20/11/2018

ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL E CORDAS VOCAIS


– Mas tu tens voz de rádio FM, pô!

Foi o que eu disse quando ele apareceu na loja pela quarta ou quinta vez para me vender sanduíches naturais.

Chamava-se Jaime. Gaúcho, amasiado, pai de uma menininha, morava em Florianópolis com a família havia dois anos somente. Devia ter por volta de trinta anos de idade, boa aparência e uma dicção perfeita, sem sotaque, com um timbre que lembrava o do Dirceu Rabelo, o locutor oficial da Rede Globo.

Jaime reclamava da vida dura. Contou-me que a mulher acordava cedíssimo para preparar os sanduíches – de dois sabores apenas: frango e atum – que ele vendia durante todo o dia em lojas, empresas e terminais de ônibus. Concluiu o segundo grau, mas não cursou nenhuma faculdade. Acabou casando cedo, pois a namorada, agora concubina, engravidara sem querer. Como as coisas em Porto Alegre andavam difíceis, acatou a recomendação de um parente e mudou-se definitivamente para a capital catarinense.

– Sabe que já me disseram isso?

Foi o que ele respondeu quando comentei sobre seu vozeirão.

Ofereci-me para apresentá-lo ao Douglas, um amigo que acabara de montar um estúdio de gravações. Eu não podia compreender como uma pessoa com aquela impostação nunca se apercebera do dom que Deus lhe deu. Por sorte, o Douglas andava cadastrando novos locutores para um portfólio, não foi difícil encaixar o Jaime em um teste sem compromisso.

Acompanhei tudo ao lado da mesa de som, de frente para uma salinha com isolamento acústico e um microfone condensador vindo do teto. O texto, digitado em folha A4, descrevia o lançamento de algum cosmético feminino e precisava durar trinta segundos. Jaime gravou de primeira, sem nenhum vacilo, como se nunca tivesse seguido outra carreira que não a de narrador. Preencheu uma ficha com dados pessoais e, antes de sairmos, foi alertado a ficar de sobreaviso, pois poderia ser convocado a qualquer momento.

– Teu fornecedor de sandubas me passou um telefone que não existe.

Foi o que o Douglas me falou quando nos cruzamos em um restaurante do Calçadão. Os 
spots e comerciais foram todos parar nas mãos – ou nas bocas – dos outros profissionais cadastrados.

Fiquei puto. Não sou de ajudar ninguém e, quando resolvo abrir uma exceção, passo vergonha. Ainda bem que o Jaime nunca mais apareceu na loja para me vender sanduíches naturais, senão ia tomar um esporro gutural.
  

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