18/06/2019

DA RELATIVIDADE DOS VALORES


Eu era o próximo da fila na pequena agência dos Correios. O senhor à minha frente acabara de ser chamado ao balcão de postagem, onde havia uma única atendente para todos os clientes. Não por que fosse intervalo de almoço, nada disso. Era assim sempre, em qualquer dia ou horário. Culpa da própria cidade, esquecida por Deus, com seus quase dois mil habitantes, igualmente esquecidos e conformados.

Apesar de falarem baixo, a curta distância entre mim e o guichê me permitia ouvir a conversa do idoso com a agente, identificada apenas por um crachá. Tratava-se de uma carta. Nos tempos de hoje, uma carta. Naqueles envelopes antigos, com as cores do Brasil nas bordas, indicação da posição do selo, linhas pontilhadas para os endereços e só cinco quadradinhos para o CEP. Educadamente, ele solicitou:

– Por favor, eu gostaria de enviar esta correspondência para a capital.
– É carta comum ou o senhor quer declarar o valor?
– Valor? Como assim, minha filha?
– Em caso de extravio, nós reembolsamos o valor declarado.
– Bem... certamente a minha carta tem muito valor.
– O que é que tem no envelope? Um cheque, uma joia?
– É uma carta de amor.
– Ah, então não vale nada... é carta comum, fica por três reais.

O missivista, desolado, me pareceu ainda mais velho ao sair vagarosamente da agência. Ora, como não haveria de ter valor uma carta de amor? Qual seria a medida dos Correios para avaliar o que vale ou deixa de valer para cada pessoa? E se o carteiro fosse assaltado sem que – naquelas linhas escritas à mão, em letra caprichadamente tremida – um "eu te amo" ou um "quanta saudade" chegasse ao seu destino?

Ao ser convocado pela atendente para ocupar o lugar do primeiro cliente, dei dois passos para frente e coloquei sobre o balcão um envelope pardo com três crônicas que eu pretendia inscrever em um concurso literário. Antes que a moça me fizesse a mesma injusta, cruel e constrangedora pergunta, fui logo avisando: "Não tem valor nenhum, não te preocupa, é só uma correspondência indigente e mal-amada".



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