25/06/2019

ACESSAMENTOS


Noite de sexta-feira, me assusto com o interfone. O livro me cai das mãos e perco a página marcada. Seria normal que o interfone tocasse em um apartamento 
– de que outra forma o visitante entraria num edifício sem porteiro? , não fosse o fato de que não recebo visitas, ninguém sabe o meu endereço. Fora o carteiro e um ou outro entregador de pizza, não há motivo para alguém tocar o meu interfone.

Levanto-me do sofá, caminho até a cozinha e alcanço o aparelho. Digo "Pois não?" em vez de "Alô!", visto que interfone não é telefone. Como eu imaginava, ninguém das minhas relações. Era uma voz de mulher, me pedindo para abrir a porta, pois o interfone do 301 não está funcionando. Na semana passada, me pediram acesso ao 401, porque o interfone estaria com defeito. É um prédio pequeno (minúsculo, eu diria), de quatro andares, com somente quatro unidades. Além de mim, no 201, cujo interfone funciona perfeitamente, sobra apenas o 101, que jaz vazio, com uma placa de "aluga-se" na janela. Assim, de certa forma, eu me transformei no porteiro que o condomínio não tem.


Não abri para essa mulher que, educadamente até, me pedia para liberar a porta. Avisei que não era do 301 e sugeri a ela que ligasse para o celular dos moradores em questão. Minutos depois, ouvi passos na escadaria. Pelo olho mágico, vi alguém do apartamento de cima descer para receber sua convidada. Em seguida, subiu novamente a pessoa que descera antes, agora acompanhada de uma moça e duas crianças.


Aparentemente, tratava-se de alguma confraternização. O interfone ainda tocaria meia dúzia de vezes durante a noite. Não atendi a mais nenhuma das tentativas, nem as mais insistentes, bem como tirei o som da campainha do aparelho quando decidi que não queria voltar a ser interrompido em minha leitura. Não que isso tenha me trazido o sossego esperado, pois, em se tratando de certos tipos de patuscada moderna, o volume da música era mais alto do que o aceitável, além de o repertório ser de gosto bastante duvidoso para os meus padrões.


Normalmente, em qualquer um dos edifícios em que vivi nos últimos quarenta anos, eu interfonaria para quem estivesse fazendo barulho e pediria silêncio. Atitude impossível hoje, obviamente, já que o único interfone em funcionamento é o meu, o que me permitiria ligar apenas para mim mesmo. Esse outro eu, provavelmente, solicitaria que eu fizesse algum barulho ou violasse alguma regra, para não ser mais considerado o esquisito do prédio. Se pudesse interfonar a mim mesmo, talvez me perguntasse por que nunca uso a torneira externa para consumo próprio, por que espero o portão da garagem fechar ao entrar ou sair de carro ou por que não ando de salto alto dentro de casa.


Claro que não há reunião de condomínio onde moro. Também não há estatuto, vigilância ou coleta de lixo reciclável. Num lugar em que ninguém é capaz de consertar o próprio interfone, compreensível. Então, só me restou cutucar o teto com uma vassoura até que os vizinhos e seus convivas passassem a confraternizar mais civilizadamente. Restabelecida a paz, volto a ler e acabo cochilando no sofá.


Manhã de sábado, me assusto com a campainha. O livro está novamente no chão, sem o marcador de páginas. 
Levanto-me com dificuldade. Pelo olho mágico, reconheço a senhora miúda que sempre toma café da manhã comigo nos fins de semana desde que fiquei viúvo. Mal descerro a porta e minha mãe entra discursando: "Precisas consertar esse interfone, meu filho! O casal do 301 é que abriu pra mim lá embaixo".

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