20/08/2019

TROCO


Era muito cedo, a lanchonete ainda estava vazia. Escolhi uma mesa de fundos, num canto, preparada com toalha de plástico, paliteiro, saleiro e porta-guardanapos. A tevê ligada no canal de esportes, sem volume. O dono logo apareceu, meio que se desculpando:

– O senhor aguenta um pouquinho que o meu garçom já tá chegando.
– Não tem problema, não tô com pressa nenhuma.
 Toma aqui o cardápio...
– Só me vê um copinho d'água antes, pode ser torneiral mesmo, que eu hoje acordei com aquele gosto de cabo de guarda-chuva na boca, sabe? Escovei os dentes duas vezes e não adiantou nada.

Enquanto eu passava os olhos no menu, o garçom vinha chegando, à paisana, segurando dois sacos de ração canina, um em cada mão. Sumiu pela porta da cozinha. Dali a uns minutos voltou, gomalina no cabelo, ajeitando a gravata-borboleta.

– Bom dia! O senhor quer pedir agora?
– Sim... pode ser uma média e um pão com manteiga.

Outro tempinho, ele me serve.

– Mais alguma coisa para o doutor?
– Tu tens cachorro?
– Tenho coxinha de frango e pastel de carne, os dois fresquinhos.
– Não, não... é que te vi chegando com uns sacos de ração, vais levar pra casa no fim do dia ou foste comprar pro teu patrão?
– Ah! É pro meu cachorro, achei em promoção numa agropecuária.
– É de raça?
– Que nada, peguei na rua... uma história meio triste e meio alegre.

Na falta de novos clientes no estabelecimento, incentivei:

– Me conta, pô.
– Pois é... o senhor lembra de uma notícia que deu no jornal há umas duas semanas, daquele policial rodoviário que tava de mudança, levou toda a mobília, a mulher e os filhos, mas ia deixando o vira-lata?
– E dá pra esquecer? O cretino amarrou o bicho no para-choque e arrastou o pobrezinho por um quilômetro, até que a corda arrebentou.
– Isso mesmo... a criatura ficou em carne viva, praticamente sem vida, doutor. Aí os meus meninos trouxeram ele pra casa e nós ficamos cuidando. Tá vivinho! Correndo, pulando cerca, tudo.

Percebi seus olhos marejados e resolvi encerrar o assunto.

– Então a parte alegre é que apareceu uma boa alma como tu?
– Que nada, a parte boa vem agora: fiquei sabendo ontem que o tal policial rodoviário tava controlando o trânsito na BR-101 por conta de um acidente, veio um caminhão desgovernado e passou por cima.
– Morreu?
– Mais ou menos... o motorista não viu que ele tinha ficado preso num pneu e só foi parar quinhentos metros adiante.

Àquela altura, o café estava frio e o pão murcho. Terminei meu lanche vendo um jogo repetido na tevê sem som. Acenei de longe para o garçom e fui me dirigindo ao caixa. O dono se desculpou novamente:

– O senhor perdoe o meu funcionário, já pedi pra ele não puxar conversa com cliente. Uma média e um pão com manteiga, mais alguma coisa?
– Me dá o troco todo em bala de hortelã! Esse gosto de cabo de guarda-chuva na boca hoje tá me matando.

Nenhum comentário:

Postar um comentário