11/12/2018

TRÊS CHEGADAS


Vinha no avião pensando sobre a chegada. Deixara Salvador sem remorso, disposta a mudar de vida, de bairro, de cidade, de estado. E contava apenas com o homem que a esperava em Curitiba. Estaria mesmo esperando? Duvidou por um instante, ainda que não pudesse fazer mais nada. Pedira demissão do emprego, doara algumas roupas, ofendera pela última vez cada um dos muitos parentes dos quais não gostava e despedira-se definitivamente de alguns poucos que não desgostava totalmente. Agora, passava ilesa por uma turbulência leve, enquanto catava os farelos no fundo do saco de batatinhas fritas oferecido pela companhia aérea.

Recolheu a bagagem na esteira e caminhou elegantemente pelo corredor de desembarque. Abriu a bolsa e ligou o celular. Distraiu-se verificando se havia algum recado na caixa de mensagens e tropeçou na barra da própria saia. Tombou de joelhos, chocando o rosto contra a catraca de controle de saída. Um baque agudo, dolorido. Não imaginava de onde vinha o sangue que lhe escorria pelo nariz e não tinha certeza se os dois dentes caídos no piso eram seus ou se já estavam ali antes. Perdeu a consciência. E quando voltou a si, viu-se amarrada a uma maca, que deslizava pelo saguão na direção da saída de emergência, guiada por quatro socorristas uniformizados. Continuava tonta, a ponto de esquecer onde estava e o que viera fazer naquele lugar. O homem permanecia na sala de espera, conforme combinado. Depois de meia hora, entretanto, concluiu que ela não embarcara na capital baiana, que desistira da aventura sem ao menos tê-lo conhecido. Partiu desolado.

Mentira.

Nem pensou na bagagem, uma mala média somente, que passeava solitária pela esteira. Esgueirou-se por uma saída lateral, a procura de uma passagem alternativa ao portão de desembarque. Queria ver com que expressão ele a esperava. Aliás, queria ver as feições do homem ao vivo, pois conheciam-se apenas por fotografias. Em meio às suas divagações, perdeu-se no labirinto de corredores. Não fazia ideia de como fora desembocar no estacionamento, pouco iluminado àquela hora da noite. Tentou voltar pelo mesmo caminho, mas foi abordada por dois estranhos. Um deles apontou-lhe uma arma, enquanto o outro já a asfixiava com um lenço embebido em clorofórmio. Inconsciente, foi arrastada e jogada no porta-malas de um carro. O homem com o qual pretendia se encontrar permanecia na sala de espera. Depois de trinta minutos, porém, desistiu de aguardar. Concluiu que ela optara por não embarcar. E nunca mais soube de seu paradeiro.

Mentira.

Recolheu sua bagagem na esteira e caminhou elegantemente pelo corredor de desembarque. Nem cogitou abrir a bolsa e tirar o celular do "modo avião". Queria apenas que ele a estivesse esperando, talvez com um buquê de flores-do-campo nas mãos, para marcar seu renascimento em terras paranaenses. Olhou de um lado e outro do saguão, até reconhecer seu homem, exatamente como aquele que aparecia nas fotos trocadas ao longo de meses. Não havia flores, mas havia um sorriso em seu rosto, e isso bastou para ela. Quando pararam frente a frente, foi ele que não se conteve:

– Caralhos me mordam! Você é muito mais bonita pessoalmente.


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