12/03/2019

A CONSULTA


Passava das nove da noite quando a senhora Crabtree bateu à porta da casa de veraneio da família Arnold. A temporada já estava no fim, porém, ela ouvira falar que um dos irmãos, o doutor Alexander, ainda permanecia na cidade para tratar da organização de um congresso de ginecologia e obstetrícia. Antes que acionasse novamente a aldrava, uma luz da varanda se acendeu e, em seguida, ouviu-se o giro da maçaneta. Atendeu um homem relativamente jovem, de porte atlético, vestido com um robe de chambre aveludado, calçando chinelos, um pouco mais bronzeado do que se poderia esperar de um médico. Afastando a franja de cima dos olhos com um leve movimento de cabeça, dirigiu a palavra àquela visitante inesperada.

– Boa noite, madame... em que posso ajudá-la?

– Queira me desculpar pelo adiantado da hora, mas é importante... e confidencial também. Sou a esposa do banqueiro Archibald Crabtree, vim por recomendação de uma vizinha que conhece bem o seu trabalho... estou um pouco nervosa, pois o que está me acontecendo não é comum a uma dama da minha estirpe... será que posso contar-lhe o meu caso? Creio que só o senhor... o senhor você, não o Senhor Deus, que fique claro, será capaz de compreender o motivo de tal aflição.

– Farei o que estiver ao meu alcance, senhora... senhora...

– Crabtree!

– Sim, Crabtree. Entre, por favor... sente-se. Gostaria de um chá?

– Não é necessário, pois não pretendo me demorar... ninguém sabe que vim vê-lo, por isso devo voltar antes que algum fuxiqueiro note a minha ausência. Archibald está viajando, deve retornar amanhã à tarde, acredito que sairei daqui com a solução e o tempo necessários para resolver o meu problema.

– Bem, pelo que percebo da sua conversa...

– Por gentileza, não me julgue antecipadamente, vou abrir meu coração e expor todos os detalhes, para que o seu diagnóstico seja preciso... tudo começou há uma semana, meu marido fez amor comigo, muito rapidamente como sempre, sem que minha vagina estivesse totalmente lubrificada... apesar de ser um homenzinho baixo, ele tem o pênis em formato de cogumelo, com uma glande desproporcional, que custa a entrar e, quando entra, vai arranhando e esgarçando tudo que encontra pelo caminho.

– Madame Crabtree...

– Não me interrompa, eu lhe peço... já é muito humilhante para uma dama do meu gabarito estar aqui a essa hora, então deixe-me continuar... ele estava com saudades, aparentemente, acabara de chegar de uma de suas viagens, não me deu tempo para nada, em menos de dois minutos ejaculou abundantemente e se retirou-se para o banheiro com seu falo murcho, ainda mais cabeçudo naquele estado... de minha parte, limpei o sêmen que ameaçava me escorrer pelas coxas e fui preparar o jantar.

– Não quero ser indelicado, é que...

– Não se preocupe, a história não é longa. O problema é que, a partir desse episódio, diferentemente das outras vezes, tive uma cistite... há quem chame de infecção urinária. Não consigo dar dois passos sem ter vontade de ir ao banheiro... no caminho para cá, precisei entrar na mata para me aliviar, acredita? Além disso, minha vulva está cheia de brotoejas, sinto uma coceira infernal... agora mesmo, só não me coço na sua frente em respeito ao decoro que a minha posição social exige.

– Não sei o que dizer, mademoiselle...

– Não diga nada, apenas ouça... sou uma mulher forte, meu sistema imunológico é invejável, estou com quase quarenta e anos e nunca tive esse tipo de desconforto... está certo que casei-me virgem e Archibald foi meu único homem, a não ser por uma vez em que um jardineiro, que já não é mais nosso funcionário, me exibiu seu membro e eu fraquejei... ainda assim, foi somente uma felação sem maiores consequências, não deixei que ele ousasse chegar perto das portas do paraíso.

– Deus do céu, eu...

– Portanto! Portanto... a cistite que contraí pela primeira vez na vida não tem nada a ver com o clima frio das noites nem com alguma deficiência do meu organismo, é praticamente certo que o meu esposo tem uma amante... e cada vez que ele volta de uma reunião de negócios, além de flores e uma caixa de chocolates, também me traz candidíase, herpes, fungos, bactérias e sabe-se lá o que mais... fui clara, doutor Arnold? Restou alguma dúvida?

– Bem, senhora Crabtree... não digo que não tenha ficado impressionado com o seu depoimento, mas creio que é minha consciência que me obriga a dizer o que vou dizer: realmente eu gostaria muitíssimo de ajudá-la, contudo, talvez eu não seja a pessoa certa para isso, pois sou contador, não médico... queira aguardar aqui apenas um minuto enquanto eu vou chamar o meu irmão gêmeo, Alexander, que está repousando no cômodo ao lado... fique à vontade, por favor.
  

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