18/12/2018

LÍNGUA NOS DENTES

 
O guri estava sempre na calçada em frente ao nosso prédio. Minha mãe entrava ou saía, sozinha ou com os filhos – eu e meu irmão –, e ele fazia plantão. Pela manhã, à tarde e até certa hora da noite, perambulava pela quadra, brincava solitário com algum carrinho de plástico esquecido ou simplesmente chutava pedregulhos de um lado a outro da rua.

Regulava em idade conosco, devia ter uns oito ou nove anos, mas era mais magro e franzino, queimado de sol, cabelos sem corte. Reparávamos no short desbotado e na camiseta listrada com alguns furos, usados diuturnamente. Muito simpático, sorria sempre, porém, nunca dizia nada. "Não tens mãe? Não tens família?", mamãe perguntava e ele não respondia.

Quando íamos à padaria, voltávamos com alguns pães a mais, às vezes com um sonho ou bolo. Nos revezávamos para estender o embrulho até que seus dedinhos de unhas sujas agarrassem o presente com firmeza. Mostrava os dentes e meneava a cabeça, sem dizer palavra. "Acho que ele é mudo", eu arriscava. E minha mãe me mandava calar a boca.

Na semana em que o general Figueiredo visitava a cidade, o guri sumiu por uns dias. Isso era novembro de 1979. Havia tropas e policiais à beça nas ruas, estudantes em marcha e um clima de iminente revolução. Achamos que poderia ter sido levado para algum abrigo ou que talvez tivesse um lar como o nosso, com mãe, irmãos, comida farta e boas roupas.

Depois reapareceu. Quando saí do prédio para comprar um cachorro-quente na praça, cruzei com ele. Comi o meu ao lado do carrinho, numa esquina próxima, e pedi outro para viagem. Também separamos as roupas que não usávamos mais e as repassamos ao moleque. Na manhã seguinte, já se apresentava com calção menos puído e camiseta sem rasgos.

Em conferência, no quarto do meu irmão menor, ficou decidido que convidaríamos o mascote para subir e tomar um café conosco, à mesa, como se fizesse parte da família. Minha mãe voltava do supermercado e fez o alerta: "Amanhã, às cinco da tarde, venho te buscar pra tomar um café lá em cima com a gente". Ele sorriu de orelha a orelha, mudo como sempre.

No fim do dia seguinte, o piá estava sentado nos degraus da portaria. Banho tomado, cabelos penteados, calça jeans e uma camisa quase nova. Ao lado dele, mais quatro crianças, de idades e cores variadas, todas igualmente arrumadinhas, prontas para fazer uma refeição em nossa casa. "Eu convidei só tu, seu linguarudo!", foi como mamãe o dispensou.

Tivemos de chamar a polícia a certa altura. Aquela pequena gangue de esfomeados passou a atirar pedras nas janelas do apartamento, que não ficava num andar alto. Ainda rondaram a vizinhança por um tempo, até sumirem de vez, o guri entre eles. Nós também acabamos mudando de bairro. E nunca mais oferecemos café a nenhum desconhecido.
  

11/12/2018

TRÊS CHEGADAS

 
Vinha no avião pensando sobre a chegada. Deixara Salvador sem remorso, disposta a mudar de vida, de bairro, de cidade, de estado. E contava apenas com o homem que a esperava em Curitiba. Estaria mesmo esperando? Duvidou por um instante, ainda que não pudesse fazer mais nada. Pedira demissão do emprego, doara algumas roupas, ofendera pela última vez cada um dos muitos parentes dos quais não gostava e despedira-se definitivamente de alguns poucos que não desgostava totalmente. Agora, passava ilesa por uma turbulência leve, enquanto catava os farelos no fundo do saco de batatinhas fritas oferecido pela companhia aérea.

Recolheu a bagagem na esteira e caminhou elegantemente pelo corredor de desembarque. Abriu a bolsa e ligou o celular. Distraiu-se verificando se havia algum recado na caixa de mensagens e tropeçou na barra da própria saia. Tombou de joelhos, chocando o rosto contra a catraca de controle de saída. Um baque agudo, dolorido. Não imaginava de onde vinha o sangue que lhe escorria pelo nariz e não tinha certeza se os dois dentes caídos no piso eram seus ou se já estavam ali antes. Perdeu a consciência. E quando voltou a si, viu-se amarrada a uma maca, que deslizava pelo saguão na direção da saída de emergência, guiada por quatro socorristas uniformizados. Continuava tonta, a ponto de esquecer onde estava e o que viera fazer naquele lugar. O homem permanecia na sala de espera, conforme combinado. Depois de meia hora, entretanto, concluiu que ela não embarcara na capital baiana, que desistira da aventura sem ao menos tê-lo conhecido. Partiu desolado.

Mentira.

Nem pensou na bagagem, uma mala média somente, que passeava solitária pela esteira. Esgueirou-se por uma saída lateral, a procura de uma passagem alternativa ao portão de desembarque. Queria ver com que expressão ele a esperava. Aliás, queria ver as feições do homem ao vivo, pois conheciam-se apenas por fotografias. Em meio às suas divagações, perdeu-se no labirinto de corredores. Não fazia ideia de como fora desembocar no estacionamento, pouco iluminado àquela hora da noite. Tentou voltar pelo mesmo caminho, mas foi abordada por dois estranhos. Um deles apontou-lhe uma arma, enquanto o outro já a asfixiava com um lenço embebido em clorofórmio. Inconsciente, foi arrastada e jogada no porta-malas de um carro. O homem com o qual pretendia se encontrar permanecia na sala de espera. Depois de trinta minutos, porém, desistiu de aguardar. Concluiu que ela optara por não embarcar. E nunca mais soube de seu paradeiro.

Mentira.

Recolheu sua bagagem na esteira e caminhou elegantemente pelo corredor de desembarque. Nem cogitou abrir a bolsa e tirar o celular do "modo avião". Queria apenas que ele a estivesse esperando, talvez com um buquê de flores-do-campo nas mãos, para marcar seu renascimento em terras paranaenses. Olhou de um lado e outro do saguão, até reconhecer seu homem, exatamente como aquele que aparecia nas fotos trocadas ao longo de meses. Não havia flores, mas havia um sorriso em seu rosto, e isso bastou para ela. Quando pararam frente a frente, foi ele que não se conteve:

– Caralhos me mordam! Você é muito mais bonita pessoalmente.
  

04/12/2018

A SECRETÁRIA DO DR. PACHECO


A secretária do doutor Pacheco pediu para sair mais cedo naquela tarde. Quarta-feira era sempre um dia de pouco movimento no consultório, por isso o doutor Pacheco não se opôs. Ela trabalhava há quase dez anos para ele, jamais faltara ou chegara atrasada ao trabalho, e apesar de ser também a primeira vez que pedia dispensa antes do fim do expediente, o afabilíssimo clínico geral não lhe exigiu nenhuma justificativa.

Depois que a sua fiel funcionária se foi, por volta das dezesseis horas, o doutor Pacheco encheu um copo plástico com o café que sobrara na garrafa térmica e folheou a agenda de consultas. Tinha um paciente em seguida – já na sala de espera, para o horário das dezesseis e trinta – e somente um outro, para as dezessete e quarenta e cinco. Sabia que o próximo atendimento seria rápido, pois se tratava de um caso clássico de "mijacão", uma espécie de abcesso na sola dos pés, causado pelo contato com a urina dos equinos, muito comum em cidades interioranas como aquela. Nada que uma pequena incisão, uma pomada cicatrizante e uma bandagem protetora não resolvessem. Então, como não pretendia passar mais uma hora e meia no consultório vazio, resolveu ligar para o último paciente e remarcar a consulta para o dia seguinte.
 


O doutor Pacheco era o único médico do pequeno município de trinta mil habitantes. Atendia pela manhã no posto de saúde da prefeitura e, à tarde, em seu estabelecimento particular. Era casado havia mais de vinte anos e tinha um casal de filhos, ambos estudantes de medicina em uma conceituada universidade da capital do estado. Morava apenas com a mulher em um bairro nobre, na casa que estampara a capa da edição de aniversário da revista 
Medicina & Decoração. Homem de hábitos simples, dormia cedo, acordava cedo, cultivava um bigode e alguns bonsais, frequentava o clube de bocha, bebia Campari e não abria mão de usar cuecas samba-canção, pois os modelos tradicionais, justos e com elásticos nas pernas, pressionavam seus testículos e lhe provocavam insuportáveis cefaleias.

Naquele fim de tarde, portanto, livre de qualquer compromisso profissional, o doutor Pacheco passou no maior supermercado da região e comprou ingredientes para preparar um jantar para a esposa. Depois de tanto tempo, estava certo de que ainda conseguiria impressioná-la com seus dotes culinários.

Abriu o portão automático da garagem, estacionou o carro, apertou a buzina – como fazia sempre ao chegar do trabalho – e esperou o portão fechar. Retirou as sacolas com as compras do porta-malas, acionou as travas e o alarme, constatou que os pneus dianteiros precisavam de calibragem, recolheu a correspondência e foi entrando pela porta da frente. Ao mesmo tempo, nos fundos do quintal, a secretária do doutor Pacheco pulava o muro que dava para um manguezal.