30/01/2020

O DIA DA SAUDADE


Não é feriado, mas bem que podia ser. Dia 30 de janeiro é mesmo o dia da saudade e pouca gente sabe disso. Eu comemoro desde os dez anos de idade, quando ouvi pela primeira vez Raul Seixas a recitar: "Hoje é o feriado do dia da saudade, onde todo mundo chora, canta e conta coisas tristes".

Nunca encontrei quem quisesse celebrar a data comigo. Então, a minha nostalgia ficava incubada até o ano seguinte, e eu não desgostava. Ficava saudoso, mais pelos fatos do que pelas pessoas, como uma música em tom menor que não sai da cabeça.

Dizem que não há palavra equivalente em outra língua, mas creio que o sentimento é universal: te extraño, I miss you, dá no mesmo. A saudade, nos dicionários, é tratada como uma lembrança nostálgica e suave, mas não sei, não. Ela às vezes pesa, dói, angustia, faz cócegas, muda o rumo. Tudo bem, na maior parte do tempo é suave, sim.

Gilberto Freyre escreveu que a saudade do passado, aliada à fé no futuro, é o que faz o mundo andar para a frente. Como a falta que eu sinto das coisas e dos amigos de antigamente é maior do que a minha crença em dias melhores, não acharia má ideia que a Terra girasse ao contrário de vez em quando. Já pensou, chegar bem pertinho de reviver seus melhores momentos em vez de apenas guardá-los na memória?

Saudade existe para a gente não esquecer o primeiro beijo, os almoços de domingo, o pátio do colégio. O tombo, a professorinha, a comunhão. A última vez em que não faltou ninguém à mesa, o quarto azul, o quarto rosa, o momento exato em que a bicicleta não precisou mais das rodinhas de apoio.

Saudade diminui a distância entre quem fomos e no que nos transformamos; dá o empurrão nas costas e o passo atrás, simultaneamente; separa o porto seguro do momento seguinte, quando começa a agir sem piedade, sobretudo nos fins de caso. "Creio que será permitido guardar uma leve tristeza e também uma boa lembrança; que não será proibido confessar que, às vezes, se tem saudade", nas palavras de Rubem Braga. Portanto, é coisa muito gostosa e muito ruim de se sentir, que, só pelo paradoxo, já mereceria um feriado.

Ué, não inventaram justificativa até para Tiradentes e Corpus Christi?

Pois sempre que me sinto assim – agora você sabe como –, todo dia 30 de janeiro de cada ano, acredito que só os beija-flores e os caranguejos são verdadeiramente felizes. Mas como eu não voo nem ando para trás, vou morrendo, aos pouquinhos, de saudade.

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