04/06/2019

JUSTIÇA DO TRABALHO


Corria o ano de 1998. Jeff Blackwell era o redator da agência há quase uma década. E na falta de pessoal mais experiente, acabara assumindo informalmente a coordenação do Departamento de Criação. Era ele também, desde o começo, logo nos primeiros meses a partir da fundação da empresa, que escolhia a trilha sonora do ambiente de trabalho. Atribuição que lhe dava ainda mais prazer do que escrever peças publicitárias ou ganhar prêmios.

Dono de um acervo particular invejável e de um gosto musical acima de qualquer suspeita, trazia seis CDs diferentes a cada dia, suficientes para oito ou nove horas de jornada. Sua equipe nunca tivera motivos para reclamação, pois o repertório, basicamente de rock, com variantes de blues, soul e power jazz, sempre fora impecável e adequado à rotina do setor. Até que lhe mandaram uma estagiária.

A agência acabara de ganhar uma nova conta, de um shopping recém-inaugurado no condado, e necessitava de mais mão de obra, porém, com o menor custo possível. A moça foi apresentada por Eric Sanders, o diretor de RH, e instalou-se numa pequena mesa com computador, entre a impressora laser colorida e o micro-system, para iniciar seu período de experiência de um mês, com possibilidade de efetivação.

Naquela manhã, Jeff pusera para tocar um de seus discos prediletos: 
Rocket To Russia, dos Ramones, de 1977, considerado pela crítica especializada um dos 100 álbuns mais importantes do século XX. A estagiária, por sua vez, concentrada em alterar o wallpaper de sua máquina, aproveitou um intervalo entre as faixas e dirigiu-se ao velho homem de propaganda.

– Dá pra trocar de música, tio? Essa aí tá muito barulhenta.

Murmurinho no setor. Entreolharam-se o arte-finalista, a revisora, o redator-júnior, o diretor de arte e até a faxineira. Ele encarou a mocinha por uns trinta segundos, talvez mais. Depois jogou a cabeça para trás, deu um suspiro, persignou-se, retomou a postura, levantou-se lentamente e, sem dizer palavra, cometeu a heresia de interromper 
Here Today, Gone Tomorrow ainda na introdução.

Nos vinte e nove dias seguintes, o expediente seguiu em silêncio. Com inspirados textos de Blackwell e uma prestimosa contribuição da criativa novata nos layouts, a agência entregou no prazo a campanha de rádio, TV e jornal ao novo cliente. No final da trigésima manhã, baseado no sucinto relatório do responsável informal pelo Departamento de Criação, coube a Eric Sanders, diretor de RH, comunicar à estagiária de que não precisariam mais de seus serviços.


  

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