12/11/2019

DA FALTA DE ATENÇÃO NOS CONDOMÍNIOS


Quase todos os dias, há mais de dois anos, pego o elevador com a vizinha do 801. Sempre na mesma hora, pouco antes das oito da manhã, eu seguro a porta e ela vem correndo, atrasada, lá do fim do corredor. Na primeira vez ela agradeceu, sorriu e disse um "Bom dia, vizinho!" encantador. Na segunda vez, quando eu me preparava para retribuir o cumprimento da manhã anterior, ela entrou direto, sem dizer palavra, e fez a viagem até a portaria ajeitando o penteado no espelho. Virou rotina: num dia, sorria e falava comigo; no outro, me ignorava e seguia muda. Durante esses dois anos e pouco me acostumei com seus altos e baixos, com sua dupla personalidade, com suas alterações de humor. Quando nossos horários não coincidiam, eu sentia falta de sua companhia no elevador, já não me importava se era dia de cordialidade ou de carranca. Mas hoje cedo, tal qual uma trama de Conan Doyle, o mistério da vizinha do 801 se esclareceu. Enquanto eu segurava a porta, ela veio correndo, atrasada. Logo atrás, gritando "Peraí que eu vou também!", uma outra, igualzinha, ainda mais atrasada do que a primeira. As gêmeas entraram no elevador, ofegantes. Uma falou comigo, a outra não.

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