23/10/2018

A PROCURA


Escavávamos animadamente o chão em busca de trufas. Apesar de nunca termos visto uma de perto, sabíamos que aquele era o lugar indicado pelo apresentador de TV, no documentário ao qual assistíramos ontem à noite. Em nosso pequeno grupo, todos se animaram quando ouviram em alto e bom som o nome do vilarejo. Nas colinas arredondadas de Formosa, havia trufas. Não as raríssimas trufas brancas
 (tuber magnatum), nada disso, somente trufas negras (tuber melanosporum), mas havia e pronto.


Não estava frio para a época do ano. Da minha testa brotavam algumas gotas de suor, por causa do esforço. Os outros esbravejavam cada vez que faziam mais um buraco inútil. Procurávamos uma massa disforme, localizada entre vinte e quarenta centímetros de profundidade no solo úmido, de odor característico e gosto desconhecido para nós. Ninguém ainda tirara a sorte grande, e talvez, justamente por isso, não queríamos desistir. Era divertido, acima de tudo.



Passadas algumas horas, recostei-me a uma pedra para comer azedinhas. Era tudo que a terra tinha me dado até ali. Semicerrando os olhos, notei que, ao longe, um homem vestido de branco, franzino, consideravelmente idoso, acompanhava nossa busca sem lógica. Não era dali nem da cidade vizinha, certamente, senão eu o teria reconhecido. Quando percebeu que fora descoberto, veio em minha direção, caminhando lenta e delicadamente pelo pasto muito verde.

O estranho sentou-se ao meu lado e, sem nenhuma cerimônia, perguntou:

– Não é muito bom viver nessa agonia, não é?

De que agonia estaria falando? Da agonia de procurar obsessivamente alguma coisa e jamais encontrar? Da agonia de viver em uma cidade esquecida por Deus? Observei meus colegas, que, entre a curiosidade e o espanto, também me observavam. Pude sentir o cheiro de mofo nas roupas do velho. Ele tocou meu ombro de leve, como um pai a consolar um filho, e, com a outra mão espalmada, me estendeu uma enorme trufa negra, lavada, pronta para consumo.

– Tome, experimente...
– Mas o que é isso, meu senhor? Eu nem o conheço!
– É uma trufa, você sabe... aqui em Formosa elas nascem aos montes, não é preciso nem escavar a terra para encontrá-las... são divinas!

Preocupado com o meu comportamento, o grupo de amigos não demorou a se reunir ao redor da pedra onde eu permanecia sentado. Uns apenas me olhavam, receosos, outros cochichavam entre si. Até que um deles exclamou:

– Você encontrou uma trufa!
– Bem...
– Devia ter avisado em vez de ficar falando sozinho que nem um maluco.

No alto de uma colina que dava para a mata fechada, onde a vista ainda podia alcançar com nitidez, distingui novamente o homem de branco, muito idoso e franzino, que parecia ter estado ao meu lado há poucos minutos. Eu mesmo já não tinha certeza. Ele segurava uma trufa, mais ou menos do tamanho daquela com a qual me presenteara. Mordeu-a com gosto, mastigou pausadamente, revirou os olhinhos e desapareceu em algum ponto da paisagem.
  

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