21/05/2019

ATA DA REUNIÃO DE CONDOMÍNIO


Aos dezenove dias do mês de maio do ano de dois mil e dezenove, em segunda chamada, o senhor síndico do edifício Dona Josefa, um moreno grisalho, com princípio de calvície, cujo nome me foge agora, visto que sempre que nos encontramos pelos corredores do prédio dizemos apenas "opa" um para o outro, iniciou a reunião extraordinária do condomínio pontualmente às vinte horas, na saleta dos fundos, a qual apelidamos carinhosamente de salão de festas. Estavam presentes a secretária do escritório de contabilidade, a quem chamaremos de "gostosa dos boletos"; euzinho, do apartamento trezentos e dois; além de uma idosa do primeiro andar, um casal de viados da cobertura, uma mãe solteira com o filho de colo (estes não imagino de qual unidade, perdão), um lutador de artes marciais do quinto andar e a mulher do zelador, do apartamento funcional do térreo. A pauta, sem ordem específica, consistiu: 1. na prestação de contas do mês anterior, 2. na escolha das cores e no valor do rateio para a pintura da fachada, 3. na troca do nome do edifício, 
por sugestão minha. O síndico abriu os trabalhos dizendo "boa noite", ao que todos retribuíram com um muxoxo, e me ofereceu a palavra, a fim de que tratássemos de uma dúvida que sempre tive desde que passei residir no local: "quem diabos foi essa dona Josefa?", perguntei retoricamente. Ainda assim, houve quem levantasse a mão para responder, no caso, a senhora do primeiro andar, que não poupou energias para dirimir a questão e revelou modestamente: "eu sou a dona Josefa, meu falecido marido era o dono da construtora e quis me homenagear". Diante de um silêncio constrangedor, em que o ar poderia ser cortado com uma faca, retirei da pauta a mudança de nomenclatura e acrescentei minhas sinceras preocupações com a estrutura do prédio, principalmente quanto ao elevador em estilo gaiola, pois a julgar pela idade da musa do incorporador, concluiu-se que a obra era antiga pra, digo, para caralho. Em seguida, a gostosa dos boletos leu o relatório de despesas do mês anterior, e apesar de me parecer algo estranho a vultosa quantia gasta em produtos para a limpeza da piscina (sobretudo por que o empreendimento não tem piscina), não me manifestei, pois estava absorto em meus pensamentos, perguntando a mim mesmo como uma moça tão bonita podia ter a língua presa, que azar da porra. O síndico sugeriu passarmos diretamente ao último item, acerca da pintura, mas o lutador do quinto andar o interrompeu bruscamente, dirigindo-se, então, ao casal gay da cobertura, ameaçando cobri-los de porrada se não parassem de ouvir música eletrônica em alto volume durante a madrugada. Um dos rapazes alegres retrucou chamando o pugilista de "orelha de couve-flor"; foi quando houve um princípio de quiproquó, prontamente amainado pela esposa do zelador, que certamente era maior do que o reclamante e tinha a voz mais grossa do que os proprietários da penthouse. Devido ao incidente, a criança da mãe solteira desandou a chorar, e esta, aparentemente uma mãe prestimosa, avisou que ia dar de mamar lá fora, ao que eu solidariamente recomendei: "imagina, está frio, pode amamentar aí mesmo, ninguém vai reparar". Em prosseguimento, foi dado um minuto para que cada morador sugerisse duas cores para a nova pintura da fachada, uma para as paredes e outra para as sacadas; no entanto, como todos entreolhavam-se sem que nenhuma opção fosse apresentada, euzinho novamente, observando a vizinha que amamentava candidamente o seu bebê, propus em voz alta "bege com terracota" (se é que me entendem), e a combinação foi aprovada por unanimidade, a não ser pelo inconveniente de se pagar cento e cinquenta reais por mês na taxa de condomínio durante os próximos quinze meses. Diante da brochante notícia do inevitável rateio, os condôminos assinaram a lista de presença e concordância, mas ninguém teve apetite para aceitar o café com biscoitos, uns revelando que estavam de regime e outros alegando que precisavam voltar para casa porque estavam sentindo cheiro de gás. Em não havendo ocorrências a acrescentar, a gostosa dos boletos guardou suas planilhas numa pasta, dona Josefa guardou seu aparelho de surdez num estojo e a mãe solteira guardou os peitos dentro da blusa. Por volta das vinte e uma horas, encerrei o relato dos fatos, lavrados nesta ata, que deverá permanecer exposta no mural da portaria. Aproveitando o privilégio de ser o primeiro secretário da atual gestão, independentemente de não existir um segundo secretário, e antes que todos saibam por terceiros, aviso aos nobres vizinhos que não comparecerei à próxima reunião, pois já vendi o meu apartamento há quase seis meses e agora ficou meio contramão dirigir da puta que pariu onde estou morando até aqui, ainda mais sem poder rir de nada. Abração, digo, atenciosamente, AD.
  

Nenhum comentário:

Postar um comentário