25/12/2018

CINQUENTA POR CENTO


Envelhecia só do lado esquerdo. Começara a notar no seu aniversário de trinta e três anos, há algumas semanas. Primeiro foram as rugas nas costas da mão, em seguida a artrite reumatoide, que passara a entortar as articulações de seus dedos. Avaliando-se em frente ao espelho, percebia claramente a flacidez da pele do braço sestro, que balançava por qualquer mínimo movimento, enquanto a do direito permanecia firme e tonificada. Com os dedos destros, lisos e macios, tocava o plano sagital oposto, e arrepiava-se ao sentir o contraste de texturas.


Os cabelos embranqueceram em um único hemisfério de sua cabeça. O olho esquerdo agora estava caído, emoldurado por pés de galinha, e a vista tornara-se turva. Abusou da visão do outro olho até onde pode, pouco antes de adquirir um monóculo. Uma orelha crescera mais do que a outra e tinha também mais pelos. O peitoral ficara mais baixo, a cintura apresentava mais dobras e a perna canhota afinara, quase como uma atrofia, apesar de ambas as coxas e panturrilhas receberem a mesma carga de exercícios na academia do condomínio.

Sentia que o ar penetrava com menos dificuldade pela narina direita. A chiadeira, no entanto, vinha do pulmão esquerdo. Já não mastigava daquele lado da boca, pois seus dentes amoleceram. E havia o desconforto na planta do pé, com a qual não podia pisar sem contorcer-se de dor. Somente o pau não envelhecera. Não é segredo que o órgão genital masculino não sofre com a idade, que permanece com a mesma aparência desde a juventude. Em contrapartida, suas ereções eram breves, porque apenas metade do sangue alcançava o corpo cavernoso.

Ambivalent Indignation (Rieko Fujinami, 2012)

Nas ocasiões em que era imprescindível sair, usava calça, manga comprida e boné. Valeu-se de uma licença-prêmio para não precisar voltar tão cedo à repartição pública onde trabalhava. Quando a situação lhe pareceu insustentável, consultou um geriatra, que confessou jamais ter visto caso semelhante. Nos exames de urgência: um coração fraco, um rim comprometido, parte do fígado deteriorada, o joelho esquerdo desgastado e a surdez em um dos ouvidos. Sinistro, usou a mão boa para cumprimentar o médico e nunca mais contestar seu destino.

Até que morreu. Metade dele morreu. Tinha um lado do corpo absolutamente inerte e outro cheio de viço. Acostumou-se a olhar no espelho e apegar-se somente ao brilho no olho direito, à boa audição, aos cabelos muito escuros, aos músculos do braço, do peito e da coxa que sobraram. Podia controlar a fala e o raciocínio lógico, o que lhe parecia suficiente, ainda que a memória falhasse com frequência. A cada espasmo de consciência, lamentava não ter vivido plenamente enquanto podia. Dali em diante, apesar de tudo, sabia que nada seria diferente.
  

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