04/12/2018

A SECRETÁRIA DO DR. PACHECO


A secretária do doutor Pacheco pediu para sair mais cedo naquela tarde. Quarta-feira era sempre um dia de pouco movimento no consultório, por isso o doutor Pacheco não se opôs. Ela trabalhava há quase dez anos para ele, jamais faltara ou chegara atrasada ao trabalho, e apesar de ser também a primeira vez que pedia dispensa antes do fim do expediente, o afabilíssimo clínico geral não lhe exigiu nenhuma justificativa.

Depois que a sua fiel funcionária se foi, por volta das dezesseis horas, o doutor Pacheco encheu um copo plástico com o café que sobrara na garrafa térmica e folheou a agenda de consultas. Tinha um paciente em seguida – já na sala de espera, para o horário das dezesseis e trinta – e somente um outro, para as dezessete e quarenta e cinco. Sabia que o próximo atendimento seria rápido, pois se tratava de um caso clássico de "mijacão", uma espécie de abcesso na sola dos pés, causado pelo contato com a urina dos equinos, muito comum em cidades interioranas como aquela. Nada que uma pequena incisão, uma pomada cicatrizante e uma bandagem protetora não resolvessem. Então, como não pretendia passar mais uma hora e meia no consultório vazio, resolveu ligar para o último paciente e remarcar a consulta para o dia seguinte.
 


O doutor Pacheco era o único médico do pequeno município de trinta mil habitantes. Atendia pela manhã no posto de saúde da prefeitura e, à tarde, em seu estabelecimento particular. Era casado havia mais de vinte anos e tinha um casal de filhos, ambos estudantes de medicina em uma conceituada universidade da capital do estado. Morava apenas com a mulher em um bairro nobre, na casa que estampara a capa da edição de aniversário da revista 
Medicina & Decoração. Homem de hábitos simples, dormia cedo, acordava cedo, cultivava um bigode e alguns bonsais, frequentava o clube de bocha, bebia Campari e não abria mão de usar cuecas samba-canção, pois os modelos tradicionais, justos e com elásticos nas pernas, pressionavam seus testículos e lhe provocavam insuportáveis cefaleias.

Naquele fim de tarde, portanto, livre de qualquer compromisso profissional, o doutor Pacheco passou no maior supermercado da região e comprou ingredientes para preparar um jantar para a esposa. Depois de tanto tempo, estava certo de que ainda conseguiria impressioná-la com seus dotes culinários.

Abriu o portão automático da garagem, estacionou o carro, apertou a buzina – como fazia sempre ao chegar do trabalho – e esperou o portão fechar. Retirou as sacolas com as compras do porta-malas, acionou as travas e o alarme, constatou que os pneus dianteiros precisavam de calibragem, recolheu a correspondência e foi entrando pela porta da frente. Ao mesmo tempo, nos fundos do quintal, a secretária do doutor Pacheco pulava o muro que dava para um manguezal.
  

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