05/03/2019

MAISTRÊSCRÔNICASCOLADAS


Sabe esses dias em que você já acorda cantarolando, abre as cortinas e dá bom-dia ao sol e aos pássaros, veste a camisa mais colorida que encontra no armário, toma seu café da manhã demoradamente, sai de casa com um sorriso nos lábios, dança com a faxineira e abraça o porteiro, assovia, pensa no seu primeiro amor, pensa no seu mais recente amor, cumprimenta o jornaleiro, caminha pisando em ovos, repara no céu e nas árvores, se encanta com construções antigas, cheira uma rosa, se equilibra no meio-fio, chega ao trabalho como se fosse a primeira vez, usa a escada em vez do elevador, respira fundo (com os olhos fechados), sorri ao ler seu próprio nome na porta do escritório e se pergunta o porquê de tanta felicidade? Definitivamente, não é como estou me sentindo hoje.


Eu devia ter uns seis ou sete anos de idade, e isso já faz algum tempo, obviamente. A tevê estava sintonizada numa luta de boxe. Logo ao lado, minha mãe passava roupa e cantarolava uma canção de Sérgio Bittencourt (Olho a rosa na janela, sonho um sonho pequenino...). Eu brincava com os meus carrinhos Matchbox e, de vez em quando, dava uma espiadinha no combate, no qual um branquelo de calção preto permanecia fixo no meio do ringue, enquanto o outro, um mulato de calção vermelho, girava em torno dele (Se eu pudesse ser menino, eu roubava essa rosa...). O locutor, esgoelando-se, avisava que o juiz acabara de descontar mais um ponto do pugilista do corner rubro. Minha mãe, sem levantar os olhos da tábua de passar, me perguntou fingindo interesse: "Ele disse pugilista ou fugilista, meu filho?" (E ofertava, todo prosa, à primeira namorada...). Com propriedade, eu que já era um ás no boxe, apesar da pouca idade, impostei minha voz aguda para respondê-la: "Acho que ele disse fugilista, mamãe, porque esse negão fica fugindo o tempo todo". Ela assentiu e continuou cantarolando a melodia, agora sem a letra.

Tanta coisa mereceria ser dita numa crônica. Pena que eu não seja um iluminado com o poder de controlar as palavras a qualquer momento, que nem o Rubem Braga ou o Zuenir Ventura, por exemplo. Aliás, dou graças ao Senhor por conseguir controlar pelo menos o meu esfíncter e, de vez em quando, ainda cometer um texto engraçadinho. Pensando bem, é melhor não escrever nada do que escrever bobagem. Meu avô sempre alertava: em boca fechada não entra mosquito. Amanhã converso com a minha consciência, não há de me faltar inspiração para mais uma desculpa literariamente esfarrapada.
  

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