17/09/2019

AS AVENTURAS DO HOMEM INDIZÍVEL


– Sequoia ou baobá? 
– Sobre o tamanho ou sobre a aparência?
– As duas coisas.
– A sequoia ganha em altura e o baobá ganha em beleza.
– Já viu algum de perto?
– Não, senhor... só em fotografias.

Era uma entrevista de emprego, mas não parecia. Estava mais para teste de cultura inútil. Percebi a impaciência no semblante do avaliador, ainda sem saber se ele me considerava muito novo ou muito velho para escrever aos leitores da sua revista semanal. Pensei em argumentar que na Folha de S. Paulo, por exemplo, hoje em dia qualquer zé-mané tem uma coluna ou um blog. Contudo, apenas pensei. Talvez não fosse o momento de admitir que eu também era um qualquer. Ele folheou a agenda à sua frente e veio com um bate-bola.

– Atriz preferida?
– Jennifer Connelly.
– Cantor?
– Vivo ou morto?
– Vivo.
– Morrissey.
– Escritor?
– Rubem Fonseca.

Pelas minhas pesquisas, a publicação se destinava aos jovens. Tinha mais imagens do que textos, obviamente, e dava importância aos avanços tecnológicos, aos festivais de música eletrônica, aos campeonatos de jogos on-line e aos cursos de educação à distância.

– Senna ou Piquet?
– Piquet.
– Por quê?
– Foi igualmente tricampeão dirigindo carros inferiores.
– Muito bem... Pepsi ou Coca?
Design ou sabor?
Design.
– Pepsi.

Estranhei o fato de o meu interlocutor beirar os 60 anos de idade e não ter a mínima ideia de como o mundo funciona. Uma revista impressa, distribuída nas bancas por um valor que nenhum adolescente desembolsaria, me pareceu claro indício de vida curta ou bancarrota.

– O que pensa sobre Anitta?
– Anita Malfatti?
– Não.
– Anita Garibaldi?
– Não.
– Anita Baker?
– Não.
– Mel Lisboa em "Presença de Anita"?
– Não.
– Então não penso nada, senhor.

Considerando que eu sempre me comportara como um ancião desde os tempos de escola, perguntei a mim mesmo se seria capaz de escrever para gente nova. Certamente que não. Meu desprezo pela juventude e os fantasmas de todos os meus ex-chefes normalmente são o grande empecilho nesses instantes da minha vida. Na hora H, no dia D, é batata que um outro Eu se sobrepõe ao Eu original e toma as rédeas da conversa. Sem plano de saúde, sem vale-refeição, sem relógio-ponto, sem independência editorial: "kkk".

– Pretensão salarial?
– Seria muita pretensão se eu dissesse.
– Prefere trabalhar em casa ou na redação?
– Tanto faz, moro aqui perto.
– Tem algo a acrescentar?
– A esta conversa ou à empresa?
– Ambos.
– Nada.
– Nada?
– Nadinha.

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