30/07/2019

A MELHOR CRÔNICA DE TODOS OS TEMPOS DA ÚLTIMA SEMANA


Imprimo duas cópias da crônica que acabo de escrever. Acondiciono as folhas num envelope e, em seguida, ligo para o jornal. Peço que mandem o boy vir buscar. Também aproveito para recomendar que o texto passe pelo copidesque, pois não o revisei com o esmero de sempre. O tempo era curto, mas está feito: minha última coluna para o jornal de domingo, depois de trinta anos.

– Tá atrasado, pô! Vai foder todos os prazos  desespera-se o editor.

– Calma! Escrevo devagar porque já tive pressa...
– Vai tomar no teu cu! Isso é hora de fazer piadinha?

Afasto o aparelho do ouvido. Ele continua:

– Sobre o que é?
– Sobre o que é o quê?
– A crônica, viado! A crônica!
– Ah... não importa, é surpresa.

Ao primeiro toque da campainha, atendo o contínuo e lhe ofereço um copo d'água. Com o envelope nas mãos, antes de ir, o rapaz não se contém:

– O senhor sabe que dá pra mandar esse material por fax, né? Tem até um negócio chamado e-mail, que o jornal começou a usar, dizem que vai tudo pela linha telefônica, mas aí precisa de um computador...
– Sim, estou por dentro.
– Seria mais rápido, tá todo mundo só esperando o seu texto.
– Então corre, meu filho!

De fato, eu saberia depois, o diagramador estava de plantão, olhos fixos no único espaço em branco da edição especial, aguardando a composição que chegara há pouco e que estava sendo digitada e revisada ou, na pior das hipóteses, um calhau*.

Perto da meia-noite, o telefone toca.

– Alô!
– Tiveste mais sorte do que juízo, a crônica vai sair.
– Podias ter deixado de fora.
– Imagina, justo a tua última coluna... até o presidente já ligou perguntando.
– O presidente da república?
– Não viaja, pô! O presidente do grupo de comunicação.
– E o que achaste?
– Ele estava com a voz boa, se curou daquele resfriado.
– Da crônica, viado!
– Ah... sensacional, a melhor que já escreveste.

No domingo de manhã, bem cedinho, desço para tomar um café no boteco do outro lado da rua. Pergunto ao porteiro pelo jornal e ele me diz que o entregador está atrasado. Dou de ombros e saio do prédio. Uma equipe da CNN me aborda na calçada. Na banca da esquina, uma longa fila vai se formando.


*Determinados anúncios, referentes ao próprio jornal, preparados com antecedência para preencher os espaços em branco criados pela falta de material previsto, tanto jornalístico quanto de publicidade.

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