10/12/2019

DIÁRIO DA DESESPERANÇA


Quarto dia – Ninguém jamais aguentaria passar pelo que eu passei, ninguém. Coisas assim me fazem repensar a vida, perder o rumo, trocar o dia pela noite, atrasar as contas, esquecer a data do meu próprio aniversário. Acontecimentos desse tipo não desaparecem nunca da memória. Sei que vou ficar velhinho e me lembrar claramente, como se tudo estivesse se repetindo mais uma vez.

Quinto dia – A nova manhã se revela estranha. Continuo tentando imaginar se foi sonho ou verdade, pois custo a acreditar que o fato tenha realmente ocorrido. Não consigo me concentrar em nada nem sinto falta de uma companhia. Talvez seja preciso alguma forma de lavagem (cerebral, estomacal, espiritual) para os meus fantasmas sumirem sem deixar nenhum vestígio.

Sexto dia – Mais de setenta e duas horas de agonia. O telefone toca, toca, toca e nem me levanto para verificar o número no identificador de chamadas. Não quero comentar ou dividir o que aconteceu, nem hoje nem nunca, a não ser que incidentes piores me façam esquecer esse outro de uns dias atrás. Espero que o tempo me ajude a recuperar a rotina, mas não creio nisso agora.

Décimo primeiro dia – Está sendo mais penoso do que se desenhava. Olho para o nada, para o vazio do teto e das paredes, para o espelho sem nenhuma imagem refletida. Não tenho certeza se os sons da campainha e do interfone estão vindo de fora ou de dentro da minha cabeça. Prédios pegam fogo, aviões colidem, morros desabam. E eu nem aí para o futuro de humanidade.

Vigésimo quarto dia – Já se vão três semanas. No entanto, parece que foi ontem. Casos como esse tiram o sono, embrulham o estômago, dão dor de barriga, suor, calafrios, brotoejas. Pelo menos não houve testemunhas, foi um evento isolado. Perturbador, traumatizante, cruel. Ainda sonho com a cena, ainda acordo no meio da madrugada, sem me conformar com a realidade dos fatos.

Vigésimo nono dia – Não vejo qualquer utilidade em comer, tomar banho, fazer a barba, abrir as cortinas. Talvez se eu não tivesse feito o que fiz, não tivessem feito comigo o que fizeram. Preciso urgentemente aprender a ficar passivo, pois somente alguém como eu seria capaz de deixar as coisas chegarem a esse ponto. Ninguém, ninguém mesmo aguentaria passar pelo que eu passei.

PS: Numa rua próxima, comendo donuts na viatura, os agentes Carmichael e Inojoza nada notaram.

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