar-se de um outdoor em braille. Encantou-se imediatamente com sua ingenuidade e com sua delicadeza. Após o terceiro ou quarto encontro, ele já era incapaz de ir a algum lugar sem ela ou de criticar sua maneira bisonha de se vestir.

O fim do romance foi inesperado, porém, previsível. Enquanto Paulina estava de mudança para Florianópolis, onde cursaria Biblioteconomia na UFSC, ele decidiu seguir sua rotina como instrutor de uma autoescola no próspero município de Corupá, maior produtor de bananas de Santa Catarina. Não houve despedida nem juras de amor. Nem nunca mais deram notícias um ao outro.

Agora, na véspera do matrimônio para o qual fora convidada, estava agitada. Preferia não ter sido lembrada pelos noivos. Perdida num turbilhão de pensamentos desconexos, não conseguiu dormir durante toda a noite de sexta-feira. Precisava libertar-se do passado, precisava fazer com que aquele sábado de maio fosse apenas mais um sábado sem importância.

Ao despontar dos primeiros raios de sol, finalmente, tinha um plano. Perfeito, infalível. Paulina levantou-se, tomou um banho, vestiu sua melhor roupa, contou as notas de dinheiro na carteira e saiu, decidida a fazer o que qualquer mulher faria em seu lugar. Primeiro cortou os cabelos bem curtos; depois comprou três pares de sapatos no crediário. A plástica no nariz aquilino, infelizmente, teria de esperar mais um pouco. Talvez até a sua próxima licença-prêmio.


02/07/2019

UM FURTO FURTIVO


Roubaram o meu capacho. E não me refiro a nenhum aspone puxa-saco nem a nenhuma secretária adepta do serão extra noturno, não. Roubaram mesmo foi o tapetinho que fica do lado de fora da porta de entrada do meu apartamento.

Um caso muito estranho: cheguei do trabalho e ele, que é peludo, com formato e estampa de gatinho, não estava no lugar de sempre. Olhei primeiro pela janela do corredor, afinal, podia ter voado lá embaixo, como aconteceu há pouco tempo com o tapete de pele de urso de uma senhora do andar de cima. Olhei também na lixeira do prédio. Procurei nas portas dos outros apartamentos, pois a faxineira do período vespertino, já um tanto idosa, eventualmente promove uma dança de capachos no condomínio, inclusive entre os andares. Mas não, nada. Sumiu, desapareceu, escafedeu-se. A velhinha não viu, o porteiro não viu, o zelador não viu, o síndico não viu.

Claro que ninguém viu, certamente estão todos mancomunados com o larápio de adornos de piso que, por sua vez, deve servir a uma rede internacional de tráfico de pelegos com motivos animais.



Na minha lista de suspeitos, em avaliação preliminar, figuram as gêmeas do fim do corredor, sobretudo a mais antipática; o padre Parkinson, com menos chance, pois se ele pegasse o capacho ao meio-dia eu ainda o alcançaria antes das seis da tarde; a estudante solitária e tímida, provavelmente como forma de chamar a atenção antes de apelar para o suicídio; o pai solteiro, tendo como cúmplice a sua filhinha com cabelo de Playmobil, porque a menina decerto achara o tapete fofinho; e, por último, o velho pedófilo da porta ao lado, que pode tê-lo oferecido como mimo a uma de suas vítimas, dizendo carinhosamente: "dá uma pegadinha aqui no gatinho peludo do vovô, dá". O fato é que todos tinham um motivo razoável para cometer o crime.

Agora, de cabeça fria, passadas algumas horas da lamentável ocorrência, já não penso mais em denunciar nem em dar porrada no meliante ou na meliante que subtraiu o tapetinho da minha porta. Decidi que não vale a pena perder o sono por uma caganifância dessas. Amanhã compro outro capacho e pronto, também em formato especial, com desenho de bichinho, tão atraente quanto o antigo.

Por precaução, o próximo ficará colado ao chão com Superbonder, ligado a um sensor de movimento e a uma câmera fotográfica embutida no olho mágico. Eu sempre fui assim, desapegado das coisas materiais.


14/05/2019

COMUNICAÇÃO


Eu estava de saída para levar a minha gata ao veterinário quando o telefone fixo tocou. Mesmo atrasado e não tendo reconhecido o número no identificador de chamadas, larguei a casinha com a bichana dentro e atendi pacientemente, torcendo apenas para que não fosse ninguém da Legião da Boa Vontade.

– Alô!
– É o senhor Dogman que está falando?
– É ele mesmo.
– Aqui é o Nailor, gerente do Banco Santo André.
– Pois não...
– Estou ligando para avisar que a sua conta está negativa.
– Meu amigo, eu nem tenho conta nesse banco.
– Bem, deve ter havido algum engano...
– Será?
– O senhor tem interesse em ser cliente do Santo André?
– Mas nem que fosse o último banco do mundo.
– Veja bem...
– Não vejo, não.

Respirei fundo, contei até dez e saí para cumprir a função de pai. Minha única filha (eu sei, é uma gata, não sou louco) acabara de passar por uma cirurgia para retirada de um tumor nas tetinhas e precisava consultar semanalmente.

Depois de alguns minutos na clínica, entre o momento de abrir a portinhola da jaula e a operação para resgatar a felina de cima do trilho da cortina, saí de lá com uma receita em mãos, na qual o zooiatra recomendava um 
spray miraculoso para ajudar na cicatrização. O papel timbrado, estampado com o logotipo de um cachorro enrolado em um estetoscópio, não deixava dúvidas de tratar-se de uma instituição de saúde estritamente animal.

Entrei, então, na drogaria mais tradicional da cidade, esquina de uma praça velha com um calçadão sujo. Abri a receita sobre o balcão e nem precisei de senha para ser atendido pelo farmacêutico.

– Meu jovem, por acaso tens esse remédio?

O rapaz, de jaleco impecavelmente branco, óculos bifocais, maior cara de cê-dê-efe e pinta de recém-formado, analisou o documento, leu e releu o nome do medicamento, coçou o queixo e perguntou, categórico:

– É para o senhor mesmo?
  

07/05/2019

FUTEBOL


Toc, toc, toc! Três batidinhas na porta dos fundos e eu já me apresentava de uniforme e arma na mão: camisetinha do Corinthians, bola de meia, pezinhos descalços.

– Aonde pensa que vai esse anjinho?

Por maior que fosse o silêncio e o cuidado, mamãe sempre me surpreendia na saída, e perguntava apenas por perguntar, ela sabia que era chegada a hora do futebolinho matinal.

– Põe a conguinha, meu filho, assim você acaba topando um dedo.

E eu saía sem dar ouvidos.

Na rua, tudo pronto. Era o dia da grande revanche contra o time do José Mendes, de camisetinha do Flamengo. O último jogo tinha sido um vexame: seis a zero (por que botei a bola debaixo do braço e saí de fininho). O juiz era o Maionese, albino, filho do seu Dadico da fiambreria, todo de preto, apito banhado a ouro, honesto até o último fio de cabelo.

Basset Hound (Fenella Smith, 2014)

O primeiro gol da equipe rival saiu logo a um minuto de partida. No mesmo embalo vieram o segundo, o terceiro e o quarto. Lá pelo oitavo, o Demóstenes, filho do Válter do açougue, inconformado com nova derrota, tentou uma arrancada espetacular pelo lado direito: passou por um, dois, três e pimba! Era a lajota do calçamento no fundo das redes.

Estava suspenso o espetáculo.

Coitado do Demóstenes, todo orgulhoso pelo nome bonito e todo engessado, inválido, sem poder andar.

– Não desiste não, gente, vai lá e pede outra revanche – dizia o valentão na visita do time.

Na manhã seguinte...

Toc, toc, toc! Três batidinhas na porta dos fundos e eu já me apresentava de uniforme e arma na mão: camisetinha do Corinthians, bola de meia, conguinha nos pés.


23/04/2019

BODAS DE VENTO


Foi num sebo do interior de São Paulo que David descobriu o livro de Gregory Corso (1930-2001). A raríssima edição compilada de 
Gasolina & Lady Vestal, autografada pelo autor, com prefácio de Allen Ginsberg, custaria a ele dois ou três meses de salário, mas não se importava com isso. Qualquer dinheiro sempre lhe parecia bem gasto se fosse para colocar um sorriso no rosto de Ângela, sobretudo na quinta-feira que se aproximava, data em que completariam dez anos de casados. Era o livro predileto dela, que, por sua vez, já havia desistido de procurá-lo depois que seu exemplar desaparecera ao final de uma comemoração de Ano-Novo no apartamento em que moravam. Desde aquele dia, David passara a perseguir a obra por todo o Brasil, como um investigador que persegue um criminoso, disposto a pagar qualquer preço pela publicação, apenas para ver a esposa feliz e livrar-se da culpa de não estar atento ao sumiço de um bem tão valioso.

Ainda era véspera das bodas de estanho quando tomou o avião em vez de ir trabalhar. Não havia tempo para esperar pela entrega dos Correios. Além disso, precisava certificar-se de que o livreiro não o enganaria. Podia se dar ao luxo de viajar pela manhã e reaparecer à noite sem ser notado, pois a esposa saía antes para a empresa de contabilidade na qual trabalhava e onde, quase sempre, o expediente se prolongava. Seus horários de almoço também não coincidiam. Ele, na agência de propaganda, fazia seu próprio horário, e almoçar não era uma de suas prioridades.

Enquanto aguardava a decolagem, não conteve um sorriso ao imaginar que seria bem mais lógico pegar carona na carroceria de um caminhão, carregando apenas uma mochila velha nas costas. Certamente o faria se pertencesse à geração 
beat. A senhora na poltrona ao lado cochilava e pendia a cabeça para o seu ombro. Bondoso, David nada fez. Permitiu que a sonolenta passageira fosse assim escorada até o seu destino.

Chamou um táxi, estendeu ao motorista o endereço anotado num retalho de papel e recostou-se no banco traseiro para apreciar a paisagem. Não estava preocupado. Conhecia a assinatura do escritor americano, saberia identificar uma falsificação. Pensou na esposa e em tudo que aprendera com ela sobre Literatura durante uma década inteira de convivência.

David conhecera Ângela logo no primeiro ano da faculdade. Cursaram jornalismo e contabilidade, respectivamente. E ele nunca mais deixou de amá-la, embora tivesse consciência de que a recíproca jamais alcançara a mesma medida. No ano passado, na comemoração de nove anos, deu a ela um buquê de rosas e um relógio. Ganhou de volta um 
pack com seis cuecas, as quais passou a usar diuturnamente, alternando as cores de acordo com seu humor. Desta vez, por mais modesto e impensado que fosse o presente de Ângela para ele, iria surpreendê-la com uma prova de amor incontestável, motivo de sua busca por uma cidade desconhecida, a bordo de um táxi velho e barulhento.

Pediu que o motorista aguardasse na porta do sebo enquanto fechava o negócio. Pagou com cartão de débito e recebeu a encomenda embrulhada em papel de seda, acomodada confortavelmente num estojo aveludado. Trocou breves palavras com o livreiro, um senhor franzino e corcunda, que se revelou razoável conhecedor do poeta nova-iorquino. Recitaram, em uníssono, o único verso da obra que ambos sabiam de cor:


Braços estendidos,
mãos espalmadas contra o parapeito da janela,
ela olha para baixo,
pensa em Bartok, Van Gogh
e nas caricaturas do New Yorker.
Ela cai!
Levam-na embora com um Daily News no rosto,
e um lojista joga água quente na calçada.


Faltou pouco para aplaudirem-se mutuamente.


Gregory Corso, em 1989 (foto: Dario Bellini)

David voltou ao táxi e ao aeroporto e à sua cidade e ao seu apartamento. Anoitecia. Como previu, Ângela ainda não chegara. Tratou de esconder o presente no fundo de uma gaveta cheia de cacarecos, onde jamais seria encontrado, nem mesmo pela diarista, que espanava tudo superficialmente duas vezes por semana e lhe cobrava mais de cem reais a cada visita. Precisava trocar de faxineira. Não gostava de superficialidades em nenhum aspecto de sua vida, muito menos em relação à limpeza da casa.

Ângela irrompeu pela porta quase uma hora depois do marido. Largou a bolsa, descalçou os sapatos e perguntou o que havia para comer. David a beijou na boca e sugeriu que ela tomasse um banho enquanto ele providenciaria o jantar. Comeram em silêncio. Ela quis dormir cedo. Ele, no entanto, ficou alerta até o meio da madrugada, ansioso pela manhã seguinte. Sentia-se como uma criança que sabia exatamente a resposta para a indagação que o professor faria na prova oral, aplicada de surpresa no meio da aula.

Quando o sol entrou pela janela do quarto, às seis e meia da manhã, David praticamente não tinha pregado o olho. Não sabia se corria para buscar o livro ou se esperava Ângela despertar. O que Gregory Corso faria em seu lugar? Trouxe o pacote até a cama, escondeu-o debaixo de seu travesseiro.

Ângela se remexeu, resmungou e, sem abrir os olhos, levantou e caminhou na direção do banheiro. Urinou, apertou a descarga, lavou as mãos e o rosto. Não compreendia muito bem o meio-sorriso do marido ao voltar para o quarto; contudo, num providencial lampejo, recordou a data. Apelou para a sinceridade, seguida de um abraço.

– Parabéns pelo nosso dia, amorzinho! Eu não comprei nada porque não tive tempo, você me perdoa, né?

Rápido como um voo de ida e volta ao interior de São Paulo, admirado da própria desfaçatez, ele respondeu:

– Ah, que bom... eu também não comprei nada e fiquei preocupado de você ficar chateada comigo... parabéns pelo nosso dia, amorzão!

Como acontecia todas as manhãs, Ângela se aprontou e saiu antes dele para o escritório de contabilidade. David telefonou para a agência e avisou que chegaria mais tarde. Ligou o notebook ao mesmo tempo em que desembrulhava a raríssima edição compilada de 
Gasolina & Lady Vestal, autografada pelo autor, com prefácio de Allen Ginsberg. Fez algumas fotos com o celular, inclusive da página assinada por Gregory Corso. Publicou o anúncio do livro de poesias em um site de vendas on-line, por uma pechincha equivalente a quatro meses de seu salário. Dane-se a geração beat, pensou sem remorso.
  

09/04/2019

VIAGEM


Laura se aproxima de casa, tira da bolsa a chave da portaria, olha com alguma displicência para o rapaz que vem atravessando a rua e vai entrando no edifício.

– Esqueci a minha chave, posso entrar com você?
– Não sabia que você morava aqui.
– Mundo pequeno, né?

Ela abre a porta e deixa que ele entre.

– De onde eu te conheço?
– Daqui mesmo.
– Não, de outro lugar.
– Da saída da escola, eu acho...
– É isso aí.
– Você não foi à aula hoje?
– Fui ao dentista.

Interrompem a conversa com a chegada do elevador. Laura aperta o sexto e ele apressa-se em apertar o oitavo antes que ela pergunte para qual andar gostaria de ir.

– Arranquei um dente.
– É verdade, o seu lado esquerdo tá meio inchado.
– E dói.
– Imagino... qual é o seu apartamento?
– Por quê?
– Curiosidade.
– The curiosity killed the cat...
– O quê?
– É um ditado inglês.
– Você mora com quem?
– Papai e mamãe.
– Tem namorado?
– A esperança é a última que morre.
– É um ditado inglês também?
– Chegou.
– O quê?
– O meu andar.
– Ah, é...

Laura sai, acena e sorri. Ele acompanha hipnotizado o rastro de seu perfume e o movimento daquele belo par de substanciosas coxas pelo corredor afora.

– Eu te amo! – cochicha para si.

Depois viaja pacientemente até o oitavo andar e aperta o "térreo" para voltar à portaria. Sai do elevador e do prédio, ganhando a rua, olhando de um lado para outro, à procura de um ponto de ônibus.
  

02/04/2019

JURADO DE MORTE


Apesar de não parecer, eu já fui um cara popular e fiz coisas muito legais na vida. No final dos anos 1980, por exemplo, quando ainda tocava em duas bandas de rock, fui convidado para ser jurado do "Garota Bumbum", um concurso que, obviamente, daria um prêmio à menina que tivesse a bunda mais bonita na opinião de especialistas como eu, um ás no nadegário feminino desde a tenra pré-adolescência.

O evento aconteceu num lugar que, naquela época, chamávamos de danceteria (na década anterior seria numa boate e, modernamente, num local indefinido denominado balada). As concorrentes, primeiro em grupo, em seguida uma a uma, atravessavam a passarela usando maiô e máscara 
– sim, máscara, pois o rosto não estava em questão –, davam uma paradinha, de costas para os avaliadores, e voltavam ao camarim.

Havia dez candidatas inscritas. Logo no desfile geral, ficou relativamente claro que uma moreninha, baixinha, quase maior de idade, tinha uma daquelas bundas perfeitinhas, irretocáveis, tanto no desenho quanto na textura. Era de fato um bumbum que uma rapariga só consegue ostentar entre os dezesseis e os dezenove anos (depois, nunca mais). Ganhou nota máxima de todos os membros eretos do júri, lógico.


A segunda colocada, sob vaias do mulherio presente, foi uma bunda no melhor estilo tanajura: protuberante, hipnotizante, mas absolutamente firme e bronzeada. Levou nota nove e meio, também por unanimidade. Já o terceiro lugar, um traseiro apenas aceitável, pouco tonificado, passaria batido em qualquer praia do país, não fosse por um aspecto intrigante: aquelas nádegas estavam me parecendo familiares.

Ao cair das máscaras, na entrega dos prêmios, minhas suspeitas se confirmaram. A terceira classificada era uma guria que estudava comigo, cujo bumbum eu costumava apreciar na Educação Física. De quebra, fora o orgulho pela memória fotográfica, um garçom veio me entregar um bilhete com o telefone da vencedora. De próprio punho, ela escreveu que, dentre todos os jurados, eu tinha a bundinha mais gostosa.
    

26/03/2019

O CRIME DO FLUSS AZUL ATIVO


Lá na empresa têm acontecido umas coisas estranhas. Estranhamente, eu tenho recebido menos do que gostaria e trabalhado além do recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Mas não é disso que quero falar. O caso mais recente envolveu o bastão sanitário (aquele que fica numa cestinha e deixa a água azulada) do banheiro masculino. Um grande mistério, solucionado por mim na última semana.

Algum marmanjo do nosso setor, aparentemente por medo, nojo, convicção religiosa ou trauma de infância, quando ia fazer xixi, retirava a cestinha com o refil e a colocava no chão, ao lado da privada. A nossa dedicada faxineira, dona Gertrudes, na maior boa vontade, ao reparar, limpava o piso manchado e punha de volta o "cheirinho" na borda do bacio. Às vezes, no mesmo expediente ou, no máximo, no dia seguinte, estava o troço no chão de novo, sempre na mesma posição.

Cogitou-se, em reunião com a diretoria, instalar uma câmera oculta no toalete, só que o pessoal da empresa de vigilância já foi avisando que cobraria 50% a mais para fazer esse tipo de monitoramento. Então, a solução imediata foi redobrar a atenção no entra e sai de frequentadores com excesso de água no joelho, se é que o leitor me entende.

Histórias acerca do desodorizador higiênico eu conhecia muitas, como a de uma amiga de Porto Alegre, cujo vaso cheirava a urina diuturnamente, sem que ela conseguisse imaginar o motivo, pois vivia colocando pedras e bastões sanitários no entorno da cerâmica. Até o instante em que entrou de supetão no banheiro e flagrou o namorado mijando, mirando na cestinha e comemorando, entusiasmado e sacolejante, a cada acerto no fragrante alvo.

Mas igual ao caso da empresa eu nunca ouvira falar. Entretanto, o tal segredo (que se estendia por quase três meses) foi desvendado meio sem querer, no dia em que fui à cozinha buscar um copo d'água. Dona Gertrudes, uma senhora alemã, que havia sido governanta de Salvador Allende antes de vir para o Brasil, esquecera sua garrafa térmica particular aberta sobre a pia. O aroma era inconfundível, não deixava dúvidas: tratava-se do famoso "café dos Andes", preparado com 50ml de leite condensado, 100ml de creme de leite, 200ml de café espresso, 50ml de vinho do porto e 20ml de conhaque, no qual os ingredientes devem ser batidos no liquidificador, menos o conhaque, que vai por último, por cima, flambado diretamente na taça ou caneca. Anotaram?

Eis o que eu queria revelar: a velha faxineira, após o desjejum reforçado, retirava o acessório com o refil todas as manhãs para limpar a privada e esquecia de recolocá-lo no lugar. Mais tarde, novamente sóbria, parava na porta do setor, botava as duas mãos na cintura e esbravejava com seu carregado sotaque germânico:

– Eu quererrr saberrr quem foi o desgraçada que tirou o porra do cestinha da badezimmer outrrra vez!
  

19/03/2019

FOME DE QUÊ?


Em priscas eras, namorei uma menina, glutona incorrigível, da alta sociedade. Isso faz um tempinho, claro. Algumas coisas só me aconteciam quando eu ainda não havia crescido e amadurecido. Era uma dessas patricinhas que se vestem de cor-de-rosa, do celular aos sapatos, e que já tem carro, guarda-costas e cartão de crédito antes mesmo de completar dezoito anos. Foi graças a ela 
– e à sua insaciável obsessão gastronômica – que aprendi as diferenças entre tainha e salmão, sidra e champanhe, berbigão e ostra, bolacha recheada e alfajor, lámen e rigatone, prato feito e à francesa. Frequentei restaurantes caríssimos, bistrôs chiquérrimos e outras tantas biroscas de gente rica, mesmo não tendo dinheiro nem para a gorjeta e nem para o sal de fruta.

Até hoje não sei o que aquela rapariga viu em mim. Não tínhamos assuntos em comum, não gostávamos dos mesmos filmes nem das mesmas músicas, seus pais não aprovavam o meu cabelo comprido e, a bem da verdade, ela era meio mal diagramada pela natureza e não sabia beijar direito. Seus lábios eram finos, secos, rígidos demais. Era como tentar abrir a concha de um mexilhão com a língua, dá para imaginar?


Mas nada disso agora tem grande importância. Foram diversos almoços e jantares na cobertura em que a família morava. Experimentei desde caviar e lagosta até tâmaras e nêsperas (que nada mais são do que as nossas ameixas amarelas), de molho béarnaise a crème brûlée, além de croque-monsieur, croque-madame, profiteroles e outros milhares de acepipes – preparados pela cozinheira particular – a fim de preencher os curtos intervalos entre as nababescas refeições.

Um ano e meio depois, com o fim do namoro, ainda custei um pouco a perder parte dos quinze quilos que ganhei durante o empanzinante romance. Mais ou menos na mesma época, os meus amigos, finalmente, deixaram de me chamar de Fat Ken. Então a vida continuou, porém, com o perdão do trocadilho, não voltou a ter o mesmo sabor. Às vezes lembro daqueles momentos culinários com alguma nostalgia, geralmente quando meu estômago começa a roncar. E sempre que penso na dondoquinha, com suas roupas cafonas, bolsas peludas, joias caríssimas, sobrancelhas tatuadas, gordurinhas localizadas e seu apetite descomunal, sinto uma vontade incontrolável de comer, sem nenhuma frescura, um pratarrão de macarrão com salsicha.

  


     

26/02/2019

PRECIPITAÇÕES PLUVIOMÉTRICAS


Acordo com os pingos na vidraça. Chego perto da janela e levo ainda alguns minutos para decifrar a paisagem por detrás da tarde gris. Abro e fecho os olhos um par de vezes até despertar do cochilo fora de hora e lembrar exatamente onde estou e o que pretendo fazer da minha vida: em Joinville – a maior cidade de Santa Catarina, colonizada por alemães, suíços e noruegueses em 9 de março de 1851 –, num quarto de hotel, à procura de paz ou de um apartamento virado para o sol nascente, o que me surgir primeiro.

Já devia ter visitado alguns imóveis e desbravado alguns bairros, assim como planejava (e não me mexi) conhecer o parque zoobotânico, a rua com palmeiras dos dois lados, o museu dos imigrantes, a escola de dança, a estação ferroviária, o campo de futebol, um ou outro museu, uma ou outra feira e o portal de exposições. A chuva, entretanto, não tem permitido. Às vezes desço para o café, motivado por uma nesga de céu azul, que logo se fecha e dá lugar ao aguaceiro e ao vento, antes mesmo do fim da primeira xícara.

No mapa do município, desdobrado em cima do criado-mudo faz dias, permanecem assinaladas as recomendações de parentes e amigos: duas pastelarias, shoppings, empadinhas de massa folhada, um mirante, uma baía com nome indígena, passeio de barco, uma fábrica de cerveja desativada, uma trilha ecológica, casas em estilo enxaimel e o Instituto Internacional Juarez Machado. Tempestades inoportunas e de humor variável, porém, fizeram com que eu não me aproximasse de nenhum desses pontos até agora.


A filha da chuva por incompetência do sol
(Juarez Machado, 2015)

Do pintor e escultor Juarez Machado, aliás, conheci por fotografia, antes de vir, uma obra batizada de Joinville, a "filha da chuva" por incompetência do sol, sobre a qual o próprio artista pondera que esta não é uma cidade de flores nem de bicicletas: é uma cidade de chuvas. Tendo a concordar com ele. Mar já não digo, mas quede sol? Como podem 600 mil pessoas, espargidas em mil e poucos quilômetros quadrados, conviver diuturnamente com borrascas de toda sorte, feito filme de suspense? Não uso guarda-chuva – apesar de apreciar mulheres de sombrinha armada –, não gosto de me molhar nem de saltar poças d'água, então, consideraria viver onde o céu se abre apenas durante quinze dias a cada mês?

Pois quase encosto o rosto na vidraça, a fim de incorporar a paisagem úmida e cinzenta. Meu quarto de hotel tem a fragrância da última xícara de café que pedi antes de cochilar e que acabei não tomando. Calço o 
All Star, pego um casaco e desço para a rua, pouco me importando com o estado do tempo e das coisas. Não existe dilúvio que não se possa atravessar nem gota de orvalho que nunca se evapore. Vou ficando. Vou ficar. Encharcar meus pés na água da chuva com tudo, como quem não quer nada, está decidido.
  

12/02/2019

SAPIÊNCIA


O seu Dadá é o faxineiro da agência de propaganda. Um velhinho bastante folclórico e divertido, sempre com uma boa história para contar ou um sábio conselho para ofertar aos mais jovens. Quando desanda a falar, declamando causos em carregado sotaque interiorano, incrementado por gestos e caretas, o avoengo serviçal interrompe a limpeza e ninguém sabe em que momento ele irá retomá-la. No último bate-papo com o pessoal do setor de criação, não houve quem não marcasse no relógio: entre um caso e outro, foram 45 minutos só para espanar a poeira de uma persiana horizontal.

Hoje o seu Dadá contou de quando pediu a mão da esposa em casamento. Disse que não foi difícil, pois antigamente as coisas eram bem mais simples, numa época em que a palavra de um homem tinha realmente valor. Ele prometeu a ela apenas duas coisas: que não deixaria faltar nada em casa e que jamais olharia para outra mulher. Orgulhoso, confirmou diante de meia empresa atenta que, de sua parte, o combinado se cumprira.

Enquanto o seu Dadá falava, não pude deixar de imaginar a vida daqui a vinte ou trinta anos, mas passei longe de conseguir me ver assim tão animado e cheio de sabedoria. O que eu poderia ensinar de útil à próxima geração de funcionários do meu setor? No máximo, daria uns conselhos sem importância, como: "lembrem-se que bebida láctea não é iogurte" ou "pratiquem sodomia, preferencialmente, com as vegetarianas", e mais nada. 
Quanto aos compromissos assumidos às vésperas de um matrimônio, em meio às desilusões e aos descaminhos dos tempos modernos, talvez eu prometesse não deixar a tampa da privada levantada ou olhar para outras mulheres apenas de canto de olho, com muita discrição.

Em comum com o ancião da limpeza, no futuro, provavelmente, terei somente o fato de precisar fazer um bico de faxineiro para complementar a renda da aposentadoria.

Com a cabeça já não tão longe, aterrissei dos meus devaneios quando me cutucaram para cobrar um anúncio 
atrasado. Antes de seguir (a passos lentos) para varrer a sala da diretoria, empunhando sua inseparável piaçava, o seu Dadá ainda anotou caprichadamente num pedaço de papel, para quem quisesse copiar, a sua receita caseira de desinfetante para banheiros.
  

05/02/2019

DO ABASTECIMENTO DE GÁS NOS CONDOMÍNIOS


O Oscarzinho não saía lá de casa. Como o nosso apartamento ficava no caminho para a escola 
– e ele não tinha irmãos para brincar –, dava sempre um jeito de chegar mais cedo, só para matar um tempinho antes de o primeiro sinal bater. E mesmo depois das aulas, nos dias em que havia Educação Física ou reunião do grêmio estudantil, aproveitava para filar um almoço e esticar a diversão até o fim da tarde. Bons tempos aqueles da oitava série, último ano do ensino fundamental, ainda na primeira metade da década de 1980.

Mamãe vivia de cabelos em pé quando o Oscarzinho estava por perto. Sem nenhuma habilidade para o futebol, por exemplo, toda vez que chutava uma bola nas nossas disputas de "gol a gol" no corredor, era batata que acertaria uma estatueta, um quadro, um porta-retratos ou um abajur. Por isso, tínhamos sempre Superbonder à mão, para socorrê-lo nos momentos de tragédia anunciada.

Na cozinha, também era um desastre. Até para preparar um simples lanche, antes de estudar para alguma prova, ele arranjava confusão. Nós nunca fomos capazes de explicar à minha mãe – a quem ele chamava carinhosamente de "tia" – como o Oscarzinho foi capaz de derrubar uma lata de Nescau dentro de uma jarra de suco de laranja. A cor ficou bisonha, mas o gosto acabou agradando aos mais exigentes paladares da nossa turma.

Daquela época de inocência, dentre todas as histórias que envolviam o Oscarzinho, a melhor continua sendo a do fornecedor de gás. É que não havia gás central no condomínio, então, uma vez por mês, o caminhão da companhia distribuidora estacionava na calçada e oferecia o produto recarregado aos moradores interessados.

Certa vez, a encomenda estava demorando a chegar, já fazia quinze minutos que o zelador avisara pelo interfone que o entregador estava subindo. Mamãe pediu ao Oscarzinho para abrir a porta e verificar o porquê do atraso. A poucos metros do nosso apartamento, perto do elevador em manutenção, o moço uniformizado, suado e ofegante, largara o botijão e sentara-se sobre ele para descansar um pouco, após avançar cinco andares pelas escadas. O meu amigo não teve dúvidas, depois de olhar lá fora, botou de novo a cabeça para dentro e gritou na direção da cozinha:

– Peraí, tia... o homem ainda tá enchendo o bujão!
  

22/01/2019

TECNOLOGIA


Eu estava de saída para ir ao shopping, mas antes resolvi tentar (mais uma vez) ligar para a operadora de tevê a cabo. O novo plano do condomínio custava metade do preço, portanto, não havia motivo para eu continuar pagando individualmente pelo mesmo pacote de canais.


Nas últimas duas semanas foram dez ligações e nada: ou o sistema estava fora do ar ou os atendentes eram meio retardados ou, simplesmente, desligavam na minha cara quando ouviam a palavra "desconexão". Não que agora eu tivesse alguma esperança de alcançar o objetivo, só queria aproveitar o meu primeiro dia de férias, que é quando a minha inesgotável paciência ainda não se esgotou totalmente.

– Bom dia, senhor! Em que posso estar lhe ajudando?
– Quero cancelar a minha tevê a cabo, será que é pedir demais?
– Ah, mas eu estou vendo aqui que o senhor é um cliente muito antigo...
– E daí, qual é a vantagem?
– Nenhuma, senhor, apenas verifiquei que sua assinatura é antiga.
– E eu por acaso te pedi pra verificar alguma coisa? Fica na tua, pô!


Respirei, contei até dez e saí de casa para um passeio ao shopping, como havia planejado. Precisava urgentemente trocar o meu celular, que já andava meio acabado, praticamente morto (ao contrário do que sugeria o nome da operadora, se é que me entendem), todo arranhado, com a tela sem sensibilidade e a qualidade de ligação cada vez pior.

Olhei a vitrine com toda a calma do mundo. Certifiquei-me de que a maioria daquelas geringonças modernas fazia também chamadas de um telefone para outro, além de enviar mensagens, tirar fotos, tocar músicas, conectar-se à internet e até, dependendo do preço, beijar na boca. Decidido, chamei o vendedor e apontei para um smartphone que me sairia de graça.

– É esse que eu quero.
– O senhor já conhece o modelo?
– Já conheço, sim... não tem custo, né?
– Sem nenhum custo, senhor.
– Tá bom, vou levar.
– Ivete Sangalo, Jota Quest ou Anitta?
– Acho que o Kiko Zambianchi faz mais o meu estilo.
– Não, não... é que o senhor tem de optar por um dos três modelos, pois os aparelhos já vêm com músicas, fotos e vídeos do seu artista favorito.
– Cruzes! Então não quero nem de graça... me vê aquele outro ali.
  

15/01/2019

COISAS DE CASAL


Sexta-feira abafada de fim de primavera, depois de uma semana daquelas, mais ou menos nove da noite, eu já de pijama, ar-condicionado ligado no modo glacial, apenas esperando o entregador da pizzaria. Ela chega da rua, elétrica, ofegante, e, antes mesmo de fechar a porta, faz a proposta indecente:

– Amorzinho, mais tarde vai ter churrasco do pessoal do meu trabalho, lá na casa da Dandara e do Rajesh, vamos?
– Hummm... o casal de maconheiros?
– Ah, eles só fumam no fim da festa, aí a gente vem embora.
– Sei...
– Só temos que levar cerveja.
– Mas eu nem bebo, pô! Quem mais vai?
– Ah, vão os meus amigos do Insta...
– Hummm... aqueles que você nem conhece pessoalmente?
– Pois é, vou conhecer hoje! Os meus primos, o Cecê e o Beto Caroteno, também vão... e a Maria do Socorro, aquela da Igreja do Evangelho Disforme, também disse que vai.
– Hummm... não foi essa que deu pro seu ex-namorado?
– Ah, são águas passadas, amorzinho, agora eu tô com você... vamos?
– Faz assim, benzinho: você pega o nosso carro, vai lá, faz um social, come, bebe e volta na hora que você quiser, enquanto eu fico aqui vendo Mirassol e Catanduvense pela Rede Vida, que tal?
– Ah, se você não for eu não vou.
– Vai, sim... você se diverte lá com as filhas da Baby Consuelo e o Exército de Brancaleone que eu me divirto aqui tomando Nescauzinho com pizza.
– Mas, amorzinho...

Por ventura, soa a campainha. Levanto do sofá em busca das minhas Havaianas e do dinheiro para a encomenda. Pego a caixa sextavada gigante e, antes mesmo de eu abri-la, ela faz cara de choro. Agora bem menos entusiasmada, resmunga baixinho:

– Quais são os sabores?
– Meia atum acebolado, meia coração de frango.
– Você não pediu de rúcula com tomate seco?
– Hummm... não.
– Ah, eu sabia que isso ia acontecer um dia...
– Isso o quê?
– Você não me ama mais.


08/01/2019

CALLING DR. LOVE


Apesar de tudo, creio que não sei muito sobre amor. Mesmo tendo vivido mais casos e romances, passado por mais experiências, atravessado mais décadas do que a maioria das pessoas; mesmo que eu conheça mais palavras para expressar sentimentos – e saiba expressá-los de fato – além da média vocabular dos habitantes dos países de Língua Portuguesa; ainda assim, mesmo que vários me considerem um ás no amor e na arte da conquista, só sei que nada sei.

Digo isso porque, dias atrás, recebi um e-mail de uma leitora que me pedia conselhos sobre os relacionamentos e suas várias variáveis. Ela começou a missiva digital com uma pergunta bem simples, bem direta: "O amor existe?" E eu, obviamente, entrei em pânico. Achei melhor não mentir, apenas florear, aumentar, disfarçar e, em último caso, inventar.

O que dizer quando sempre se gostou mais do que se foi gostado? A única certeza, tanto na visão de quem entra quanto na visão de quem sai, é que o amor existe, sim. E se manifesta das formas mais inusitadas: como em um posto de pedágio, quando você pede moedas à moça ao seu lado, no banco do carona; como em um passeio público, ao avistar uma conhecida – por quem você nutria uma discretíssima simpatia – vindo no sentido contrário; ou como na festa junina da escola do bairro, na qual a professora (que também é sua vizinha) aparece vestida de prenda e coordena com pulso firme a barraca do beijo.

Desconsiderando a parte da fantasia, o normal, na minha modesta opinião, é a gente amar solitariamente, às vezes platonicamente, e sofrer e se frustrar um monte. Vá lá, cedo ou tarde as coisas se encaixam e alguém nos corresponderá quase na mesma medida. Entretanto, como isso pode ocorrer uma única vez na vida, é preciso estar atento e forte. Eu chutaria que o amor verdadeiro surge entre os 25 e os 40 anos de idade, mais ou menos. Antes disso é entusiasmo, e depois, quando passamos a nos contentar com pouco, é carência. Em resumo: o amor é unilateral. Reciprocidade ajuda, mas a regra é não existir "toma lá, dá cá", lamento.

E atração, paixão, química? Química já é outra coisa, não tem nada a ver com amor. Química é um encaixe de pele, totalmente físico. Amor é um sentimento cerebral. Daí as meninas acharem que ainda amam os primeiros namorados ou os homens fugirem com suas amantes. Após uns meses, quando o sexo fica monótono, não sobra nadica de nada.

Importante mesmo é juntar subsídios para comparação. Só dá para saber se amávamos para valer se, depois do terceiro ou quarto romance, continuamos com a impressão de que o primeiro era disparado o melhor de todos. Claro, sempre levando em conta que amamos sozinhos, por nossa conta e risco. Aquele nosso caso antigo 
– ficante, noivo(a), amante – também pode considerar, depois de três ou quatro amores, que fomos uma grandíssima perda de tempo. Cruel, não?
  

01/01/2019

MICO MEU


Alguns episódios da minha infância eu não consigo esquecer. Nada grave, são aquelas pequenas histórias que, no fim das contas, não me provocaram maiores danos materiais ou psicológicos. O problema é que, q
uando eu acho que já recordei todos os casos infelizes da minha época de criança, sempre acabo lembrando de mais algum. Não foram melhores nem piores do que as tolices que eu cometo hoje em dia, apenas estavam muito bem guardados nos anais empoeirados da minha memória e acabam voltando à tona sempre que me acontece uma situação semelhante ou quando não tenho coisa melhor para resgatar daquele passado de outrora.

Cronologicamente, a primeira que aprontei foi ainda na pré-escola. No colégio de freiras em que eu estudava, os banheiros ficavam dentro das salas de aula, como se fossem suítes. Faltando dois minutos para o recreio, precisei fazer xixi. Quando voltei, com mais vontade de brincar no parquinho do que de comer o meu lanche, não encontrei ninguém. A turma toda havia saído para o intervalo e a professora, que em nenhum momento sentira a minha falta, tinha chaveado a porta.


No mesmo colégio, houve uma fase em que os banheiros não eram totalmente separados para meninos e meninas. A pia era comum a ambos, mas havia duas portas, uma azul e uma cor-de-rosa, cada uma com uma privada. No dia em que fui acometido de uma baita dor de barriga, desafortunadamente, o compartimento masculino estava ocupado. Foi de dentro da "casinha" rosada, entre uma aula e outra, que ouvi o banheiro se encher de meninas, todas fazendo fila para usar o vaso sanitário a elas destinado.

Ano seguinte, já no primário, o uniforme mudara. Em vez de camiseta vermelha e jardineira, passamos a usar camisa branca e calça azul-marinho. Era desconfortável, só que não o suficiente para me impedir de subir na amoreira que ficava nos fundos do quintal da escola, antes que meus pais viessem me buscar. A noviça que cuidava do portão sempre perguntava se eu andava roubando amoras, mas eu sempre negava, apesar da camisa manchada de roxo e das folhas nos cabelos.

Na terceira série, aconteceram duas tragédias, praticamente na mesma época. Para impressionar uma menina que estudava na minha turma, ingressei na banda marcial. Estava tudo acertado para eu tocar bumbo nos desfiles do dia 7 de setembro. Logo no primeiro ensaio, quando agachei para pegar meu instrumento, a calça de tergal descosturou bem na bunda, do cós ao gavião. Tive de ensaiar uma tarde inteira com o casaco do uniforme enrolado na cintura.

Ainda apaixonado pela rapariga que me fizera entrar para a fanfarra, resolvi demonstrar mais claramente todo o amor 
– 
de uma década de vida – que eu sentia por ela. Arranquei um pedacinho de uma das folhas do caderno, escrevi em garranchos um "gosto muito de você", dobrei bem e estendi o papelzinho à minha musa. Ela abriu, leu, releu, suspirou e não teve dúvidas: levantou de sua carteira e correu para entregar o bilhete à professora.

Na quarta série, em determinado momento do final da década de 1970, era moda os meninos colecionarem figurinhas. Tendo preenchido os álbuns do Super-Homem e do King-Kong, chegara a vez dos Futebol Cards, uns cromos com fotos de jogadores do Campeonato Brasileiro que vinham dentro da embalagem do chiclete Ping-Pong. Eu jamais largava as minhas figurinhas, ao ponto de, com medo de ser roubado, guardá-las dentro da cueca durante a aula de Educação Física. Numa tarde de vento forte, logo no aquecimento, no primeiro polichinelo, voaram todas pelo pátio. Não sobrou uma para contar a história.


Das últimas que me lembro, quando eu já não me sentia mais tão criança, aconteceu nas férias de verão. Minha mãe pegou a calça do meu agasalho de praticar esportes e transformou numa bermuda. Cortou as duas pernas na altura do joelho e refez a bainha. Orgulhoso, vesti a nova peça e saí para uma volta pelo bairro, onde absolutamente todos que cruzaram o meu caminho olharam para o extravagante calção. Devem ter reparado, antes de mim, que uma perna era bem mais curta do que a outra.

Depois da escola, no playground do meu prédio, a pirralhada recém-apresentada à pré-adolescência costumava brincar de "casamento atrás da porta", um antigo jogo no qual um dos participantes, com os olhos vendados, escolhia, entre os restantes, alguém para dar um aperto de mão, um abraço, um beijo no rosto ou um beijo na boca. A menina mais velha era sempre a mais cobiçada por todos. Na minha vez, quando tive a sorte de ser escolhido, ela foi taxativa: "Vai ser no rosto, porque eu não beijo menino de aparelho".

Antes de entrar em definitivo na vida adulta, ainda teve uma boa, dessa vez no colégio de padres em que concluí meus estudos. Um professor faltou e não havia ninguém para substituí-lo, então fomos dispensados até a aula seguinte, incluindo o recreio. As meninas foram jogar vôlei; os meninos, futebol. Como eu usava um Rainha Yatch, extinto modelo de tênis sem cadarço que voava longe cada vez que eu dava um chute na bola, troquei o pé direito pelo All Star de um amigo canhoto. Mais tarde, após quarenta minutos de pelada, soou o sinal, anunciando a hora do intervalo. A turma toda debandou, cada um para um lado. Eu também, usando um pé de cada tênis.


Hoje eu já não pago mais micos. A inocência se foi. Tenho evoluído bastante desde que saí da escola. De lá para cá, não apronto quase nada que mereça ser contado numa crônica, muito pelo contrário. As bobagens que eu cometo sem parar, mesmo as mais engraçadinhas, são incomensuráveis. Normalmente, geram algum tipo de ônus para o meu ânus. Além disso, não fazem rir como as estripulias daquela época. Essas de agora eu nem conto, pois são de chorar.